quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Uma etapa termina e outra começa

Manhã linda, céu azul de brigadeiro embora o termômetro-bússola marque no interior da barraca zerinho Celsius. E enquanto estou escovando os dentes no interior de minha casa de lona, presencio uma cena inusitada: uma mula bocejando!! Sendo a maxila superior desses meigos animais composta somente por quatro grandes dentões, quando abre a boca os tais incisivos se destacam comicamente. E a coitada ainda está com sono pois solta um bocejo atrás doutro. Impossível ser mais meiga apesar do bocão, hahaha!! Agora mesmo apaixonei de vez pelas mulitas. Queria uma pra mim!! Tenho certeza de que elas preencheriam muito bem minhas carências infantis melhor que um cão. Já refeita do desgaste causado pela longa jornada do dia anterior, sem que paire vestígio algum de azedume neste espírito jovial, desejo kuzoo-zangpo pra Jigme e demais rapazes. Graças a deus as rusgas entre mim e ele não são longas como o mau tempo costuma ser no país. Está acabando o trekking. Hoje será nossa derradeira pernada....sniiiff!! E já estou sentindo saudades daquilo que nem acabou! Até Dhendup se mandou pra Jangothang. Fofo e absolutamente na dele, vou sentir sua falta embora incomode à noite. Ontem deu showzinho novamente. Jigme perguntara há 2 dias atrás se eu gostaria de conhecer uma propriedade rural, oferta que aceitei prontamente, bem satisfeita. Este vilarejo, onde estamos, Zang Gi Pan, tem várias fazendolas e a faina pra enfrentar os rigores invernais é intensa. Pimentas secando nos telhados dão um toque colorido de vermelho ao prateado do zinco. Homens aram a terra pra plantar um tipo de trigo apenas consumido pelo gado durante o inverno. E nas plantações de arroz, senhoras de idade organizam o restolho em medas para formarem os gordos cones. Saímos da estrada e descemos até uma das casas onde, num pátio ensolarado, mulheres pilam arroz. E me deslumbro com uma maçaneta de madeira no portão que dá acesso a outro pátio isolado por um muro alto. E solto ohs com a escadinha esculpida diretamente num grande tronco de árvore. Incrível, porque é tudo muito tosco, remontando a tempos dantanho. Apesar dessas simplicidades, a casa, contudo, é bem mais confortável que a visitada ontem em Shana. Possui os tradicionais três pisos. No que a família reside, uma sala onde está instalada a cozinha. Ao lado, outra mais ampla e clara, servindo como sala de visita e dormitório (há uma cama num canto). Móveis de madeira com portas de vidro guardam louças e edredons. Uma tevê antiga. Sofás e mesas. Tudo simples, sem frescura. Pôster na parede de astros de filmes de caratê. Na terceira sala, um altar de orações onde, diante de estátuas de divindades budistas, há as habituais oferendas (pujas), contendo potinhos de arroz e água. A dona da casa, muito simpática, quando sorri revela – uma pena - dentes superiores bastantes estragados. Amável, oferece chá e flocos de milho e de arroz feitos por ela. Depois que aprendi a fazer a saudação de bom dia, distribuo kuzoo-zangpo a quem vejo pela frente. É o que ocorre cada vez que passa um por mim na estrada. Passamos por uma escola onde os alunos uniformizados com o tradicional gho brincam no pátio. Na estrada, yaks estão sendo levados a Paro tangidos por alguns homens que se divertem conversando entre si. Jigme alerta pra eu tomar cuidado porque eles às vezes se invocam. Wangyel após entrar num armazém, sai de lá com 2 refrescos de manga. Um oferece pra mim! Que fofo ele! Bebo o refri geladinho cujo sabor me surpreende pela quase ausência de conservantes. Uma delícia! Chegamos por volta das 11 em Drugyel Dzong onde Jamyang, que será meu guia nesta nova etapa de minha viagem, me espera juntamente com o motorista Pema. Despeço-me do pequeno time um tantinho emocionada, pespegando uma beijoca na bochecha de cada um. A convivência durante os 8 dias em que durou o trekking foi muito legal. Por mais fugaz que sejam os laços criados, geralmente, me afeiçoo a guias e demais membros do staff. Por fim, posamos pra tradicional fotografia em grupo e mais uma vez disparo vários kardincheyla (muito obrigada) pra todos eles, admirando pela última vez o Jomolhari que daqui só vê o triângulo do cume!
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Já dentro da confortável camionete Hyundai, Pema estende uma caixa contendo bolos e salgados, além de refris. Passamos por Paro rapidamente e rodamos através dum boa estrada de asfalto que conduz a Timphu, onde dormirei hoje pra amanhã partirmos num tour cultural. O objetivo é assistir a um festival budista num distrito chamado Bumthang situado a mais de 280 km da capital. E Jamyang se revela aquele tipo de guia que dispara informações como se fosse uma metralhadora verbal. E em inglês!! Ai ai...Assim então sou informada que o país tem 72% de área verde e relevo basicamente montanhoso. O carro faz uma parada pra apreciarmos a confluência dos rios Paro e Wang. Na margem do primeiro, três construções de stupas em estilos diferentes estão dispostas lado a lado: a nepalesa, com o tradicional terceiro olho em sua cúpula, a simplicidade quadrangular da butanesa e as formas mais arredondadas da tibetana. Jamyang prossegue sua aula, ensinando agora o significado das cores das bandeiras de orações. Colocadas não só nos topos das colinas, nas pontes as bandeirolas também estão presentes. Isso pra que tanto o vento quanto a água, elementos fluidos da natureza, espalhem os textos sagrados contidos nelas. Daí a razão de ser da tal expressão usada com assiduidade por montanhistas brasileiros, desejando “bons ventos”. No meu entender, “boas águas”, “boa correnteza”, ou algo similar, poderia - por que não? - muito adequadamente tornar-se uma saudação da galera do surfe, não é mesmo? Mais adiante, dois pórticos enfeitados com símbolos budistas sinalizam cada um as rotas que conduzem à Índia e ao Tibete. Chegamos em Timphu às 13 e 30, e, após, uma sauna a vapor pra relaxar e lavar o cabelo duro de sujo depois de 8 dias sem banho algum, dou uma banda pela cidade. Situada num vale, rodeado por montanhas, a uma altitude de 2.400 m, Timphu, embora ostente ainda construções antigas, é uma cidade que se está modernizando a toque de caixa. Limpa, bem organizada, denotando certo cuidado no planejamento urbanístico, suas construções, a maioria edifícios de apenas 4 pisos, obedecem ao padrão arquitetônico butanês. Por toda a cidade, painéis e fotos das bodas reais, com a romântica pose do casal de pombinhos, os monarcas Jigme e Jetsu. Como já são quase 18 horas, o tráfego lento de carros na rua principal revela a hora do rush onde passeio à-toa. Muitas - muitas mesmo - lojas e galerias comerciais, destacando-se os estabelecimentos de tecidos onde pousam nas prateleiras variadíssimas padronagens de panos de lã feitos a mão. Sem falar nas belas e coloridíssimas sedas cujos bordados de pássaros, flores e dragões fascinam pela perfeição do trabalho. O burburinho de fim de tarde é o mesmo em todas as cidades do planeta e aqui não foge à regra. Apressados, os butaneses saem do trabalho loucos pra ir pra casa, vestindo seus belos trajes tradicionais, o gho (masculino) e a kira (feminina). E eu lá entre esse povo de feições idênticas às dos chineses, curtindo a lua cheia que paira sobre a Praça do Relógio.
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Um comentário:

Paulo Cesar Fabro disse...

Bia, estou sentindo falta da Carolzinha Pegadora em seus posts. Já pensou que emocionante seria ler um título assim: "CAROLZINHA PEGADORA EM SHANA"
UAU !!! hehe