segunda-feira, 27 de março de 2017

Um homem exemplar

27/03/2017 - Segunda-feira – 10º Dia de Trek Everest BC – Phakding a Namche Bazaar
O céu se revela sem rastro de nuvens que manchem de branco sua pura coloração azulada. Temperatura amena pra quem está a 2.640 metros. O barulhento ruído de aviões e helicópteros indica que as aeronaves retomaram as atividades diárias, voando apressadas de sul a norte pra compensar o stop forçado causado pela envolvente cerração que teimou em reinar durante o dia anterior. Mais britânicos na pontualidade impossível: são 8 e 15 quando deixamos Phakding. O dia promete ser longo e árduo por causa do desnível de 830 metros entre Phakding e Namche Bazaar. Porém a trilha nem se revela tão difícil quanto imaginei. Embora íngremes, as subidas e descidas nem muito longas são. Na paisagem linda demais, destaca-se Thamserku (6.623 metros), bela montanha nevada, em forma de leque, além do Khumbila, pico com formato piramidal e pouca neve nas encostas. O rio Dudh Koshi corre ora à esquerda, ora à direita, dependendo tal posição da necessidade de se cruzar à margem oposta. Pra tanto, a travessia se faz sempre sobre as firmes e longas pontes metálicas. Caminha-se geralmente a céu aberto mas vez por outra adentramos florestas de pinheiros que exalam agradável odor resinoso. Intensifica-se o número de turistas retornando de Gorak e isso que nem estamos no auge da alta temporada. Um casal da Malásia, vindo de Khala Patar, com quem converso rapidamente na trilha, conta que apesar da boa visibilidade do lugar, o frio era congelante, em torno de -25ºC, a ponto de suas câmeras digitais terem descarregado mega rápido, mal podendo fotografar Everest e demais picos circundantes. Em Monjo, enquanto aguardo Nir cumprindo os procedimentos burocráticos de carimbar nossos cartões Tim no check point, conheço Richard, um holandês dotado das clássicas feições de homem bonitão: alto, magro e de olhos azuis. Sem guia e porter, carrega solito seu mochilão. Até aqui nada incomum em se tratando de trekkers. O que torna Richard extraordinário é ser ele portador de esclerose múltipla. Tem 51 anos e foi diagnosticado doente aos 45. Até agora, a manifestação mais grave da doença é a evidente dificuldade na fala. Por isso carrega com ele um papel contendo alguns dados pessoais e telefones em caso de emergência. Poxa, cara fora de série esse Richard, sem quaisquer mimimis: libertou-se do medo de viver e do medo de morrer! Viva Richard! Nova travessia sobre o Dudh Koshi, percorrendo agora ponte beeem mais alta que as anteriores - em torno duns 40 metros de altura - que nos leva à margem direita do rio onde está a encantadora vila de Jorsalle. E ali paramos pra almoçar. As guest houses voltadas pro rio permitem assim que ocupantes de quartos e refeitórios desfrutem do lindo visual de suas águas esverdeadas. O tempo até então ótimo ameaça dar uma virada quando nuvens começam a dar o ar de sua desgraça no céu até então límpido. Eu que estava sentada no terraço do restaurante, sou obrigada a entrar porque um vento começa a soprar energicamente. Agora já se vêem menos mulas e mais dzokios na trilha porque a pelagem basta destes animais os protegem melhor do frio, conforme o ganho de altitude. Todavia, a partir de Namche, são usados somente yaks, cujo pelo espessíssimo resiste a temperaturas abaixo de zero e altitudes acima de 4 mil metros. De Jorsalle em diante, só subida, mais exigente quando se caminha sobre terreno em degraus e menos dura em se tratando de chão batido. O bom é caminhar num cenário sombreado por bosques de pinheiros. Se a ponte de 40 metros me pareceu alta a que cruzo agora é o Everest das pontes. Medindo prováveis 100 metros de altura natural que oscile devido ao peso dos transeuntes e animais. Estranhamente, há outra ponte, 30 metros abaixo que deve conduzir a outras paragens. Passamos por Top Danda onde, caso o tempo estiver claro, é possível vislumbrar Everest (8.8458 metros), Nuptse (7.861 metros) e Lhotse (8.516 metros). Infelizmente, o lugar, encoberto por nuvens, não permite que se veja montanha alguma. Mulheres vendem maçãs e garrafas d’água enquanto turistas descansam após a super ardida subidinha. E o resto da pernada até Namche transcorre tranquila, numa larga estrada de chão batido, percorrendo-se ainda bosques de pinheiros. Outra vez, coisa boa, terminamos cedo a pernada, entrando às 15 e 10 em Namche Bazar. Pouca demora, a cerração envolve a vila que assim permanece até a noite. A princípio não gosto muito de Namche pois parece uma moderna e limpa Thamel. No dia seguinte, entretanto, já estou adorando, especialmente, por causa do aconchegante Himalayan Java Café onde afora free wifi é possível carregar sem pagar os dispositivos eletrônicos. Antes da janta, vamos eu e Nir pro Java Café onde o gerente é amigão do guia. Nos esbaldamos na internet. Ele falando com seu irmão que vive na Coréia do Sul e eu postando fotos no Face. À noite, em meu quarto, quando olho pela janela luzem estrelas no céu.

 
28/03/2017 – Terça-feira – 11º Dia de Trek Everest BC – Namche Bazaar
Hoje descansa-se em Namche. Mesmo assim, acordo às 6 da matina e o dia já está claro. Da janela do quarto, sou presenteada com os gratos 6.187 metros do Kungde, vistos dos pés à cabeça, opa, do sopé ao topo. O motivo de tal contentamento é porque tenho entrevisto este pico desde o 8º dia, quando então me dirigia de Bupsa a Surke, enfrentando aquele fétido e escorregadio mar de lama, bosta e urina. Acontece que naquele trecho só era possível avistar seu topo nevado e agora consigo enxergá-lo por inteiro, ulalá! Às 7 e 20 quando baixo ao refeitório, Namche e adjacências estão envoltas em forte cerração. Não se distingue um palmo adiante do nariz. Kungde e outras tantas montanhas como Thamserku, Kusum Kangguru e Khumbila, destaques na paisagem, estão escondidas pela névoa. Estamos esperando o tempo abrir para visitarmos o Sagarmatha National Park donde se pode ver Everest, Nuptse, Lhotse e Ama Dablam. O sol espreita através das nuvens, resistindo bravamente à cerração que obstinadamente tenta ofuscá-lo. Graças a Buda, o bom tempo vence a parada e saímos a passeio. O Parque Sagarmatha tem modesto e pequeno museu com exposição de fotos de animais e flora. Dois painéis resumem, em breves pinceladas, o motivo de os sherpas terem se mandado do Tibete, donde são originários. De acordo com a primeira versão, eles fugiram de lá pra escapar de mudanças políticas que  ocorriam no leste do país. Já a segunda, afirma que eles podem ter vindo pro Nepal em busca de clima mais ameno. O certo é que os sherpas ocupam terras nepalesas há somente 400 anos. Em homenagem, ergueram, no interior dum pequeno anfiteatro de pedras, enorme estátua masculina representando esta etnia. Ao norte, sobressairiam, se não houvesse tantas nuvens, Everest, Nuptse e Lhotse. O pouco que consigo ver, antes que as nuvens toldem por completo os picos, é a grande parede do Nuptse que parece se fundir ao flanco oeste do Lhotse. Do Everest mal e mal se descortina a pontinha de seu cume. Terminada a visita ao parque, empreendemos curta porém duríssima subida a Syangboche (3.900 metros), considerando que o desnível desde Namche é 450 metros. Nessa vila, foi construído pequeno aeroporto onde pousam helicópteros e as avionetas monomotor Pilatus Porter. Domina a pista de pouso, a perfeita pirâmide dos 5.761 metros do Khumbila, outro pico que avisto da base ao cume, quando ontem entrevira apenas seu topo. Após o almoço, me toco pro Himalayan Java Café. Flavio resolve dar a graça de sua companhia – coisa rara - e ali ficamos, durante o resto da tarde, batendo papo, (quando quer, ele sabe ser sociável; na maioria das vezes, entretanto, prefere manter distância, tanto que não foi uma nem duas vezes que escolheu sentar à mesa diferente da minha pra fazer sozinho sua refeição), navegando na internet e folheando livros sobre o Nepal ilustrados com fotografias de excelente qualidade. Retornamos ao hotel somente à hora da janta e, no envidraçado refeitório, apenas 1/3 de seu amplo salão está ocupado por turistas, a maioria alemães. Antes de deitar, dou da janela de meu quarto o último vistaço na noite de Namche: a vila devido à densa névoa que a abraça exibe um excitante aspecto fantasmagórico, fortalecido pelo soar periódico de badaladas vindas do monastério.

Um comentário:

Miriam Chaudon disse...

Conhecer pessoas como o Richard nos faz repensar muito sobre a vida....