quarta-feira, 2 de julho de 2008

Só as moscas me querem!

O dia apresenta-se esplêndido quando acordo às 6 horas. Tão-somente, algumas nuvens, aqui e acolá, dispersas no céu. Levantamos acampamento e, às 7:50, já estamos na trilha rumo a Paiyu. O porter, cujo nome é Youssuf, continua atrás de mim. Numa das paradas que faço pra fotografar e filmar, arruma a bainha de minha calça, pode?! Fico embaraçada com tanta dedicação. Nem sei o que dizer. Hoje de manhã, o coitado, quando nos preparávamos pra sair de Khaburse, me pediu novos bandeides. Como os meus já haviam acabado, nem hesitei, fui à barraca de Anne e expliquei a situação. Ela, gentilmente, cedeu-me quatro daqueles curativos. Desde que deixamos Khaburse, sinto meu peito apertadinho, apertadinho. A beleza da paisagem e a bondade das pessoas vêm me tocando profundamente. Lá pelas tantas, não resisto mais, lágrimas incontroláveis afloram de meus olhos e, sem pejo algum, deixo o pranto rolar. Fico, assim, chorando, com a testa apoiada entre os joelhos até esgotar toda a minha emoção. Niaz, Ali e Youssuf quedam, atônitos, sem, contudo, se aproximar. Refeita, tranqüilizo-os: “I am crying because I am very happy”. Vejo alívio em seus rostos. No meio do caminho, uma agradável surpresa: encontro um casal de brasileiros!! Os primeiros e únicos durante o trekking. Pergunto seus nomes: Helena e Paulo Coelho. Estão indo pra Concórdia e, conforme informa Paulo, talvez tentem o Broad Peak. Acompanham-nos dois escaladores portugueses. Um deles, tem o nariz todo detonado, provavelmente, resultado de congelamento. Ao apertar sua mão, dou falta de um dedo, o mindinho (quando retorno ao Brasil, ao ler notícias sobre quem teve sucesso nesta temporada de escalada, no Paquistão, descubro que ele é nada mais nada menos que o famososo João Garcia, um dos raros escaladores a fazer o cume do Broad Peak em 2008). Foi muito bom poder falar português. Uma lástima, o encontro ter sido tão breve. Enfim, cada um de nós seguia em sentidos opostos. Às 10 horas, paramos para almoçar. Constato que, agora, na finaleira do trekking, a ração servida já não é tão variada: claro, o básico é composto sempre de sopa (de pacotinho), paratha ou chapati. Hoje o complemento é atum, mais geléia. E chá, sempre muito chá. Esta bebida nunca escasseia, podem crer! Estranho o intenso movimento de helicópteros. Primeira vez que vejo tal aeronave sobrevoando os céus. Ainda há pouco, dois voavam rumo a Concórdia. Será que aconteceu algo por lá? Nunca se sabe quando o esporte, em questão, é a escalada, ainda mais em montanhas com elevados índices de risco como GII, GI, Broad Peak e K2. O trajeto Khaburse-Paiyu não é difícil porque praticamente é só descida. O mais difícil de todos foi justamente Paiyu-Khaburse, devido às constantes subidas. O calor é deveras bem-vindo depois de três dias de frio, neve e chuva. Youssuf, não larga do meu pé. Continua colado em meus calcanhares. Lembra aquelas mães, diligentes, que amparam seus filhos, de modo a evitar que caiam, quando iniciam a dar os primeiros passos. Pois meu sombra porta-se assim comigo. De uma solicitude como nunca vira na vida, o cara é prestativo mesmo. Chegamos em Paiyu às 13:50. Um romeno, bem interessante, aproxima-se pra conversar. Conta que pertence a uma expedição cujo objetivo é o GI. Além dessa, há outra expedição formada por três mulheres e dois homens. Uma delas, embora feia, atrai os olhares dos porters cada vez que passa pra lá e pra cá. Também pudera: veste short, revelando pernas fortes e depiladas. Não sei se são trekkers ou escaladores. Pretendo, assim que surgir uma oportunidade, questioná-los. Na frente do camping, há uma base das forças armadas de onde decolam os helicópteros. Cumpre registrar que, ao longo do trajeto Askole-Concórdia, há mais quatro dessas guarnições militares: Concórdia, Goro I, Urdukas e Korophon. De fato, o país é deveras militarizado. Não demora muito e minha curiosidade sobre o tal grupo é satisfeita quando desço à zona dos toaletes e encontro a tal feiosa que se lava, energicamente, na pia contígua à minha. Não deixo passar em branco tal oportunidade, é claro, e tasco a clássica pergunta “Where are you from:” São tchecos. Ela é professora e retornam, também, de Concórdia. Conta-me que escala paredes de rocha em seu país. Acrescenta que prefere ser a segunda na cordada porque não se sente segura o suficiente pra liderar a enfiada. Aqui no Paquistão, entretanto, veio só pra fazer trekking. São 16:30, o acampamento encontra-se na santa paz. Um porter corta, com esmero, o cabelo de outro cujos ombros estão protegidos, caprichosamente, com uma toalha. Conversas em tom de voz baixo. Alguns jovens passam por mim e me encaram, curiosíssimos - mais ainda do que habitual - pois pendurada, num galho de árvore, está a secar uma calcinha. Primeiro, a tcheca, feia, de pernocas de fora, agora eu, de meia idade e sem sutiã, secando as calçoilas ao ar livre. Os baltis estão, se não intrigados, excitados....sei lá e nem quero saber. Prefiro contemplar as marcas prateadas deixadas pelas águas de degelo nas encostas das montanhas à minha frente. Enquanto estou apreciando o vale lá embaixo, aproxima-se pra conversar um jornalista francês cuja especialidade é a cobertura de expedições. Está indo pro Broad Peak onde alguns escaladores, seus conterrâneos, já lá se encontram. Esteve nesta região há 15 anos e contabiliza cinco visitas ao país. Numa delas, cobriu um terrível terremoto ocorrido já há alguns anos. “It was awful”, comenta com ar triste. Despedimo-nos amigavelmente. Ali sugere que, em vez de descansarmos aqui mais um dia, retornemos a Skardu. Assim, posso conhecer, argumenta ele, dois belos lagos nos arredores daquela cidade. Considero uma boa idéia e dou sinal verde pra partirmos amanhã. Depois de 5 dias sem banho (sei lá, se não é por isso o assanhamento das moscas ao meu redor), chamo Mussa e lá vamos nós rumo aos toaletes. A água, muito fria, não me impede, entretanto, de lavar os cabelos. E o trekking quase terminando....merda!!
video

3 comentários:

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