sexta-feira, 31 de março de 2017

Everest, um nanico entre gigantes

30/03/2017 – Quinta-feira – 13º dia de Trek Everest BC – Tengboche a Dingboche
Às 5 e 30 quando acordo está um baita dia o que não me espanta porque quando levantei durante a madrugada para fazer xixi o céu estava todo estrelado. Às 8 e 15, nos despedimos de Tengboche, donde se tem uma visão espetacular do Nuptse, Lhotse e Ama Dablam. Ah, do Everest mal e mal se vê a miniponta de seu cume, motivo por que nem merece minha atenção, é um anão diante dos outros hahahaha!! O movimento de helicópteros está animado, inclusive um deles pousa aqui na frente do hotel pra deixar alimentos e pegar turistas que retornam a Kathmandu. Nem sei se é o caso desses, mas muitos turistas não conseguem completar o circuito Everest BC por causa do mal de altitude. A trilha, inicialmente, é uma descidinha no bosque de rododendros. Depois só encosta de montanha a céu aberto. Do Nuptse, Lhotse e do minúsculo e escuro ponto que é o Everest pouco se vê porque há sempre uma parede de nuvens escondendo-os. O Ama Dablam, contudo, não deixa barato pras nuvens, e impõe sua branca nudez sobre a região. O dia continua lindaço. Kungde, pico do qual gosto muito, fica pra trás, mas ainda se vê à direita o leque de rochas que forma a parede oeste do Thamserku. Não é uma trilha exigente embora continuemos a ganhar altitude gradualmente. Passamos por Pangboche encarapitada a 3.985 metros. A vila tem boas guest houses, feitas de pedras, material usado na construção de 90% das residências do Solukhumbu. Muitos currais de yaks, todos eles vazios, já que o transporte de cargas nesta época do ano não permite que os bichos esquentem lugar. Daqui pra frente mulas e dzos não têm mais vez nas trilhas. Pangboche é porta de entrada pra quem quer escalar Ama Dablam. Pra tanto, deve se cruzar o rio Dudh Koshi e pegar a trilha que conduz àquele acampamento-base. Uma estradinha bem estreita, num terreno escarpado onde lá embaixo se encontra o Dudh Koshi, desce até Shomare onde paramos prum lunch break. Aqui já está almoçando o simpático casal de alemães que conheci em Junbesi e que ocasionalmente encontro. A partir de Shomare, a paisagem sofre dramática alteração: salvo a presença de pequenos arbustos espinhentos inexiste qualquer outro tipo de vegetação. Caminhamos por 2 horas no árido vale banhado agora pelo Imja Khola. Cercado por montanhas sem grande expressão, apenas Ama Dablam é digno de nota. Conforme nos deslocamos, novas faces Ama desfila de seu mesmerizante e esquizofrênico perfil. Quando próxima de Dingboche, se agiganta, à esquerda, Taboche. No fundão da vila, destaca-se, ao lado do Lhotse, Island Peak, montanha muito procurada por turistas devido ao seu status de “facinha”, também é escalada pra aclimatar antes de os montanhistas se lançarem em busca do cume do Everest. Às 14:00 estamos entrando em Dingboche cuja rua principal, demarcada por muros de pedras, tem em ambos os lados lodges, padaria e até um salão de sinuca. Várias lojinhas vendem desde toucas de lã a papel higiênico. O tempo muda a partir das 16 e 30, baixando aquela cerração e sensível queda de temperatura. Após conversar com Silvia, jovem italiana de 20 anos, que viaja sozinha, carregando pesada mochila, vou pro quarto onde descanso até a hora da janta. Os 4.500 metros de altitude - não é pouca coisa, não é mesmo? - estão cobrando seu preço, na forma duma dorzinha de cabeça e um pouco de sono. Agora 18 e 20, vejo pela janela envidraçada do refeitório que a cerração se dissipou restando apenas pequenas caudas de nuvens nas partes mais baixas das encostas das montanhas ao redor da vila. Island Peak, até então obnubilado, ressurge lindo tal qual bolo polvilhado com açúcar de confeiteiro.
31/03/2017 – Sexta-feira – 14º dia de Trek Everest BC – Dingboche
Desperta às 5 da manhã porque, como não gosto de fechar cortinas pra escurecer o quarto, a claridade é o melhor despertador já inventado. O dia promete ser deliciosamente comportado. Agora 7 e 30, o bom tempo dá alô exibindo impecável céu de brigadeiro. Dentro do hotel a sensação térmica é mais baixa que a da rua onde o termômetro marca 5ºC. Hoje é dia de “descanso” em Dingboche. Descanso, em treks que envolvem alta montanha, nem sempre significa ficar de barriga pra cima, sem nada a fazer. Pra nos fortalecer, já que daqui em diante, só há ganho de altitude, vamos aclimatizar subindo o Nagarjun, um pico de 5.040 metros. O ascenso é suuuuperrrr puxado. Nem consigo curtir o visual enquanto calcorreio a puta rampa que conduz ao cume porque só concentro em harmonizar a respiração a cada passo dado. Meu foco é respirar com calma e caminhar sem pressa de chegar. Descanso algumas vezes pra recuperar o fôlego sem sequer pensar em fotografar ou filmar os arredores. A energia dirige-se apenas pro cobiçado cume. Que alívio quando alcanço o amontoado de rochas escuras ao final da duríssima, e bota dura nisso, ascensão ao cume do Nagarjun!! O cenário é recompensador: à leste Ama Dablam, Kangtega (6.782 metros) e Thamserku, ao sul, nas bandas de Namche, Kungde e, a sudoeste, Taboche (6.542 metros) e Cholatse (6.440 metros) voltados pro vale que leva a Lobuche. Dá pra ver ainda Island Peak, também conhecido como Imja Tse (6.160 metros) bem como a perfeita forma piramidal do Cho Polu (6.735 metros). E pra completar tanta belezura e grandeza, avisto, de inhapa, boa parte do flanco nordeste do Makalu (8.463 metros)!! Sorte nossa de o tempo estar tão legal, proporcionando alta visibilidade da região. Durante nossa permanência no pequeno cume do Nagarjum, vão chegando mais turistas, alguns com ar abatido, outros bem serelepes. À margem direita do rio Tsola, se vê a vila de Periche, segundo Nir bem mais fria e ventosa que Dingboche embora situada a mesma altitude. O tempo, pouca demora, mostra seus maus bofes e rapidinho a cerração encobre a paisagem, motivo pelo qual iniciamos o descenso pelo bem demarcado sendero. Não tão cansativa, é claro, quanto a subida, exige ainda assim bastante cuidado porque coberta de areia fina. Percebo quão bom é o uso dos bastões nesse tipo de terreno, evitando escorregões à toa. Além da cerração, o frio ventinho que sopra aumenta o desconforto durante a descida. Chego exausta em Dingboche e, após o almoço, venho pro quarto descansar. Aquecida embaixo do edredom, entremeio leitura de contos de Katherine Mansfield com deliciosas cochiladas. Tenho de fazer certo esforço pra levantar, porque se não tivesse de jantar permaneceria deitada. Não só a altitude quanto o tempo colabora pra que eu me sinta preguiçosa. Sinto que o esforço despendido na descida do Nagarjun deixou marcas dolorosas em minhas coxas. O número de turistas aumenta a cada dia que passa, tanto que hoje a Guest House Yak, onde me hospedo, se encontra com lotação esgotada ao contrário de ontem, parcialmente ocupada. Observo que as pousadas, por questão econômica, não utilizam em seu interior isolamento acústico. Assim, as paredes que separam os dormitórios não passam de finas divisórias de compensado, razão por que deixam vazar o mais insignificante dos ruídos. Em meio à vulgaridade dos sons emitidos pelos vizinhos de quarto, observo que o céu noturno, até então envolto em brumas, ostenta em meio a oceanos de estrelas uma lua crescente.

Um comentário:

Miriam Chaudon disse...

Realmente foi um dia maravilhoso, este! Quantas paisagens maravilhosas, que montanhas fabulosas! Tudo tão belo!