sexta-feira, 21 de março de 2008

Aos pés do Laskar

O roteiro inicial previa que nós, após o desjejum, seguiríamos direto ao vulcão Laskar onde acamparíamos para, no sábado, ascendermos ao seu cume. Infelizmente, há uma alteração nos planos que nos obriga a regressar a San Pedro em vez de ir direto pra lá. Merda, resmungo eu cá com meus botões! Acontece que o saco de dormir e isolante térmico que Val trouxera do Brasil foram insuficientes pra aquecê-la e a pobre amargou um frio danado que a impediu de pregar olho durante quase toda a noite. Eu, que alugara um de Edison, não tive tal infortúnio, cheguei a suar tão quente o saco de dormir e, assim, dormi bem aninhada. Por isso Felipe precisa retornar a San Pedro pra pegar outro mais quente pra Val. Após desmontadas as barracas e colocados os equipamentos na caminhonete, deixamos Tara. Chegamos em San Pedro e cada um toma seu rumo: Val vai com Felipe tomar um banho na pousada onde ele mora e Paola até sua casa fazer alguma coisa, não sei bem o quê, porque nem prestei lá muita atenção.
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Minha cabeça ainda estava em Tara. Combinamos de nos encontrar na agência às 14 horas e de lá almoçarmos no La Soleña, na calle Toconao. Como são 13:30 e tenho ainda meia hora, aproveito e vou tomar um expresso na mesma cafeteria onde estivera há dois dias atrás. Desta vez não veio o tal biscoitinho...que pena!! Avisto Felipe com seu caminhar gingado se aproximando. Pago a conta e vou ao seu encontro. As gurias já estão na agência Planeta Aventura nos esperando. Val revigorada por seu “banho de verdade”, comenta radiante com seu chiado carioca “estou limpinha Bia, limpinha”. Esta é asseada mesmo!! Como o tempo que tínhamos em San Pedro era escasso, tive de escolher entre descarregar minha máquina ou tomar banho. Nem hesitei, preferi a primeira opção. Afinal, ficar dois dias sem banho não é o fim do mundo! Chegamos no restaurante onde nos é servida uma cazuela de marisco, gostosinha, com arroz e alguns legumes. Terminado o almoço, embarcamos no carro e nos mandamos. Do rádio, vem uma música que não podia ser mais chata: meio fúnebre, tudo porque hoje é sexta-feira da paixão e as AM e FM chilenas respeitam a santa data....ai jesus cristinho, dai-me paciência!! Reclamo pra Felipe e ele coloca no cd player o único disco que tem: o tal som de heavy metal alemão que vem nos acompanhado desde quinta-feira....humpf! Rodando estrada afora, já tenho na cabeça a trilha sonora das imagens que filmo. Será alguma das canções da minha atual cantora preferida: Amy Winehouse. Pois não é que numa entrevista, a destrambelhada criatura deu uma fina mostra do humor inglês temperado com molho judaico? (sim, sim, ela pertence ao povo de David). Disse que ficava muito preocupada se o namorado, quando ia pra casa da outra namorada, seria bem alimentado. Que hilária essa inglesa!! Ahahahahaha!!! Após passarmos ao largo da Quebrada de Tumbres e do povoado de Talabre, já dé possível distinguir, perfeitamente, na clara tarde ensolarada, o Laskar. À sua direita, o cerro Corona exibe bem no meio de seus encostas o cume, à semelhança de um peitinho de adolescente. Ao lado do Corona, o Tumisa, formato mais irregular, onde se destacam dois topos tais quais corcovas de camelo. A estrada é pra lá de ruim, puro areião, e os meus ouvidos já sentem aquele zumbido característico de quem está subindo. Tapo o nariz e faço força pra respirar de modo a diminuir a pressão causada pela altitude. Tou nem aí, me sinto tão feliz de estar longe da civilização que suporto isso e o que mais vier! Passamos ao largo da laguna Lejia e paramos num lindo vale atapetado pela vegetação dourada dos coirones. Felipe indagado sobre como se chama o lugar, responde que não tem nome. Daí batizo-o de vale Amarillo. De onde estamos, o Corona apresenta outra forma. Não parece o mesmo que eu avistara da estrada. Também pudera, demos a volta e estamos avistando agora sua face leste. Ao norte, o cone perfeito do vulcão Águas Calientes e a forma esparramada do Laskar de onde saem fumarolas de sua cratera, me deixam extasiada. O lugar é sen-sa-cio-nal. Amo cada vez mais o deserto. Enquanto Felipe fica descarregando o carro e montando o acampamento, Paola, Val e eu iniciamos a subir a encosta do Corona. Estamos a 4.700m. Devido a noite mal dormida, Val não se sente bem e resolve voltar ao acampamento de modo a se preservar, amanhã, pro Laskar. O sol está se pondo quando chegamos ao alto do Corona com seus 5.200m. Deu pra cansar, afinal, foram mais ou menos 500 metros de desnível. Como não me abriguei adequadamente sinto bastante frio. Ademais o vento está bem forte aqui em cima. Por isso pouca demora no cume no cume. Logo estamos baixando. Quando chegamos, a janta está quase pronta e não demora muito estamos comendo uma galinha assada com salada de abacate e tomates. Pra beber nada melhor que um revigorante chá quente. Como o frio está pegando e ainda é cedo, um pouco mais de 20 horas, entramos no carro e lá ficamos conversando. Porque preciso ir ao "banheiro" - localizado atrás de uma rocha grande - saio e percebo deslumbrada surgir, detrás de uns cerros situados a leste, enorme e ainda meio avermelhada pelos últimos raios solares, a lua. Começo a gritar - às vezes até pareço louca - e abro a porta do carro - os coitados até levaram um susto - conclamando o pessoal a admirar tal espetáculo. E sabem o que Felipe faz? Pega o carro e dirige até a laguna Lejia pra que a gente possa contemplar a lua refletida na superfície de suas águas. Sensível ele, não é mesmo? Olha, tá difícil conciliar o sono. Minha vontade é ficar no lado de fora da barraca curtindo o luar deste vasto altiplano atacamenho! Infelizmente, tenho de dormir, e desconsolada entro na barraca. Tchau lua!!
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