sábado, 12 de julho de 2008

De volta a Islamabad

A noite foi insuportavelmente quente. Como tenho ojeriza a ar condicionado, desliguei o aparelho e, não contente, ainda, o ventilador de teto, porque muito barulhento. Sexta-feira amanhece linda e o céu exibe uma uma tonalidade clara de azul. Estamos saindo de Chilas às 7:30. Uma longa viagem nos aguarda. Embora a distância entre Chillas e Islamabad seja de apenas 483 km, a viagem de carro dura 14 horas! Isso se não houver nenhum deslizamento de areia e pedras porque, conforme a quantidade de detritos caídos sobre a rodovia, a demora pode variar de 2 horas a dias! O grande perigo aqui no Paquistão são estes desmoronamentos. Enormes blocos de rochas, precariamente, equilibrados uns sobre os outros debruçam-se sobre a rodovia. A própria trepidação dos veículos ou um vento forte pode provocar, em fração de segundos, a queda desse material. No nordeste do país, há dois aeroportos: o de Gilgit e o de Skardu, e a viagem entre eles e o da capital se faz em pouco mais de 1 hora. Contudo, voar de Islamabad até uma dessas duas cidades, ou delas pra capital, sujeita-se às imprevisíveis condições meteorológicas da região, devido às altas montanhas e a formação de espessas nuvens, o que dificulta em muito a visibilidade. Já saimos dos territórios do norte do país (Northern Áreas) e estamos, agora, percorrendo a NWFP (North-West Frontier Province). A paisagem começa a se transformar: a aridez do terreno, despojado de qualquer vegetação, cede lugar, pouco a pouco, a uma luxuriante cobertura vegetal que colore de verde escuro as encostas das montanhas. Chegamos em Besham, às 13:15. Esta cidade é um importante centro comercial da NWFP onde o comércio funciona 24 horas por dia. Enquanto estou almoçando, sou objeto de curiosos olhinhos infantis que me espiam através da janela do restaurante. Lá pelas tantas, faço uma careta. É o que basta pro bandinho de crianças espalhar-se alvoroçado pelo jardim. Vem me surpreendendo o tratamento paciente e carinhoso dispensado pelos homens aos seus filhos. Aos mais moços pegam no colo com frequência. Minha curiosidade sobre os nomes das vestimentas típicas é satisfeita por Siddique: as mulheres quando vestem shalwar e qameez (túnica e calça) cobrem a cabeça com uma echarpe, a dupata ou chadar. Às fiéis seguidoras dos rígidos preceitos islâmicos está reservado o uso do burqa, o amplo e disforme camisolão (vi apenas em duas cores: azul anilina e preto) que as cobre dos pés à cabeça, não deixando escapar nem os olhos. Àquelas que não se resguardam tanto dos olhares masculinos, há uma variante um pouco “mais” light que deixa visíveis os olhos por entre a máscara de pano. Sou fascinada por essas roupas. Há um não sei quê de mistério em tudo isso. Longe de mim vesti-las, contudo, me atrai a sensação de “invisibilidade” que tais vestes proporcionam. Os chapéus masculinos são o topi (quepe) ou paghrhi (turbante). Saída de Besham às 14:45. À medida que vamos nos aproximando de Islamabad, o verde das matas vira regra. Siddique, durante a nossa infindável viagem, conta que perto de Karachi há uma praia muito linda com mar azul e águas mornas, Gowadar. Muitos túmulos à beira da estrada onde mulheres, ajoelhadas, pranteiam seus mortos, ao passo que os homens, acocorados, conversam entre si. Siddique já tem uma opinião diversa à de Ali no que se refere a relação afetuosa entre os homens, assegurando inexistir envolvimento sexual, apenas amizade. Humm....quem terá razão? Na minha peregrinação ao longo da KKH (e olha que eu andei, hein! fui de Islamabad até a fronteira com a China), apenas num pequeno trecho entre Abbotabad e a capital, foi construída pista dupla. Lá pelas 17 horas, cai uma chuva grossa. O movimento na rodovia é intenso em ambos os sentidos. Chegamos, finalmente, a Islamabad, por volta das 21 horas, já noite cerrada. Minha prima fez uma comida especial pra mim: bife à parmegiana, salada de alface e cenoura, arroz branco bem soltinho e macio. Percebo com tristeza, ao acordar, que hoje, sábado, é meu último dia no Paqui....putzgrila, passou tudo tão rápido. Vou pela manhã fazer o debriefing no Alpine Club of Pakistan. As perguntas são as de praxe: o tratamento que me foi dispensado pela agência e pelos guias durante a viagem, e minha opinião sobre o trekking. Encerrados os trâmites burocráticos, vou a Panoramic Pakistan me despedir de Tahir e agradecer pelos seus bons préstimos no lamentável episódio do passaporte. Também tenho de acertar minhas contas já que eles pagaram despesas minhas de Skardu em diante porque “muito previdente” deixara a maioria de meu dinheiro e cartão de crédito aqui em Islamabad. Reencontro Niaz que fica muito contente ao me rever. Despedidas feitas, me trazem pra casa onde eu e Renata comemos um bom almoço preparado por ela: salada de alface, cenoura ralada e pepino acompanhando uma torta de camarão. Vamos então às compras. Adquiro um monte de bugigangas pra presentear amigos e parentes. Exausta de tanto bater pé nas lojas – cansa mais que trekking....ufa! – e de gastar, retornamos pra casa conduzidas pelo simpático motorista, Mr. Beak. Aí a ingrata tarefa de arrumar malas, arrrghhh!! Às 20:30, chega um casal de cariocas, Jader e Teresinha, ele oficial da FAB, cedido como treinador à equipe de futebol das Forças Aéreas paquistanesas; ela, dona de casa. Vamos ao Hot Spot jantar. Muito agradável a companhia deles. Contam fatos interessantes presenciados durante o 1 ano e 7 meses de permanência no país. Como dois casamentos a que foram convidados. Duram as bodas 6 dias; pra cada dia há uma atividade diferente: num dia, comem, noutro, a noiva se pinta, no terceiro, os parentes dos noivos vendem doces para os convidados e no penúltimo dia, o noivo e a noiva transam, sendo que antes a sogra examina a moça para confirmar sua virgindade. Conta Teresinha que só neste dia é permitido ao noivo ver o corpo nu da moça. Depois, as relações sexuais acontecem com ambos vestidos. Eles ainda estão na Idade Média nesse aspecto, gente! Somos deixadas em casa, e ficamos, eu e Renata batendo papo até 1 e 30 da madrugada, hora em que Mr. Beak me traz ao aeroporto. Como o Paquistão é rota de narcotráfico da heroína produzida no Afeganistão, a polícia antinarcóticos revista as malas dos passageiros na saída do país. Sem esquecer o cubículo onde uma guarda feminina procede a uma revista pessoal, manuseando as mãos de cima a baixo do meu corpo. Só após esses procedimentos, é permitido realizar o check in. Entro na ala internacional e o free shop revela-se duma pobreza franciscana, pouquíssimos os produtos importados: algumas marcas de perfumes, chocolates e só. Se não fossem as inevitáveis lojinhas vendendo souvenirs de produtos típicos do país, poucos seriam os atrativos pra se ocupar o tempo antes do vôo. Antes de entrar na sala de embarque nova revista pessoal (deve ser pra evitar que alguém, sei lá, um funcionário do aeroporto, possa passar alguma droga nesse meio tempo). Já 3 da madruga -, ainda aguardando a hora de embarcar para Dubai, observo as sandálias dos fiéis alinhadas do lado de fora da sala de orações. Curiosíssimo país este. Sentada um pouco além de mim, uma jovem mulher segura um nenê que dorme em seu colo. Usa burqa preto, seu véu, contudo, deixa visíveis os olhos: entre eles há uma tira fina de pano que desce da testa até a ponta do nariz. A barra de sua túnica é bordada com linha dourada. Por baixo, uma pantalona rosa. Várias pulseiras douradas tilintam em ambos os pulsos. As pontas dos dedos, tanto dos pés quanto das mãos assim como os do bebê, estão pintados de laranja. Há que me distrair porque senão tenho um xilique: quatro horas de vôo até Dubai, mais quatro de espera naquele aeroporto, pra então embarcar rumo a Sampa, cuja distância de 12.669 km se faz em 14 horas. Meu coração já geme de saudades. Shukurya Paquistão! Inshala possa eu retornar a este lindo e acolhedor país!

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