quinta-feira, 23 de março de 2017

Mulas e Dzos na Trilha

23/03/2017 - Quinta-feira – 6º Dia de Trek Everest BC - Junbesi a Nuntala
Dia nublado e temperatura de 9ºC quando acordo às 6 da matina mas quando saímos de Junbesi às 8 e 20, o sol dá as caras com timidez num joguinho besta de esconde-esconde. Inicialmente, sobe-se, ou melhor, escalaminha-se (será assim até o Eve BC?) degraus de pedra, pra mim demasiado altos, considerando minhas curtas pernocas. Mas nem tudo são espinhos porque o sendero atravessa encantador bosque de pinheiros. Após 1 hora de árdua subida, o terreno vira chão batido e o sol brilha firme num céu despejado de nuvens, onde paramos num mirador e avistamos atrás de nós Lamjura La. O passo, um côncavo coberto de neve, aninhado entre duas encostas de montanhas, parece tão longínguo mas dista apenas 11 km. Saímos do aconchego do bosque e passamos a caminhar a céu aberto numa trilha que percorre encostas de montanhas. No 2º mirador, sentada à comprida mesa, diante da guest house, como o saboroso queijo de vaca vendido pela dona do estabelecimento. A simpática anciã pergunta se tenho filhos enquanto apalpa meu casaco e toca na minha blusa falando algo que não entendo. Nir chamado a traduzir, explica que ela observou que estou com a camiseta do avesso, hahahaha. Deste mirador já é possível se ter um vistaço do Everest, Lhotse e Makalu. Muitas nuvens toldam as bandas do norte onde esses 8 mil se localizam, e só consigo avistar a ponta do cume do Kusum Kanggaru (6.367 metros). Coisa boa que a trilha agora passa a ser o bom e velho chão batido, enfeitado por prímulas azuladas. Lá embaixo, no vale, serpenteia o rio Ringmu em cujas margens espalham-se diversos vilarejos. Novamente, ingressamos num bosque com rododendros floridos. Nir chama minha atenção prum bando de veados pastando numa encosta. Passamos ao largo de Phaplu, situada no lado de lá do rio. Ele conta que muitos turistas vêm de bus de Kathmandu até essa vila, (demora 13 horas a viagem!!), indo então até Lukla numa pernada de 3 dias, dali seguindo pro Everest BC. Acrescenta que quando Lukla tem muito nevoeiro, os helicópteros pousam em Phaplu, esperando o tempo melhorar pra retomar o vôo. Passa-se por uma big avalanche de terra. A impressão que tenho é a de que a qualquer momento vai despencar mais terra e rochas. Caminho em silêncio, porque sei que podem as ondas sonoras emitidas por conversê provocar novo desmoronamento. Caladinha, então, eu, né!! A trilha de chão batido tangencia a vila de Salung e segue, assim, com amáveis subidas até uns 30 minutos antes de Ringmu. Tanta benesse estava durando muito, em se tratando de zona montanhosa, porque pouca demora, tem início uma escadaria de pedra que faria o pagador de promessas, se tivesse de percorrê-la, repensar sua dívida com Deus. O pior é que nunca se vê o topo da maldita escada, tanto que começo a me irritar e brigo com meus botões. O tempo nublou geral faz mais duma hora. Trovões soam ao longe e fina cerração paira sobre o ambiente. Chego ao restaurante em Ringmu com as roupas encharcadas de suor. Tiro-as e peço pra Nir colocá-las diante do fogão à lenha da cozinha de modo que sequem durante o tempo em que ficarmos aqui almoçando. Terminada a refeição, saímos de Ringmu debaixo de vento e frio mas sem chuva, aleluia. Outra subida bem íngreme, calcorreando uma estrada de pedras nos leva aos 3.071 metros de Trakshindu Pass. Coisa boa que, sempre após um passo, vem a confortável (nem sempre) descida. Decorridos 20 minutos, estamos diante do 3º monastério budista mais antigo do Nepal, de mesmo nome do passo. Atraída pela música e mantras entoados pelos monges, entro no recinto. Uma beleza o som dos instrumentos de sopro e percussão seguido pelo cantochão dos mantras pausados por precioso silêncio entre um e outro. Após, descida até Nunthala com duração de pouco mais de 2 horas. Desde Trakshindu, venho observando o tráfego incessante de mulas, porque desta vila em diante cessam as estradas trafegáveis, restando apenas trilhas e estradinhas vedadas à passagem de veículos automotores. Intenso o vai e vem dos animais porque alimentos e materiais como botijões de gás são conduzidos de Lukla em diante até Gorak Shep, retornando os animais de lombo vazio das zonas de altas montanhas. Segundo Nir, o movimento chega a 200 animais por dia, daí porque as trilhas são atapetadas de bosta fresca. Embora estejamos descendo uma íngreme ladeira, a coisa se complica porque grande parte da trilha está lamentavelmente coberta dum misto de lama e merda de mula. O risco de escorregar e se estatelar nesta mistura fedorenta é grande. Passados 40 minutos, atingimos terreno seco e chego incólume às 17 e 16, salvo botas e barra da calça imundas, a Nunthala, uma gracinha de vila. Em ambos os lados da rua principal, diversas guest houses e armazéns com as tradicionais fachadas pintadas de branco e aberturas em azul. Algumas das residências têm jardins na frente com rododendros floridos, outras um páteo espaçoso com piso de pedra. Conheço durante a janta, uma jovem francesa que conta ter trabalhado durante 2 anos em uma das aldeias mais severamente atingidas pelos terremotos de 2015, onde vieram a perecer mais de 1000 pessoas. Comenta que isso mudou sua vida e mais não fala sobre a catástrofe. Minha curiosidade nem ousa perguntar o motivo!!


24/03/2017 - Sexta-feira – 7º Dia de Trek Everest BC – Nuntala a Bupsa
Situado no nordeste do Nepal, Solukhumbu, um dos 14 distritos que fazem parte da província nº 1, estabelecida pela nova constituição de 2015, é a região por onde caminharemos durante os demais dias deste trek ao Eve BC. O país é uma sociedade com pluralidade de culturas em que os Sherpas são meramente a mais famosa minoria num país onde não há maioria. São cerca de 30 etnias que nem sempre conviveram de forma pacífica. Bueno, depois dessa pequena introdução, deixemos o aspecto histórico e voltemos à Nunthala e sua manhã nublada, com temperatura em torno de 11ºC. Partimos dos lugarejos, geralmente, às 8 e 15, horário fixado por nosso dear guide Nir. Assim, pontualmente, deixamos pra trás este vilarejo encantador e iniciamos a descida de mil metros que se estende até o rio Dudh Koshi. Começa a esquentar bastante o que me obriga a guardar o agasalho na mochila e ficar de manga curta, coisa boa!! A trilha percorre um largo trecho de floresta cujo terreno é aquele característico pedrario que tanto “amo”. Vai à nossa frente um rebanho de dzos (cruza de yak com boi) tangidos por três jovens. De repente, um dos animais resvala na ribanceira e escorrega encosta abaixo. Um dos rapazes tenta segurá-lo pelo rabo não logrando êxito devido ao peso do bicho. Nenhum mugido se escuta enquanto o pobre dzo rola pela ribanceira. Cessada a queda, que dura uns 2 minutos, eis o dzo de pé, sem qualquer ferimento aparente, sendo rebocado de volta à estrada. E nenhum dos homens se atucanou ou se desesperou durante a queda do boi. Nas zonas abertas, chama atenção as cicatrizes deixadas pelos deslizamentos de terra nas encostas das montanhas situadas na margem oposta do rio Dudh Koshi. Cruzado o rio, começa a subida naqueles degraus infames de altos. O tempo continua nublado. Atravessamos Juving, vila grandota, com dezenas de casas onde paramos numa tea house pra tomar chá e comer biscoitinhos de côco. Como muitas casas, esta também têm antena Sky, exibindo a tv um programa sobre desperdício de água no país. Continuamos a cansativa subida até Kharikhola onde fazemos uma boa pausa pro almoço. A vila é grande com vários lodges, contando também com posto de saúde, o que denota sua importância no distrito de Solukhumbu. Terminada a refeição, percorremos o restante do povoado até a ponte metálica sobre o rio Khari. Do outro lado da margem, começa outra subida no pedrario, dessa feita sem falsos planos, até Bupsa, avistável no alto duma colina. O tempo se torna mais fechado e pingos miúdos estão caindo quando chegamos às 15 e 50 na vila que conta com um pequeno monastério. Bem menor que Kharikhola, Bupsa situa-se bem acima do rio, empoleirada numa crista de montanha. A cerração baixou de vez tanto que nem se pode avistar mais Karikhola do outro lado do rio. Descobri a razão de as escadas dos lodges serem tão íngremes quanto as lombas. São feitas bem verticais pra não ocuparem muito espaço no interior das residências. Na janta, resolvo provar a típica comida nepalesa, o dal bhat, que vem a ser mutatis mutandis, arroz (bhat) com feijão, no Nepal substituído por sopa de lentilha (dal). Acompanha, conforme a região, verduras da estação, uma casquinha gostosíssima, bem fininha, feita de farinha de trigo, batatas com curry ou picles. Só falta a farinha de mandioca pra eu me sentir no Brasil hehe

Um comentário:

Miriam Chaudon disse...

Sempre me impressiono com o tamanho da carga que eles levam nas costas.....