sexta-feira, 3 de julho de 2009

Paso Cacananpunta

Uma noite de céu estreladíssimo é a recompensa quando sou obrigada a sair da barraca, na madrugada, atendendo aos apelos da minha bexiga aflita. Ao amanhecer, a temperatura que despencara, durante a noite, abaixo de 0º C, deixa o solo e os tetos das barracas branquinhos de neve. Hoje é o primeiro dia do trekking e estou ansiosa e excitada com o que me aguarda. Meus pés e mãos doem de tão gelados. Ainda há pouco no refeitório, comi de luvas, tão baixa é a sensação térmica. Finalmente, às 07:40, deixamos o acampamento Matacancha. O grupelho dos nove bascos, liderados por um homem alto, de porte empinado e fartos cabelos brancos (tem toda pinta de general da banda), toma a dianteira, seguidos de Enrique e Carmen. Nosso grupo é o lanterninha. Inicialmente, toma-se o rumo sul pra logo nos internarmos na zona leste da Cordilheira Huayhuash. Embora em movimento, demoro quase uma hora pra aquecer pés e mãos tão intenso é o frio. O sol de inverno, reinando num céu limpinho de nuvens, não tem, contudo, força suficiente pra me aquecer. Em certos trechos da trilha, o solo encontra-se coberto de cristais de gelo. À medida que vamos subindo em direção ao Paso Cacananpunta, vejo o vale onde estávamos acampados se distanciar mais e mais até que, numa curva da trilha, some por completo. A subida é bem puxada e Milton e Arantza param diversas vezes com ar cansado. Devem estar sentindo os efeitos da altitude. Resolvo não acompanhá-los nas paradinhas, e sigo em frente de modo a evitar que meu ritmo de caminhada seja quebrado. Encontro uma jovem inglesa de bochechas coradas que pra, minha surpresa, fala portunhol. Explica que aprendeu português na Bahia onde morou durante o tempo de permanência de seu visto. Obrigada a abandonar o país porque o prazo de validade vencera, pretende, depois dum giro por alguns países da América do Sul, retornar à Salvador. Uma subida áspera entre paredões de rocha meio azulada até o Paso Cacananpunta (4.700 m), onde chegamos às 10 horas. Paramos e comemos nossos lanches. Tanta comida servida que até dei algumas coisas pra Richardi. Afinal com 18 aninhos, nosso imberbe guia, ainda se encontra em idade de crescimento. Avista-se do paso a laguna Roja cujo nome origina-se da cor avermelhada de suas águas. Bandos de mulas guiadas por arrieros passam por nós em passo célere. Depois da subida, uma descida até uma planície; mas como tudo que é bom dura pouco, nova subida bem difícil, avultando à direita uma muralha de gigantescos paredões de rocha. E surge, então, a magnífica face nordeste do nevado Jirishanca (6.094 m) com suas duas cumbres: a sul, mais alta, e a norte. Uma fina agulha rochosa, a Gasha Punta (espinho, em quechua), atrai minha atenção por seu formato fálico. Com certeza, lembra uma pica de pedra! Paramos novamente para descansar e admirar a paisagem, antes de enfrentar outra descida, sucedendo-se novo ascenso. Já é visível o acampamento, lá embaixo, no vale. Um íngreme declive conduz, finalmente, até o pampa onde as águas de degelo formam uma pequena cascata. O rio Janka, cuja nascente é na laguna Mitucocha, serpenteia faceiro através da planície. Desistimos de ir até esta laguna, situada aos pés do Jirishanca, pois nosso pequeno grupo está sentindo as seis horas de dura caminhada cujo percurso foi de 7 km. A vegetação do pampa é bela: no terreno coberto de capim, crescem minúsculas flores brancas, amarelas, azuis e lilases. Chego ao acampamento Mitucocha às 13:45 e as tendas já estão montadas pois toda a equipagem carregada no lombo de mulas chegara bem antes da gente. Aproveito o sol da tarde e lavo o rosto, pescoço e pés no rio. Isso basta pra minha higiene, afinal, faz só dois dias que estou sem tomar banho, portanto, ainda relativamente, limpinha. Reunimo-nos, eu, Arantza, Juan, Milton, mais Vivi, guia do grupo de 9 bascos, no gramado, e sentados ao sol, comemos pêssego, mandarina (bergamota), pistache, além de yookan - doce japonês, feito dum feijão especial - oferecido por Milton. A tardinha cai e com ela vem uma chuvinha que inicia mansa, vira queda de gelo, e aumenta de intensidade porque percebo a vibração das gotas d’água batendo com força no teto da barraca. Aproveito e retomo a leitura do Pólo Sul, empacada desde minha viagem ao Paquistão. Abro a barraca e vejo depositados, na grama, montículos de gelo. O céu, totalmente, encoberto. Tanto o Jirishanca quanto o Rondoy e o Ninashanca, situados bem à frente da barraca, encontram-se velados por uma névoa, mal se percebendo suas paredes. Sergio já tinha nos avisado que o clima este ano não está lá dos melhores: bonito até metade da tarde quando então começa a chuva ou queda de neve. Na janta, é servida galinha ensopada. Está trigostosa. Os jovens cozinheiros têm demonstrado boa mão pros temperos. Quando saio da barraca-refeitório, a noite surpreende: céu estrelado e temperatura menos fria que a de ontem. Oxalá, os prognósticos de Sergio em relação ao tempo se confirmem e o dia, amanhã, se comporte bem!

Um comentário:

Parofes disse...

Engraçado, o blog não está mostrando pra mim as suas atualizações!
Olhe, belas fotos...Babei aqui com vontade de participar da aventura!
Abraços