sábado, 20 de novembro de 2010

Pashupatinath: Uma incursão ao reino dos mortos

De volta a Kathmandu, Sunir me hospeda num hotel chique, situado em outro bairro que não Thamel. No sábado, exijo, pra sua surpresa, o retorno imediato ao alvoroço do agora familiar bairro. Faz muito mais meu estilo. Lá sinto-me em casa. Instalada num hotel furreca, saio eu pra caminhar pelas apinhadas vielas, quando escuto alguém, chamando “Bea...Bea”. Viro-me e vejo um jovem loiro, sorrindo calorosamente. Não o reconheço de imediato, o que não me impede de abraçá-lo com efusividade. Identifica-se e recordo dele sem demora. É o fofo do Carlos Eduardo Santalena, da Grade 6, operadora paulista de turismo de aventura. Conheci-o em La Paz, em junho, quando fui fazer o Huayna Potosí. Gentilíssimo, ajudou-me a escolher um isolante embora estivesse ciceroneando clientes. Ficamos de conversa naquele fervo, que são as ruelas de Thamel, eu, ele e um cliente, alagoano pra lá de simpático, o Itamar. Informam que vão a Pashupatinath, templo hinduísta onde há um crematório a céu aberto que funciona 24 horas ininterruptamente. Não dá outra. Pergunto se posso ir também. Aceita no pequeno grupo, embarcamos num táxi, antes deixando Agnaldo, outro cliente de Carlos, no aeroporto, localizado justo em frente ao famoso santuário. Na entrada, não resisto e compro um colar de flores amarelas que trato de pendurar no pescoço. Como é feriado nacional, a aglomeração de fiéis é intensa no interior do parque onde foi construído o grande templo em homenagem à Shiva, além de outras stupas de menor porte. E aí começa a incrível viagem ao reino dos mortos! O clima é festivo porque, na religião hindu, nada impede que os vivos festejem seus mortos! Já de cara, na entrada, um bando de gente passa correndo e entoando uma ladainha, enquanto empunha bandejas com tochas acesas. No centro duma roda, duas mulheres, enroladas em sáris coloridos, dançam ao som de canções executadas por músicos que dedilham instrumentos típicos. Mais adiante, o bando, que eu vira há pouco, agora circunda um poço onde foram colocadas, na beirada, as bacias ardentes, enquanto cantarolam mais orações. Num canto do grande pátio, onde se situa o templo principal, cujo acesso é vedado aos turistas, mulheres lavam louça, acocoradas no chão. Algumas vacas escarrapachadas jazem lânguidas no meio do caminho, donas absolutas do pedaço. E ai de quem profaná-las! Tudo muito sujo, maravilhoso, muito louco. Itamar, um amador que se dedica com afinco à fotografia, clica adoidado tudo o que vê. Eu não fico atrás. Quando já nos encontramos em frente ao local das cremações, que se realiza à beira do rio Bagmati, somos abordados por um simpático homem de cabelos cuidadosamente pintados de acaju. Hablando um espanhol quase ininteligível, desfia algumas curiosidades sobre a cerimônia de cremação, que se desenrola na margem oposta à que nos encontramos. Convence Carlos e eu a segui-lo até um jardim onde, segundo ele, desfrutaremos uma bela visão dos santuários. A bem da verdade, fui eu a seduzida, mas como estava um pouquinho receosa de ir sozinha, trato de pôr uma pilha no Carlos. O nepalês nos guia num passo acelerado, falando rapidinho naquele espanhol arrevezadíssimo. Decerto, quer pegar outros turistas pra faturar mais uma graninha. Enquanto caminha, larga uma frase de efeito cujo desfecho sabe que agradará em cheio aos turistas. Com ar circunspecto (até então se mostrou sorridente o tempo todo), explica que três são as religiões no Nepal: budismo, hinduísmo e (aqui faz uma paradinha de modo a causar aquele suspense)........ turismo! Ora é claro que sorrimos com a irreverência do chiste. O breve tour chega ao fim e damos algumas rúpias ao esforçado guia que se mostra satisfeito com a módica gorjeta. Afinal, o passeio não demorou mais que 15 minutos. Reencontramos Itamar fotografando diversos sadhus que, em troca de algumas rúpias, se posicionam de modo cativante frente às câmeras dos turistas. Estes homens, embora tenham renunciado a todo tipo de conforto material, cobram para tirar fotos. Um deles, curiosamente, guarda sua féria diária numa bolsa Diesel que mantém ao seu lado. É estranho, porque a bolsa toda modernosa destoa de sua rudimentar vestimenta. Aos sadhus é permitido fumar maconha dentro do perímetro do templo. Imagino quantos hippies na década de 70 não se tornaram sadhus pra poder dar um tapa em seus baseados. Olhando os tais “santos” homens - quer saber duma coisa? - não percebo ar algum de santidade neles. As poses adotadas são automáticas, coisa montada, percebe? Não que sejam falsas - não é isso - mas vislumbro um não sei quê safo neles. Não me convencem. Será que aderiram à globalização de modo a difundir com mais eficiência sua fé? É....vai ver é isso! Bueno, no hinduísmo, reservam-se somente aos homens santos, às crianças e às mulheres grávidas o privilégio do sepultamento porque somente esse pessoal atingiu o nirvana, grau máximo de sabedoria, advinda do conhecimento do universo e de si mesmo. Encerram-se, assim, os sucessivos ciclos de morte e reencarnação que liberam o ser humano da roda infinita de carmas. Ao restante dos mortais, a fogueira, de modo que continue o processo de purificação através do fogo, tantas vezes quantas forem necessárias até a liberação final. Só, então, farão jus ao tão sonhado enterro. Ora, se isso for verdade mesmo, nós católicos, somos santos de carteirinha, porque, de prima, somos jogados no fundo da cova....brincadeirinha! E, pela primeira vez em minha vida, tenho o prazer (?!) de presenciar, ao vivo e a cores, a sequência duma cerimônia de cremação. Um mundaréu de gente, a maioria nepaleses, assiste aos rituais que ocorrem, simultaneamente, em nichos, na margem direita do rio Bagmati. A cada nicho corresponde uma casta. À ala masculina da família do falecido é permitido assistir à cerimônia sentada nos degraus, próxima ao morto. Já às mulheres, reserva-se lugar mais distante. Na primeira etapa, a de lavagem do corpo, o defunto, coberto apenas por um tecido alaranjado, é colocado numa padiola onde fica com os pés mergulhados dentro d’água um par de horas. O morto, um sessentão gorducho, é trasladado da padiola pro chão por seis parentes homens que dão conta do recado com evidente dificuldade devido ao peso do corpo. Entra em ação, um homem, magrinho, já entrado em anos, que cobre o cadáver com um pano branco pra então puxar, agilmente, o pano laranja que coloca, então, sobre o branco. São retirados diversos eletrodos do peito do cadáver bem como a fralda que enrola seu púbis, indicativos de que morreu num hospital, provavelmente, numa UTI. Colares são arrancados sem dó nem piedade. Tudo é lançado no rio onde bóiam milhares de objetos que um dia pertenceram a milhares e milhares de mortos. Terminada a arrumação, é espargido um pó vermelho sobre o corpo. Só então, o defunto é conduzido ao local onde será incinerado. Ao lado da pira feita com troncos de árvores, outro homem zela pela manutenção da fogueira. No final, atira maços de palha, pra avivar as brasas e, com uma vara comprida, remexe o que sobrou dos ossos, espalhando-os de modo que sejam incinerados por completo. O mau odor oriundo da carbonização dos corpos é driblado seja usando toras de sândalo na construção das piras dos ricos, seja jogando pó de sândalo na fogueira onde ardem os menos abonados. Voltamos à Thamel e vamos os três almoçar numa pizzaria cuja decoração maneira (até aqui, em Kathmandu, impera o infalível kit de parede de tijolinho à vista, chão de madeira de demolição, mesas do mesmo material e iluminação intimista de abajur) em tudo remete a dezenas de cantinas semelhantes, facilmente, encontráveis em qualquer pizzaria do planeta. Brindamos à vida e, claro, ao nosso agradabilíssimo reencontro. Itamar e eu empunhando taças de vinho tinto, ao passo que Carlitos faz tintim com uma tulipa de cerveja! Tão bom estar viva aiiinda!! Antes de domir, já no hotel, deitada em minha cama, sinto um forte cheiro, que me embrulha um pouco o estômago, emanando de meu corpo...será o que estou pensando? Putz, ninguém merece!! Euzinha, Beazinha, me-re-ço, sim, por ser relaxada e não ter tomado banho depois da cerimônia de cremação a que assisti à tarde em Pashupatinath!! Estou fedendo à........carne queimada........arghhh!!
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Um comentário:

Miriam Chaudon disse...

Muito interessante...mas eu não aguentaria ver essa cerimônia...