quarta-feira, 1 de julho de 2009

Laguna Churup

Último dia de aclimatação em Huaraz. Assim, vamos fazer um passeio até a laguna Churup. O desnível a ser enfrentado é de 1.000 m. Estou reagindo muito bem à altitude desde que cheguei a Huaraz. Algumas dores de cabeça facilmente debeladas com analgésicos. Aliás, dizem que, quanto mais velho se é, mais fácil se torna a aclimatação. Pelo menos isso a meia-idade me deve, uai!! Integra o grupo, além de Arantza e Juan, Milton, paulista, sessentão, que também fará o trekking de Huayhuash conosco. Percebo de cara que o japa é gente fina. Suas pálpebras caídas dão-lhe um olhar de permanente sonolência. Unem-se a nós, ainda, outro casal basco, Enrique e Carmen. Embora sessentões são super bem conservados. A mulher, com suas longas pernas, distancia-se facilmente do grupo, seguindo-lhe as elásticas passadas o marido um pouco mais atrás. A caminhada começa às 8:30, a partir de Llupa, pequeno povoado dedicado ao plantio de cereais e criação de ovelhas. As mulheres, com raras exceções, vestem-se com trajes típicos. Na cabeça, chapéus de cores neutras, feitio masculino, encimado por uma copa alta, adornada com uma flor do mesmo tecido. Algumas o cobrem com um pano colorido. Cada região tem sua indumentária própria e aqui é usado esse tipo de chapéu. Seus lisos cabelos apresentam-se presos em uma ou duas tranças que caem compridas e finas até o início da lombar. Retalhos douradas de plantações já maduras de trigo e cevada destacam-se em meio ao verde dos campos. E ao fundo os nevados de Huantsan e Rurec destacam-se no azulão dum céu limpinho de nuvens. O início do trekking até Pitec é fácil, dura duas horas. Descansamos um pouco, antes de continuarmos a caminhada. Já dá pra se avistar a quebrada de Quilcayhuanca com suas ásperas e escuras paredes de granito e a de Cojup, onde impera o nevado Ranrapalca (6.200m). Entre as duas quebradas, situa-se a laguna Churup. A partir daqui a coisa complica porque o terreno se torna cada vez mais acidentado e íngreme num percurso de 465 m até a laguna. Arantza e Juan, quando percebem a subida que têm de enfrentar, desistem. E o motivo deve-se a um golpe à traição que Juan sofreu na região do cóccix, desferido por um carneiro mal-humorado, ontem, durante o passeio a Ichic Willkawaian. Queixa-se o coitado de sentir “muchos dolores em mi culo”. Resolvo enfrentar os tais trepa-pedras. São quatro pequenos escalões, um deles com aclividade de 2º grau. Dão certo trabalho, em particular os dois últimos, pois em alguns trechos as águas congeladas de pequenos córregos tornam escorregadio o terreno, exigindo cuidado por onde se pisa. Atingimos, depois de alguns momentos tensos, a laguna de Churup cuja altitude beira os 4.450 m. Como meu lanche, desfrutando, bem a frente, a temível parede norte do nevado Churup (5.495m), uma pendente com 80º de inclinação, motivo por que a ascensão se faz pela sua face sul. Nas águas verdes da laguna, nadam placidamente alguns patos silvestres. O céu, aqui em cima, coberto de nuvens cinzentas, aumenta a sensação de frio reforçada por um ventinho cortante que resolveu logo agora soprar.....merda! Detesto vento, arghhh. Em certos pontos da laguna, espessos limos verde-claro jazem sob a água. Parece cabelo de punk. Iniciamos então o descenso, situação mais temida por mim do que a subida. É então que per-ce-bo a bronca em que me meti, vendo a queda livre que me espera caso eu perca o equilíbrio e me estabaque lá embaixo! Alfredo, nosso guia, conseguiu uma corda, de modo que a amarra em nossas cinturas enquanto fica no alto, segurando-a até que alcancemos terra firme. Coisa mais querida esse guri! Funcionou como uma proteção fixa! Finalmente, os escalões são vencidos! Depois disso, só curtição, admirando as flores durante o trajeto até Llupa. Detecto um odor familiar, muito familiar, e logo descubro de onde vem: duma moita de.....macelas! Nunca imaginei encontrar essa erva aqui. E há aos montes tal arbusto cujo nome em quechua significa quesqui (sonoro né?). No final do trekking, próximo a ao povoado, índias pastoreiam de volta aos currais ovelhas já que os rebanhos são levados pra pastar em locais afastados da aldeia. Presencio então um embate singular entre dois carneiros. O de pelagem escura desfere testadas desapiedadas no companheiro que pouco reage diante da fúria do outro. As índias riem da cena e só intervêm quando percebem a seriedade da contenda. E mesmo assim o invocado carneiro preto volta a dar marradas no seu já vencido opositor. Coisa de macho brigando pela liderança do bando. Ou talvez se exibindo pruma ovelha que ele está no bico. Já são 17:00 e os moradores que se encontravam, até então, nos campos trabalhando, retornam pros seus lares. Tão bucólico o Peru.
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