terça-feira, 16 de novembro de 2010

Lukla

Em decorrência de Lukla estar atopetada de turistas, eu, que não quero mais ficar em barraca, tenho de me conformar com um hotel xinfrim, porque nos bons não há mais vagas. Meu quarto, um cubículo onde só cabe a cama, localiza-se no anexo do Tara Lodge. O prédio tem toda pinta de ter sido, originariamente, uma residência, daí o motivo de os quartos serem divididos por finos tabiques de compensado. Sem privacidade alguma, até o suspirar do vizinho de quarto é audível. Apesar de os banheiros serem limpos e melhor ajambrados (se comparados com os do trek), com os buracos forrados de cerâmica branca, localizam-se , contudo, no pátio, distantes 30 m do tugúrio onde durmo. Bem desconfortável, portanto. Na barraca, a mão de obra pra urinar era ínfima. Bastava abrir o zíper e pôr o bumbum pra fora. Finalmente, entro pra baixo do chuveiro ao custo de 250 rps. A sujeira é grossa, estou há 14 dias sem ver a cor da água. Por mais espantoso que possa soar, sinto-me mais leve depois do banho. Vou então conhecer Lukla cuja etnia majoritária é sherpa. A minúscula cidade é dividida em dois setores pelo aeroporto. Naquele onde estou hospedada, o forte do comércio são os hotéis, os melhores da cidade, e uma confeitaria alemã, responsável pela fabricação de irresistíveis guloseimas. Do outro lado do aeroporto, situa-se o centro nervoso da cidade em cuja rua principal, uma via comprida e tortuosa, sobressai calçamento de pedra apenas em sua parte “nobre”. As demais são de chão batido. E neste setor fervilha um pequeno centro comercial, oferecendo de tudo um pouco: lojas de roupas, de artesanatos, de equipamentos de escalada e montanhismo. Restaurantes escuros e sujos, autênticas bibocas, constituem um desafio aos estômagos dos turistas. Um barbeiro atarefado não dá conta das meneludas cabeças exibidos por porters e guias. E mais hotéis, estes, contudo, de acanhadésima aparência. Cafeterias, dentre elas, pasmem, uma Starbuck! Fico atônita quando deparo com o logotipo verde da famosa rede americana. Mas  tanta surpresa por quê, guria? Comprovadíssima mais uma vez a tese de McLuhan sobre o planeta não passar duma aldeia - global of course! Três ou quatro pubs oferecem, na happy hour, descontos pra atrair a clientela. Afixado, numa parede, um reclame de sauna exibe homens e mulheres – todos louros -usufruindo, sorridentes, as delícias do banho a vapor. Ferve o movimento na rua principal. Desfilam, além das centenas de turistas de várias partes do globo terrestre, outras centenas de porters que carregam nas costas dokos (cestos de vime), atulhados de tralha das expedições. O destino é muito óbvio: retornam ou rumam pro acampamento-base do Everest. Sons de badalo tilintam no ar: é a madrinha da tropa de dzokyos, anunciando a passagem dos bovinos que trafegam submissos ao longo da rua principal. A última moda aqui em Lukla é uma touca de lã cujo formato imita um corte de cabelo a moicano. Super fashion, o gorro é usado tanto por turistas quanto por guias e porters!! Evidentemente, compro um pro meu filho! Espremo-me contra a parede pra deixar passar uma vaca e seus terneiros. Isso é o Nepal! A quantidade de mesas de botão, instaladas ao ar livre, confirma a popularidade deste esporte entre a população nepalesa. Num beco, transversal à rua principal, guris jogam bolita. Bem sujos, são a cara da cidade: tão imundos quanto ela. Mas nem só de jogo de botão são devotos os nativos de Lukla: numa mesa de pingue pongue, o revezamento de jogadores é intenso. Mas os esportes de mesa não param por aqui, não! Descubro, numa viela lateral, amplo e mal iluminado salão de sinuca que tem, sob as mesas, sacos plásticos contendo alfafa!! Enquanto as galinhas sempre de cabeça baixa ficam naquele cisca cisca incessante, os belos e emplumados galos, de crista erguida, cocoricam vaidosos no meio da rua. Muito entra e sai duma stupa cujo ritual consiste, primeiramente, em fazer rodar as pequenas rounding many (rodas de oração), colocadas numa antesala; ato contínuo, os fiéis rodam a maior que ocupa uma sala inteira. Quando acionada, produz um tilintar agradabilíssimo aos ouvidos. No final da rua, vê-se o pórtico de entrada do Sagarmatha National Park que conduz não só ao Everest como a outras duas montanhas com altitude superior a 8 mil metros. Compro um petisco indiano, chamado samosa. Trata-se duma trouxinha de massa recheada com batatas e cenoura frita. Uma delícia! Vez por outra, numa brecha de bom tempo, escuto o ruído dos helicópteros que decolam ou pousam no aeroporto Tenzing-Hillary. Entretanto, nenhum ruído de avião se faz ouvir porque a posição topográfica de Lukla não favorece o pouso e a decolagem de aviões quando há névoa. E isso se explica em razão de, bem à frente da cidade, situada num platô, erguer-se uma muralha de montanhas cuja altitude supera os 6 mil metros. Acomodada num dos salões de refeição, escolho no variado cardápio o que será minha janta. Enquanto espero, assisto tevê juntamente com outros turistas e guias. O astral, apesar de toda a incerteza sobre os vôos, é animado. A decoração da peça segue o estilo chinês e, por óbvio, a cor predominante não poderia deixar de ser outra que não a vermelha. Diante de mesas baixas com aspecto de escrivaninha, longos bancos de madeira cobertos com tapetes. Enfeitam os peitoris das janelas grandes baldes, isso mesmo que vocês estão lendo, grandes baldes de plástico contendo uns, plantas naturais, e outros, flores artificiais. Estas, de gosto duvidoso, são enormes, horrendas! E não estou exagerando, não!!

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