Pretendo com este blog descrever viagens que fiz e farei por este tão lindo planeta, resgatando da memória as impressões armazenadas, algumas já esmaecidas pelo tempo, outras prudentemente registradas pelo olho mágico das lembranças fotográficas.
Tem chovido a semana toda, temperada ainda com vento e neblina. Há que se ter paciência pra fazer os Passadiços do Mondego, pernada que tomo ciência através de meu compadre Jean. Aproveitando uma trégua no mau tempo do outono, domingo, me mando pra lá. Os Passadiços (integrados ao Parque Natural da Serra da Estrela e ao Estrela Geopark Mundial da UNESCO) são um percurso pedestre na Serra da Estrela com cerca de 12 km, que acompanha o leito do Rio Mondego, entre a Barragem do Caldeirão e a aldeia de Videmonte, no concelho da Guarda. O trajeto pode ser feito nos dois sentidos: Barragem do Caldeirão para Videmonte ou vice-versa. Se for feito na totalidade, demora entre 3 a 5 horas, consoante o ritmo e o número de paragens porque há miradouros e vilas ao longo do percurso. O grau de dificuldade "moderado", se deve à elevada quantidade de escadas. Como alternativa, é possível fazer parte do percurso através de um ponto de entrada/saída que existe em Vila Soeiro, tornando a pernada bem mais curta. Escolho pra começar a caminhada a Barragem do Caldeirão. Como inexiste condução pública, contrato um táxi que cobra 30 euros ida e volta (dá em torno de R$ 200,00). Considerando que o acompanhamento de guias é dispensável, tô no lucro. A barragem situa-se na ribeira do Caldeirão pra onde foram desviadas as águas do rio Mondego, visando a construção o abastecimento de água e produção de energia elétrica para a região da Guarda. Na entrada, num stand de madeira, uma senhora confere no meu celular o ticket que havia sido previamente comprado no site dos Passadiços a 2 euros (em torno de R$ 13,00). Já de cara fico embasbacada com as bem construídas escadarias em madeira numa estupenda obra de engenharia. O trajeto acompanha o rio Mondego e com desnível acumulado em torno de 600 m, tem 7 km de escadas e pontes suspensas intercalado por 5 km de trilhas já existentes, atravessando bosques de pinheiros, azevinhos, azinheiras, freixos e castanheiros, exibindo ainda açudes, cascatas, moinhos, engenhos e usinas hidroelétricas. A maior cascata dos Passadiços, conhecida como cascata Rosa, com 50 metros de altura e um grande poço que convida a um mergulho no verão, pode ser vista do mirante da Ribeira do Caldeirão. Nesta época do ano, vê-se o chão coalhado de castanhas, motivo por que é comum ver as pessoas portando cesto e sacos pra colher as frutas nas aldeias da região. Geralmente assadas na brasa, e, se acompanhadas, por um tinto sabem melhores ainda! Os passadiços passam pelas aldeias de serra de Pêro Soares, Mizarela, Soeiro, Trinta e Videmonte. Escolho conhecer Soeiro e Trinta mas nesta última fui dissuadida de entrar por causa dum cachorrão que latia e me lançava olhares furiosos. Como estou sozinha, prefiro não arriscar, vá que o animal se solte e avance em mim...hein!! Numa curva da estradinha, a pequena capela de Nosso Senhor da Piedade, próxima à ponte da Mizarela. Feita em granito com arcos arredondados de sustentação, a ponte conduz à margem direita do Mondego. Um pouco antes de chegar no entroncamento que precede à entrada em Pero Soares, algumas casas exibem, em seus quintais, pés de macieiras verdes e vermelhas enquanto em outros há parreirais carregadinhos de uvas pretas. Opto por não entrar em Pero Soares até porque a placa indica que a vila está a 800 metros. Assim, continuo a trilhar os passadiços curtindo o contorno suave das serras. Após 2 km de pernada, vejo a placa indicando Soeiro a 500 metros e encontro uma aldeia mimosa com casas de xisto e granito e estreitas ruas em S. As oliveiras carregadinhas de azeitonas abundam no caminho que conduz à vila. Retorno à trilha principal avistando, infelizmente, ruínas de antigos lanifícios - aqui conhecidos como engenhos, como o da Fábrica Nova, construído em 1935, que ainda exibe a enorme roda de ferro que movia os teares, a Fábrica Velha, o Engenho da Canada, Engenho Grande e do Pateiro, onde se fabricavam os afamados cobertores de papa. Aproveitando as águas do Mondego, em suas margens foram construídas usinas hidroelétricas, destacando-se a do Pateiro, a terceira do país a fornecer eletricidade à cidade da Guarda, no final do século XIX. Agora o barulhinho bom do Mondego faz coro ao ruído de minhas pisadas acrescido do chilrear do passaredo. Volto mais uma vez a pisar nas passarelas. Ao redor, as serranias arredondadas da serra da Estrela exibem ora a rocha exposta ora recoberta por uma película de cobertura vegetal. O ceu agora azul quase sem nuvens. Quando iniciei a pernada, ainda havia pequenos focos de cerração pairando sobre os vales. Ao longo do percurso há banheiros públicos (com papel higiênico, eba!) e pontos de wifi. Aliás, só compra cartão de internet na Europa quem trabalha ou é adicto como eu, porque até em pontos de ônibus rola wifi. Poucas pessoas cruzam por mim, o que me agrada, porque embora seja, aparentemente, sociável, sou um tantinho misantropa...contradições de personalidade...fazer o quê, né? Pontes de arame sobre o rio Mondego levam o caminhante a trocar da margem esquerda pra direita e vice-versa. Que eu lembre, passo por 3 pontes de arame bem firmes sobre o Mondego. Por atravessar relevo acidentado, exibe o rio curso d'água ora tranquilo ora agitado devido a quedas d'água em seu leito. Fixadas nos corrimãos, placas amarelas metálicas indicam a quilometragem percorrida pelo caminhante. Ao atravessar um bosque de castanheiros, avisto uma tabuleta pendurada numa árvore indicando a venda de mel. Desço até a vendinha e bato um papo com o dono das colmeias, o apicultor Rui. Compro mel pra Bibi, que gosta de comê-lo até puro, e pólen, que vou levar pro Brasil. A parte final da pernada, que conduz à aldeia de Videmonte, é bem dura porque os degraus são a perder de vista, não acabam nunca....eita! Um pouco antes de eu começar a árdua subida, encontro uma senhorinha muito simpática que está a vender marmelada. Muito contente quando sabe que tenho a mesma idade dela, 72 anos. Conta orgulhosa que já fez 2 vezes os passadiços! Acabo comprando um potinho deste doce, convencida por sua lábia de boa e persistente vendedora. Restam vestígios super antigos duma calçada romana e duma ponte medieval entre Pêro Soares e Mizarela. Na reta final da caminhada, construídos na margem direita dum afluente do Mondego, o Ribeiro dos Moinhos (lindas suas quedas d'água), vêem-se vestígios de moinhos que serviam pra moer os cereais utilizados na feitura do pão. Aliás, em Videmonte, anualmente, realiza-se no início de agosto, o Festival Pão Nosso, que celebra as tradições rurais e o centeio, recriando o ciclo completo da produção do pão, desde o corte do cereal até à cozedura, com degustação de pão de centeio, bola de carne, música, danças e atividades que envolvem os visitantes, homenageando os antepassados e a identidade agrícola da região. Ao término da caminhada, tenho de andar mais um pouco até Videmonte onde combinei de o táxi me buscar. Ao longo da rua principal, curto as casas feitas de xisto, a tradicional fonte e sua bica mais a igreja matriz em estilo barroco. Como é domingo, só resta aberto o restaurante da Associação Cultural e Social da cidade. Peço uma bifana (vem a ser sanduíche de bife de carne suína servido no pão), acompanhada dum copito de vinho tinto. Sentada no terraço, a temperatura de final de tarde está amena, curto ao longe os passadiços. Aos poucos, os clientes vão aparecendo pra beber um vinhote, jogar damas ou conversa fora. Estou em paz...fecho de ouro prum dia tão especial!
Eu sou apaixonada pela Idade Média e onde há cidades históricas com arquitetura remanescente dessa época, quero conhecê-las, motivo por que compro uma passagem no app da rede Expressos, que sai bem mais em conta se for adquirida nas estações de camionagens (as rodoviárias portuguesas), e vou conhecer Viseu, distante da Guarda 50 minutos. Ao longo da excelente autopista, aparecem ao longe vilas como Figueiró da Granja, Mangualde e o contorno das serranias, relevo predominante na região. Com 103 mil habitantes, é bem maior que a Guarda, situando-se também na região do centro de Portugal. Envolvida por um sistema montanhoso, destaca-se a serra do Caramulo. Em seu centro histórico, bem preservado, avultam, no Largo da Sé, o museu nacional Grão Vasco, a Igreja da Misericórdia, em estilo barroco, datada do século XVIII, com seu lindo órgão de tubos, e a Catedral da Sé que começou a tomar forma no século XII, inicialmente, em estilo românico. Ao longo dos séculos ganhou o acréscimo de acentos gótico e barroco, percebidos estes nas ricas obras de talha e pintura no retábulo-mor e nos azulejos do claustro. Ao lado da Igreja da Misericórdia, a linda fonte das 3 Bicas, em estilo rococó, foi ponto de encontro das pessoas que ali acorriam pra saciar a sede ou trocar um dedo de prosa. Descendo a rua lateral, que corre ao lado da Misericórdia, encontra-se a linda capela N. Sra dos Remédios, em cujo pórtico de entrada foi lavrada a seguinte inscrição: "Esta capella he do povo que se fez a custa das esmolas dos devotos Anno de 1742". Na frente da capela, outra fonte mais modesta com uma bica apenas. Mais adiante, a porta do Soar, remanescência da antiga muralha que servia de proteção à cidade. Caminhando a esmo pelas ruas sinuosas, encontro outra capela, a de São Sebastião. E conversando com meus botões, manifesto cansaço daquele entra e sai de igrejas e de tanto fazer os 3 pedidos, tradição estacatólica, a cada visita a uma igreja nova. Resta esgotado meu repertório de quereres! Ao chegar a Viseu o tempo, se mostra nublado, caindo uma garoa que molha as ruas, o que me leva a comprar um guarda-chuva numa das centenas de lojas chinesas espalhadas não só por Portugal como pela Espanha, o que pude constatar quando lá estive. Uma delícia percorrer as sinuosas ruas e se deparar com casas de três pisos, aos meus olhos, encantadoras com seus balcões enfeitados com vasos floridos. No centro da cidade, o Rossio exibe um grande painel de azulejo com cenas da vida campestre no muro de suporte da rua superior. No largo, onde está instalada a Câmara Municipal, uma quantidade expressiva de plátanos e tílias serve de proteção natural não só ao sol veranil como às chuvas que já estão dando as caras. Do outro lado da rua, na praça que circunda vários edifícios antigos, destaca-se o da Santa Casa de Misericórdia e os bem cuidados canteiros floridos embora já se esteja no outono. Aliás, o tanto de floreiras espalhadas pelas cidades portuguesas e espanholas constitui-se numa explosão de cores nas ruas. Na parte nova da cidade, predominam confortáveis residências com jardins bem cuidados e pomares exibindo as frutas da estação: maçãs, marmelos e caqui, aqui chamados dióspiro. Ao contrário da manhã, o azul começa a romper o predomínio cinzento no ceu. Como eu já comprara a passagem de volta pra Guarda e o bus parte às 16, trato de procurar um restaurante pra almoçar. Encontro um chamado Casa da Vó, e escolho polvo grelhado; pra beber Alvarinho, casta de vinho branco, típica da península ibérica. O polvo, infelizmente, um tantinho duro, as batatas e os legumes, entretanto, saborosos. Pra minha alegria, descubro que um dos garçons é nepalês - saudades deste país e seu sorridente e amável povo! - e o que me serve, um simpático colombiano com quem troco ideias sobre seu país. A caminho da estação de camionagem, paro numa confeitaria, compro, além de doces, que como no balcão acompanhados por um cafezinho, uma bandeja com mais guloseimas pra Bibi e Jean (Mariatu não é muito fã de doces, tampouco de vinho e de queijo....essa comadre é enjoada pra comer, eita). A caminho da Guarda, já sentada no confortável busão que tem apoio pros pés (todos têm wifi e entrada de usb pra carregar os celulares), curto a paisagem que se desenrola diante de meus olhos. Tô muito contente com o bate-e-volta a Viseu, embora tenha sido breve. Minha curiosidade sobre a cidade, que já tinha chamado minha atenção quando por ali passei vinda do Porto, foi satisfeita. E ainda chego a tempo de pegar Bibi no colégio.....uuuhuuu!! Tô chegando querida!!
Super saudosa de Mariatu e Bibi, minha afilhada, decido ir a Portugal pra comemorar o niver de 6 anos da pequena. Como Mariatu mora na Guarda, compro o voo Brasília-Porto, já que a distância entre as cidades é de apenas 220 km. Com conexão em Lisboa, os trâmites de entrada na União Europeia são ali feitos. Decorrida quase uma hora na fila e já aflita pois a hora de embarque do voo ao Porto é iminente, resolvo falar com um funcionário da TAP praque ele me dê preferência na fila de obtenção do visto. Qual não foi minha surpresa quando a funcionária pergunta se tenho uma carta-convite da minha amiga para visitá-la. Depois de algum conversê, tento argumentar que não tenho e nem pretendo morar no país. E ela, sem dó algum, lasca "muita gente da sua idade vem cá tentar a morar". Quando vou mostrar a passagem de volta, ela resolve carimbar o passaporte e deixar eu passar....filha duma égua!! Suando frio com medo de perder o voo, corro pelos corredores do aeroporto - por sinal bem mal sinalizado - e chego a tempo no portão de embarque graças ao atraso da aeronave....dessa feita, bendito atraso!! Orientada por Mariatu, quando chego no Porto, pego um autobus que demora 3 horas e meia até a Guarda. Vou curtindo a paisagem e as diversas cidades que se localizam aolongo das ótimas rodovias. Solange, amiga de Mariatu, também guinense, me espera na estação de camionagem (rodoviária) e carrega, gentilmente, minha malinha minion. Atualmente, viajo na tarifa básica que inclui a tal mala de 10 kg mais uma mochila de 2 kg. Bom demais encontrar minha comadre que carrega, no colo, Gaudencio, seu bebezinho de 2 meses e meio. Fez pra me esperar bacalhau à Gomes de Sá e pergunta se quero vinho branco ou tinto, sabedora de como gosto desta bebida. Pensou em tudo a querida comadre. Bibi está no colégio e lá vamos nós buscá-la. Ela fica radiante quando me vê, abraços e beijos são trocados com ardor. Todo o tempo que passei na Guarda, busco Bibi no colégio à tardinha (o ensino no país é em tempo integral) e sempre ela me presenteia com desenhos que faz durante a aula. No dia do niver de Bibi (o nome dela é Beatriz, em minha homenagem, mas eu a chamo de Bibi porque me soa estranho chamá-la por meu nome), vamos ao cinema ver um desenho animado, regado a pipocas e refri no shopping La Vie, o único da cidade. Ela faz 6 anos!! Santo deus, como o tempo passa rápido! Lembro bem do dia em que ela nasceu: seu gritero poderoso ao ser retirada do útero materno ecoava pelo corredor da maternidade do Hospital Femina. Agora está uma menina alta, magra, falante, esperta, alegre e agitada. Carinhosa me acorda com beijinhos e me chama de Dinda Bibi. A festa, entretanto, é comemorado no sábado, e seu pai, Jean, vem comprando bebidas e comida já faz alguns dias para oferecer aos convidados. Na sexta, quando ele chega do serviço, fica na cozinha preparando as carnes com ajuda de Solange e Mariatu. Ele gosta de cozinhar e faz ranguinhos saborosos. Minha ajuda se limita a encher minha taça e o copo de Jean de vinho. Ambos gostamos dum vinhote, pois pois. Vamos deitar passada 1/2 noite e durante a manhã de sábado até a hora da festa, marcada pras 16 horas, o movimento na cozinha é intenso, com Jean assando carnes e galinhas. Guinenses sabem fazer uma festa!! O niver é um sucesso com a presença de amigos do casal, todos da comunidade guinense. Bibi vestida de princesa brincou com os amiguinhos e ganhou muiitooos presentes, abertos na manhã de domingo.
Durante a primeira semana na Guarda, houve uma reunião muito agradável com 3 amigas de Mariatu: Laída, a + velha, 42 anos, Solange, estudante, e Sonia, dona de salão de beleza cuja especialidade é fazer tranças com cabelo artificial ou humano, estilo preferido das africanas. O gritero explode qdo começamos a falar sobre sexo. Há uma pequena catarse, especialmente, com Laída, presa aos dogmas sombrios do catolicismo. Bom extravasar sensações reprimidas hein!! Lá pelas tantas desandam a falar criolo, uma mistura de português e idiomas africanos. Intuo que conversam, principalmente, a respeito de seus homens, aconselhando-se umas as outras, em segundo lugar, o papo é sobre filhos. Bueno, a Guarda, fundada em 1199, fica na encosta da serra da Estrela, fincada a 1.056 m de altitude, daí ser a cidade mais alta de Portugal. Cheia de altos e baixos exige muito das pernas ao caminhar e as dos ciclistas ao pedalar. Num de meus passeios, venho a conhecer o Parque da Saúde, complexo hospitalar rodeado por um jardim imenso onde abundam árvores como cipestres, pinheiros, castanheiras e sequoias. Construído no início do século passado, o antigo sanatório Souza Martins visava o tratamento da tuberculose porque, à época, acreditava-se que a altitude ajudava a curar tal doença. Restam, uma pena, apenas ruínas de alguns pavilhões. Abriga ainda o parque a sede da primeira rádio portuguesa, a rádio Altitude. Na entrada, à direita um magnífico fontanário em estilo barroco. Atualmente, houve o acréscimo de esculturas modernas espalhadas entre as árvores. A Guarda, como toda cidade da Idade Média, era murada visando assim se proteger do ataque dos inimigos. Para entrar na cidadela havia 5 portas, restando nos dias de hoje apenas 3: a do Sol, del Rei e da Erva. Bem cuidada, a Guarda tem um centro histórico com prédios bem conservados, destacando-se a Catedral da Sé, as Torres de Menagem e dos Ferreiros, além das estreitas ruelas sinuosas onde o sol mal penetra, exibindo casas feitas com granito, material abundante na região. Trato de conhecer a catedral da Sé, em estilo gótico, e "escalo" a tortuosa e íngreme escada que conduz aos seus terraços donde se pode admirar os campos ao redor da cidade. A seguir dou um pulinho até a Torre de Menagem, prédio quadradão que se destaca não pelo estilo arquitetônico mas por estar encarapitado no alto duma colina. Por acaso, descubro um atalho onde são cultivadas hortas comunitárias com suas reluzentes hortaliças. Sentar ao final da caminhada no modesto Café Tasca, na praça Luís de Camões, defronte à Sé, pra tomar um café ou uma taça de vinho, curtindo a fachada em tromp l'oeil duma casa abandonada ou observando as variações de cenário que o ceu exibe, ora espessamente nublado, ora com rasgos dum azul anil preenchido por fofas nuvens brancas...que espetáculo! A cada dia conheço outros lugares na cidade velha ou histórica da Guarda: porta Del Rei e judiaria, bairro onde os judeus se instalaram, fugindo da perseguição que sofreram no reino de Castela, na Idade Média. Apesar do intermitente chuvisco temperado com friaca, percorro as ruelas estreitas e sinuosas que revelam detalhes deliciosos a cada dobra de esquina: as casas construídas em granito, o bimbalhar dos sinos das igrejas da Misericórdia, esta em lindo estilo barroco, e de São Vicente, o muro coberto de hera ou a maçaneta em formato de mão, além do salão de sinuca invarialvelmente fechado. Não canso de bater perna pela Guarda! A cada dia um novo detalhe encanta meus olhos: o canteiro florido e a macieira carregada de frutas na praça, o pátio interno da diocese, a fachada em azulejos da mercearia, um ângulo diferente da torre de Menagem e as várias faces da catedral da Sé! Desde que cheguei, dia 9 de outubro, o clima tem estado super ameno prum outono europeu já que o país está a viver o chamado "verão de São Martinho". No domingo, 20 de outubro, o tempo muda, a temperatura desce, chuvas temperadas com vento e espesso nevoeiro inauguram vigorosamente a entrada do outono. Adios, veranico...q peninha, estava tão gostoso o calorzinho!! Ao redor da cidade, usinas de torres eólicas giram conforme a força do vento e, à noite, as luzes vermelhas denunciam sua colorida existência. No domingo passado, houve eleições municipais, e nos cartazes espalhados pelas ruas e avenidas, a presença feminina era minguadíssima. Aqui, como no Brasil, a eterna luta entre a esquerda e a direita, sendo que esta tem como bandeira o enrijecimento das leis migratórias, onda que vem se alastrando pela Europa. A população da cidade está em torno de 40 mil habitantes, destacando-se a presença de africanos, especialmente, os pertencentes às antigas colônias portuguesas, daí a presença de tantos guinenses da Guiné Bissau. Como diz Mariatu, os portugueses se dão o direito de migrarem pra outros países da comunidade europeia, como Suiça e Alemanha, em busca de melhores salários que os pagos em Portugal. Juntam uma boa grana e retornam ao país investindo em imóveis, garantindo, assim, uma velhice confortável. Contudo, se aborrecem que nós, africanos, venhamos pra cá, visando o mesmo, comenta ela. Pois é....2 pesos e 2 medidas para situações semelhante!
Como vim parar nesta cidade tão distante de onde nasci e vivi? Foi a gana de conhecer lugares e sotaques bem diferentes dos do sul maravilha onde passei 68 anos de minha vida, pois embora idosa o espírito aventureiro ainda vive neste corpitcho. Mas não foi só isso, não, juntamente com meu filho, construímos o BeeCool, pousada e restobar, tornando-me, portanto, empresária, o que não deixa de ser uma baita aventura, em se tratando deste Brasil com seus entraves burocráticos e tributos mis. Situada no Tocantins, norte do país, Palmas se espalha entre a margem direita do lago Tocantins - o que lhe dá leve semelhança com Porto Alegre e seu Guaíba - e a serra do Lageado que, ao cair da tarde, exibe trechos avermelhados de seus paredões areníticos avivados pela luz do sol poente. Vim aqui terminar meus dias e não digo isso em tom lamentoso mas com uma baita certeza de que a vida obedece ao princípio da impermanência, portanto... c’est la mort après la vie...fazer o quê, né? Inexiste recurso contra essa fatalidade biológica. Basta de filosofices, voltemos à cidade. Seu clima tropical tem duas estações bem definidas: a seca e a chuvosa pero sempre caliente. Na época da seca ou verão, o céu é invariavelmente azul, salvo quando flocos de nuvens brancas aqui e acolá o salpicam de branco. As árvores já floridas anunciam o nascimento das frutas típicas do cerrado como pequis, cajus, mangas, atas e outras mais que crescem a la vonté pelas ruas. Eu me delicio e as colho nas pedaladas pela cidade. Flamboyants e favas de bolota pontilham com suas flores vermelhas os galhos das árvores. Esta última, árvore símbolo do Tocantins, lembra uma gigantesca árvore de natal. Contudo, as queimadas grassam no final desta estação deixando um rastro de fuligem no ar, embaçando e poluindo a atmosfera com suas colunas de fumaça acinzentadas. Na época da chuva, o céu inconstante, ora se mostra candidamente azulado, ora toldado por nuvens escuras, escutando-se ao longe o rimbombar dos trovões prenunciado as intensas chuvas de monções que alagam a cidade. Entretanto, são breves. Florzinhas amarelas e rosas nascem nos canteiros gramados das rotatórias, diversas delas caprichosamente decoradas como a do relógio e a do terço. Suas amplas avenidas, divididas por canteiros, têm 2 pistas, cada uma com 3 faixas. As rotatórias substituem os cruzamentos com semáforos, salvo a Joaquim Teotônio Segurado que conta com tais dispositivos. As ruas são apelidadas de quadras seguidas dum numeral com a direção norte ou sul, por exemplo, 104 norte, alameda X, lote y (indicativo do número da casa) já que a cidade é dividida em região norte e sul tendo como divisor a praça dos Girassóis onde fica o centro geodésico do país. A cidade, conforme plano urbanístico municipal, preserva capões de cerrado o que lhe confere um quê de “selvagem”. Muito jovem, 33 aninhos, algumas de suas ruas ainda são de chão batido. A maioria das edificações são casas, geralmente de um pavimento, e os edifícios concentram-se na orla do rio e no centro da cidade. A feijoada, curtida tradicionalmente nos sábados, chambari e buchada são constantes nos cardápios dos restaurantes populares, geralmente instalados em quiosques, mesas ao ar livre, dispostas sob frondosas mangueiras. A cena musical da cidade é bem eclética: passa pelo pagode e chorinho, engrenando no sertanejo e resvalando no rock and roll e música eletrônica. Dois são os parques principais, o Cesamar e o dos Povos Indígenas. O primeiro possui, além, dum grande lago rodeado de pista asfaltada pra caminhadas, trilhas de chão batido que rasgam a densa mata de cerrado. A chance de se deparar com animais silvestres é grande. Eu mesma já vi tatu bola, macaco prego, veados, tartarugas e dezenas de aves ruidosas. Há restaurante, parquinho infantil, pista de skate e muro de escalada. À tardinha, armam-se barraquinhas, vendendo quitutes. O segundo é menor porém muito agradável. No Natal, a avenida Joaquim Teotônio Segurado é enfeitada com luzes coloridas e o espaço do Centro Cultural exibe diversas esculturas natalinas feericamente iluminadas. Um espetáculo que encanta tanto adultos quanto crianças. Poucas pessoas são vistas transitando pelas calçadas pois as temperaturas elevadas desanimam qualquer tentativa nesse sentido. Como diz o palmense: um sol pra cada cidadão! Em compensação, pedalar é uma beleza porque há calçadas largas com faixas tanto pros ciclistas quanto pros pedestres. Há2 feiras, uma na 304 sul, outra na 307 norte. A primeira ocupa um espaço bem amplo, com bancas ao ar livre e cobertas. Super sortida, vende desde o clássico pastel a comidas paraenses como os tradicionais maniçoba e tacacá, funcionando desde manhã cedo até tarde da noite. Já a segunda, mais modesta, termina no fim da tarde. Mas há outras feiras como a do Bosque, aos domingos, com expositores de artesanato e venda de comidas típicas. Na beira das calçadas, destaque para os milhos assados em toneis metálicos, vendidos à tardinha. O pessoal se vira pra ganhar a vida! Palmas conta com 5 praias à beira do lago Tocantins: Graciosa, Prata, Caju, Buritis e das Arnos. Como há piranhas perto da margem, redes de proteção foram instaladas pra proteção dos banhistas. Nos restaurantes, você pode comer um prato de tucunaré acompanhado de batatas fritas, arroz, farofa, vinagrete e pirão. Prefiro a praia de Luzimangues, do outro lado rio onde se chega percorrendo os 8 km da ponte FHC. Lá não há registro de piranhas. No entorno da cidade, na encosta da serra do Lajeado, há boas trilhas tanto pra quem gosta de caminhar quanto pros bikers e pra galera barulhenta do motocross. Conheço a do mirante do Limpão (ali perto recomendo o quiosque do Baiano cuja comida podrão vale a pena experimentar) e a da Tartaruga, ambos trajetos em torno de 7 km ida e volta, donde se tem uma visão tanto da serra do Carmo quanto do lago Tocantins. Os pores do sol nesses sítios, em especial no verão, são espetaculares. Outra boa opção de passeio é subir até Taquaraçu, distrito de Palmas, distante 30 km onde há diversas cachoeiras boas pra se banhar. De quebra, Taquaruçu vale a visita com seus restaurantes e casinhas coloridas e uma praça onde nas datas oficiais há comemorações como um consagrado festival gastronômico em cujos pratos típicos são utilizados como ingredientes frutos do cerrado. Riscando o ceu em pares, as araras são aves onipresentes no cotidiano da cidade encontrando abrigo ora nos galhos das árvores ora nos troncos ocos das palmeiras. Já as corujas merecem cuidados especiais, sendo-lhes reservadas, nas rotatórias, pequenas casinhas de madeira visando sua proteção. A população de Palmas, acolhedora, usa expressões peculiares como “simbora banhar mais eu”, “a bicha é dura”, "mal triscou" ou “vou dar uma pisa nele”. Palmas dos ventos intensos, do sol estridente que agonia os viventes, das secas prolongadas e das violentas chuvas de monção é 8 ou 80. Não tem meio termo, revelando o rosto dum Brasil mestiço onde os caras pálidas são exceção!
Uma das boas coisas de morar em Palmas é a distância de certos lugares, por exemplo, menos kms pra ir a Brasília do que quando eu vivia em Porto Alegre. Gosto muito da capital federal, não só pelo seu ar cosmopolita acentuado pelos estrangeiros vindos dos mais diversos lugares do planeta pra servirem nas embaixadas, quanto pela modernidade arquitetônica criada por Niemeyer e Lucio Costa em contraste com o Brasil atrasado e pobre, representado por camelôs vendendo frutas e outras mercadorias expostas em bancas improvisadas ao longo de avenidas e ruas. Brasília tem um movimento de trânsito alucinante, especialmente pra mim já super acostumada com a pacata Palmas e seus 320 mil habitantes. Aproveitando o niver de Sonia e Jorge Otavio, primos queridos, vou a Brasília celebrar tão importante data já que ela fará 93 e ele 91 anos. Após passar uma semana agradabilíssima na casa de Laura e Ricardo, filha e genro do casal aniversariante, retorno pra casa antes dando uma passadinha na vila de São Jorge pois bateu vontade de fazer alguma trilha no PN da Chapada dos Veadeiros. Como sempre, escolho o Canto da Coruja um pouco afastado da muvuca da vila porque gosto do conversê de sua dona, Kelly Cristina. Ariana porreta, senhora de alta energia, tem prosa pra esta encarnação e quiçá a vindoura. Antes dou uma passadinha num empório pra comprar algumas cachaças feitas com frutos do cerrado. Compro 3 garrafinhas: uma de umburana, outra de baru e a terceira de mutamba que eu e Kelly matamos enquanto jogamos dominós com 2 de seus filhos. Dia seguinte, antes de pegar a estrada, vou fazer a trilha do Mirante da Janela que já ouvira falar. Fica numa propriedade particular do mesmo dono do Raizama, outro atrativo da região. A trilha inicia logo que se sai do estacionamento, passando por poços abertos por garimpeiros quando aqui ainda se exploravam as jazidas de quartzitos. Os poços, buracos verticalizados que devem ter uns 10 metros de profundidade, se não mais, atualmente se encontram desativados e cercados de gradis de madeira por motivos óbvios de segurança. Transcorridos 500 metros, chego na portaria onde um homem com cara de hobbit (sabe aqueles personagens do Senhor dos Aneis?) cobra os ingressos. Pago só 20 reais (pra quem não é coroa, o preço é 40 pilas), porque sou maior de idade (só nessa hora gosto de ser velha, só nessa hora).Tentando passar uma aura de descolado esotérico, o cara se mostra, na verdade, um baita pentelho, embora fale, naquele jeito manso a la hiponga, chavões tipo “sou da paz, take easy”, insinuando ser melhor que os outros, no caso, eu. Ai ai moço, me poupe. Não me contenho e dou um corte nele, dizendo que cada um tem seu jeito de viver. Além de ser bem educada, sou uma senhorinha de ½ idade, por isso não mando ele se foder, coisa que ele talvez esteja precisando. Só pra situar, Alto Paraíso na década de 70 atraiu pessoas que curtiram a autêntica era de Aquárius, cujos expoentes foram os hippies americanos. Muita gente naquela época aderiu, sinceramente, a esse movimento cultural, porém outros nem tanto: apenas a estética esvoaçante, a liberdade sexual e a maconha foram incorporadas às suas vidas. Talvez a proximidade com Brasília onde muitos estrangeiros passaram a viver por ser a capital federal, imagino um que outro gringo descobrindo a cidadezinha encravada no cerrado goiano e ali se instalando. Provavelmente das trips de LSD nasceram as estórias sobre Alto Paraíso ser um lugar que atrai energias cósmicas, em razão da expressiva quantidade de quartzito (não entendo qual a relação), tornando-se então um lugar mítico, esotérico, mágico pros “magros”, como se dizia à época. E não são poucas as estórias sobre gente que viu ET e disco voador pousando nas cercanias, viu? Além dos hipongas vindos de vários pontos do Brasil, veio gente que apenas queria mudar de vida, como um paulista que encheu o saco da rotina de vida como engenheiro e se mandou pra Alto Paraíso na década de 80, se tornando guia até hoje pelo que sei. Bueno, voltando pra trilha, embora ela não passe de 7 km ida e volta, não é moleza não. As do Parque apesar de serem mais longas são mais fáceis. Nos trechos perigosos há degraus feitos de toras de eucalipto (chatésimos de caminhar), corrimãos de madeira e de cordas, tudo pra ajudar o caminhante a se deslocar com segurança em trechos bem cabulosos. O caminho, via de regra, é estreito, percorrendo bosques em encostas de morros, com subidas e descidas puxadinhas, embora haja trechos planos nos descampados das savanas. No meio da pernada aquela surpresa refrescante: um poço formado pelas águas das chuvas que daqui a um par de meses secará. Decido que vou me banhar na volta quando estarei super suada e necessitando dum tchibum. A partir desse ponto a trilha fica um pouco mais difícil mas a paisagem esplêndida do entorno do PN da Chapada dos Veadeiros com suas serranias e chapadas ao alcance dos olhos me faz parar pra contemplar essa natureza tão privilegiada. Poucas canelas de ema floridas, aliás, as flores não se mostram abundantes nesta época de chuvaral. Elas florem as ganhas quando as chuvas se vão. E falta pouco pra isso acontecer. Muita pedrona atravancando o caminho no solo de areia branquinha. E de repente chego ao mirante que dá nome de janela à trilha: uma enorme abertura triangular formada por 4 rochas donde se vê o curso do rio Preto formando o Carrossel e mais adiante os 2 saltos de 80 e 120 metros, pertencentes ao PN da Chapada dos Veadeiros. Estonteante cenário! Caminho por uma trilhazinha que leva a outros 2 mirantes feitos com toras de madeira cuja visão é também espetacular. No último, há arquibancadas de madeira pra quem queira se sentar poder apreciar a paisagem, em especial, à tardinha quando o sol se põe. Pena que vim pela manhã. Mas fica pra outra vez, porque é, podicre, uma trilha muito, muito linda!
No sábado de Aleluia, fazemos outros passeios, não muito distantes de Carolina: sítio da Mansinha e Pedra Caída. Na verdade, era pra eu mais Marcelo termos ido às cachus do Prata e São Romão. Meu carro exibindo, contudo, estranho comportamento tremelicante na direção, me deixa temerosa de enfrentar a dura estrada de chão batido que conduz às quedas d’água. Daí o motivo de a gente conhecer outros atrativos. E não nos arrependemos. Vamos primeiro à fazenda da Mansinha cujo dono é o chefão do ICM-Bio na região da Chapada das Mesas. O homem cheio da prosa desfia umas estórias sobre o parque deitado numa rede enquanto sua mulher, bem jovem, só observa o conversê. Eu com uma preguiça danada, me levanto e convoco Marcelo a explorar o lugar. Descemos até o rio e descobrimos 2 placas que anunciam 2 trilhas: Ronco da Onça, super curta, e a Morada do Caipora, de 1.500 metros. Esta última não leva a lugar nenhum porque está totalmente desmarcada, tanto que eu e meu parceiro nos perdemos no emaranhado de arbustos que formam o cerradão. A poucos metros da sede da fazenda, fizeram um represamento no riacho Mansinha, super gostoso de se banhar. O que faço sem pestanejar, mergulhando em suas refrescantes águas. Quando voltamos pra casa do dono, a mulher preparara um almoço pra nos esperar: cobrado é claro! Louca de fome que estou, sento à mesa e mando ver na comidinha despretensiosa mas saborosa. Até tentamos vencer a pé os 2 km que nos separam da cachu da Mansinha, mas o adiantado da hora - 1 da tarde - o calor escaldante mais a areia fofa da estradinha faz com que desistamos e peguemos, então, o carro. A cachu é bem pequena, deve ter um 1,5 m se tanto, formando um pequeno poço de águas transparentes e limpíssimas, rodeada por verdejante mata. Um pequeno paraíso no meio do cerrado! E lá seguimos nós, eu mais o falante e animado Marcelo pro próximo objeto do desejo: Pedra Caída. Do Santuário, complexo turístico formado por um monte de atrativos naturais e outros nem tanto (tem tirolesa e até teleférico), nós só queremos saber da tal Pedra Caída, motivo porque pagamos só por ela, já que cada atrativo demanda outro pagamento! Aliás, a gente paga pra entrar e por cada atrativo que se quer visitar. Como eu sou super maior de idade (70 anos) paguei ½ entrada que ficou 35,00 de portaria e + 20 da Pedra. Não me desaponto, o lugar é realmente espetacular. Se desce uma escadaria até o leito do rio que escavou um pequeno canyon cujo vértice é formado por rochas cobertas de limo verde com cerca de 50 metros de altura que quase se fecham no topo, tornando o lugar bem escuro, meio apavorante, tipo filme de terror, por onde despenca o violentíssimo jorro d’água. Tamanha a força das águas que há cordas pras pessoas se agarrarem e não serem jogadas contra as pedras. Assim como foi no Recanto Azul, na Pedra, a gritaria do povo (ressalvo que não só mulheres e crianças apelam pro berreiro, os homens também se esgoelam de excitação) é de exasperar, se eu fosse uma doente em estado terminal, comprava uma bazuca e metralhava toda essa gente sem consideração com a audição alheia.
No domingo de Páscoa, lá vamos nós pra mais uma trilha, a dos Guardiões, também aberta por Renilton. Nesta trilha é necessário ir de carro até o ponto onde começa a pernada. Se junta ao grupo, Jamil, um rapaz que também se hospeda no mesmo hostal do Marcelo. Cerca de 20 km rodando pela BR 10, quebramos à esquerda e embarafustamos por uma estradinha de areia fofa, com umas poças de água que me causam apreensão mas guiada por Renilton não atolo. Após 6 km, Renilton avisa que ali deixamos o carro, iniciando a caminhada que se dá, inicialmente, numa mata cerrada, seguida duma campina com árvores de troncos tortuosos e espessos aqui e acolá. Ao longe, os cerros e as chapadas destacam-se na paisagem. Claro que a moleza loguinho acaba e a subida inicia, rente à base duma grande rocha, retornando nós sem muita demora a caminharmos sobre uma superfície plana. De repente damos de cara com um arco de pedra que exibe em seu centro uma cavidade arredondada, batizada Olho de Horus (deus egipício, protetor da humanidade). Ao lado, outra rocha menor, em formato de cabeça, é considerada o 1º Guardião da trilha. Uma pequena parada de modo que registremos as 2 esculturas, com Marcelo utilizando seu drone pra filmagens aéreas. E seguimos a caminhada por esta lindeza que é o cerrado, bioma com várias faces, aqui exibindo sua feição de savana com arbustos de pequeno porte. Dum tronco, pendem fios duma resina cor de âmbar, produzida pela árvore. Ao toque, a substância, um tanto quanto pegajosa, encanta por sua linda coloração. E no meio da campina, uma gigantesca pedra em formato de pênis prova o que é estar sempre de pau duro...hahaha (que piada sem graça, cruz credo). Descemos então até uma ravina de solo extremamente avermelhado, rodeada de densa vegetação, continuando a caminhada ao longo daquela depressão formada pelas águas de enxurradas, típicas da temporada do chuvaral. E se não fosse Renilton chamar nossa atenção, teríamos passado pelo 2º Guardião da trilha em brancas nuvens!! A enorme pedra mais parece um ET, saído direto dum filme de ficção científica produzido pelos estúdios de Hollywood, tamanha a semelhança. Mais uns 15 minutos de pernada, chegamos noutra ravina. Renilton nos informa que o pequeno lago formado abaixo do alto paredão avermelhado é a nascente do Tapuí, que significa “índio submisso aos brancos”. Igualmente rodeada por mata, aqui nos banhamos, já que a suadeira é muita após a caminhada debaixo do sol do ½ dia. Só Jamil trouxe algo pra comer, bolachas doces, que reparte entre nós. Renilton informa que há outra ravina ao lado. Claro está que vamos conhecê-la, como não! Bem menor que a anterior, também é um oásis de frescor no meio do cerrado. E quando eu achava que já tinha visto tudo de lindo na pernada como os 3 boqueirões escondidos no meio do mato, qual não é a minha surpresa quando se chega num minicanyon de paredes escuras e rosadas por onde escoa o pequeno caudal de águas absolutamente cristalinas do riacho Tapuí. As paredes que não devem alcançar 3 metros de altura quase se encostam uma na outra tão estreita sua abertura na parte inicial. Do vértice, jorram com força 2 jatos de água. Nem de tão longe assim, se escuta o ribombar dos trovões. Chuva na época do chuvaral, que venha, afinal já estamos molhados mesmo hahaha!!! Simbora lelê de volta ao carro porque a fome tá fazendo um escarcéu em nossas panças, já que não seriam as bolachinhas de Jamil que aplacariam nossos apetites. Afinal, foram 8 km duma pernada bem puxada. Quando chegamos no carro, Renilton comenta que essa trilha mais a do Bananal representam o lado B da Chapada das Mesas, porque é pura aventura, sem as mordomias que os atrativos standards oferecem. Sou mais o lado B, podicre! Pensa que a aventura termina aqui? Tsk tsk tsk...só não! Sabe aquela poça d’água que eu temera na vinda? Pois então, atolo bonito as rodas traseira e dianteira da camionete nos sulcos já bem fundos da estradinha. E sem possibilidade de socorro porque pouquíssimos turistas vêm pra essas bandas. E não dá pra ir a pé porque estamos a 25 km do camping, além de chover pacas! Que perrengue!! Renilton, meu bom guia, entretanto não se desespera. Calmamente, se interna no mato junto com os guris e os 3 de facão em punho (carrego sempre 2 em meu carro) cortam 3 arboretos, utilizados, um como apoio, outro como alavanca e o terceiro sob o pneu. Chama-se macaco baiano esse rudimentar macaco hidráulico que nos salva de permanecer atolados sabe-se lá até quando. E seguimos felizes da vida, molhados que nem pintos até o Refúgio do Raiz Camping onde bebemos espumante oferecido por mim, mais um ranguinho trazido gentilmente por Renilton da casa dele. Chave de ouro prum dia tão cheio de beleza, aventura e camaradagem! Amém
Conheci a Chapada das Mesas, no sul do Maranhão, em 2018. Como gostei muito do lugar, e morando agora colada nesse estado nordestino, é pra lá que vou curtir o feriado de Páscoa, até porque quero conhecer a região na época da chuva. Já ciente de que as Serras Gerais começam no Maranhão, posso observar com gosto as diferenças entre as do Tocantins e as serras maranhenses. Considerando a mesma formação sedimentar das rochas e a constante erosão por elas sofridas, aqui, contudo, inexiste formação de dunas nas encostas das serras, embora os rios escavem pequenos canyons encantadores, destacando-se os do Santuário, Poço Azul e Recanto Azul, os mais badalados. Substituindo os paredões compactos da serra tocantinense, surgem, nas serras do Maranhão, mesetas, pequenas serranias e morros testemunhos aqui e acolá, destacando-se o Morro do Chapéu – cartão postal da Chapada das Mesas - vislumbrado durante a travessia no rio Tocantins na balsa que liga Filadélfia e Carolina. Assim que chego, na quarta-feira, aviso Marcelo, que conhecera no Vale dos Pássaros, e combinamos alguns rolês juntos. Dia seguinte, quinta-feira Santa, o roteiro é conhecer o Poço Azul - que eu visitara quando aqui estive a primeira vez – e o desconhecido Recanto Azul. E lá vamos nós, Marcelo mais eu, pro Riachão onde os atrativos se localizam. Dos 139 km do trajeto, 106 são asfalto, o restante chão batido que, nesta época de chuvaral, costuma dar certo trabalho pra carros que não sejam traçados. O primeiro a ser visitado é o Recanto Azul, distante 7 km do Poço Azul, e não me desaponto: o pequeno canyon, cercado por paredões ora levemente avermelhados, ora cobertos de musgos e vegetação, comporta em seu fundão a nascente de um rio de água azulada e temperatura tépida onde centenas de peixinhos nadam indiferentes à nossa presença. Quando começa a chegar um bando de gente, eu e Marcelito nos mandamos. O encanto do lugar se quebrou! Sei que sou chata, até me considero meio misantropa, mas gritaria e criaturas fazendo caras e bocas ao tirar fotos e fazer vídeos me deixa beeiim arreliada. Vamos então ao Poço Azul e como falta justo uma hora pra fechar, conseguimos pagar ½ entrada.....ebaaa!! Visitamos, inicialmente, a cachoeira Santa Bárbara, queda d’água de 76 m, que está bombando de tão cheia, graças às chuvas de março que, aqui, não fecham o verão e, sim, o inverno. A cachu fica no final do canyon, um brete escuro e úmido, cercado de mata atlântica. O tempo restante dá apenas pra ir ao poço Azul, embora haja mais 6 cachoeiras no local. O poço não está límpido como quando cá estive à época da seca, mesmo assim dá pra perceber sua coloração turquesa. Marcelo muito acrobático, dá saltos mortais de costas na água enquanto eu filmo o moleque de 45 aninhos. E os fiscais nos tocam pra fora porque já são 17 horas, horário de encerramento dos atrativos naturais. A gente então vai à cata de algo pra comer porque bem desavisados não leváramos lanche, somente algumas bolachas. O complexo turístico além dos atrativos naturais conta com uma baita infra: além do hotel, restaurantes, lanchonetes, bar, piscinas e quiosques com confortáveis sofás pra descansar as pernas do sobe e desce das trilhas ou relaxar após o almoço. Como tudo é caro, desistimos de beliscar algo ali, pegamos a estrada e comemos uns engasga-gatos numa lanchonete perto de Riachão. À noite, sim, a comilança vale a pena: os deliciosos crepes da Tribo dos Crepes, cuja massa fininha lembra hóstia, e o recheio farto passa longe de ser um crepe de vento! Deixo meu companheiro de aventuras em seu hostal, no centro da cidade, e me vou BR 10 afora, conhecida como rodovia Transamazônica, até o Refúgio do Raiz Camping, de Renilton, distante 15 km de Carolina. Além de local pra acampar com cozinha comunitária equipadíssima (3 geladeiras, fogão, micro e utensílios diversos), Renilton construiu pequenos bangalôs com banheiro. É num deles que me instalo. Só acampo, atualmente, se não tenho outra opção, porque minha coluna corroída que está de artrose pede certo conforto. Afinal, aos 70 anos, eu mereço certas regalias, não é mesmo?
Na sexta-feira Santa, esperamos Marcelo vir de Carolina pra fazer a trilha do Bananal aberta por Renilton um par de anos atrás. O início da trilha começa no camping, quase colado à BR. Atravessamos a rodovia e pegamos uma estradinha de areia fofa e clara cercada de gramíneas altas, tipo cola de raposa, e árvores de pequeno porte com troncos revestidos por aquela casca grossa que, ao tato, é similar à cortiça, tão peculiar da vegetação do cerrado. Pouca demora avistam-se os paredões avermelhados de um morro por onde subimos. O ascenso é duro porque a encosta é íngreme. Renilton vai na frente desbastando com seu facão o mato ao redor. E mostra, na passagem, a planta cujo caule fino provoca queimaduras na pele ao se roçar nela. E dale o bom guia a disparar faconaços aqui e acolá pra desatravancar o caminho da vegetação daninha. Passamos por um trecho com várias reentrâncias, abertas na parede da rocha, tipo covas. Diante delas pipocam alguns solitários cactos mandacarus, ainda sem floração, característicos dos chapadões que brotam na região. E conforme ganhamos altura, a paisagem revela vários morros, dentre eles as 7 Marias. E solitárias plantas carnívoras, do tipo drosera tentaculata, quase passam despercebidas tão grudadas estão no chão arenoso. E presencio o "assassinato" dum inseto tentando fugir de seus “tentáculos” mas infelizmente a gosma secretada pela planta é uma armadilha mortal. E novamente estamos costeando outro paredão de rocha coberto de vegetação. O ambiente fresco, livre de sol, é perfeito pra caminhar. Chegamos ao bananal, origem do nome da trilha, um verdadeiro labirinto, bom pra se perder. Mas nós não corremos este risco porque temos o nosso guia conosco...aleluia!! Renilton conta que o bananal foi plantado pelos moradores das cercanias, dando direito, a qualquer um que consiga carregar os pesados cachos de banana, a levá-los, seja pra consumo próprio seja pra venda. E andamos um bom pedaço dentro daquele dédalo de bananeiras até sairmos por completo do frescor proporcionado por elas. Chegamos no segundo mirante da pernada donde se vê o rio Tocantins, divisor natural entre Maranhão e Tocantins. Até hoje não foi construída ponte pra travessia do rio, motivo por que ainda se usa balsa pra ir dum estado ao outro. Do alto do mirante, se avista nitidamente a BR 10 com veículos trafegando em sua única pista, e o morro do Chapéu do outro lado da rodovia, bem diante da gente. Ao lado, algumas das 7 Marias. Segue-se à pernada no terreno suave do bananal, uma subida punk, no meio duma mata fechada, com direito ao auxílio dum corrimão feito de corda, providencialmente instalado ali por Renilton. Foi uma mão na roda o improvisado balaústre....se foi! Embora a subida tenha findado, o frescor do bosque já era, porque ingressamos numa zona com vegetação esparsa que não filtra nadica de nada a passagem dos raios solares. E já são mais de ½ dia, então já viu, né? A canícula tá castigando nossos corpitchos. Dois cachorros nos acompanham, a Belisca e o Cadu. Lá pelas tantas Cadu se embrenha no mato e desaparece por um bom tempo. E nós dale a chamá-lo mas ele nem aí. Renilton comenta que ele deve ter achado rastro de bicho no mato, motivo porque não aparece. Chegamos na Pedra Furada ou Portal da Chapada das Mesas, outro cartão postal da região. Dali temos uma visão privilegiada da paisagem onde morros e chapadas se entremeiam naquele colorido tão característico das rochas sedimentares fervilhantes de óxido de ferro, conferindo aquela tonalidade avermelhada às pedras. O contraste com o verde da vegetação é impactante. E lá estão os Pilares da Chapada, um de cada lado da BR 10, no papel, eu diria, de protetores desse pedaço das Serras Gerais. E Renilton vai nomeando as elevações, indicando aquela como a serra da Maroquinha, mais adiante o morro do Jacurutu e a serra da Cangalha, sem esquecer o morro do Picos que, embora pequeno, sobressai na paisagem pelo seu perfeito formato piramidal. Começamos a descida pra pegarmos o breve trecho de trilha até o camping onde chegamos lá pelas 13:30 horas, disparando cada um em seu carro até Carolina pra ver se encontrávamos restaurante aberto, porque - detalhe - eles só ficam abertos até 14 horas, reabrindo à tardinha. Graças ao Marcelo vamos parar no restaurante da Catia que, graças a deus, tem uma comidinha pra gente....há que se tratar bem a pancinha, não é mesmo?