quinta-feira, 9 de julho de 2009

Paso Tapush

Quando acordo de madrugada pra fazer xixi (o relógio aponta, exatamente, 1 e 30), a lua cheia, num céu despejado de nuvens, realça com seu brilho prateado os cerros que circundam o acampamento, destacando-se o lindo monolito rochoso Padre Eterno. O pueblito de Huayllapa, situado a 3.500 m, é o lugar de menor altitude onde acampamos até agora. Assim desfrutei duma boa noite de sono, já que o frio não foi tão severo quanto o de noites anteriores. De manhã, um sol radioso, brilhando num céu de brigadeiro, torna amena a temperatura. Aqui, em Huayllapa, banho quente é luxo pra poucos. Ao que parece, só uma casa tem tal conforto. Daí por que os habitantes são tão sujinhos. Eu, caso morasse aqui, também, enforcaria o banho diário. Nem pensar em enfrentar água fria todos os dias. Bem fazem eles! Saímos às 8 e 20 da vila e, durante quase duas horas, percorremos as estreitas e sinuosas quebradas Milo e Huatiaq. Muita vegetação em seu entorno, destacando-se, em meio aos arbustos floridos, a belezinha amarela das calceolárias, vulgarmente conhecidas como sapatinhos de vênus. Percorre as duas quebradas um rio, cuja agitada corredeira turbilhona veloz entre as pedras ancoradas em seu leito. Sua nascente origina-se dum dos glaciares que pendem das largas e espalhadas encostas do nevado Ancocancha, situado 3 km além. Durante o trajeto, mulheres, montadas em mulas, envergam, vaidosas, seus chapéus enfeitados com coloridas flores artificiais (algumas delas as usam naturais, colhidas dos arbustos que vicejam em ambos os lados da estradinha). São acompanhadas por maridos e filhos que caminham junto à montaria. Dirigem-se às plantações de okas, já que estes tubérculos estão no ponto de serem colhidos. À tardinha, retornam pras suas casas em Huayllapa. A subida é íngreme, e ao sairmos do confinamento da última quebrada, a de Huatiaq, despenca, dum desnível do terreno, uma cachoeira altíssima, formada pelo rio que se origina das águas de degelo do glaciar Ancocancha. Agora, já em espaço aberto, avista-se o cerro Juituhuarco (5.449 m) com sua cumbre e encostas nevadas. Eu que largara na frente pra não perder o ritmo, já que Arantza e Milton, como sempre, sobem devagar, chego às 13 horas aos pés do Ancocancha onde apontam suas duas cumbres. O céu, tão límpido pela manhã, agora já se encontra ocupado aqui e ali por pesadas nuvens brancas. Encontro, já almoçando, o grupo dos 8. Dessa feita, os cozinheiros prepararam massa com atum. Conversando com Otavio (irmão de Vivi, e guia, também, do bando dos 8), descubro que Richardi me repassara uma informação errada (e já não era a primeira vez que o guia se enganara). A montanha que eu supusera ser o Diablo Mudo é, na verdade, o Ancocancha. Quando Richardi chega com o resto do meu grupo, chamo sua atenção pelo equívoco. Os demais guias, juntamente com os dois cozinheiros, tiram sarro do jovem que se mostra, visivelmente, embaraçado. Fico com pena - tadinho, afinal, é ainda um aprendiz -, e trato de amenizar a situação, explicando que Richardi, devido à inexperiência (afinal, é sua primeira guiada no circuito Huayhuash), não tem obrigação de saber com exatidão os nomes das montanhas. Porém Arantza e Juan tratam de meter o bedelho na conversa e tomam o partido do guri, argumentando que ele só necessita saber as direções certas a seguir, pouco importando o nome dos lugares. Até meu compatriota Milton (jesus cristinho, dai-me paciência!) resolve soltar seu pitaco e, quando reiniciamos a marcha, dá uma letra pra eu pegar menos pesado com o rapaz. Respondo, asperamente, que ele não se meta em assuntos alheios (sou meio barraqueirinha, sim!). Cria-se, assim, um clima um tanto desagradável, e mantenho pelo resto do caminho um silêncio meio emburrado. Se eles pretendem me transformar na vilã dos pobres e oprimidos, deram com os burros n’água. Ah...essa não!! Penso até que, ao exigir mais do jovem guia, ajudo-o a conhecer melhor a região por onde continuará fazendo suas guiadas, não é mesmo? Aliás, já discutíramos sobre isso, eu, Juan e Arantza. Eles são de opinião que um guia – porque assim é na Europa, eles querem que aqui seja igual – só precisa ter ciência das trilhas; já eu penso o contrário, não basta apenas conhecê-las, tem de, ainda, prestar informações corretas. Uma coisa é ser guia e outra condutor. Richardi estuda pra ser guia, portanto, não é um mero condutor, não! Embora de curta duração, cai, em meio à tarde ensolarada, uma precipitação de aquanieve. Passamos por uma cruz que marca o local onde bandoleiros assassinaram uma estrangeira e um limenho vindos de Huayllapa. Essa foi uma época em que eram freqüentes os roubos de turistas por nativos assaltantes. Hoje em dia, felizmente, isso não mais acontece. Após o paso Tapush (4.750 m), é possível avistar, agora sim, o Diablo Mudo (5.223 m), descortinando-se lá embaixo, no vale, a laguna Susucocha. O tempo começa a fechar e somos surpreendidos com a queda brusca duma nevasca que dura uns bons 30 minutos. Embora estejamos cansados, tratamos de apressar o passo até o acampamento Gashcapampa, montado no interior dum curral, onde chegamos às 15:20, encontrando o chão e tetos das barracas branquinhos da neve que há pouco caíra. E o sol volta a brilhar, iluminando o Diablo Mudo (5.223 m) e outros belos cerros despidos de neve, situados ao redor do acampamento. E o frio tá pegando, prenunciando uma noite daquelas. Meio entediada de estar na barraca, vou até o refeitório. O seu interior, aquecido pelos fogareiros, está bem quentinho, deveras agradável. Sento num caixote e fico de papo com os cozinheiros e arrieros enquanto espero a hora da janta. E, assim, surge a brilhante idéia de encher com água quente uma garrafa de plástico de 500 ml pra aquecer meus pés quando for me deitar. É o que me salva da gélida noite, ao ressuscitar as antigas botijas usadas por minhas tias-avós há 50 anos atrás. Graças a essa enjambração, consigo adormecer com relativo conforto. P.S.: Sou obrigada a fazer um mea culpa em relação ao meu guia Richardi. Vejamos por quê: trocando informações via email com um dos bascos do grupo dos 8 - Juan - fui informada de que, na verdade, Richardi, e não Octavio, tinha razão quando afirmara que o nevado que eu vira desde que saíra da quebrada Huatiaqa até o ponto onde paramos pra almoçar era mesmo o Diablo Mudo. Putz grila, meu puxão de orelha no guri foi desnessário. Perdóname, muchacho!

2 comentários:

Parofes disse...

Belo texto, as montanhas então nem se fala! Estou acompanhando cada passo do trekking que pelo que percebi, não deixou nadíssima a desejar em termos de beleza natural!
Aguardo novos posts!

Expedição Andando por aí... disse...

Putz! Tadinho do Richard! Mas concordo com você quando diz que guia tem que ser guia e não apenas condutor.
Estou amando seus relatos!!!!
Carla