Saio
de Guarulhos na madrugada de domingo e após as intermináveis 14 horas de vôo
Sampa-Doha, mais 4 horas aguardando o vôo pra Kathmandu, no agora belíssimo
novo aeroporto da capital do Qatar, com dezenas de lojas das mais badaladas
grifes de roupas e acessórios, joalherias vendendo ouro a quilo, academia de
ginástica, praça de alimentação, salas de repouso e trem conduzindo os
passageiros em trânsito dum setor a outro, chego à capital do Nepal por volta
das 11 horas da segunda-feira. Pra minha surpresa, ao invés do
velho e demorado
sistema à moda antiga de obtenção do visto, com quinhentos carimbos e filas
intermináveis, ainda existente em 2014, quando aqui estive, encontro
o aeroporto Tribhuvan informatizado, não sendo mais necessário levar as
exigidas fotos 3x4 já que câmeras automáticas tiram o teu retrato no ato. Depois do pagamento da taxa de permanência (no meu caso, 100 dólares porque vou ficar 2 meses), passa-se nos
guichês para carimbar o visto de entrada no passaporte. Não levou mais que 30
minutos todo o processo. Dessa vez tenho parceiro. E nossa relação, suponho, será uma
aventura dentro da aventura porque só vim a conhecê-lo pessoalmente no
aeroporto de Guarulhos. Explico. Flavio, anos atrás, me convidou pra fazer
parte dum grupo do facebook chamado Fotógrafos de Montanha em razão de eu ter
ido ao Paquistão, em 2008, fazer o trek até K2 BC. Desde então mantive com ele breves e esporádicos bate-papos via messenger
quando surgiu há 6 meses atrás a oportunidade de fazermos juntos duas aventuras no Nepal: a
primeira será aquela considerada a cereja do bolo de qualquer trekker que se
preze,
Everest BC, no Sagarmatha National Park, já a segunda, será outra pernada, numa região não tão badalada, pra conhecer o Annapurna BC, situado no Annapurna Conservation Area. Vai nos buscar no aeroporto, Nawaraj,
irmão do dono da agência Trek Around Nepal, que está organizando essas 2 indiadas.
Como todo nepalês (e aqui abro um parênteses pra comentar que não precisa ser
nepalês, qualquer ser vivente que domine um idioma que não é o seu, via de
regra, fala rapidíssimo pra exibir sua fluência e desenvoltura na língua
estrangeira) que fala inglês, dispara a conversar bem rapidinho neste idioma. Não
entendo nada e nem faço questão porque quero mais é curtir meu retorno ao
país que tanto amo depois de 3 anos sem vir cá. Graças a deus que o guri (pra mim quem tem 23
anos é guri) não fica muito tempo no hotel, combinando que virá nos ver amanhã.
Nossa guest house, como são chamadas as pousadas aqui, não fica exatamente no coração da Thamel mas a poucas quadras das
ruas mais badaladas do icônico bairro. Simples, o Elbrus Home não tem TV nos quartos, apenas ventilador
e o WiFi é lento mas isso é normal no país. Contudo, o gerente e o resto do
staff são prestativos e simpáticos como todo
o povo nepali é. O
gerente, de nome Khem, aprendeu sei lá com que outro turista a dizer
“bom dia” a todo brasileiro hospedado em seu hotel. Cada vez que me vê dispara uma saraivada de “bom dia, bom dia”,
dita em alto e bom som. Ao cabo de 2 dias, aquela saudação em português começa
a me causar ligeira irritação e fico em dúvida se é gentileza ou ironia ao contraponto de nossos profusos namastês. Como chegamos cedo, deixamos as bagagens nos
quartos e nos tocamos pra rua. Tenho de comprar saco de dormir porque o meu,
muito muquirana, só aguenta até -7º C. Sem dormirmos há quase 2 dias, quando
anoitece, retornamos ao hotel e desabo na cama desmaiando de cansada. Quarta e
quinta eu e o parceiro batemos perna pela Thamel pra que ele conheça e se
ambiente no bairro, até porque é sua estréia em terras asiáticas. Tentava liberá-lo de andar comigo (na verdade,
não gosto de fazer compras acompanhada) mas o rapaz insistia que não se
incomodava e dale a entrar de loja em loja junto comigo. Entre uma compra e
outra (só eu que comprava, ele se limitava a olhar eu comprando), levo-o a
conhecer a hoje destruída Durbar Square, o que me deixa
muito triste ao ver os
belos templos em ruínas após os 2 terremotos que devastaram o Nepal em 2015. Visitamos ainda o templo de Swayambhunath, pouco atingido pelos terremotos - graças a deus, ou a Shiva, né? - conhecido como templo dos macacos haja vista a
quantidade de micos que lá habitam. Tanto num lugar quanto no outro vamos a
pé porque não são longe do hotel. Embora suja, barulhenta, poluidíssima devido
não só ao tráfego intenso de carros e motos quanto à existência do crematório a
céu aberto, que funciona 24 horas por dia, adoro estar em Kathmandu. É como se
voltasse pra casa. O céu azul, a temperatura morna, refrescando, convenientemente,
à noite, tornam os dias muito agradáveis. Um privilégio poder usufruir da super
hospitalidade do nepalês que curte e valoriza o turista, tendo na ponta da
língua a carinhosa saudação “namaste”, seja pra quem tá passeando pelas vielas
do bairro ou pra quem entra em algum estabelecimento comercial. Tão gostoso quanto
comer uma misturinha de frutas vendidas em carrocinhas nas calçadas, é entrar numa
confeitaria e provar os deliciosos doces nepaleses feitos à base de amêndoas,
açúcar e leite. A presença, no meio da avenida super movimentada, duma vaca
empacada, em meio ao tumultuado e movimentado trânsito da cidade, é algo
absolutamente inusitado, de deixar a gente de boca aberta, não acreditando no que se está vendo, hahahaha. A intrincada geometria dos fios elétricos
correndo a poucos metros acima das cabeças dos passantes me deixa levemente receosa
de levar um choque. E não tem preço poder assistir dum terraço aos finais
de tarde incendiados por pores do sol indescritivelmente belos ainda que causados
“graças” à poluição que paira sobre a capital nepalesa. Por fim, pra comemorar
meu retorno a este país encantador, sou saudada com o surgimento duma ruborizada lua
cheia no canto direito do céu nepalês.




Um comentário:
Bea, minha amiga, você é uma expert em lindos e divertidos relatos de viagem!
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