quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Urubus: os lixeiros aéreos

Às 8 da matina, o sol sai detrás das montanhas e banha com sua luz dourada o vilarejo. Os tetos das barracas exibem uma fina película de neve que caiu durante a noite. Incrível a quantidade de corvos planando sobre a vila. Tenho a impressão de que aqui, em Khare, há mais dessas aves do que nas outras aldeias. Seus bicos, longos e aduncos, singram o ar perpendiculares ao solo. Diligentes, os pássaros de plumagem negra e luzidia voam de seca pra meca em busca de restos de comida. Me dou conta, então, de que os corvos atuam como lixeiros, já que se alimentam de toda a sorte de detritos alimentícios deixados não só pelos porters como por nós turistas. E quer coisa mais chique do que esses lixeiros aéreos dando rasantes elegantes pra pegar o alimento deixado ao léu? Será por isso que os nepaleses nem se dão ao trabalho de observar certos cuidados de higiene, já que os corvos fazem aquilo que eles deveriam fazer? Boa pergunta, Beazinha, boa pergunta!! Ponto pra ti!! Após o desjejum, subimos Pasang e eu (Nima nem Carol nos acompanham porque segundo informação de Carol, a dedicada enfermeira, ele, gripado, passou a noite febril) a crista duma montanha para atingir seus 5.200 m. A trilha é de tirar o fôlego mas necessária à aclimatação. Paro duas vezes...uuufaaa, bem puxada essa ladeirinha, urge descansar as pernas. Pasang senta numa pedra enquanto espera que eu recupere as forças. A altitude nem cócegas faz no meu bom guia que caminha em ritmo, enganadoramente, vagaroso. Na verdade, Pasang não desperdiça suas energias a exemplo de Nima, que fica se exibindo pra Carol, disparando na frente. O baixinho adora bancar o montanhista fodão, dando largas passadas com aquelas suas pernocas curtas e grossas. Não à-toa, o tampinha está gripado. É isso que dá gastar energia desnecessariamente. Quando crescer, quero ser uma sherpa igual a Pasang!! Avisto, tremulando ao vento, bandeirinhas de orações budistas, anunciando, graças a deus, a chegada iminente ao cume do “morro”. A visão daqui de cima é muito mas muito bacana mesmo: no vale, ao fundo, as imponentes Chat Pate e Kusum Khang, abaixo, espalhadas ali e acolá, manchas verde-turquesa indicam a existência de vários pequenos lagos cuja coloração vibrante espanta um pouco a monótona tonalidade acinzentada dos maciços rochosos. À frente, uma montanha em forma de ostra exibe uma boa quantidade de neve cobrindo suas encostas estriadas. E o céu dum azulão azuladésimo!! Estou com muito apetite no almoço. Também pudera! Depois dessa pernada, comeria qualquer coisa que me servissem. Entretanto, Nara não deixa a peteca cair. Com seu cardápio variado, nutritivo e saboroso, serve sopa acompanhada dum pão frito e adocicado. Receita tibetana. Lembra a massa dos nossos bolinhos de chuva apesar do formato diferente. Estou preocupada. Não muito mas o suficiente pra tomar um antiinflamatório: meu pé direito, desde ontem, acusa dor. Creio que é tendinite de esforço. E o nariz não pára de pingar embora já não esteja mais obstruído. Minha voz levemente fanha denuncia que estou ainda resfriada. Desde a reprimenda em Tangnag, Nima vem me saudando com uns ois apertados. Do tipo “sou obrigado, fazer o quê?” Hoje, porém, pra minha surpresa, se faz simpático. Não tardo muito a descobrir a razão de tão agradável comportamento. Quer saber se aceito ficar mais um dia aqui em Khare. Um dos motivos seria evitar as 50 pessoas que irão tentar cume no mesmo dia de nossa ascensão. O segundo seria pra se recuperar um pouco da gripe antes do ataque ao Mera Peak. Como não poderia deixar de ser, concordo, é claro. Se bem que minha adesão à proposta não seja por motivos nobres, tipo peninha dele. Não quero, caso eu faça cume, encontrar muvuca semelhante à que encontrei quando alcancei a cumbre do Huayna Potosí. Meio decepcionante o congestionamento no topo da montanha boliviana. Mal dava pra se mover ou tirar fotos sem que algum cabeção se pusesse à minha frente, sacando fotos também. O dia, que estava esplêndido, começa a nublar após o almoço. Lentamente, as nuvens vão se acumulando. No início, filtram, sem muita parcimônia, os raios solares, até que não resistem e toldam por completo céu e sol. O resto da tarde permanece cinzenta e fria, muiiiito fria. Um sacrifício deixar o calor do saco de dormir e caminhar até a casinha pra fazer xixi (e foram três as minhas idas ao infecto banheiro). Sem nada para fazer, prossigo na leitura dos Ressuscitados. Cansada de ler, resolvo dar um rolê pra espairecer as idéias e estender as pernas. Sentados, em frente dum armazém, um casal. Ele exibe um ar cansado, desanimado. Não resisto e lasco a inevitável pergunta quebra-gelo “where are you from?” Ele é escocês, de Fife!! A cidade natal de Ian Rankin, autor do policial que há pouco lia na barraca. O homem conhece também alguma coisa da obra de seu conterrâneo. Infelizmente, ambos não conseguiram fazer cume. Ele não esconde sua frustração pelo insucesso. Ela, nem um pouco abalada, cuida de consolá-lo. Três montanhistas que lograram êxito na subida ao Mera acabam de chegar à aldeia. Suas fisionomias satisfeitas de vencedores incomodam um pouco o homem, reação que não me passa despercebida, já que observo atentamente a cena. Ele encaçapa sua inveja e, generoso, escuta atento o relato dos conhecidos. Reflito que este homem também não deixa de ser um vitorioso ao iniciar um processo de elaboração de sua frustração e inveja. Afinal, ele tem todo o direito de se sentir chateado durante um tempo. Cheio de esperança, gastou dinheiro, enfrentou uma viagem cansativa pra, no final, não fazer o cume do desejado Mera Peak, é de doer mesmo!! Nara, uma versão masculina de Cherezade na culinária, continua encantando meu paladar ao apresentar na janta um pastel recheado com verduras (lembra aqueles rolinhos chineses com repolho). Nima, durante a refeição, informa que seguirá o roteiro original. Amanhã, então, simbora pro acampamento-base do Mera Peak. Ao me dirigir pra barraca, o brilho da lua crescente destaca-se discreto em meio ao céu estreladíssimo. Límpido, o firmamento encontra-se despido de quaiquer rastros de nuvens que o encobrira a tarde toda. E, mais uma vez, escuto o troar duma avalanche vinda das bandas do Mera Peak. Será um sinal? E de que tipo? Daqui a dois dias vou saber. Até lá, só resta aguardar...

2 comentários:

Paulo Cesar Fabro disse...

Uma dúvida me assalta: apenas Nima e Bia estavam gripados ??? Um passou para o outro ou o outro passou para o um??
Ou vice-versa ???
Será que Nima, o pegador do Himalaia, frequantara também a barraca de Bia ???
Assim estariam explicados os post enciumados em relação à Carolzinha Sweatheart...
Dúvidas... Dúvidas...

Bea disse...

eu nem vou te dar explicação, babaca!! aiaiaiai....não mereço uma coisa dessas já quase no apagar das luzes!!! PE - CE, VAI TE CATAR, MEU!!