sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Primeira visão do Mera Peak!

Hoje será um dia duro, o mais longo de todos, conforme o roteiro. Quatro passos serão enfrentados. Nenhum, porém, acima de 5.000. Saída de Kharki Tanga às 8 e 15. Embora belíssima a manhã, exibindo um céu azul imaculado, o frio faz doer mãos e pés. A encosta da montanha que conduz aos 4.500 m de Naulakh La, primeiro passo a ser cruzado, é deveras íngreme. Como nevou muito no final de outubro, o solo apresenta-se coberto por uma maciça quantidade de neve, inspirando cuidados especiais na caminhada. Tanto assim que perto do passo, os sherpas ancoraram, numa pedra, larga extensão de corda, pra servir de corrimão, já que o terreno se encontra bem escorregadio devido ao gelo. Apesar de pequenos degraus escavados na terra, a aclividade é acentuada. Pra mim e outros tantos turistas que levam mochilas leves nem tão perigoso é o ascenso. Já para os porters que carregam seus dokos (cestas feitas de bambu onde carregam os equipamentos e comidas das expedições) pejados de tralharedo, tanto o esforço de subida quanto o de descida envolve riscos. Um passo em falso, um escorregão, a queda será inevitável. E o sujeito rolará umas boas dezenas de metros ladeira abaixo com consequências provavelmente severas. Vejo próximas, bem próximas, as coloridas bandeirolas de orações budistas sacudidas pelo vento. Escuto claramente vozes de turistas que me antecederam na chegada ao passo. Em pouco mais duma hora - o relógio marca 9 e 40 - estou apreciando a bela paisagem de cima do Naulakh La. Ao norte, a esplêndida paisagem nevada da fronteira com o Tibet permite avistar o sexto maior pico do planeta, o Choyo, enquanto ao sul a paisagem é mais modesta com montanhas cobertas duma penugem verde. Embora o tempo de demora ao segundo passo seja mais curto que o do primeiro, o trajeto é enganador. Isso porque, quando se deixa Naulakh La, a pernada, inicialmente, é feita descendo um suave declive, sucedido daí sim, por outra subida bem puxada. Após uma hora, sou novamente saudada por aquele extenso colar de bandeirolas budistas que sinalizam que já estou no topo dos 4.800 m do Chheter La. Ultrapassado este passo, há outro que nem se sente, tão fácil alcançá-lo. Só se sabe que se cruzou um passo por causa das indefectíveis bandeirolas budistas. E, então, a pernada prossegue lomba abaixo numa trilha de terra batida, pouco arenosa, e sem muito cascalho até a vila Chheterbu, já visível na metade da descida. Com não mais que meia dúzia de casinhotas de pedra, o lugarejo tem um único hotel, o Rocky Himalayan, cujas facilidades são anunciadas orgulhosamente numa placa colocada no lado externo do estabelecimento: “Double rooms & single rooms, dinning room with heater & hot shower”. Entro pra especular e observo que é o interior é limpo. Encontro Nima e Carol já sentados sobre um plástico azul descansando. Almoçamos ao ar livre sob um céu poderosamente azul, desembaraçado de qualquer sombra de nuvens. Durante a refeição, avisto, Chheter Danda, este sim um passo de 5.100 m, situado a leste. Pra cruzá-lo teria sido necessário usar uma rota alternativa, preterida, no entanto, por Nima. Após Chheterbu, uma descida e nova subida até o 4º passo do dia. Nima e Carol, que largam sempre na frente, estão sentados no chão. Também descansando, uma loira grandalhona que almoçara também em Chheterbu. Curiosa, não resisto e lasco o clássico approach “where are you from?” Simpática, a mulher, cujo nome é Daniela, revela ser alemã. Refeitos, prosseguimos a caminhada, enveredando por uma trilha cuja profusão de pequenos arbustos vermelho-fogo dão um toque vivaz à paisagem monocromática das encostas escuras das montanhas. Dentre as flores, destacam-se as azuladas gencianas himalaias. E duma flor com pétalas rígidas, cuja coloração tende ao marrom-avermelhado, exala um perfume agradabilíssimo. Nova parada, dessa feita num mirador que permite avistar a face sudoeste do Mera Peak. Uma pena que haja uma névoa encobrindo parcialmente seus três cumes, o norte, o central e o sul. Nima explica que vamos proceder ao ataque por sua face nordeste, ou seja, até alcancá-la, daremos uma volta de praticamente 180º ao redor da montanha. Do outro lado do vale, visível uma trilha alternativa que conduz também ao Mera Peak. É um trajeto mais longo, usado pra quem prefere uma melhor aclimatação já que inclui 4 dias a mais. Percebo, ainda, algumas vilas espalhadas tanto nas encostas das montanhas quanto nos fundos vales situados abaixo de onde estamos. Do mirador até Thaktor, lugar onde será montado nosso acampamento, uma descida que dura uma hora, percorrendo um bosque de rododendros. Nara diz que na primavera tudo se colore de branco, rosa e vermelho. Deve ser deslumbrante! Muito lixo jogado na trilha cujos principais responsáveis são os próprios trabalhadores nepaleses, segundo comenta Nima. No Paquistão, observei idêntica situação: porters jogando toda a espécie de detritos ao longo da trilha até o Baltoro Glaciar. Lamentável a ausência de educação ambiental de que carece essa gente. Afinal, é gol contra a bela natureza de seus países. Foi realmente um longo dia de pernada. Meu relógio marca 16 e 40 quando chego em Thaktor, situada a 3.500 m. Duas tea houses e três ou quatro casas fazem parte desta comunidade. O lugar é lindo. Encravado num bosque de pinheiros, tem à frente o Mera Peak (uma pena que continue encoberto!) e outras montanhas ao redor. Audível o rumorejar do Chheter Khola (khola significa rio em nepalês), que flui 20 m abaixo do terraço onde foi montada minha barraca. A janta é tudo de bom: sopa com pipocas (bem legal essa de colocar pipoca dentro da sopa, fica trilegal), pizza, momo e um pão bem fininho, feito de farinha de abóbora, apimentado, chamado papardom (de origem indiana). Tudo muito calórico mas necessário. Quando saio do refeitório, sou brindada com um céu pra lá de estrelado. E me ponho a refletir que, durante esses três dias de trekking, tenho sido assaltada por sentimentos conflitantes. Se não sou velha demais pro montanhismo. Tipo forçando a barra, numa trip de reviver a juventude perdida, à época, bem mal aproveitada. Ontem, primeira vez desde que iniciei a viajar – e minhas viagens começaram em 2003 – senti falta dalgumas pessoas. Poxa, saudades depois duma semana longe de casa soa deveras piegas. Detesto sentimentalismo barato, sem causa forte! Tais pensamentos desconfortáveis surgem, entretanto, quando estou sozinha, antes de dormir. De muito mal gosto esse modo de contar carneirinhos pra embalar o sono! É sinal de que estou ficando velha mesmo? Quero dizer, de cabeça, porque é evidente que, fisicamente, não sou mais nenhuma garotinha. Já ultrapassei os cinqüenta há muito! E uma estrela cadente risca o céu perdendo-se atrás das copas frondosas das árvores. É o que basta pra me distrair e me por em outra vibe!
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3 comentários:

Miriam Chaudon disse...

Beatriz,que viagem maravilhosa e quantas aventuras incríveis! Suas memórias estão povoadas de lindas lembranças....

Miriam Chaudon disse...

Bea,já estive lendo e apreciando suas aventuras pelos canions. Eu já leio seu blog faz um tempinho.
Quando o Pedro me passou seu e-mail que eu reparei que você era a Bea da Cuca de Prata!
Beijos.

Paulo Roberto - Parofes disse...

Engraçado ler seus comentários acerca da subida e descida dos passos serem perigosas pros porteadores, um tempo atrás, meses eu acho, li sobre um sherpa que escorregou com uma carga de uns 50 a 60 kgs e caiu um pouco, só uns 6 metros, mas a carga quebrou a perna dele em 4 lugares. Pra vc ver, esse povo se arrisca demais pra sobreviver...Infelizmente, eles não têm muita opção né...
Mas o lugar e as vistas certamente abstraem, cacete...que belas vistas!