sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A caminho de Bumthang

Acordo e vejo Wangdue Phodrang completamente encoberta por espessa névoa. Graças a deus, às 9, o sol aparece e dá aquele lustro na estreita, sinuosa e esburacada estrada que conduz a Bumthang, um dos 20 distritos (o equivalente a estados) do país, onde ficarei 2 dias. Pema antes de entrar em curvas fechadas, buzina. Aliás, todos motoras são super cautelosos ao dirigir. Quando vêm carros no sentido oposto, puxam o freio de mão e, pacientes, esperam sua vez de passar. A estrada, em péssimas condições de pavimentação, super esburacada, apresenta largos trechos sem capa asfáltica. Entretanto, o governo está investindo em obras de infraestrutura o que se evidencia pelas máquinas e homens trabalhando ao longo da única rodovia que une Timphu ao centro do país. Macacos pendurados nas árvores são figurinhas fáceis durante o trajeto. Paramos em Nobding, uma vila em cujo mercado mulheres vendem legumes e verduras destacando-se verdes e vermelhas pimentas. Mais adiante, nova pausa, dessa feita numa tea house de onde se desfruta da visão panorâmica dos Himalaias com seus cumes nevados cujo acesso é proibidésimo. Isso porque acreditam os budistas que os topos das montanhas são habitados por deuses. Daí o motivo de barrarem a presença de escaladores seja com ou sem oxigênio, enchendo o saco das divindades, hehe. Sentada ao ar livre sorvo meu chá com leite e mordisco um biscoito, aproveitando o esplêndido dia. Embora não sejamos monges, viajamos sem pressa alguma. Basta eu manifestar desejo de parar, seja pra tirar foto ou por qualquer outro motivo, Pema estaciona o carro, atendendo prontamente ao meu pedido. Após atravessar o primeiro passo do dia chamado Pele La (3.400 m), enfeitadíssimo com dezenas e dezenas de bandeiras de oração, paramos em frente a um restaurante. Atopetado de gente, no hall de entrada, sobre uma mesa, espalham-se belos produtos típicos como coloridas botas masculinas e sapatos femininos usados em festividades religiosas. Eu e um americano, engenheiro, dividimos uma mesa durante o almoço. Ele trabalha na Índia e conversamos um pouco sobre o Butão que, segundo ele, é praticamente sustentado por aquele país. Às 13 e 30 embarcamos rumo a Trongsa, outro distrito integrante do pequeno reino. Durante o trajeto, vez por outra, desfilam diante da janela do carro pequenas vilas situadas à beira da estrada. Pema trouxe um pen drive com canções românticas butanesas. Lindas e melodiosas, curto a beça o som. Quebrando a uniformidade da verde vegetação, as cores do outono se fazem presentes tracejando de variegadas tonalidades de vermelho e amarelo os flancos das montanhas. Lindíssima paisagem! Homens com longos feixes de bambu e blocos de pedra nas costas caminham ao largo da rodovia. Dum mirante, a 2.350 m, avista-se Trongsa e seu belo e branco fortress. Fazemos uma breve parada na vila, porque Jamyang quer ver rapidamente sua avó que aqui vive. Pema aproveita e compra num quiosque dhoma. Envolto numa folha, ele o põe na boca e começa a mastigá-lo. Provo e não gosto. O cheiro é super ruim também. Pema passa mastigando a noz durante o restante do trajeto até Bumthang. O carro – arghhh - se empesteia dum budum horrível. Vindos de Bumthang, bato um papinho com uns ciclistas ingleses. Acabam de percorrer 71 km de subidas e descidas além de atravessar o Yotong La, um passo de 3.600 m. Notório o processo de modernização empreendido pelo Butão! Tanto em Timphu, Punakha, Wangdue Phodrang quanto em Trongsa as old towns são demolidas e cedem lugar a novos edifícios, tudo padronizado. Parecidas com nossas cohabs porém em estilo butanês. Jamyang me conta que 5 aeroportos domésticos estão sendo construídos, incluído um em Bumthang. Passamos por Chazam Valley, famosa pela fabricação de produtos feitos de bambu. Prova disso são os lotes de terra divididos por cercas trançadas deste material. Nuvens já dão pinta no céu....hummm. No interior do veículo, o clima é festivo. Enquanto os filmo, Pema e Jamyang cantam a canção que rola no aparelho de som. No lusco-fusco da tarde, cruzamos o derradeiro passo, Kiki La, cercado pelas esvoaçantes bandeiras de oração, próximo à sede do distrito de Bumthang em que Bum significa mulheres e thang terra. Vinte minutos depois, após 9 horas duma agradável viagem, com direito a várias pausas, chegamos enfim à town. Uma rápida parada no centro da vila em cuja rua principal uma loja ao lado da outra vende mercadorias de baixa qualidade de origem chinesa e indiana. Embora sejam somente 17 e 30, já se faz escuro, pois o sol se escondeu cedo atrás das montanhas. Meu hotel, o Tschela Hotel, é bem legal. Diante da porta de meu quarto, uma cortina colorida e, na fechadura, um pesado cadeado. Revestido de pinus claro, tapetes grossos revestem o chão. Na cama, um baita edredom. Quando chego ao refeitório, um espaçoso recinto, uma salamandra acesa aquece o ambiente. Faz bastante frio na rua. Sentados nos cantos, onde estão dispostos alguns sofás diante de mesinhas, um grupo de australianos, fotógrafos amadores, troca impressões sobre o país. A janta, no sistema de self service, é razoável, exceto a carne que, de tão frita, chega a ser esturricada. Provo ara, aguardente artesanal feito de arroz. Fortíssima, sua graduação equivale à da vodca. Antes de se mandar pra cozinha de onde não retorna mais, Jamyang, dando por cumprida sua tarefa de hoje como guia, assopra que a expectativa de turistas para 2012 é de 100.000! Podicrê!! E fico, não matutando esse tipo de info que não me interessa nem um pouco, pero divagando sobre a foto na parede. Ladeado por suas quatro esposas, todo pimpão, eis o antigo monarca, pai do atual. Ricamente trajadas, as mulheres, todas irmãs, são lindas. O maior barato é que elas são simultaneamente tias e madrastas da prole real, hehe!! Ergo um brinde à tão bela família: Tashi Delek!

Um comentário:

Miriam Chaudon disse...

Ahhhh! Adoraria sentar-me naquelas cadeiras vermelhas e apreciar tão bela paisagem degustando uma comidinha butanesa!