domingo, 21 de novembro de 2010

As cidades reais: Baktapur e Patan

Carlos e Itamar não se encontram mais em Kathmandu. O vôo deles, estranhíssimo, dá uma ré até a China, pra então seguir rumo à Europa, com nova parada, dessa feita, na Holanda. As tais de “conequições”!! Só daí eles retornam ao Brasil. Eu, que saio um dia depois deles, chego no país antes dos dois!! Peninha que já se foram. Foi tão agradável tê-los como companheiros de passeio e de mesa! Reservo o domingão pra conhecer Baktapur e Patan que, juntamente, com Kathmandu, foram construídas para servirem de cidades reais. Situadas no vale de Kathmandu, foram declaradas patrimônio histórico da humanidade pela UNESCO. De guia, Birju que fala espanhol. Dá algumas explicações sobre a trindade máxima do Hinduísmo, os deuses Brahma, Vishnu e Shiva que, em realidade, são três manifestações diferentes de uma mesma divindade, conhecida como Trimurti. Brahma representa a criação, Vishnu, o equilíbrio entre as coisas e suas ações e reações, já Shiva significa o poder que destrói, oferecendo a possibilidade do renascimento. Afora essa tríade, o hinduísmo comporta 33 milhões de outros deuses, simbolizados por avatares, retirados dos reinos animal, vegetal e mineral. De tudo isso sou inteirada enquanto percorremos os 15 km entre Kathmandu e Baktapur. Embora a distância não passe dum estalar de dedos, o tráfego intenso faz com que demoremos quase uma hora até lá. O complexo de templos e palácios, conhecido como a Durbar Square de Baktapur, me impressiona bem mais que a de Kathmandu. Grandes esculturas de animais e deuses guardam as fachadas dos edifícios, construídos com terracota, em estilo pagode, cujas portas e janelas, em madeira escura, ostentam soberbos trabalhos em talha. Vistas de determinado ângulo, as principais stupas exibem um design altamente moderno com seus vários pisos se sobrepondo uns aos outros. Em 1934, um terrível terremoto, com registro de 9º na escala Richter, causou muitos estragos em diversas construções. Afora isso, são evidentes os sinais de deterioração causados também pela má conservação dos prédios, típico de país pobre. Impossível tirar fotos sem que haja alguém na frente dum templo ou palácio. E não são turistas, não. A maior parte dos freqüentadores são nepaleses. Os comerciantes ambulantes não dão trégua. É uma verdadeira perseguição. Por onde quer se vá, oferecem sempre os mesmos badulaques: brincos, colares, pulseiras e rodas de oração. Há que se tomar cuidado quando se compra algum objeto em turquesa ou lápis-lázuli porque podem ser feitos de resina. Às vendedoras não basta dizer não, elas desconhecem tal palavra, tamanha a obstinação em tentar vender suas mercadorias. Tem de se ter uma paciência de Jó pra não se irritar e mandar à merda toda aquela simpática gente. Ou, o que é pior, não resistir à tentação e comprar tudo que é bugiganga motivada pelo preço, baratíssimo (4 colares a 1.000 rps valem 25 pila), pra depois, na calma e silêncio do quarto, perceber que, de grão em grão, os nepaleses esvaziaram a minha bolsa me convencendo a adquirir material tão vagabundo! Em Patan, nova sucessão de palácios e templos semelhantes aos que já vi em Baktapur. Já estou meio enfastiada de tanto palácio e templo, ainda bem que o passeio está acabando. Às 15 horas, já de volta à Thamel, compro um marionete representando Ganesh. Desde que cheguei, me encantei pelo brinquedo. À noite, saio pra dar uma banda e entrevejo entre os prédios, uma lua cheia brilhando no céu. Nas ruas, a eterna trilha sonora do ruído contínuo das buzinas fazendo fon fon. Que bagunça adorável!! Quando volto ao hotel, ligo a tevê. Pois não é que virei fãzoca dos filmes de Bollywood? Sessenta por cento tem cantoria e dancerê. Todas as heroínas têm cabelo lisérrimo com “aquele” balanço, conseguido à base de escova e chapinha. Em certas películas, soltam umas frases em inglês, nada a ver com o contexto do filme, porque não se trata duma conversa com um estrangeiro mas entre eles, indianos. Os gêneros de entretenimento vão dos dramalhões rasgados - dão de 10 a zero nos mexicanos - às comédias tipo pastelão. Durmo com a tevê ligada e sou acordada, segunda-feira, por uma animada cantoria vinda da tevê. São meus heróis de Bollywood me dando bom-dia, hehe!! Conforme combinara com Nara, que retornou ontem de Lukla, vamos os dois tomar café no Pilgrim, misto de livraria, bazar e restaurante vegetariano. Conta que um homem em Lukla, irritado com a demora dos voos, jogou uma cadeira no vidro duma janela. Como meu vôo é à tarde, dou uma última banda pelas ruas de Thamel, sendo, assim, surpreendida com a curiosíssima advertência das lavanderias sobre o prazo de entrega das roupas: se chover ou o tempo estiver nublado, o atraso na devolução das vestimentas resta justificado. Essa é boa, hahaha!! Reencontro, aproveitando também suas últimas horas na cidade, o pessoal da Malásia que conheci em Lukla. Contam que foram de avião até Jiri de onde pegaram um ônibus, chegando ontem, após uma sacolejante viagem de nove horas. Faço as últimas compras, adquirindo um banquinho feito de vime colorido, a coisa mais lindinha, chamado muda que coube apertadinho no sacolão North Face. Almoço um quiche de cogumelos e uma tartelete de morango, comprados numa padoca perto do hotel. Baratas e boas as guloseimas! Sunir me leva até o aeroporto de onde vejo as fumarolas das cremações realizadas em Pashupatinath. Pensando bem, tanto o aeroporto quanto o templo hinduísta não deixam de ser lugares de partidas. Chego em Doha às 2 e 30 da madruga. Em razão da diferença de fuso horário entre Qatar e Nepal, tenho de atrasar o relógio pra meia noite, o que me obriga a aguardar 10 horas nesse aeroporto, sem conforto algum, cujos atrativos se resumem a um free shop mixuruca e três lanchonetes. Descubro um lounge e pago os 40 dólares exigidos. Dessa forma, tenho o direito de, se quiser, tomar um banho, me refestelar em poltronas confortáveis, beber e comer à la vonté, além de acessar a internete até o momento de embarcar. Durante a longa espera de meu vôo de retorno ao Brasil, agradeço mentalmente, com um frase aprendida com Nara “Maile dherai ananda liye, tapaiko Nepal ra nepali manchhe sanga, Dhanyabad!”, que numa tradução livre significa “eu gostei muito de você Nepal bem como de seu povo, obrigada!”. Escuto, em resposta, um coro silencioso de “Namastê, Beatriz!”
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