sábado, 5 de julho de 2008

Jogo de pólo em Skardu

Quando acordo, já há movimento no camping. E olha que são 5:45. Assim acontece porque, como nós, os tchecos, também, retornam a Skardu a fim de curtirem os lagos Shangrila e Satpara. Aquela azáfama típica de desarmar acampamento toma conta do lugar. Cada porter cumpre sua função: alguns dobram as tendas, uns lavam louça e outros ajeitam toda tralha nos tonéis....enfim, uma excitação agradável de fim de festa, e de uma festa que foi boa. Os tchecos estão, eles próprios, desmontando suas barracas. Seu esquema de viagem, bem independente, reduz em muito as despesas. Contratam guia porque é obrigatório, prescindindo, porém, dos serviços dos porters pra carregarem mochilas, barracas e comida. Eles levaram e carregaram todo o equipamento em suas mochilas cargueiras durante o trekking de 12 dias. Acabaram se revelando pessoas muito agradáveis. Ainda há pouco, o mais velho do grupo protagonizou um strip tease relâmpago e revelou, de quebra, detalhes curiosos de sua indumentária ou falta dela: enquanto trocava o pijama (usou, pijama, sim, pra dormir!) pela calça, mostrou, de relance, sua bunda branca porque não usa cueca...... hahahaha. Foi muito hilária a cena! A essas alturas Anwar e Mustafa ficaram muito meus amigos. Anwar, inclusive, deu-me seu cartão pra desgosto de Ali, que não gostou de ver o outro guia me oferecendo seus serviços. Despedimo-nos, dando bye bye, alegremente, e embarcamos em nossos respectivos jipes. Ali, no início da viagem, não conseguia pronunciar meu nome corretamente, chamando-me de Bitriz. Nem tentei corrigir. No decorrer do trekking, comentei do meu apelido, Bia. Foi o que bastou pra eu ser chamada de Biá, de pronúncia mais fácil. Partimos de Askole às 8:15. A viagem pela estrada cheia de curvas, beirando os alcantilados acima do rio Braldu, embora eu já a conhecesse, continua a me provocar calafrios de medo. A carroceria do jipe, além da bagagem, transporta bem mais de 10 porters. Todos suportam, bravamente, a poeira e o calor que se torna mais intenso à medida que a manhã avança. Depois de duas horas de viagem, somos forçados a descer do jeep: novo desmoronamento de terra bloqueia a estrada. A travessia é qualquer coisa de perigosa. Temos de caminhar por uma empinada encosta de morro que mal comporta um pé. Ali segura minha mão e só diz "no problem...no problem" enquanto ergue a cabeça pra se certificar da firmeza do terreno acima de nossas cabeças. Deduzo que pode, a qualquer momento, ocorrer novo deslizamento.....ai meu Jesus! Caso houvesse acontecido, iríamos todos ser soterrados, despencando naquele rio repleto de pedras enormes e correnteza fortíssima, situado 40 metros abaixo. A essa altura, arrisco só um olhar, rápido, em direção ao rio e percebo suas águas turbulentas e vorazes me espiando guloso. Fico assustada mesmo. Graças a Alá, deu tudo certo, e chegamos sãos e salvos ao outro lado da estrada. Embarcamos num novo jeep e lá vamos nós estrada afora, viajando durante uma hora até que fazemos uma pausa para almoçar no mesmo restaurante da ida. A comida, apetitosa, consiste em arroz bem soltinho, pedaços de galinha com farto molho de tomate, feijão ensopado (bem diferente do nosso, o grão, miúdo e redondinho, é amarelo-claro) e nan saído do forno, ainda soltando fumacinha. Devidamente alimentados, embarcamos no carro e continuamos a viagem. Paramos, então, no mesmo posto do destacamento militar onde eu vivenciara todo aquele horror devido à falta de meu passaporte. O mesmo oficial, que me atendera, vem, amavelmente, me cumprimentar e pergunta "are you glad?" Respondo, alegre, com muitos yes. Ele convida para um chá, recuso, agradecendo com efusivos “Shukuriya”. A viagem prossegue e atravessamos, agora, um vilarejo após outro, onde plantações de trigo exibem suas altas espigas, algumas bem douradas, prontas pra serem ceifadas. Quando alcançamos Shigar Bazaar, Ali ordena ao motorista que estacione em frente dum restaurante onde entramos para degustar um chazinho. Situado às margens do rio, sentamos, abrigados do sol, no interior duma construção arredondada de vime (lembra uma oca), bebericando nossas bebidas. Lugarzinho agradável este! Chegamos em Skardu às 14:45. Após tomar banho e retirar os 2 kg de areia dos cabelos, vamos, eu, mais Ali, Muhammad e Niaz a uma confeitaria. Não saio daqui sem antes provar os docinhos típicos que tanto chamaram minha atenção quando da minha passagem anterior pela cidade. O lugar, pequeno e escuro, comporta apenas quatro mesas. Os doces (gordurosos, insossos e açucarados demais, me desapontam) são trazidos num pratinho forrado com......jornal velho! O mesmo se passa quando, após o término da partida de pólo à que assisti no Maqpon Polo Ground, provo um grão de milho torrado, e o petisco vem envolto num cone feito com.... jornal velho! Coisas do Paquistão. Muito legal o jogo de pólo: no estádio, enorme, só há espectadores masculinos, uma charanga toca música durante o tempo todo; no intervalo, crianças são colocadas em cima dos cavalos e puxadas pelos adultos pra lá e pra cá dentro do enorme campo. No retorno ao hotel Mashabrum, escoltada por Niaz e Muhammad, convido-os pra beber um refri. Sentamos no páteo e lá ficamos apreciando as montanhas banhadas por aquela luz indecisa de final de tarde. A lua, agora, em sua fase decrescente, é apenas uma fina marca prateada no céu azul despido de nuvens. Niaz, à despedida, recomenda, atencioso, que não devo sair à noite. Ao entrar no hall do hotel, um empregado da recepção pergunta se consinto em ser fotografada. E lá vou eu posar ao lado de um bonito rapagão, acomodados ambos em cadeiras de vime. Sei lá quem ele é e qual a finalidade a ser dada à fotografia. Estou em tal estado de graças que aceito tudo o que me propõem. Agora já deitada, 21 horas, escuto batidas à porta. É o encarregado do andar, trazendo o cardápio pra que eu escolha meu jantar (tão gentis, adoro todos!). Recuso e digo-lhe que estou “very tired”. Pego no sono, embalada pelo ruído crepitante do vento a agitar os galhos das árvores no jardim.
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