quinta-feira, 24 de março de 2005

A capital do império inca

No vôo de Lima a Cusco – uma hora de viagem – passo quase todo o tempo olhando através da janela. Posso assim observar a mudança na paisagem. Até a metade da viagem, o solo desértico denuncia a aridez climática, à medida em que me distancio da capital, os cerros já começam a exibir trechos pontilhados de vegetação para finalmente serem completamente dominados pelo esplendoroso verdor serrano. Chego ao início da tarde em Cusco. De cara, gosto da cidade cercada por montanhas de suaves contornos, ruas estreitas e íngremes ladeiras de tirar o fôlego, situada a 3.400 metros ao nível do mar. Eu, criatura nascida e criada sempre ao rés do chão, já estou ciente dos efeitos de tal altitude: o temido mal estar, conhecido como soroche. Assim planejo ficar quinta, sexta, sábado e domingo aclimatando-me, pois na segunda-feira estarei partindo para a caminhada a Machu Picchu. Instalo-me no hotel e logo a camareira me serve um de coca para aliviar os efeitos da altitude. Descanso um pouco e vou conhecer a Plaza de Armas, ponto central da velha cidade, onde estão a Catedral, um imponente prédio de pedra, e a Igreja da Companhia de Jesus, cujo altar dourado é um deslumbre. Escolho para almoçar um dos restaurantes localizados sob as arcadas dos edifícios construídos ao redor da plaza. Sento-me a uma mesa ao ar livre, já que o clima, agradável, assim o permite. Peço uma sopa de quínua (um cereal de cor branca e grãos bem miúdos) mais cenoura, vagem, espinafre e batata, muito gostosa. Logo encostam à mesa crianças e mulheres vendendo mis bugigangas que, com vozes meigas, exclamam: mamí, ayudame, compra este brazalete, aún no vendí nada hasta hora, compra este collar para darme suerte. As melosas vozes das criaturas vencem no cansaço pela insistência. E por onde se caminha, escuta-se aquela cantilena de mamacita, mamacita, mira que lindo! No início, até curto esse cantochão, com o passar dos dias, porém, começa a encher o saco a insistente abordagem (é de se registrar a pouquíssima quantidade de homens pelas ruas vendendo mercadorias). Caminho um pouco pelas vielas tortuosas admirando o rico artesanato colorido exposto nas lojas e calçadas, as roupas, as toucas e bijuterias, as cerâmicas e as bonecas de pano, as imagens de santos e os tapetes indicam a forte influência indígena. As vendedoras de comidas expõem quitutes como o delicioso milho assado (há 120 espécies) com queijo. As mulheres e crianças com seus trajes típicos portam chapéus de variadas formas, tamanhos e cores (o mais simples é um de cor preta ou bege, copa redonda, sem nenhum adorno). Deslumbrada, começo a fotografá-las e, para minha surpresa, pedem un sol, mamacita! Dou, por supuesto (vá que me roguem alguma praga, né?). Olham-me aborrecidas. Intrigada, faço um gesto, questionando. Respondem que um sol não basta, afinal são três pessoas. Exigem mais dois soles, um por cabeça, pode? Não importa, Cusco é envolvente: uma cidade cheia de cor, com muitos de seus prédios caiados de branco, já outros mostram o escuro granito de suas construções. E o balcões! Ah, os balcões! (infelizmente, nessa viagem, ainda, não sou a feliz possuidora de uma máquina digital, por isso, me vejo obrigada a recorrer aos links para mostrar ao vivo e a cores as imagens). Bela, milenar Cusco, umbigo do império inca, orgulhosa de seus guerreiros índios que lutaram contra os espanhóis. Embora a trate com fria cortesia, o cusquenho, em geral, não gosta da turistada espanhola, guarda, ainda, muita mágoa do modo cruel como foram colonizados. Como hoje é quinta-feira santa e o Peru muito católico (tão irônico porque esta crença religiosa é uma herança espanhola), as igrejas fervilham de crentes. Filas e filas nos interiores de suas naves querendo beijar as chagas de Cristo. Na belíssima Catedral de Cusco, a fila se estende do lado de fora arrodeando o quarteirão. E os semblantes sérios, compenetrados do povo, demonstram a fé inabalável de seu catolicismo. Volto ao hotel, bebo mais um tantão de chá de coca, ligo a tv e assisto a um programa de culinária metido a besta até o cair da noite, quando saio, novamente, dessa vez para jantar. Entro ao acaso num restaurante bem simples, decido-me pelo menu turístico composto de entrada (lawa de maiz, ou seja, creme de milho), plato de fondo (truta grelhada com batatas assadas), entre o postre e o suco opto por este (sou ciente de que, nos primeiros dias em cidades situadas a grande altitude, a alimentação deve ser leve e ingerido muito líquido). Atravessando a Plaza de Armas, a caminho do hotel, percebo nas colinas ao redor pontinhos brilhantes provenientes das casas construídas em suas encostas. E a lua quase cheia no céu, deus meu, qualquer coisa de linda, esta cidade, gente!

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