terça-feira, 1 de julho de 2008

Vidinha boa essa!

Quando Mussa vem me trazer o chá, bem quentinho, constato mais uma vez que está nevando. São 6 horas. Tudo branco dos flocos que caem desde a madrugada. Já na barraca, comendo meu desjejum, sou informada de que há dois tipos de paratha: o frito e o cozido, ambos besuntados, depois de prontos, com um pouco de óleo. Já o nan é uma outra variante de pão feito com a mesma massa (farinha, água e uma pitada de sal), cozido na pedra. De manhã, eles tomam um chá, feito de ervas, cuja cor é rosa-telha misturado com leite e temperado com sal. Explicam que faz bem pra combater os efeitos da altitude. Deixamos Goro I às 8:15, e o tempo continua nublado, se bem que já não faz tanto frio. Também, pudera, estamos perdendo altura. Reencontro as famigeradas pequenas moscas e até mosquito dá pinta a 3.800 m!! Curto demais os porters vindo no sentido contrário com seus cavalos e burricos, alguns pastoreando cabras. Seus gritos de advertência ou incentivo à bicharada ecoam no ar. Curioso é o jeitão de os paquistaneses se cumprimentarem: afora, apertarem-se as mãos, encostam uns nos outros seus ombros direitos. O tal porter que se agregou ao nosso grupo vem, desde ontem, grudado em mim tal qual uma sombra. Ele me empurra nas subidas mais íngremes e me acode quando eu tropeço. Se eu largo meus bastões, os segura. Pára sempre que eu paro. Um encanto de criatura, embora me sinta constrangida com sua solícita presença porque, cheia de gases devido à alimentação e à altitude, sinto uma vontade infernal de peidar. Com ele nos meus calcanhares, fica difícil expectorar tanta flatulência barulhenta. A princípio, como não tenho outro jeito deixo escapar, vez por outra, um discreto pum. Depois dum certo tempo, nem me preocupo mais se ele escuta ou não. Urge aliviar a pressão insuportável, na minha barriga, daquela algazarra gasosa. Cada vez gosto mais dos porters: são muiiitooo legais. O mais velhos deles, o que me ofereceu sopa em Concórdia, sempre que paramos pra lanchar, trata de arranjar um cantinho maneiro pra eu descansar. Não tenho queixa de nada. Conquanto cansada – é um trekking pesado - estou trifeliz. Lastimo, é claro, não termos feito a travessia do Gondoghoro La (La significa passo). Há dois anos, encontra-se fechada ao trekking devido à abertura, no solo, de grandes fendas, motivo por que estou sendo forçada a refazer o mesmo caminho da ida. Estou curtindo tanto, não só a paisagem quanto as pessoas, que nem perco muito tempo lamentando tal imprevisto. Durante o trajeto Urdukas-Khaburse, fotografo e filmo várias das flores (há margaridas aqui!) que vicejam ao longo da trilha. Filosofo, enquanto caminho, a seguinte pérola: pois é Biazinha, sobe-se pra descer e desce-se pra subir.....hehehe. Quando chegamos em Khaburse, às 14:45, o tempo mantém-se, ainda, nublado. À tardinha, abre um sol legal tanto que eu, deitada no interior da barraca, retiro dois blusões e troco a calça de fleece por uma de algodão. Como meus joelhos estão a reclamar do esforço, resolvo, por bem, descansar mais um pouco. Assim, retorno à leitura do Pólo Sul. Muito agradável a narrativa do Capitão Amundsen. Extremamente minucioso, ele descreve com riqueza de detalhes a permanência durante os meses passados na Barreira (estou na metade do livro, ainda, na fase da preparação da expedição ao Pólo, cujo início será na primavera). Escuto intermitentes pingos de chuva no teto da barraca. Arre, que droga! Ao lado, o córrego escorre por uma laje formando uma minicascatinha. Agradável a beça o ruído. Venta, pois as paredes de nylon da barraca inflam a cada rajada de ar. Ponho o nariz pra fora e constato que a chuva se foi....aleluia! Vou até a barraca-refeitório, e Ali, sentado do lado de fora, puxa um banquinho pra mim. Acomodo-me ao seu lado e lá ficamos nós a prosear. Aproxima-se uma americana, jovem ainda, dona de lindo olhos azuis. Também está só. Convido-a para que se junte a nós. Conversamos um pouco, não muito, meu inglês não permite altos vôos, o suficiente, porém, pra saber que ela, de saco cheio de seu monótono emprego de bancária, decidiu dar uma banana à sua vidinha convencional e se aventurar mundão afora. Muito agradável a Anne. Temos agora uma rotina: jantamos, tomamos chá, fumamos e conversamos. Hoje consegui fazer com que Niaz, Muhammad e Mussa comessem juntos comigo. Tão desagradável vê-los à mercê do término de minha refeição pra poderem, então, se alimentar! Quando venho para minha barraca dormir, noto o céu, limpo, crivado de estrelas.....talvez a promessa de um belo dia?
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