quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Sobrevoando o Himalaia

Acordo na quarta-feira, lépida e fagueira. Hoje tem início minha pernada de 14 dias até o Mera Peak. Acho legal, depois do Huayna Potosí, tentar outro seis mil, ao invés dos tradicionais treks até os acampamentos-base do Everest e Annapurna, embora essas caminhadas contemplem cenários espetaculares. A bem da verdade, eu queria mesmo fazer - quando comecei a planejar minhas férias - o trek até o Kangchenjunga, o terceiro maior oito mil do planeta. Mais precisamente, queria conhecer os dois acampamentos-bases, localizados nas suas faces norte e sul. Contudo, o tempo exigido superava em muito o período de 20 dias que desfruto de férias. Assim estou indo agora de manhã pro aeroporto pegar um avião até Lukla. Considerada pelos padrões nepaleses uma town, finca-se esta minicidade num platô, a 2.800 m acima do nível do mar, distante 135 km de Kathmandu. É porta de entrada não só pro Mera Peak como pra famosa pernada ao campo-base do Everest. Duas são as opções pra se alcançá-la: seja sobrevoando o Himalaia, num vôo que dura 45 minutos, seja sacolejando num ônibus durante 10 horas até Jiri. E a partir desse vilarejo, encarar uma pernada de 7 dias, num sobe e desce encostas de montanhas e vales profundos. Quem fez, garante que é ISO 10.000, ou seja, megasupertri. Opto - infelizmente, não disponho do luxo de tanto tempo - pelo avião. O pequeno aeroporto de onde partem os vôos domésticos localiza-se ao lado do Aeroporto Internacional de Tribhuvan. A sala de espera está lotada com dezenas de expedições de trekkers e escaladores. Uma excitação gostosa paira no ar. Pra galera montanhista as perspectivas que o Himalaia oferece são estonteantes. Embarcamos num bimotor com assentos pra 20 passageiros, todos ocupados. Essa época do ano, conhecida como pós-monção, é também muito procurada pelos turistas. Vou sentada no lado esquerdo da pequena aeronave, o que me garante uma estupenda visão daquela enfiada de montanhas nevadas que é o Himalaia. Dia lindo. Nuvens fofas pairam sobre os picos sem contudo cobri-los de todo. O nuvaredo é mais um adereço no soberbo cenário. Embaixo, lá embaixo, sulcam os verdejantes vales estreitos e sinuosos rios de águas azuis. Próximas às vilas, uma sucessão de terraços exibe caprichadas plantações de cereais e verduras. Estradinhas ziguezagueantes riscam cristas e flancos de montanhas. Meus deus, o Himalaia alberga centenas de Pequeños Alpamayos e dezenas de Aconcáguas!! Nenhuma montanha igual à outra. Devido à baixa altura em que voa o aeroplano, distingo, nos arredores dos vilarejos, cúpulas douradas de brancas stupas. Lukla já é visível com suas casas de pedra e jardins floridos. O vôo é emocionante. Peninha que tenha durado apenas 45 minutos!! Voar no Nepal é uma roleta russa. Ainda mais quando se trata de aterrissagens em Lukla. Considerando que a pista do aeroporto Tenzing-Hillary tem uma inclinação de 12º e extensão de apenas 500 m, com uma cabeceira de pista quase tocando a encosta de uma montanha, chegar incólume aqui deve-se à habilidade do piloto, às boas condições atmosféricas e a um tantinho de sorte. Não há só motoristas braços no Nepal, pilotos, também, o são, e como! E o que é aquela saída quando o avião decola? Acho até mais perigosa que a aterrissagem porque a curta pista desemboca num precipício. Pode crer, voar, no Nepal, exige certo sangue frio. Nosso vôo, contudo, foi tranqüilo. Desembarco em Lukla, incólume e feliz. Na frente do aeroporto, uma área de camping. Ocupando algumas barracas, turistas esperam seus vôos pra Kathmandu, enquanto outros aguardam o momento de partirem rumo aos roteiros de suas preferências. Kongde Peak impera na paisagem com seu cume nevado. Não tem como não prestar atenção nesse cinco mil. É emblemático em Lukla. Almoço, no Himalaya Lodge, lugar limpo e aconchegante, um caldo com legumes e verduras, bem apimentado. Uma delícia. Enfeitam os parapeitos das janelas do restaurante vasos com gerânios. Panelas de cobre com frisos dourados ao estilo sherpa ocupam toda uma estante em frente às mesas. Entrevejo a impecável cozinha que, segundo Carol, é uma exceção ao desleixo geral. Forram os compridos bancos grossos tapetes coloridos. Pregadas nas paredes bandeiras de diversos países e fotografias de montanhas e pessoas. Saímos de Lukla logo após o almoço, enveredando numa direção contrária à da trilha que leva ao acampamento-base do Everest, ou seja, perseguindo o rumo leste. Embora o desnível a ser percorrido não ultrapasse 160 m, a trilha é uma subida puxada em meio a um bosque de rododendros. De sua opulência estival, uma herança modesta: apenas folhas secas forram o chão. Das prímulas restam algumas murchas e amarelecidas folhas. Convenhamos, não dá pra exigir muito quando se está em pleno outono nepalês. Mas que deve ser lindo na primavera com tudo florido, deve! Embora seja o país crivado de altas montanhas, predomina, em uma larga extensão de seu território, uma generosa vegetação. Ah, conheço além dos yaks cuja fêmea atende pelo nome de nak (nhac, hehe) um bando de dzopkyos (cruza de bovino com yak). Mascam com aquela indiferença típica da raça os últimos pastos verdejantes da estação. Cruzo duas vezes um rio de águas verdes e límpidas. Na primeira travessia, a ponte são as próprias pedras que atulham seu leito. Já na seguinte, tenho que me equilibrar sobre duas toras de madeira dispostas paralelamente. Ao longo da estradinha, crianças de carinha suja espiam curiosas através dos batentes das portas a nossa passagem. Basta eu saudá-las com o tradicional namastê pra escutar em resposta um coro infantil de namastê. Tudo de bom esse povo!! Identifico-me com eles. São alegres. E gentis. Chegamos em Thukding às 16 e 10. Nem se pode dizer que as quatro casas ali existentes formam uma vila. É um lugar de passagem pra quem quer evitar o pernoite em Chutanga, outro paradouro distante 20 minutos. Belas montanhas rodeiam o lugar, destacando-se Charpate Himal e Kalo Himal, infelizmente encobertas por nuvens. Ao anoitecer, como num passe de mágica, o nevoeiro dispersa e os dois picos, desnudos de glaciares, revelam a neutra coloração acinzentada de suas rochas sedimentares. Na frente de minha barraca, a oeste, vários sete mil cobertos de neve. Destaca-se dentre eles o lindo Numbur Himal. Servem o jantar, à francesa, dois sherpas. No menu, sopa, galinha refogada, arroz, couve-flor com curry e brócolis. Não dou nota 10 porque a sobremesa é uma decepcionante salada de frutas......enlatada. Durante a refeição explico que o fato de não dominar o idioma inglês faz com que eu me sinta num mundo paralelo. Eu aqui, vocês aí. Sei lá por que os nepaleses se dobram de tanto rir. Deve ser porque eles também se identificam comigo. Fazem parte do staff oito porters, responsáveis pelo carregamento de 250 kg de equipamento e comida, um cozinheiro, um assistente de cozinheiro (sua função é a de cozinhar pro staff), um climbing guide e o trekking guide, líder do grupo. Só o trekking guide come com os clientes. É tudo muito hierarquizado, putz grila!! Quando saio da cozinha, uma tosca construção de pedra coberta por um toldo azul de lona, um festival de estrelas ilumina o céu. Já deitada na barraca, escuto risadas vindas da tea house além da conversa de dois porters enquanto lavam a louça. E o rumorejar forte daquele rio que eu cruzara durante a vinda até aqui. Ah, sabe o que significa Himal? Mon-ta-nha, meu caro Watson!!
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