segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A mula e as pipocas

Quando acordo a primeira coisa que faço é olhar meu termômetro-bússola que marca aqui dentro da barraca – 1ºC. Meus pés demoraram muiitooo a esquentar ontem à noite! Quando saio da barraca sou premiada com um visual incrivelmente lindo!! O solo branquinho, coberto de neve e um céu azul sem nuvem alguma com aquela bola alaranjada, deliciosa, que é sol, brilhando firme e forte no alto. O maior barato. E finalmente consigo ver o Jomolhari, embora paire, encobrindo seu cume, um largo penacho de nuvem. Mesmo assim dá pra perceber suas largas encostas nevadas. De fato, é uma montanha muito imponente. Afinal, é um 7.000! Pois os queridos guris não montaram a mesa do café da manhã ao ar livre? Suponho que seja para que eu possa curtir o Jomolhari enquanto faço o desjejum. Só pode ser isso! Ah, mas não vai rolar. Bem capaz que vou comer aqui fora fazendo -3ºC! Peço delicadamente – ai de mim ofender a delicada suscetibilidade de Jigme Boy, já basta um faniquito, outro dele não vou ter muita paciência, não! - que a recoloque dentro da barraca-refeitório. Bueno, terminada a refeição, saímos, Jigme e eu, seguidos dessa feita não por Wangyel (seu dia de descanso de carregar mochila de almoço já que tem feito isso desde o início do trekking), e sim por Nidup, o muleiro. Nossa meta é ir a Choro, situado a 3.800 m, que teria sido um de nossos acampamentos, caso houvéssemos feito a trilha Yaktsa. Infelizmente, o mau tempo não permitiu. Entramos num ensombrecido e cerrado bosque de pinheiros onde o sol ainda não penetrou. Belíssimo o contraste da neve cobrindo tudo ao redor com o verde escuro do pinheiral. A trilha segue a margem esquerda dum afluente do Rio Paro. As águas cristalinas do ribeirão ecoam murmúrios nervosos no silêncio da mata. Quando saímos do bosque e penetramos na vastidão dum espaço aberto, a paisagem torna-se luminosamente azul e dourada! À medida que nos aproximamos de Choro, avista-se ao norte Jichu Drakey, belíssima montanha cujo formato piramidal me encanta, tamanha sua perfeição, e, ao sul, o Passo de Takhung La. Apesar dos 10 km de pernada, nem senti o desnível de 200 m que conduz ao platô onde se localiza o acampamento pra quem faz a trilha Yaktsa. Além de Jichu Drakey, avistam-se várias outras montanhas nevadas igualmente belas. Almoçamos dentro dum redil de pedras destinados aos yaks. Ao largo, muitos deles pastam as ainda fartas pastagens. O saboroso almoço faz com que eu o repita. Afinal, dá pra resistir à couve-flor ao dente, ao pimentão ensopado, à galinha desfiada e ao arroz com passas e castanhas de caju?! Agora 13 horas, o tempo está querendo se bobear...ai meu deus!! Nuvens começam a encobrir o sol e um vento frio sopra vez por outra. Esperemos que seja apenas um capricho passageiro de São Pedro. Voltamos pela trilha da margem direita que se encontra ensolarada já que escapa do bosque de pinheiros. Vejo um tanto de flores ao longo do caminho. São os últimos suspiros dos tempos amenos do outono. Delicadas prímulas de coloração violeta. Lindas elas! Do outro lado do rio, o sol já derreteu boa parte da neve que cobria tudo de manhã cedinho. Ao chegar ao acampamento Stupa lá pelas 15 e 30 horas, o Jomolhari ainda tem seu cume encoberto pelo véu de nuvens! Será o santo Benedito que não vou ver o raio dessa montanha sem nenhum embaraço? E, vejo sabe o quê, comendo minha pipoca, posta sobre a mesa do chá da tarde, montada ao ar livre? Uma das mulas, hahaha!!! Coisa mais querida!! Estou apaixonada por elas! Bueno, prefiro conversar quando estou parada. Caminhando não escuto direito já em português, imagina em inglês. E chega de quiprocós por causa dessa merda de idioma! Por isso, durante a janta, o papo cai sobre cerimônia budista de cremação, tema que considero fascinante. Jigme, já sabedor de minha condição de católica, faz uma interessante revelação: os cristãos são obrigados a enterrar seus mortos em lugares secretos! Segundo as leis budistas, enterrar é proibido (pensando bem, perigoso e anti-higiênico, não é mesmo?). Daí o motivo de todos serem jogados depois de cremados num rio. Quando saio da barraca-refeitório, aquecida pela boa janta feita por Sonam, a noite está deslumbrante! Estreladíssima, um lua quase cheia brilha claríssima no céu. Apenas sobre o Jomolhari resta aquele odioso penacho de nuvens. E faz muito frio. A noite mais fria até aqui, tanto que dentro da barraca meu inestimável termômetro-bússola aponta -3ºC! Custo a dormir pois meus pés não se aquecem mesmo. E Dhendup também é culpado pela minha demora em pegar no sono. O belo e peludo cachorro de Nidup latiu um bom tempo. Eu louca de sono e o cão dale que dale a latir bem ao lado da barraca. Que raiva! Só não levanto e jogo uma pedra nele porque está frio demais pra isso....humpf!!
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Um comentário:

Miriam Chaudon disse...

Hahahaha!!! Mulinhas espertas! Comeram as pipocas da Bea! Sobrou o chá pelo menos!!!