quinta-feira, 2 de julho de 2009

Luar em Matacancha

O microônibus que nos levará a Matacancha, abarrotado de bagagens e víveres de todo gênero, (com direito até a galinhas vivas, espremidas, as pobres, em caixotes de papelão), não comporta toda carga em seu bageiro. Dessa forma, muita da tralha é acomodada no tejadilho do veículo e, ainda, nos bancos traseiros. Além do meu grupo e do casal Enrique e Carmen, cujo trekking será de apenas 7 dias, integram a expedição uma turma, composta por 7 homens e 2 mulheres, todos igualmente sessentões e bascos. Aliás, uma invasão desse povo no Peru. “Somos de la Euska Herria”, corrigem aborrecidos quando os confundimos com espanhóis. Arantza e Juan são os mais jovens da tropa, seguidos por esta que vos fala, com seus já robustos 56 aninhos. Os três grupos pertencem a mesma agência - Nuestra Montaña - e a equipe de apoio compõe-se de 2 cocineros, um ajudante de cozinha e 4 arrieros, conduzindo 21 mulas e dois cavalos para resgate. Quatro guias, incluído aí Sergio, o dono da agência. Partimos de Huaraz às 10:00 num sobe e desce constante através dos altos cerros que compõem as cordilheiras Blanca e Huallanca. O traçado seguro da rodovia rasga em largas curvas os flancos das montanhas onde se espalham, em assimétricos terraços, propriedades rurais dedicadas ao plantio das numerosas espécies de cereais (35 variedades de milho) e tubérculos existentes no país (só de batatas há, pasmem, 4 mil tipos catalogadas). O Peru, preservando sua vocação agro-pastoril, mantém, assim, o forte elo com seus remotos ascendentes indígenas. Pequenos vilarejos, surgidos em função de atividades de mineração, localizam-se estrategicamente à beira da rodovia. Após duas horas de viagem, já se avistam os nevados da cordilheira Huayhuash, situada 50 km ao sul da cordilheira Blanca, cuja extensão perfaz exíguos 30 km, no sentido norte-sul. Aliás, desde que saímos de Huaraz, o cenário, de tão imponente, não permite que se desgrude o olho da janela. Um suceder vertiginoso de montanhas entremeadas por nevados que despontam sobre as veludosas e verdejantes encostas. Ós de exclamações são ouvidos constantemente, e os obturadores das máquinas não cessam de ser disparados durante quase todo o trajeto. Fazemos uma parada em Huallanca às 13:45 para almoço. Encravada entre morros atapetados de grama, o lugarejo, embora pobre, exibe, como toda cidade sul americana de origem espanhola que se preze, a infalível Plaza de Armas em cujo entorno se dispõem a igreja e as melhores residências da cidade, encimadas no andar superior pelos tradicionais balcões de madeira. Infelizmente, a tradicional sopa de cabeça de ovelha, prato típico peruano, anunciado no menu afixado num cartaz à entrada do restaurante Milán, não está disponível. Chateada em não poder provar tal petisco, resigno-me e peço à paciente mamacita, proprietária do estabelecimento, truta cujo acompanhamento é salada, arroz e purê feito duma vagem semelhante à ervilha. A estrada, a partir de Huallanca, é de chão batido, estreita e sinuosa demais. Lembra-me um pouco aquelas enfrentadas no Paquistão ano passado. Às 16:20, chegamos em Matacancha, situada a 4.180 m de altitude, ponto de partida do trekking. Já lá se encontram outros grupos com suas barracas montadas. Estamos num vale de onde é possível avistar-se os nevados Ninashanca e Rondoy. Ao contrário de Huascaran que é Parque Nacional desde 1978, Huayhuash é apenas zona reservada, gozando, assim, de menos recurso e proteção oficiais. É servida, na barraca-refeitório (além desta, há a barraca-cozinha), chá e café e, dentro duma cumbuca, folhas de coca pra quem quiser usá-las. O céu, até então limpo, começa a se cobrir de grossas nuvens, e não tarda muito despenca uma chuva forte, graças a Deus, ou melhor, a São Pedro, de curta duração. Quando vou pro refeitório, dou de cara com uma linda lua, desfilando branquela seu já robusto crescente num céu crivado de estrelas. Durante a refeição (trutas), Sergio conta que o Yerupajá (6.634 m) - o segundo pico mais alto do Peru -, desde 2001, quando Quintero solou-o na face oeste, nunca mais foi escalado. É perigosíssimo devido não à verticalidade de suas paredes (apenas 60º de inclinação), e sim por causa das avalanches que despencam de suas encostas. Já sua face leste, embora ocorram menos avalanches, por ser mais vertical, é mais exigente, técnica porque envolve escalada em rocha e gelo. Segundo Sergio, a face leste das montanhas de Huayhuash tem menos precipitação de neve que a oeste. Outra montanha famosa desta cordilheira é o Siula cuja face oeste nunca mais foi escalada depois das desventuras protagonizadas por Joe Simpson e Simon Yates. Enquanto me encaminho pra minha barraca, vejo ao sul montanhas cobertas de neve. Um esplendor branco realçado pela luz do luar. Estou como gosto: em meio à natureza, rodeada de silêncio e formosura! E pra completar minha felicidade, vou dormir sozinha na barraca, ulálálá!! Coisa boa, não dividi-la com ninguém. Prefiro assim...

2 comentários:

Parofes disse...

Eita mundão!
Aguardo aqui ansioso por notícias e mais fotos das montanhas tanto citadas aqui!
Já faz bastante tempo, ainda não terminou o trekking?
Abraços!

Paulo

Bea disse...

já terminei o trekking, sim!! estou organizando o material pra começar a largar um post por dia (essa é minha intenção......se vou conseguir só o tempo dirá).
abração, meu jovem!!