domingo, 6 de julho de 2008

Lago Upper Kachura: o autêntico Shangrila

Ali, hoje, abandonou suas roupas de ocidental e veste shalwar qameez branco. O roteiro inclui a visita a dois lagos: o Satpara e o Lower Kachura Lake, mais conhecido como Shangrila pois foi construído em seu entorno um complexo turístico chamado Shangrila Resort. Ali pergunta se Niaz pode ir conosco. Faço sinal para que ele se junte a nós dentro do jeep. O trajeto, curto, não dura além de uma hora. À entrada, cobram 200 rúpias (não dá 5 reais). Não entendo por quê, talvez pra impedir o ingresso dos paquistaneses pobres, já que esta quantia é significativa pra eles. Numa das pontas do lago, destaca-se um edifício de estilo pagode, nítida influência chinesa: é o restaurante e pode ser freqüentado também pelos não-hóspedes. O local é bem cuidado, gramado impecavelmente aparado, variedade de flores colore os canteiros, destacando-se rechonchudas rosas. Amplos chalés com varandas. Arrisco uma espiada pro interior de um deles, decorado com móveis de madeira escura, pesadões, sóbrios. A decoração de interiores aqui no Paquistão não é lá das mais atraentes, tudo de gosto....hummmm....meio duvidoso, vá lá, cafona mesmo! Shangrila é point no verão e os paquistaneses abastados adoram vir pra cá. Um bote singra as águas calmas do lago, conduzindo os remos um homem, vestido à ocidental; na popa, uma mulher e duas adolescentes, envergando as três shalwar qameez, conversam entre si. Uma elevação rochosa à borda do lago projeta sua sombra nas águas. Assemelha-se à figura duma colossal baleia. Caminhando nos jardins, um homem e duas mulheres, ambas vestidas de burkha preto. Elas lançam em minha direção olhares severos. Será porque não uso sutiã e tenho os braços desnudos? Só pode! Apesar de calmo, o lugar não me atrai. Já vi hotéis bem mais atraentes encravados em lugares mais belos. Contudo, pros paquistaneses, este lugar é considerado um deus nos acuda em termos de conforto e beleza.....enfim, cada um com seus gostos. Prefiro mil vezes o desconforto da barraca durante o trekking no Baltoro glaciar. Ali descobre, conversando com um segurança, o caminho pra outro lago, e lá vamos nós pro Upper Kachura Lake. Atravessamos uma ponte cujo rio, de onde afloram enormes blocos de rocha, lambidos por céleres corredeiras, exibe esverdeadas e límpidas águas. À volta, montanhas e mais montanhas. Chegando à vila de Kachura, o jeep pára, e observo a conversa animada entre o motorista e alguns aldeães. Intuo que estão falando de mim. Não dá outra. Ali, meio constrangido, explica que tenho de cobrir os braços, não os permitem desnudos (olha só: e estou com camiseta de manga curta!). Prevenidamente, carrego sempre na mochila uma camiseta de manga comprida caso esfrie. Visto-a e somos liberados. Passam por nós algumas vans onde no tejadilho vão aboletados alegres passageiros. O 4x4 segue através duma estradinha de chão batido muito safada. Sacolejos inevitáveis durante o trajeto que se desenrola entre plantações de trigo já maduro pincelando de dourado a paisagem. Secam, sobre enormes pedras, damascos recém colhidos. O jeep pára e descemos. Enveredamos por uma estreita senda cercada em ambos os lados por altos muros de pedra. Adiante, algumas casas toscas, também feitas do mesmo material. Pra mim tudo é pitoresco, mesmo a pobreza das construções. Árvores e mais árvores de damasco vergam ao peso dos frutos cuja coloração alaranjada empresta um ar alegre ao dia cinzento. Desce-se por uma trilha íngreme em meio a uma luxuriante vegetação, árvores verdíssimas, flores silvestres de delicadas pétalas, e lá embaixo, esplendorosas, as águas azul turquesa do lago fazem com que eu solte exclamações deliciadas diante de tanta beleza. Esse lugar, sim, é um genuíno Shangrila! O gerente do lugar, muito gentil, informa que é permitido o banho. Sentados os três, lado a lado, cada um perdido em seus pensamentos, lá nos quedamos durante um tempo a contemplar a tranqüila e sedosa superfície azul-esverdeada do lago Upper Kachura. Não muito distante, à beira de um pequeno cais, curto a animação de um bando de garotos mergulhando e chapinhando dentro d’água. Seus gritinhos de prazer chegam até mim abafados. Tão bucólico tudo isso! Subimos de volta ao restaurante de onde se descortina o lago. Simples, o recinto é triacolhedor com cadeiras e mesas de vime cobertas com toalhas vermelhas. Uma agradável surpresa no cardápio: trutas. São trazidas cruas para que eu escolha a quantidade e tamanho. Ali sugere encomendar apenas dois pedaços. Uns vinte minutos de espera, e eis os peixes inteiros e grelhados soltando fumacinha. Mal espero esfriar, dou uma assoprada e mastigo, faminta, tal pitéu. Ali, ao ver que eu deixara de lado a cabeça, nem hesita, devora-a com olhos e tudo, fazendo cara de satisfação.....uiiii!!! Niaz, envergonhado, quase não come nada. Dá como desculpa uma dor de cabeça. Eu tenho cá com meus botões que o coitado, percebendo a pouca quantidade de comida, inventou a tal enxaqueca de modo a que não faltasse peixe pra nós. Eu não deveria ter ido atrás de Ali e ordenado dois ou três pedaços a mais de peixe. Para acompanhar, sabem o quê? O nosso indefectível chazito com leite (foi a única vez que senti falta de beber um vinhozito branco bem geladinho. No mais, a proibição de ingerir bebidas alcoólicas nem deixou saudades. E olha que curto uma birita!). De sobremesa, abricós colhidos do pé da árvore. Terminada a refeição, vamos conhecer o lago Satpara. O balneário não se mostra tão atraente quanto o de Upper Kachura. No jardim, à beira de suas águas, igualmente, azul-turquesa, há mesas e cadeiras onde o povo curte o domingão. Lamento, ao ser informada, que a construção de uma colossal represa, já em adiantados trabalhos, determinará a extinção desse atrativo turístico. A finalidade é sanar o precário sistema de energia elétrica da região onde ocorrem freqüentes cortes de luz quando menos se espera. O tempo continua nublado e agora venta bastante. Bate uma fome e peço chá com leite e biscoitos. Três homens, sentados à mesa ao lado, pedem licença e sentam-se à nossa. Um deles é professor. Está curioso e deseja conversar comigo sobre a Amazônia, as cobras, América do Sul, qual língua é falada no Brasil. Questiona, lá pelas tantas, se as cobras andam soltas nas ruas, hahahahaha. Essa é boa!! De volta a Skardu, após Ali me levar numa loja para eu comprar cd de música balti, vou numa lan house checar meus emails. Fico lá durante duas horas escrevendo pros amigos rodeada de....moscas.....arghhh!! E de quebra, uma trilha sonora animal: o mugido de uma vaca, alojada no estábulo, situado bem ao lado da loja onde estou. Com vontade de urinar, pergunto ao atendente se há toalete. Ele indica um a 50 metros, no piso superior de uma casa mais adiante. Acho tudo muito estranho mas vou lá. Estou eu arrumando minha mochila, já me preparando para descer quando vejo Ali e Mussa ao pé da escada me procurando. Ele havia ido à loja da internete me buscar porque está chovendo. E de carro! Tudo pra eu não me molhar! Não é um amor este homem?
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