sexta-feira, 17 de março de 2017

Moleza de Pernada

O simpático nepalês que será nosso guia durante os 24 dias que durarão nosso trek até o Everest Base Camp chama-se Nirbahadur Jirel, ou simplesmente Nir. Embora caloroso seu sorriso não esconde a má qualidade dos dentes frontais, escovados cuidadosamente todas as manhãs. Nos pega no hotel às 5:15 e nos leva à rodoviária, nada mais do que um grande pátio onde os busões estão estacionados, aparentemente, em aleatória desordem. Contudo, os cobradores apregoam em alto e bom som as rotas e horários orientando assim os passageiros. Aos nossos olhos de ocidentais, a desorganização choca e delicia mas funciona que é uma beleza tanto que saímos 6 em ponto. Os 184 km são percorridos em 6 horas por vários motivos. A estrada inicialmente asfaltada cede lugar ao chão batido e à medida que subimos (Jiri encontra-se 500 metros acima de Kathmandu, que se situa a 1.400 metros de altitude) mais sinuosa e estreita se torna. Devido aos 2 terremotos de 2015, alguns trechos estão sendo reconstruídos. Por fim, a demora em tão curta distância se deve ao fato de o busão parar em todos os vilarejos (e os há às dezenas) para pegar e largar passageiros. Cochilo o tempo todo embora o bus não ofereça qualquer conforto mas estou tresnoitada ainda devido à diferença a maior de 9 horas entre Porto Alegre e Kathmandu. Chegamos em Jiri às 14 horas e lá se encontra quem será nosso porter, Nurbu Sherpa. Magrinho, de baixa estatura como a maioria dos nepaleses, fala quase nada de inglês. Seu vocabulário compreende “some, tired (no decorrer do trek quando chegávamos nas guest houses, ele perguntava, curioso “tired, tired?”). Guia e porter pertencem a grupos étnicos distintos, o primeiro ao Jirel, o segundo ao Sherpa, motivo porque aos nomes são acrescidas a origem étnica. Jiri é considerada uma town, ou seja uma cidade, considerando que sua população alcança mais de 7 mil almas vivendo em 1.500 residências. O trek começará daqui por isso vamos dormir na casa de Nir que nos oferece, assim que chegamos, maçãs e uvas deliciosas, estas sem sementes. Sua mulher, uma gordinha, não fala bulhufas de inglês, limitando-se a sorrir quando a encaramos. Quando da ocorrência dos terremotos em abril e maio de 2015, sua casa teve as estruturas seriamente abaladas. E o coitado fizera um pouco antes empréstimo de 4 mil dólares pra aumentá-la. Sem grana pra reconstruir a residência porque ainda está em débito com o banco, passou desde então a dormir no curral de ovelhas que sofreu melhorias com a introdução dum tabique de madeira dividindo o espaço em 2 peças. Nós somos instalados na primeira enquanto os donos da casa ficam na segunda peça. Orgulhoso de seus dotes de cozinheiro, a janta preparada por Nir está bem boa. Volta e meia falta luz elétrica o que não atrapalha em nada a rotina da casa porque ainda é dia. Curiosa sobre a existência duma beberagem alcoólica feita de milho, painço, cevada e trigo peço uma prova. De cor amarelada, a bebida chama-se chang e seu gosto não cai muito no meu gosto, hehehe. Começa a chover e a temperatura baixa bastante, o que exige grossos cobertores durante a noite. Oxalá, até amanhã a chuva tenha parado pra gente começar o trek com o pé direito! 

18/03/2017 - Sábado – 1º Dia de Trek – Jiri a Shivalaya

O dia amanhece seco, neste primeiro dia de trek - coisa boa! - apenas gordas e brancas nuvens pairam no céu. Café da manhã preparado por nosso orgulhoso anfitrião é um prato de massa com verduras!! Como tudo, fazer o quê, né? Saímos às 8:10 da casa de Nir. O percurso, fácil, praticamente em terreno plano, é rodeado de bosques de coníferas. Embora ainda no final do inverno, pessegueiros e rododendros exibem sua bela floração rosa e vermelha colorindo a trilha por nós percorrida. Diversos vilarejos com 6 ou até menos casas encontram-se ao longo da estradinha. O caminho é bem sinalizado com placas indicando as aldeias e suas altitudes. Os cestos feitos de bambu chamam-se dokshe, os grandes, e doko, os pequenos, servindo pra carregar verduras, frutas e capim entre outros usos. Um deles é o de servir de galinheiro pra galinhas e pintinhos. Ao longo da trilha muitas casas com paredes rachadas, tão danificadas suas estruturas que se tornam imprestáveis como moradia. O jeito que os nepaleses encontraram foi expulsar dos estábulos ovelhas, cabritos e vacas passando a morar ali. E aqueles que não tinham estábulos fizeram casas com folhas de zinco em formato de meia lua. Nepal tem uma quantidade enorme de rios que exigem longas pontes metálicas pra alcançar as vilas, via de regra, localizadas em uma das margens. Shivalaya, onde pernoitaremos, não foge a essa regra, tendo sido construída na margem direita do rio de mesmo nome. Chegamos na village às 10:40, não tendo durado nem 3 horas nossa pernada! A altitude ainda não é um problema porque aqui em Shiva não ultrapassa os 1.767 metros. Pelos padrões nepaleses, é considerada uma aldeia de porte médio com dezenas de casas, guest houses e lojas. Por conta dos terremotos de 2015, suas casas de pedra abaladas nas estruturas pelo 1º tremor, ruíram quando exsurgiu o 2º. Assim, ao invés de tijolos ou pedras, material mais caro, foi usada madeira na reconstrução do vilarejo. Ficamos no hotel Kala Patthar Lodge, super simples, cuja patente é o famoso buracão, conhecido como banheiro turco. Eu prefiro o turco ao ocidental, bem mais higiênico porque a gente não encosta no vaso. Nos quartos, pequenos, 2 camas de solteiro. Graças a estarmos ainda em março, as guest houses encontram-se parcialmente ocupadas, o que desobriga eu e Flavio de partilharmos o mesmo quarto. Nunca tinha visto algo assim: as chaves dos quartos são pesados cadeados! Após o almoço, começa a ventar, prenunciando forte chuvaral, porém caem apenas uns minguados pingos d’água. A temperatura porém declina sensivelmente. A tarde se faz bela após a garoa, com um belo sol iluminando a paisagem. Passeando pela vila fui dar na margem do rio onde um grupo de homens e mulheres trabalham num método bastante antiquado de obter das fibras dum arbusto chamado argelio papel. Assim transformada, a matéria prima é exportada pro Japão onde será utilizada na fabricação do yen, papel-moeda japonês. Compro uma baita duma maçã duma suculência deliciosa. Custa 25 rupias (75 centavos de reais!). Adoto como dieta alimentar o veg fried rice, ou seja, arroz frito com verduras. Nosso pacote permite que tomemos uma xícara de chá ou chocolate a cada refeição. Escolho o de gengibre na janta. E pra minha felicidade, não só a internete daqui do hotel é melhor que a do hotel em Kathmandu como sendo a luz elétrica, não há cobrança pra gente carregar os eletrônicos....melhor impossível o início do trek!

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