sábado, 25 de março de 2017

Perdendo o fair play

25/03/2017 - Sábado – 8º Dia de Trek Everest BC – Bupsa a Surke
Céu de brigadeiro e termômetro marcando algo em torno de 10ºC. Começo de dia perfeito pra caminhar. Antes de partirmos pra Surke, onde pernoitaremos, subo até o monastério de Bupsa donde se tem uma vista linda dos terraços de plantações de cereais espalhados nas encostas das montanhas ao redor. Uma cadela e sua cria, ambas de pelagem preta, brincam diante da stupa. Fico então sabendo que os dogues em nepali são chamados de kukur e os gatos de suri beralo. No horário marcado, 8 e 15, iniciamos nossa jornada diária, quando cruza por nós, decorridos 30 minutos de caminhada, uma mulher carregando às costas, numa caixa retangular improvisada em berço, uma bela nenê. A orgulhosa mãe pára quando escuta meus ohs e ahs de admiração e retira o pano que protege do sol o rostinho da criança: o bebê está quietinho, de olhos bem abertos. Após quase 3 horas de ininterrupta e íngreme subida paramos em Thamdada, eu, Nir e Nurbu pro nosso já tradicional chazinho com biscoitos de côco. Flavio, que prefere se manter apartado, caminhando sempre à frente, não participa, assim, de nossos teas break. O céu continua azulão sem nuvens a toldá-lo. O tráfego de aviões e helicópteros é intenso entre Kathmandu-Lukla-Kathmandu. Durante a pernada, paro pra fotografar pessegueiros, rododendros e lótus floridos exibindo suas delicadas flores rosadas, vermelhas e brancas. Lá embaixo, o rio Dudh Koshi desfila suas águas verdes em sinuoso traçado. Quando vêm mulas em sentido oposto ao nosso, o bom costume local ensina que a preferência de passagem pertence aos animais. Assim, cada vez que avistamos um grupo de mulas ou dzos, paramos, espremidinhos à margem da trilha, cedendo o passo aos bichos. Os líderes da tropa levam pendurados nos pescoços badalos ou colares com pequenos sinos cujo agradável tilintar metálico muitas vezes avisa sua iminente aproximação. Desde Thandada só descida num mar de lama, bosta e urina deixadas pelos animais. Não sei o que fede mais, se a urina ou a merda. Gordas moscas varejeiras voam ao meu redor tentando fazer de meu rosto pista de aterrissagem...arghhh!! Pra se protegerem do fedor e da poeira levantada pela passagem dos animais de carga tanto Nir quanto Nurbu usam máscaras sobre os narizes. Nir pra me consolar diz que a partir de Namche Bazar só yaks são usados e que seus excrementos não têm odor porque os bichos só comem grama. Triste consolo esse, ainda faltam dois dias pra Namche. No meio da profunda irritação que a maldita trilha provoca, dou de cara com o visual dos esbranquiçados cumes nevados dos picos Numbur (5.500 metros) e Kungde (6.187 metros) e suas esvoaçantes caudas de neve formadas pela ação dos fortes ventos soprados naquelas altitudes. Levamos quase 2 horas pra chegar a Poyan, por causa da trilha fedorenta. Embora esteja a vila a 2.780 metros, está fazendo muito calor, tanto que almoço sentada a uma das mesas dispostas ao ar livre no jardim do restaurante. Deixamos Poyan às 14 horas e continuamos subindo e subindo até cruzar o passo Chutok donde se avista a imponência dos 6.367 metros do pico Kusum Kangguru. Hoje o dia está sendo duro porque Nir pegou esse atalho que conduz a Surke de modo a evitar passar por Lukla. E o tal atalho pra mim tá alongando mais a caminhada, não termina nunca, puta merda. O fato é que mais que cansada estou irritadíssima o que me leva a ser inclusive injusta com o coitado do Nir, admoestando-o durante o caminho pela péssima escolha de itinerário. No dia seguinte, peço sinceras desculpas pra ele que, generoso, não guardou mágoa alguma de meu mesquinho comportamento. Antes de iniciarmos a descida até Surke, avista-se Lukla ao longe situada numa crista de montanha. A visibilidade está excelente porque o céu manteve-se limpo, sem vestígios de cerração durante o dia. Enfim, começamos a descer e pouco antes de Surke os rastros duma grande avalanche materializam-se nas ruínas duma casa destruída. Bueno, desmoronamentos são uma constante nestas zonas montanhosas, sendo que este foi o segundo do dia visto por mim. Chegamos, após 3 horas de caminhada desde que partimos de Poyan, a uma das 3 guest houses existentes em Surke. Localizada dentro do canyon do Dudh Koshi, a 2.200 metros, com casas espalhadas em ambas as margens do rio, o vilarejo é úmido porém super fértil. Prova disso são verdejantes plantações de centeio, alho e cebola nos terrenos ao lado das casas. A enraizada vocação agrícola não deixa ninguém morrer de fome no país. 

 

26/03/2017 - Domingo – 9º Dia de Trek Everest BC – Surke a Phakding
Saímos de Surke às 8:05 sob pesada névoa embora não esteja frio, acusando o termômetro confortáveis 14ºC. Uma longa mani wall de pedras escuras com mantras escritos em tinta branca sinaliza a rota que conduz a Lukla. O caminho é tranquilo inobstante em contínua ascensão. Como a cerração não dá arrego, aviões não conseguem pousar em Lukla e os poucos helicópteros que tentaram não lograram êxito, retornando a Kathmandu. Da ponte sobre afluente do rio Dudh Koshi, avista-se despencando paredão abaixo comprida cachoeira. Mais duas travessias são feitas nas fortíssimas e longas pontes metálicas construídas sobre o rio Dudh Koshi. Enormes painéis de madeira avisam como identificar sinais de enchente e as providências a serem tomadas nas inundações à entrada de Mushey. Nesta pitoresca vila, com boas e espaçosas residências edificadas em pedra, muros de taipa delimitam os terrenos das propriedades em ambos os lados da rua principal. Dezenas de coloridas rodas de oração estão espalhadas ao longo do vilarejo, além de 2 grandes stupas e um belo pórtico com rodas douradas de oração. O povoado, pelo visto, professa fervor budista mais intenso que nos outros pelos quais tenho passado. Nos trechos de subidas, estas seguem o cansativo estilo de serem calçadas com degraus de pedra. Colada à Mushey, segue-se a vila Cheplung com um belo monastério encravado no alto duma parede rochosa de montanha, lembrando um pouco o Tiger Nest no Butão. A umidade provocada pela cerração deixa fina película d’água em meu rosto. Pessegueiros floridos dão um toque rosa à paisagem. Numa parte da trilha, a cobertura vegetal da encosta da montanha foi arrancada por um grande desmoronamento obstruindo considerável trecho da estrada. Foi preciso, então, construir uma ponte metálica que se estende além do terreno intransitável de modo a manter a trafegabilidade entre os povoados. Meninas saindo do colégio usam deselegantes uniformes que consistem em folgadas calças brancas cobertas com uma sobreposição de paletó azul-marinho sobre bata vermelha. O ensino na escola primária dura 5 anos, prolongando-se por mais 10 anos na high school, conforme a condição econômica das famílias. O número de porters indo e vindo é contínuo, paleteando desde mesas, camas, fardos monumentais de lenhas e de caixas de víveres às mochilas dos turistas. Alguns deles, devido ao peso dos fardos, caminham com o torso dobrado em ângulo de 90º. Apoiando-se numa pequena bengala, mantêm preso aos dentes cordão envolvendo a carga de modo a firmá-la melhor. O trajeto até Gath, vila onde almoçamos, se dá ao longo da margem leste do rio Dudh Koshi. O povoado é bem grandote e o restaurante brilha de tão limpo. Escolho momo recheado com queijo e molho picante. Uma delícia! Às 13 já rumando pra Phakding, leio num cartaz, indicando distâncias e tempos entre vilas, que falta apenas uma hora pra alcançarmos nosso destino. Cada vez mais gente na trilha, tanto indo quanto voltando de Gorak Shep, o último vilarejo antes do acampamento-base do Everest. O caminho é tranquilito tanto nas subidas quanto nas descidas, tendo como bônus o belo e esverdeado visual do rio Dudh Koshi e suas agitadas corredeiras, à mão esquerda. Mais outra grande cicatriz provocada por avalanche de terra, na encosta da montanha situada na margem oposto do rio. Bom demais chegar em Phakding às 13 e 50 porque vou poder dar uma banda na movimentada vila onde há dezenas de lojas, alfaiatarias, bares, night clubs bakeries e guest houses pra todos os gostos e bolsos. Cartões de crédito de variadas bandeiras são aceitos em restaurantes e lodges. Do lado de lá do rio, na margem oeste, atravessando a comprida ponte metálica, descubro uma confeitaria Hermann e suas deliciosas tortas além de vários tipos de bebidas quentes. Escolho uma torta de maçã, deliciosa, e um capuccino. Uma pena que a cerração manteve-se firme e densa durante o dia inteiro, garoando na metade da tarde quando estava dando um rolê na vila. A quantidade de corvos nos telhados, fios elétricos e muros é espantosa. Contudo, não param muito tempo empoleirados, voando de lá pra cá, num veemente crocitar durante a irrequieta movimentação. O quarto tem banheiro mas o chuveiro acionado à base de energia solar não é quente o suficiente prum demorado banho que inclui lavagem de cabelo, motivo por que pago 300 rupias (3 doletas) pra tomar um banho de chuveiro a gás. Já tá na hora duma limpezinha corporal mais aprofundada, afinal, faz 9 dias desde o último banhão. E, aleluia, meu Sim Card NCell pegou, lento, mas pegou, não vou precisar comprar um cartão de wifi local, ebaaa!!

Um comentário:

Miriam Chaudon disse...

Fico sempre maravilhada com as paisagens e com aquela cor linda das águas de degelo nos rios! Belíssima viagem!