quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Às margens do Rio Paro

Completamente revigorada após uma longa noite de sono, sem qualquer interrupção, nem mesmo aquela saidinha rápida pra fazer xixi, acordo lá pelas 6 e 30. Quando vou ao banheiro - uma tendinha onde o homem das mulas cavou um buraco no chão, com direito inclusive a papel higiênico -, sou saudada com um céu nublado, vestígios de cerração e um chuvisco leviano pairando no ar. No desjejum, tentam me servir arroz, ovo frito e lingüiça. Peço, encarecidamente, que só sirvam torrada e mingau, além de chá, é claro. Explico que, em meu país, evitamos almoçar no café da manhã, hehe. Os três homens que compõem o staff são deixados pra trás, desmontando o acampamento, enquanto eu e Jigme Boy, como passei a chamá-lo, às 8 e 30 em ponto, seguimos pela estreita estradinha que acompanha a margem direita do rio Paro, sinuoso que nem cobra. A bem preservada floresta de pinheiros exala um leve aroma de resina que lembra aqueles desinfetantes usados em sauna. As folhas de arbustos e árvores exibem a coloração típica de outono de paragens situadas no hemisfério norte: amarelo-ouro, laranja-ferrugem e vermelho-bordô. À medida que ganhamos altura, o Paro torna-se um rio de agressiva correnteza devido ao tamanho avantajado das rochas alojadas em seu leito. A espuma branca em contraste com o estupendo verde-esmeralda de suas águas dá um toque colorido ao dia cinzento. Troncos de madeira fazem de pontilhão em alguns córregos cujo destino é engrossar mais ainda o já caudaloso rio Paro. Até então a trilha não foi difícil. Se subida houve, foi tão sutil que nem percebi. Jigme aponta uma árvore descascada e explica que isso acontece (a detonação) porque a resina altamente inflamável de sua casca serve como excelente combustível nos fogões a lenha, usados ainda na maioria das residências butanesas. Acrescenta que, à noite, é usada como tocha pra iluminar os caminhos. Se vocês pensam que eles desmatam os bosques pra conseguir tais vantagens, enganam-se redondamente! Orgulham-se e cuidam deles muito bem. Pra cada árvore derrubada plantam três!! Claro que a mão forte do governo, super atento, não dá mole e está sempre incitando o povo a preservar sua rica cobertura vegetal. Neste aspecto, o butanês, graças a Buda, é bem obediente, aleluia!! Uma coisa, de cara, chama minha atenção durante o percurso. Como não notar a chamativa gengiva vermelha das pessoas com quem venho cruzando! A princípio, pensei que fosse hemorragia, causada por gengivite. Mas passa um, passam vinte com os dentes avermelhados. Observo, ainda, no chão, manchas dessa cor. Daí, não me contenho e pergunto a Jigme o motivo disso tudo. Responde que tal coloração se deve ao dhoma, uma noz (parecidíssima com noz moscada, até os sulquinhos brancos são iguais), chamada em inglês bettle nut. Aviso ao bom guia que trate de conseguir uma pra mim. Quero prová-la! Olha só o que faz uma noite sem dormir! Ontem, tão mas tão cansada me sentia que nem curti quase nada da caminhada. Hoje, sinto-me forte, alegre. Aproveito cada passo que dou. Foi por pouco tempo que o sol deu as caras, coisa dumas 2 horas, se tanto. Fica naquele joguinho de vai-e-vem, até que é, em definitivo, tirado de cena pela pesada cortina de nuvens. Paramos pra almoçar numa linda clareira em meio ao bosque de pinheiros. Wangyel, o assistente de Jigme, que viera a nossa frente, carregando o almoço, já está lá nos esperando. Distribuída em cinco pequenas viandas de alumínio, acondicionadas em uma grande térmica azul, está a comida. Wangyel põe as panelinhas na grama e me serve uma terrina com sopa de verduras. Arroz, espinafre, brócolis e galinha, tudo saborosíssimo, vem a seguir. Bem alimentados, seguimos trilha afora. Agora, sim, o caminho começa a ficar mais íngreme pois se trata duma subida de certo respeito. O verdor do lindo bosque é quebrado aqui e ali por toques avermelhados das folhas de outras árvores que não pinheiros. E a visão trepidante do rio Paro com suas frenéticas verdes águas disparando vale abaixo faz com que tudo vire festa. À medida que se ganha altura, o frio vai pegando e sou obrigada a pôr a jaqueta (até então estava apenas com camiseta mais blusão de fleece). Embora um fofo, Jigme fala um inglês com péssimo acento. Custo a entender o que ele diz. Uma pena porque adora falar sobre seu país. E eu adoraria poder entendê-lo melhor. Jigme, aliás, vem a ser um rapaz de feições delicadas. Bonito e fotogênico, sai bem em todas as fotos que tiro dele. Não se importa em posar pra mim nesta ou naquela situação e de repetir as fotos quando eu percebo que não saíram boas. Um exemplo? A sua paciência - ou resignação diante duma turista tão chata - comigo ao lhe pedir que caminhe 4 vezes sobre uma das muitas pontes ao longo do trajeto. Tudo por conta da luz que nas primeiras tentativas ficaram pra lá de ruim. Após a tal subida que, de fato, foi o trecho mais perrenguento até então enfrentado, chegamos ao acampamento às 16 e 15. Pra descobrirmos que o cozinheiro e as mulas haviam acampado do outro lado do rio, ao lado duma stupa que Jigme apontara pra mim quando por ali passáramos há 40 minutos atrás. E durante os 2 km que tivemos de refazer, Jigme se mostra passado, desculpando-se várias vezes pelo contratempo. Contratempo esse devido a um mal entendido, em inglês, idioma que não domino bem. Ontem, comentara com Jigme que não gostava muito de muvuca. Ele tratou de repassar isso pra Sonam, que levou ao pé da letra meu inoportuno comentário. Resolve, por conta própria, o pressuroso cozinheiro me isolar, ao lado da santa stupa, onde sabe que ninguém mais irá acampar e, portanto, me perturbar! Tudo pra me agradar. Dá pra ficar braba? Um tantinho contrariada, confesso que fiquei. Afinal, quando alcançamos o suposto acampamento estava já bem cansada não só dos 22 km de pernada quanto da altimetria que atingiu um desnível de 800 m, situado, a maior parte, a uma altitude superior a 3.000 m. Claro que preferia ter ficado naquele primeiro acampamento, porque, a um, o visual é muito bonito, podendo se avistar, parcialmente, a encosta nevada do Jomolhari. E a dois porque gosto de bater papo com os demais turistas mesmo que meu inglês não seja dos mais fluentes. Mas foi uma contrariedade que durou pouco tempo, até porque aqui, em Soi Thangthangkha, a 3.600 m de altitude, a sensação de impermanência é a regra. E a janta feita por Sonam, veio renovar meu bom humor. Quem resiste a uma sopa de cogu, seguida de arroz preto, massa com chilli e atum, tudo isso complementado com – novamente – cogumelos refogados no leite? A sobremesa, uma frugal mação, já cortadinha em pedaços (não tenho vergonha alguma de declarar que adoro esses pequenos luxos), serve pra refrescar a boca depois de tanto chilli. A noite, bem fria, traz com ela um pouco de vento. Meus pés sentem o rigor da altitude, e geladinhos, custam a aquecer. Nenhuma pinta de estrela no céu. Sei lá, acho que o tempo vai aprontar alguma e sinto que não é coisa boa, não!!
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Um comentário:

Miriam Chaudon disse...

Estou novamente aqui,Bea, acompanhando sua bela e especial viagem ao Butão. Que rio maravilhoso esse Paro! A água é tão pura que chega a ser azulada!!! E ainda ladeado por um bosque de sonhos...realmente uma viagem especial!