terça-feira, 22 de abril de 2008

Veranico

O ônibus trafega sem pressa revelando ruas ensombrecidas por velhos plátanos. Pouco movimento. Na curva de uma rua, vê-se uma nesga do rio. Por pouco tempo. Embarafusta o velho veículo por novas avenidas e ruas. Dessa feita, casas confortáveis, sem grades que protejam das calçadas seus jardins. Vez por outra um que outro passageiro sobe ou desce. O motorista escuta música com seus fones de ouvido. A placidez das tardes domingueiras. E na praia já se descortina o brilho do sol incidindo n'água. Nas fragatas, ancoradas na marina, as brancas velas contidas pelos mastros não se deixam esvoaçar pelo vento. Um mar o rio del Plata cujas margens se perdem de vista .... lo mar dulce, como dizem aqui. O marulhar das ondas lambendo a areia. E, ao longe, a sirene dum navio apita anunciando sua entrada no porto. No azul imaculado sem nuvens, vez por outra o traço escuro de um "V" perfeito se sobressai: são as gaivotas em bando percorrendo o céu. Pescadores debruçados sobre o rio lançam as carretilhas enquanto suas mulheres sentadas na amurada tagarelam entre si. E o sol aquece a tarde enquanto uns e outros se bronzeiam refestelados em cadeiras preguiçosas na rambla que contorna o rio. E a vida segue em tonalidade pastel na morna tarde domingueira...sem pressa. Os faróis dos carros chispando avenida afora denunciam a noite que não tardará em iniciar sua ronda pela cidade. O farfalhar das palmeiras quebra por vez o silêncio do dia que finda. O muro da rambla é a fronteira entre o asfalto e as dunas. Barracas de madeiras pintadas de azul anunciam em letreiros coloridos a venda de pescados frescos. Das folhas caídas no chão um crek crek se faz ouvir e de sua coloração verde pouco resta no chão atapetado de marrom: únicos sinais do tímido outono. Porque o teimoso verão castelhano ainda teima em pairar sobre a cidade.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Lunes

Ciente mais ou menos onde se localiza o Palácio Legislativo, sigo pela avenida 18 de Julho e, quando chego na Plaza Entrevero, pergunto a um guarda qual o melhor caminho até lá. Ele indica, dobro então por uma rua perpendicular à avenida, aproveitando para fotografar e filmar um prédio ultramoderno que lembra aquele famoso hotel em Dubai com formato de vela. Ao final da rua, já no bairro de La Aguada, próximo ao porto, avisto um enorme prédio em arenito rosa, lindo, porém abandonado. Uma lástima. É a Estación Central General Artigas, terminal ferrocarril construído no final do século XIX e desativado em 2003. Gostaria de fotografá-la com mais vagar porém o relógio acusa: faltam 10 minutos pras 11. A estas alturas, o meu “excelente” senso de direção já dá sinais de alarme. Afinal, queria ir pro Palácio Legislativo e dou com os costados na Estação de Trens....humpf!! Apuro o passo e pergunto a um transeunte “una información, señor, dónde se queda el Palácio Legislativo, por favor?” Atencioso, ele indica a direção correta, não mais que 5 quarteirões. Percorro a avenida General Lavalleja e, finalmente, eis o congresso uruguaio bem a minha frente. Meus amigos chegam justo quando alcanço a porta de entrada. Somos informados que a próxima visita, guiada, só iniciará ao meio dia. Como, ainda, temos uma espera de quase uma hora, buscamos um café pra passar o tempo e beber algo. No restaurante, nos atende um amável garçom cuja aparência indica já ter passado dos 60, o que me leva a refletir que, ao contrário do Brasil, onde quem tem mais de 50 anos dificilmente consegue emprego, já que atualmente nosso mercado de trabalha prestigia quase que exclusivamente os jovens, aqui, o pessoal de meia idade ainda é valorizado. Retornamos ao Palácio Legislativo, um majestoso edifício em estilo neoclássico, construído no início do século passado, exibindo imponentes colunas em sua fachada central. No grandioso salão de Los Pasos Perdidos, as paredes construídas em mármores (51 variedades, extraídos de jazidas nativas) impressionam pela riqueza de sua coloração verde, rosa, cinza e branca. Clarabóias e janelas dão um show revelando esmerados desenhos nos vitrais coloridos. O prédio é vetusto como convém a uma casa donde emanam as leis. Amplos corredores deixam entrever quatro pátios internos em cujas paredes destacam-se pinturas em baixo relevo. Inobstante a ação da chuva já as tenha descolorido, percebe-se ainda uma leve tonalidade avermelhada sobre alguns frisos. A educada guia conduz nosso pequeno grupo (apenas nós três) aos salões onde se localizam a Câmara dos Deputados e o Senado. Pesados móveis antigos. Tudo muito sóbrio, escuro. Entramos na biblioteca, uma sala retangular rodeada de armários envidraçados contendo milhares de preciosos exemplares de livros. Após a visita, decidimos fazer compras e escolhemos o Shopping Punta Carretas, construído onde, anteriormente, existira a sede de um presídio. Procuro algumas lojas especializadas em vestuário de montanhismo, embora haja duas, a Rock Ford e a Columbia, nada me agrada em nenhuma delas. Despeço-me de Claudia e Fernando, combinando um encontro no Dom Peperone à noite. Pego um táxi e resolvo almoçar, no mercado, novamente, mesmo já passando das quatro da tarde. O dia está lindo, a temperatura morna, na medida certa. Peço ao motorista, um jovem de lindos olhos azuis, que me deixe na Plaza Independência, assim posso ir caminhando até o mercado. Contorno a encantadora Plaza Zabala, cercada de gradis de ferro, onde em frente se localiza o Palácio Taranco, antiga mansão de uma ilustre família montevideana, ocupando um quarteirão e hoje transformada em museu. Ando mais um pouco e logo avisto o mercado. Construído originalmente para sediar o comércio de carnes, pescados, legumes e produtos hortifrutigranjeiros, aos poucos, transformou-se o antigo entreposto neste famoso centro gastronômico e ponto turístico obrigatório da cidade. Provavelmente, graças à idéia de algum inquieto comerciante que, enjoado de só vender carne in natura, resolveu grelhá-la, acrescentando um pimentãozinho aqui, uma cebolita ali, e quiçá um naquinho de queijo derretido pra servir de antepasto. Entro e o ambiente é totalmente diverso do de sábado: praticamente vazio, há meia dúzia de gatos pingados que, como eu, também almoçam tardiamente. Aproveito pra curtir detalhes que ainda não percebera, distraída que fora pela algazarra festiva do fim de semana. Peço um assado de tiras, salada de tomates com cebola e queijo provolone. Pra beber uma taça de médio médio. Saciada, busco pra tomar café outro lugar, e escolho um do lado de fora, em frente ao monstruoso prédio do Comando General de la Armada. Avisto, de onde estou sentada, a tabuleta do famoso restaurante El Palenque cujo atrativo são os pernis de presunto serrano pendurados de ganchos pendentes sobre o balcão. Pago a conta e rumo em direção à rambla. Sinto que o entardecer promete um lindo pôr do sol. Espero o sol quase sumir na linha do horizonte até que reste apenas uma pequena bola cor de laranja. Começo a filmar e a fotografar. Sem lentes especiais e rebatedores - afinal, sou uma mera amadora com uma câmera digital simplezinha - tenho de esperar o momento adequado de modo a evitar os desagradáveis efeitos dos raios do sol refletindo direto na lente da máquina. Sento na amurada e penso ah....que feriado!!

domingo, 20 de abril de 2008

Tarde em Carrasco



Embora meio ressaqueada, graças à várias doses da poderosa uvita, bebidas ontem no bar Fun Fun (e, confesso, mais uma garrafa de vinho!), saio do hotel procurando um café porque perdi o horário do desjejum....ah!! a culpada é.... la uvita, por supuesto! O dia continua lindo, céu sem nuvens, ar límpido já que a fumaça provocada pelos incêndios além Plata sumiu, levada pelo vento. Tomo o rumo da Sarandi em direção à Plaza Independência pra tirar umas fotos e fazer uns filmes. O centro da cidade está vazio, sem aquela zoeira incessante de veículos tão característica dos dias de semana, igual, aliás, em quaisquer cidades do planeta. Viva o domingo!! Sigo pela 18 de Julho e paro numa farmácia para comprar remédio pra dor de cabeça. Ah.....essa “mardita” la uvita!! Sento num café, ao ar livre, e peço uma salada de frutas e um café com leite, combinação bolada por mim pra limpar o organismo dos excessos cometidos na noite passada. Continuo meu passeio e passo pela Plaza Entrevero (não é uma gracinha o nome?) de onde admiro, do outro lado da avenida, alguns suntuosos casarios em estilo neoclássico, alguns deles acrescidos em seus topos com belos mirantes. Embarafusto por uma das ruas perpendiculares à 18, sombreada por velhos plátanos. Uma delícia percorrê-la e curtir suas casas antigas. As calçadas já mostram uma boa quantidade de folhas mortas que estalam enquanto nelas piso. Retorno à 18 porque quero filmar a Plaza Cagancha. Adoro esta praça e seu piso de granito bicolor. Afora isso, deleito-me em pronunciar, baixinho, seu nome....tão sonoro! Resolvo, então num impulso, pegar um ônibus cujo letreiro indica como destino Carrasco. Deixamos o centro da cidade, e logo estamos percorrendo plácidas ruas residenciais. O ônibus entra na avenida que margeia o porto de Buceo passando pelo Iacht Club Uruguayo onde vejo diversos veleiros atracados. O coletivo retoma seu trajeto pelas entranhas do bairro de Buceo, deixando pra trás a avenida beira rio. Quando avisto o imponente Hotel Carrasco, aperto o botão pra descer. Minha viagem durou exatos 40 minutos. Caminho lentamente pelo famoso balneário com suas bem cuidadas e elegantes casas. Há bons restaurantes nas imediações e o movimento de famílias é intenso. Escolho para almoçar um restaurante com mesas na calçada. Diante de um prato com nhoque acompanhado por um bife de vazio, trato de me alimentar, estou com fome. A comida apenas razoável. Indecisa se peço ou não uma sobremesa, constato, após a leitura do menu, a ausência de massinis. Peço, então, a conta. Uma pena o restaurante não tê-lo incluído, adoro sua fina massa recheada com creme chantilly. Passeio preguiçosamente pelas ruas filmando aqui e ali em direção à beira rio. Atravesso a avenida e já na rambla, me divirto com algumas menininhas que, faceiras, desfilam sobre o muro que divide a calçada da praia. Homens e mulheres, provavelmente os pais das pequenas, sentados em cadeiras preguiçosas, tomam sol aproveitando os últimos vestígios do verão renitente que teima em dizer adeus. A tarde está tão aprazível que, embora cansada, caminho sem pressa pela areia socada da praia, observando os pinheiros que, plantados no meio fio do calçadão, servem de quebra vento. Palmeiras balançam suaves suas folhudas hastes. Delicio-me ao perceber pequenas dunas atapetadas com uma espessa e rasteira vegetação. Como os montevideanos curtem pescar! Hoje também encontro diversos pescadores, inclusive mulheres, atirando suas linhas dentro d'água. Deveras charmoso o balneário de Carrasco! Após uma boa caminhada pela areia, subo ao calçadão onde em vários barracões de madeira vendem-se diversas espécies de pescados. Me dou conta de que já estou em Buceo. Num deles, os donos, sentados à frente de seu estabelecimento, tomam mate e curtem pachorrentamente o final de tarde. Filmo e eles me abanam simpaticamente. Muito amáveis los hermanos! Praças em frente ao rio, do outro lado da avenida, onde crianças brincam nos balanços e os pais, muitos deles sentados no gramado, aproveitam os últimos raios de sol do dia que finda. Jovens passam por mim pedalando suas bicicletas enquanto um que outro praticante de jogging corre esbaforido calçada afora. Cansada, entro num posto de gasolina e peço que chamem um táxi. Dou o endereço pro motorista e vou cochilando durante o trajeto até o hotel. Ao passar pelo restaurante Dom Peperone, quem vejo? Claudia e Fernando!! Contente de encontrá-los, entro no charmoso recinto. Os dois saboreiam um expresso enquanto esperam as sobremesas. Resolvo imitá-los e peço um massini. O garçom com uma cara de condoído desculpa-se "no los hay, señora". Escolho então um flan e um expresso. Ficamos conversando e contando os feitos do dia. Eles também estiveram flanando em Carrasco e por um detalhe não nos encontramos os três. Nos despedimos, estamos todos cansados e combinamos então no dia seguinte fazer alguns passeios juntos, marcando ponto em frente ao Palácio Legislativo às onze da manhã. “Tchau, Claudinha, boa noite Fê!” Atravesso a rua em direção ao hotel, escutando Claudia gritar alegremente “tchaaauuu, queeriidaa!"





sábado, 19 de abril de 2008

Ciudad Vieja

Viajo dessa feita com uma colega e seu namorado. Pra economizar, rachamos um táxi já que o aeroporto de Montevideo está localizado a uns bons quarenta minutos de onde ficaremos. O carro desliza pelos bairros de Carrasco, Punta Gorda, Malvin, Buceo e Pocitos sem que muito se possa admirar pois a noite já não é mais uma criança....há horas! Uma parada em Palermo onde Claudia e Fernando descem já que se hospedam no Hotel Íbis. Eu, no entanto, sigo em frente, meu destino é a Ciudad Vieja. O motorista, gentil, avisa que tenho de descer a uma quadra do hotel – sei lá porque ele não pode estacionar em frente. Tou nem aí. Minha mala é de rodinhas mesmo! Apesar de cansada, curto a zoeira da madrugada. A calle Bartolome Mitre está cheia de jovens em frente aos bares e pubs. Até gostaria de sentar num dos bares com mesas na calçada mas decido descansar - já são 4 da manhã - e entro no hotel. Antigo como todos os prédios da velha cidadela, seu elevador do século passado é uma pequena caixa de madeira encerrada numa gaiola de ferro com duas portinholas igualmente de madeira cuja parte superior é adornada com vidros bisotès. Meu quarto é uma pequena suíte: uma sala com uma varandinha dando pra calle Sarandi; no mezzanino, o quarto e o banheiro. Acordo, abro as cortinas e percebo a bela manhã que me espreita do lado de fora. Saio e admiro, enquanto espero o charmoso elevador, a ampla clarabóia que ilumina com fartura os corredores do hotel atapetados de vermelho. Serelepe saio pra rua e a uma quadra de distância encontro-me na Plaza Constitución ou de La Matriz, onde a feirinha de antiguidades e artesanatos reina absoluta há anos e anos. De um lado a Catedral, construção neoclássica do século XIX, cujo sóbrio interior não ostenta um décimo do luxo e da riqueza se comparada às igrejas peruanas. Também pudera, o Uruguai nunca teve jazidas de prata e de ouro que satisfizessem o fervor religioso da ostentação manifestado pelos colonizadores europeus. No lado oposto, o Cabildo, um edifício de linhas simples, também em estilo neoclássico. Construído antes da independência do Uruguai, alojou durante décadas os três poderes simultaneamente, além de abrigar, ainda, uma capela, cárceres e enfermaria. Num palco armado em frente, uma senhora de idade canta tangos com entusiasmo. Não resisto e sento à beira da calçada apreciando aquela simpática e vibrante mulher até o final de seu show, quando sou atraída minutos após pelo som dum batuque. Penso cá com meus botões: uma escola de samba? Não, apenas um grupo de candombe ingressando na praça pelo canto onde se localiza a catedral. Das tantas vezes que já viera a Montevideo, nunca havia assistido a uma exibição desse gênero musical, com certeza, primo-irmão do samba. Eis o rico e poderoso legado herdado dos africanos, escravizados não só pelos portugueses mas também pelos espanhóis. Surgiu em Montevideo o candombe, assim como o samba no Brasil, durante o século XVIII. Executado em geral por três tipos de tambores, o piano, o chico e o repique, seus integrantes vestem roupas e chapéus coloridos. O cortejo passa executando o ritmo tão semelhante ao dos nossos batuques de roda. É um convite ao remelexo. Contenho, contudo, meus ímpetos de dançarina e limito-me a filmar. Encontro Cláudia e Fernando no meio da zoeira. Pra comemorar o encontro inesperado, sentamos num dos cafés ao ar livre pra beber um trago....fuerte por supuesto! Brindamos alegremente ao bom momento. Já no mercado, uma construção quadrangular coberta por um teto de ferro vazado, o ambiente é de burburinho. Os montevideanos, após a semana de trabalho, adoram curtir este centro gastronômico para relaxar, comer e beber nos inúmeros restaurantes dispostos tanto no interior quanto no exterior do pavilhão. Sobre trempes assam carnes, chouriços, morcilhas, queijos, cebolas e pimentões. Pode-se optar entre comer sentados em bancos ao redor dos balcões que circundam os estabelecimentos ou em mesas dispostas pelos corredores. Ao gosto do freguês. E a animação cresce à medida que garrafas de cerveja, taças de vinho e de medio médio (uma mistura de espumante com vinho branco) são entornadas com generosidade. Perto de nossa mesa, um cantor, dedilhando seu violão, entoa......tangos!! E hoje, uma pena, não aparece o tal grupo musical, que eu vira de outras visitas à cidade, batucando sambas e tendo à frente uma uruguaia cujo biquíni embora comportado causava frisson no público masculino. Desprovida de ginga, a simpática “passista”, ensaiava um tímido rebolado, enquanto desfilava seu corpo magrinho e branquelo pelos corredores do velho edifício. No mínimo, engraçado. Saímos do mercado já tardinha e caminhamos em direção à rambla. Do grande incêndio que castiga algumas ilhas do rio Tigre, em Buenos Aires, a fumaça, por incrível que pareça, alcança Montevideo, inclusive! O ar apresenta-se enfumaçado como se tivesse baixado uma repentina cerração, o que acentua ainda mais o colorido pôr do sol. Sente-se até o cheiro de queimado....pode?! Na amurada que contorna a margem do rio, pescadores postam-se à espera da tão cobiçada fisgada no anzol. Haja paciência!! Após tomar uma ducha e descansar um pouco no hotel, vou caminhando - uma noite linda! - até o centenário bar Fun Fun, encontrar o casal de amigos. Famoso não só por ser um templo do tango como ainda por vender uma espécie de graspa – a bombástica la uvita! - de fabricação própria, cujos comentários sobre seu teor acoólico basta dizer apenas que até vinho do porto entra na sua fórmula! Alternam-se, no pequeno espaço que serve de palco, dois cantores. Embora revele um corpo bem conservado, modelado por uma saia branca que se ajusta às suas curvas opulentas, a mulher, rosto expressivo e marcado por rugas profundas - denuncia bem os seus 76 anos, alardeados com orgulho à platéia. Já o cantor não exibe o mesmo phisique du role. Em seu rosto redondo, quase pueril, o drama das letras passa ao largo. São acompanhados por excelentes músicos: um bandeonista e um violonista. E a lua – cheia! Espantosa essa coincidência de eu ultimamente viajar em tal fase da lua. Durmo embalada pelos compassos da Cumparsita que ainda ecoam em minha cabeça.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Enfim, montadas no Laskar

Sete da manhã e já estou bem desperta. Dormir em barraca sobre um isolante térmico fininho não é nada confortável. Passo a noite toda acordando a cada vez que viro de lado. Com Paola também se passou o mesmo. Abro a cortina da tenda e raios de sol já colorem de vermelho o cume dos cerros. Excitada com a perspectiva da minha primeira ascensão a um vulcão, levanto e saio. O frio é.....muiiiiito frio!! Pego meu livro e entro na camionete. Distingo pras bandas da laguna Lejia as luzes dos faróis de um carro que se aproxima. O carro passa ao largo de nosso acampamento se dirigindo ao Laskar. Coisa de meia hora mais tarde, Val, Felipe e Paola saem de suas barracas e começa a função de desarmar o acampamento. O desjejum é servido. Misturo aos sucrilhos uma banana em rodelas e, como acabou o leite, rego tudo com suco de futas. Após, bebo um chá de coca bem quente. Ainda está bem frio embora o sol já ouse espichar com mais generosidade seus raios sobre o vale Amarillo. Entramos no carro, e Felipe explica que o Laskar, com 5.672m, é o mais ativo dos quatro vulcões que se situam no norte dos Andes chilenos (os demais são Putana, San Pedro e Chiliques), e sua forma estratovulcânica contém seis sobreposições de crateras em seu cume. A mais recente e impactante erupção ocorreu em 1993, cuja intensa produção de fluxo piroclástico (corpos fluidos compostos de gases quentes, cinzas e pedras) espalhou-se numa distância de 8,5 km, e, pasmem, até com quedas de cinzas em Buenos Aires!! Após 20 minutos, estacionamos o carro próximo ao início da trilha, aberta no flanco oeste do vulcão, nitidamente demarcada. Os ocupantes do carro (um casal de paulista e o guia), que eu vira há duas horas atrás, já estão bem adiantados na subida. Somos informadas de que o desnível até o cume perfaz 800 metros num percurso de 14 km ida e volta. Olho o relógio e os ponteiros marcam exatamente 8:30, hora em que iniciamos a subida. Tiro da mochila o saquinho com folhas de coca que comprara no mercado de San Pedro, na segunda-feira, e ponho um punhado delas na boca. Pra mim, mascá-las funciona às mis maravilhas. Foi assim no Peru, quando fiz a trilha de quatro dias a Machu Pichu. Aqui, a índia, que as vendeu, aconselhou que eu as engolisse. Só paramos duas vezes durante o ascenso. Uma quando ultrapassamos o grupo que estivera até então na dianteira, e outra um pouco antes de alcançar a cratera. Começo a sentir fadiga após 3 horas e meia de caminhada. Daí pra frente, o cansaço nas pernas começa a pegar porque a trilha se torna bem íngreme, com muito cascalho. O solo é cinza escuro, sem qualquer vestígio de vegetação. Os dois carros já são pontos minúsculos na imensidão do vale Amarillo. Respiro fundo e sigo adiante, me apoiando nos bastões, sem procurar olhar muito pra cima. Dá desânimo, e desabafo pros meus botões: "ânimo, mulher! não falta muito pra alcançar o topo do vulcão". E nem passa pela minha cabeça a possibilidade de o Laskar repentinamente entrar em erupção. Já pensou se acontecesse?! A manhã é linda e o céu despejado de nuvens. Às 13 horas, finalmente, alcançamos a cratera. Do enorme buraco, com aproximadamente 1 km de diâmetro e 300 metros de profundidade, saem fumarolas que confundi ingenuamente com nuvens enquanto estivera no vale. Enquanto me recupero, sentada numa pedra, e espero que meus batimentos cardíacos voltem ao normal, sem ânimo, de tão cansada, esqueço inclusive de tirar fotos ou filmar. Contudo, passados quinze minutos já estou restabelecida. Serelepe, me aproximo daquele vasto bocão fumegante. O cheiro de dióxido sulfúrico é bem forte, motivo pelo qual não é aconselhável permanecer mais que trinta minutos aqui em cima. Chego quase na borda apesar de Felipe ficar me enchendo o saco pra não me aproximar demais, e distingo grandes manchas amarelas produzidas pelo enxofre na superfície das paredes internas da cratera. Entretanto nos aguardam mais 70 metros pra atingir o cume do nosso Laskar. E lá vamos nós. Emocionada, choro incontrolavelmente quando atinjo o topo, sem pudor algum, por uns bons cinco minutos. Muitas as emoções....muitas!! Guardo as lágrimas, ainda, copiosas, afinal, tenho a minha frente o lindo perfil do vulcão Águas Calientes quase ao alcance da mão. Lá embaixo o salar de mesmo nome e, ao lado, a laguna Lejia compõem um cenário que pra sempre guardarei em meu coração. Às 13:30, iniciamos a descida que dura não mais que uma hora, ao passo que a subida se fez em 4 horas e meia! Durante o regresso, novo pranto escapa e deixo rolar....fazer o quê? Não é todo dia que se sobe num vulcão, uai!! De volta a San Pedro, mal temos tempo de tomar um banho e comer um almoço às pressas já que temos de estar em Calama, à tardinha, de onde pegaremos nosso avião até Santiago. Chegamos na capital chilena às 22 horas e, adrenadíssimas, ainda, nos sobra ânimo de fazer uma sauna no hotel. Cansadas mas felicíssimas, convido Val pra tomar uma taça de champanhe no bar do hotel. Faço um brinde: "Valzinha, ao que já era e ao que virá....tintim!!"

Aos pés do Laskar

O roteiro inicial previa que nós, após o desjejum, seguiríamos direto ao vulcão Laskar onde acamparíamos para, no sábado, ascendermos ao seu cume. Infelizmente, há uma alteração nos planos que nos obriga a regressar a San Pedro em vez de ir direto pra lá. Merda, resmungo eu cá com meus botões! Acontece que o saco de dormir e isolante térmico que Val trouxera do Brasil foram insuficientes pra aquecê-la e a pobre amargou um frio danado que a impediu de pregar olho durante quase toda a noite. Eu, que alugara um de Edison, não tive tal infortúnio, cheguei a suar tão quente o saco de dormir e, assim, dormi bem aninhada. Por isso Felipe precisa retornar a San Pedro pra pegar outro mais quente pra Val. Após desmontadas as barracas e colocados os equipamentos na caminhonete, deixamos Tara. Chegamos em San Pedro e cada um toma seu rumo: Val vai com Felipe tomar um banho na pousada onde ele mora e Paola até sua casa fazer alguma coisa, não sei bem o quê, porque nem prestei lá muita atenção.
Minha cabeça ainda estava em Tara. Combinamos de nos encontrar na agência às 14 horas e de lá almoçarmos no La Soleña, na calle Toconao. Como são 13:30 e tenho ainda meia hora, aproveito e vou tomar um expresso na mesma cafeteria onde estivera há dois dias atrás. Desta vez não veio o tal biscoitinho...que pena!! Avisto Felipe com seu caminhar gingado se aproximando. Pago a conta e vou ao seu encontro. As gurias já estão na agência Planeta Aventura nos esperando. Val revigorada por seu “banho de verdade”, comenta radiante com seu chiado carioca “estou limpinha Bia, limpinha”. Esta é asseada mesmo!! Como o tempo que tínhamos em San Pedro era escasso, tive de escolher entre descarregar minha máquina ou tomar banho. Nem hesitei, preferi a primeira opção. Afinal, ficar dois dias sem banho não é o fim do mundo! Chegamos no restaurante onde nos é servida uma cazuela de marisco, gostosinha, com arroz e alguns legumes. Terminado o almoço, embarcamos no carro e nos mandamos. Do rádio, vem uma música que não podia ser mais chata: meio fúnebre, tudo porque hoje é sexta-feira da paixão e as AM e FM chilenas respeitam a santa data....ai jesus cristinho, dai-me paciência!! Reclamo pra Felipe e ele coloca no cd player o único disco que tem: o tal som de heavy metal alemão que vem nos acompanhado desde quinta-feira....humpf! Rodando estrada afora, já tenho na cabeça a trilha sonora das imagens que filmo. Será alguma das canções da minha atual cantora preferida: Amy Winehouse. Pois não é que numa entrevista, a destrambelhada criatura deu uma fina mostra do humor inglês temperado com molho judaico? (sim, sim, ela pertence ao povo de David). Disse que ficava muito preocupada se o namorado, quando ia pra casa da outra namorada, seria bem alimentado. Que hilária essa inglesa!! Ahahahahaha!!! Após passarmos ao largo da Quebrada de Tumbres e do povoado de Talabre, já é possível distinguir, perfeitamente, na clara tarde ensolarada, o Laskar. À sua direita, o cerro Corona exibe bem no meio de seus encostas o cume, à semelhança de um peitinho de adolescente. Ao lado do Corona, o Tumisa, formato mais irregular, onde se destacam dois topos tais quais corcovas de camelo. A estrada é pra lá de ruim, puro areião, e os meus ouvidos já sentem aquele zumbido característico de quem está subindo. Tapo o nariz e faço força pra respirar de modo a diminuir a pressão causada pela altitude. Tou nem aí, me sinto tão feliz de estar longe da civilização que suporto isso e o que mais vier! Passamos ao largo da laguna Lejia e paramos num lindo vale atapetado pela vegetação dourada dos coirones. Felipe indagado sobre como se chama o lugar, responde que não tem nome. Daí batizo-o de vale Amarillo. De onde estamos, o Corona apresenta outra forma. Não parece o mesmo que eu avistara da estrada. Também pudera, demos a volta e estamos avistando agora sua face leste. Ao norte, o cone perfeito do vulcão Águas Calientes e a forma esparramada do Laskar de onde saem fumarolas de sua cratera, me deixam extasiada. O lugar é sen-sa-cio-nal. Amo cada vez mais o deserto. Enquanto Felipe fica descarregando o carro e montando o acampamento, Paola, Val e eu iniciamos a subir a encosta do Corona. Estamos a 4.700m. Devido a noite mal dormida, Val não se sente bem e resolve voltar ao acampamento de modo a se preservar, amanhã, pro Laskar. O sol está se pondo quando chegamos ao alto do Corona com seus 5.200m. Deu pra cansar, afinal, foram mais ou menos 500 metros de desnível. Como não me abriguei adequadamente sinto bastante frio. Ademais o vento está bem forte aqui em cima. Por isso pouca demora no cume e loguinho estamos baixando. Quando chegamos, a janta está quase pronta e não demora muito estamos comendo uma galinha assada com salada de abacate e tomates. Pra beber nada melhor que um revigorante chá quente. Como o frio está pegando e ainda é cedo, um pouco mais de 20 horas, entramos no carro e lá ficamos conversando. Porque preciso ir ao "banheiro" - localizado atrás de uma rocha grande - saio e percebo deslumbrada surgir, detrás de uns cerros situados a leste, enorme e ainda meio avermelhada pelos últimos raios solares, a lua. Começo a gritar - às vezes até pareço louca - e abro a porta do carro - os coitados até levaram um susto - conclamando o pessoal a admirar tal espetáculo. E sabem o que Felipe faz? Pega o carro e dirige até a laguna Lejia pra que a gente possa contemplar a lua refletida na superfície de suas águas. Sensível ele, não é mesmo? Olha, tá difícil conciliar o sono. Minha vontade é ficar no lado de fora da barraca curtindo o luar deste vasto altiplano atacamenho! Infelizmente, tenho de dormir, e desconsolada entro na barraca. Tchau lua!!

quinta-feira, 20 de março de 2008

Tarde - Las Catedrales

Chegamos no início da tarde à laguna de Tara, alimentada pelo rio Zapaleri cuja nascente se encontra na Bolívia. Naquela imensidão do deserto, esparsa vegetação em forma de tufos desponta circundando o espelho d'água. No mais, a coloração clara da areia dá o tom. Vejo bandos de flamingos com os longos bicos dentro da laguna à cata de alimento. De uma beleza sensacional, dispõem-se, paralelos às margens da laguna, dois gigantescos maciços rochosos escarpados situados um diante do outro. Assemelham-se a um castelo medieval com suas torres e ameias, recebendo contudo o nome Las Catedrales. Indescritível o impacto do cenário. Um extâse! À oeste, além da laguna, entrevêem-se os topos nevados dos cerros Poquis, Balcón e Bayo. Felipe, além de guia, é nosso cozinheiro e prepara um almoço rápido e nutritivo com rodelas de tomate, fatias de abacate, batatas cozidas, atum e pão. De bebida, suco de frutas. A mesa é armada e nos refestelamos nas cadeiras para saborear a comida e a paisagem. Nem pinta de vento....eba! O céu, até então azulão, cede espaço a nuvens cinzas e pesadas que surgem detrás dos cerros. "Vai chover?" é a grande indagação. Vamos pras barracas descansar um pouco, as siestas são sempre bem-vindas, por supuesto! Claro está que nem penso em dormir, aproveito pra ler mais um pouco do Poeta, um bom romance policial cuja leitura iniciara ainda no Brasil. Às 16 horas, Felipe nos chama e lá vamos nós quatro fazermos um trek leve. Pegamos o rumo oeste passando ao largo daqueles monumentos colossais que são as Catedrales. Felipe nos conduz cerro acima até que atinjamos seu topo. É pouca coisa a subida, cerca de 200 metros de desnível. A visão da laguna lá embaixo é linda embora espessas nuvens escuras e baixas ainda toldem de cinzento o horizonte, deixando entrever, contudo, aqui e acolá nesgas de azul no céu. Pra variar, tiro fotos e filmo enlouquecidamente, motivo por que sou deixada pra trás. Nem me incomodo. Até melhor, assim posso com calma apreciar a paisagem e filmar este lindo lugar. A descida é bem chatinha, muita pedra solta, sorte que estou com bastões, caso contrário escorregaria com facilidade pelo íngreme terreno. Avisto lá embaixo, mais à frente Val e Paola, caminhando lado a lado. Felipe há muito se mandou porque queria chegar a tempo de preparar o jantar. O céu desanuvia-se e a tarde torna-se clara embora já passe das 19 horas. Bom sinal, só assim vai dar pra ver bem a lua cuja face branca aponta à oriente da laguna. O frio se faz sentir, nada mais natural, estamos a 4.300 m. Sem pressa, volto pro acampamento, quando de repente um flamingo quebra a quietude da tardinha ruflando a beleza estonteante de suas asas rosadas debruadas de preto. Que barulhinho bom! E seu corpo branco e rosa pálido passa a poucos metros de minha cabeça. Fico em estado de graça. A janta é singela: massa com creme de milho. Entretanto, Felipe nos surpreende e saca uma garrafa de vinho tinto. Paola e eu, as pinguças do grupo, esfregamos as mãos de satisfação. Terminamos a bebida dando risadinhas e satisfeitíssimas porque Val e Felipe pararam na primeira taça. Assim sobrou mais pra nós. Felipe fazendo um certo estilo sargentão, anuncia o toque de recolher. Poxa, que droga, quisera prolongar mais a noitada. Resignada, entro na barraca não sem antes abrir uma ponta da cortina pra ver a lua cheia refletindo na laguna seu brilho prateado. Que noite...que noite!!