domingo, 22 de abril de 2007

Adiós, Chile!

De tanto comer moluscos ontem, acordo com dor de barriga. Ainda bem que não é nada sério. Por via das dúvidas, meu almoço é um sandu vegetariano com abacate, tomate, queijo branco e palmito num enorme pão de forma, como costumam ser todos os lanches servidos no país. Como ainda me resta a manhã pra dar um último bordejo, tomo o rumo do cerro Santa Lucia, em frente ao lindo prédio da Biblioteca Nacional. Da colina, com 69 metros de altura, tem-se uma vista privilegiada sobre o vale do rio Mapocho, motivo pelo qual serviu de mirante aos espanhóis durante os séculos XVI e XVII nas suas freqüentes escaramuças contra os índios mapuches. Posteriormente, graças a Mackenna, prefeito de Santiago, no século XIX, a antiga fortificação militar virou atração turística com a construção de vias de acesso, pracinhas, mirantes, fontes e a recuperação do Fuerte Hidalgo, utilizado em eventos culturais, nos dias de hoje. Inicialmente, despido de vegetação, Mackenna ordenou o florestamento do lugar com o plantio de árvores, arbustos e flores transformando-o em um atraente passeio público.
Na entrada, há duas imponentes escadarias que conduzem ao Terraza Neptuno onde há uma linda fonte ao estilo Fontana di Trevi em frente a uma bela construção em estilo neoclássico. Novas escadarias levam a outro terraço, situado um nível acima. Vai-se então ascendendo até o topo do cerro de onde se avista a capital chilena num ângulo de 360º. Conheço, atendendo em um dos quiosques espalhados no interior do parque, a simpática arrendatária de um deles, e conversando com ela soube que, nos idos de 1.800, um dos canhões ali existentes era disparado em sincronia com o badalar dos sinos da catedral, situada um pouco mais além, na Plaza de Armas, informando, nessa peculiar maneira, aos santiaguinos a chegada do meio dia. O sistema, explica ela, funcionava postando-se um soldado, no cocuruto do cerro, agitando uma bandeira branca ou vermelha, visível assim por quem era responsável pelo sino da catedral, que, então, iniciaria a badalá-lo. Conta-me, ainda, que a avenida Bernard O’Higgins, mais conhecida como Alameda, já fora um braço do rio Mapocho, posteriormente aterrado. O cerro situava-se, portanto, entre os dois braços deste rio. Saio de Santa Lucia e entro em uma das muitas cafeterias existentes na cidade. O café, bebe-se ao pé do balcão, em formato circular. Serve a bebida uma moça cujo curtésimo vestido de colante malha cor de limão revela formas opulentas. Suas grossas pernas equilibram-se sobre sapatos de altíssimas plataformas. Os homens, atentos ao ir e vir da rapariga, bebericam, sem pressa, seus cafés saboreando o suculento espetáculo da carne jovem. Deve ser uma jogada de marketing pra atrair a clientela masculina, hehehe. O Paseo Ahumada, como sempre, está cheio de grupos de artistas apresentando seus shows. A temperatura amena de ontem cede lugar ao friozinho outonal. Santiago está decididamente se despedindo do verão, e eu da cidade. Hasta la vista Chile!

sábado, 21 de abril de 2007

Sábado em Santiago

Bem capaz que ia ficar sem máquina. Não comprei uma ontem quando voltei de Valparaíso porque o comércio aqui em Santiago já se encontrava fechado. Hoje, entretanto, entro numa loja no paseo Ahumada e lá permaneço uma hora pesquisando sobre os tipos de digitais à venda enquanto bato papo sem pressa alguma com o vendedor, um jovem super atencioso. Acabo, enfim, me decidindo por uma cheia de recursinhos, vindo de brinde um cartão de 1 gb! custando-me tão somente 400 reais. Com ela vou, toda pimpona, ao mercado. Que lugar! Uma enorme construção quadrada de alvenaria, coberta por uma cúpula metálica com vitrais na parte superior de modo a permitir o vazamento de luz. Na parte interna, corredores onde se dispõem bancas de pescados e frutos do mar, enquanto em outros, dezenas de restaurantes grudam-se uns aos outros. Nas peixarias, a oferta de molucos é de uma diversidade estonteante: almejas (pequena concha ovalada cinzenta), picorocos (concha áspera com três compartimentos cilíndricos onde se vê apontando a cabeça do bicharoco ainda vivo), ouriços, cuja tampa de cor escura e coberta de espinhos é cortada, retirando-se de seu interior a carne de coloração vermelho-clara, machas, ostiones, negro (um pescado lindo com listras escuras), reinetas, salmão, corvina, merluza, congrio, camarão....ufa! No centro do edifíco, concentram-se outros restaurantes, estes freqüentados preferencialmente por turistas (são mais ajeitadinhos ao passo que os da periferia, bem simples, são mais procurados pelos santiaguinos). Vendedores, apregoando seus produtos, passam carregando nas costas enormes pencas de ajis verdes e vermelhos. Trios musicais desfilam nos corredores tocando violão e cantando músicas típicas enquanto aproveitam e vendem seus cd's para os comensais. Realmente pitoresco, o lugar surpreende e encanta. Tento compará-lo com o de Montevideo, mas desisto, é outro estilo, muito mais popular, uma babel! O mercado uruguaio é mais sofisticado, além de seus freqüentadores pertencerem majoritariamente à classe média. Almoço duas vezes. Sento, primeiro, num restaurantezinho situado numa das esquinas e lá almoço machas al pil pil (fiquei fã deste prato desde que o provei em Puerto Natales). Dou uma banda, curtindo o lugar e sento em outro restaurante onde peço almejas al maico e meia garrafa de de vinho branco. Nem consigo terminar a comida, deixo metade no prato....também, pudera! Saio do mercado e atravesso a Plaza de Armas, pois o que me prende a atenção é a calle Compañia, logo em frente, adornada com arcos, onde se encontram, de um lado bancas de fast food chilena - vendem entre outros lanches, colossais hot dogs e os populares chacareros, que vêm a ser exóticos baurus recheados com vagens, rodelas grossas de tomates e quatro fatias finas de carne caindo pra fora do pão -, e do outro, em frente às bancas, restaurantes cujas comidas, expostas nas vitrines, exibem seus preços em etiquetas afixadas nos pratos. Não resisto àquele festival de baixa gastronomia e filmo enlouquecidamente aquela exuberância culinária! Já no paseo Ahumada, sou quase vítima de novos assaltos. Movida por uma má sensação, viro-me enquanto aguardo pra atravessar a rua e vejo um jovem começando a mexer na mochila que carrego nas costas. Grito com ele que, se fazendo de desentendido, sai de fininho me olhando com olhos injetados e inexpressivos. Mais adiante, ainda no mesmo paseo Ahumada, vejo outro jovem, acercando-se de mim na tentiva de pegar minha câmera, porém eu, precavidamente, depois do que me acontecera em Valparaíso ontem, a enrolara firmemente em meu pulso. Encaro-o e disparo: "vete de aqui, lança, yo llamo los carabineros". Desta feita, são três os meliantes, um deles, inclusive, finge que vai tirar algo do bolso, numa tentativa pífia de intimidação. Não me acovardo e boto a boca no trombone outra vez. Um senhor, apiedado de mim, acompanha-me por um tempo, aproveitando pra se queixar dos "angustiados" como se chamam aqui os jovens que usam drogas. A essas alturas, eu já não sei se ele é um bom sujeito ou alguém da gangue. Trato de de ir pro hotel sem delongas. Cruz credo, prefiro o mato com cobras, lagartos e abelhas africanas me picando do que as ruas insanas destas selvas de pedra! Chama minha atenção a quantidade de jovens vestidos de dark, emo, punk ou sei lá o que mais inventam no visual pra parecerem diferentes. Mais adiante, sou espectadora de uma ceninha protagonizada por quatro jovens de uma dessas tribos esquisitas: duas mocinhas ajoelhadas diante da vitrine de uma loja de eletrodomésticos trocam beijos de língua. Levantam-se e o pequeno bando segue seu caminho dando risadinhas e lançando olhares desafiadores aos transeuntes. O showzinho de tão canhestro não consegue surtir o efeito chocante ou sacana desejado, ninguém dá bola....pobres tolinhos!

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Poemeto

O que posso dizer desta cidade onde a aura de Neruda vagueia pelas ladeiras do cerro Bella Vista

O que posso dizer desta cidade onde o cheiro de maresia denuncia o porto ancorado no Pacífico

O que posso dizer desta cidade onde os marinheiros, após meses no mar, escolhem-na para seu hogar

O que posso dizer desta cidade que se insinua entre as colinas e se oferece aos pés do oceano

O que posso dizer desta cidade onde as gaivotas domesticadas pousam fotogenicamente diante das câmeras dos turistas

O que posso dizer desta cidade de casinhotas decrépitas e de espigões abastados elevando-se mais alto que seus cerros

O que posso dizer desta cidade que me indicou a rota certa por onde andar e me furtou a visão

O que posso dizer desta cidade de gentis moradores e impiedosos ladrões

O que posso dizer desta cidade, misto de Alfama, Santa Tereza e Boca

O que posso dizer desta cidade e de seus colossais guindastes, tais tentáculos de polvo, empilhando enormes containers uns sobre os outros no cais

O que posso dizer desta cidade e de seus coloridos e impacientes ônibus trafegando velozes através das ruas

O que mais posso dizer que já não foi dito e sussurrado pelos amantes indóceis se esfregando tesudos à beira mar

O que posso dizer desta cidade e de seus velhos bebuns de faces inchadas escutando boleros em decadentes botecos

O que mais posso dizer contra ti

O que mais posso dizer a teu favor

Um mistério a beira-mar? um calor tropical à tarde? um friozinho andino à noite?

Sei lá o que és, Valparaíso, talvez por isso tenhas sido a morada do poeta.

Valparaíso?

Sexta-feira, decido conhecer Valparaíso já que é perto de Santiago, e também influenciada por aquela aura que a cerca devido a Neruda. Resolvo não pegar condução até a rodoviária, conhecida como Terminal Santiago e vou caminhando pela Alameda. Durante o trajeto dou várias paradinhas para as inevitáveis sessões de fotos e filmagens porque ora atrai meu interesse a avenida Brasil em cujo canteiro central estão plantadas várias palmeiras, (homenagem ao meu país?!), noutra chama-me a atenção a vitrine de uma padaria exibindo bolos e pães variados a que não consigo resistir.... ponho-me a filmar. Um pouco antes do Terminal Santiago, a linda estrutura de ferro da Estación Central de Ferrocariles atrai minha atenção: mais fotos....evidentemente! A pernada até que não foi longa, justo uma hora, e já estou eu no guichê comprando passagem. O trajeto até Valparaíso é curto, o ônibus sai às 10:50 e chega às 12:40. Quando o ônibus está entrando nos arrabaldes da cidade, já não gosto muito do que vejo, acho tudo muito feio, casinhas penduradas nas encostas dos morros, lixo jogado nas calçadas, enfim, aqueles indícios de desleixo típicos da pobreza. No terminal rodoviário, há um eficiente serviço de atendimento ao turista, a recepcionista, gentil, oferece-me mapas e sugere alguns roteiros, além de orientações sobre os ônibus que devo pegar para ir a esse ou àquele lugar. Até então eu não havia ainda me sentido na América do Sul, porque as cidades de Puerto Natales e Punta Arenas são muito europeizadas assim como os bairros de Santiago por onde tenho passeado. Só agora, acá, em Valparaíso, bate aquela sensação de pertencer a algo familiar! Minha cabeça e alma insistem em permanecer naquela beleza das Torres del Paine e toda esta confusão de trânsito e pessoas caminhando apressadas me perturba, sei lá, imaginara outra coisa a respeito da cidade e o que vejo? Uma cidade pendurada e esparramada sobre colinas que desmaiam no mar. Se bonita? Bueno, se casario pobre o é, então paro por aqui. A impressão inicial que tenho de Valparaíso é a de uma grande favela....tal qual uma Rocinha....pero chilena! A balbúrdia nas ruas, os velhos ônibus coloridos, aquele ar de casa bagunçada, de cozinha sempre com louça suja na pia e mosca pousando na bandeja de frutas, isto é Valparaíso. E o Pacífico a espreitá-la. Ah, centenas de gaivotas, pacíficas gaivotas oferecem-se, domesticadas, às lentes dos turistas. Almoço no "Caleta Portales" (quem me indicou este restaurante foi um marinheiro chileno, simpatíssimo, com quem conversei durante o vôo Punta Arenas a Santiago). Por sugestão do chef, vem uma amostra de frutos do mar e pescados: locos, machas (pra mim o melhor dos moluscos que comi, a carne, delicada e rosada, pra lá de suculenta!), picorocos, ostiones, camarão, siri, ceviche de salmão e reineta. No Caleta, como o melhor postre de toda a viagem, uma torta de merengue com lúcuma, muito boa! O restaurante, com enormes janelões dando para a praia, é decorado ao estilo de um antigo galeão espanhol, velas amarradas, escadas de corda, roldanas, amuretas, dois tubarões e uma sereia pendurados no teto. O sol cintila no Pacífico e empresta uma coloração prateada às suas águas; na areia, gaivotas andam de lá pra cá enquanto outras levantam vôo alinhando-se geometricamente num desenho que lembra um bumerangue. Do restaurante, pego um ônibus e vou ao bairro onde há a casa de Neruda. Já na calçada vejo trocentos ônibus estacionados em frente, dou uma espiada no jardim e nem sigo adiante, saio de lá e desço a avenida Alemanha, filmando loucamente as casas e as vielas tortuosas. Chego numa praça onde uns jovens, deslizando habilmente sobre skates, lembram meu filho. Sigo pela Pedro Montt já em direção ao terminal rodoviário, mais filmagem, desta vez, banquinhas de camelô dispostas rentes ao meio fio atraem minha curiosidade. Bem disposta, atravesso a rua e vejo-me noutra praça onde paro pra filmar bicicletas enfeitadas com carinhas daqueles bicharocos da disney (pato donald e cia). Saco a digital do bolso do blusão e fico mais encantada ainda quando vejo duas criancinhas conduzindo velozes os tais velocípedes. O dia já apresenta aquele lusco fusco do entardecer, o ruído do tráfego, incessante, desta vez não atrapalha meu momento videomaker, aperto o botão da máquina e começo a registrar a cena quando, súbita e abruptamente, a máquina é retirada de minhas mãos por um sujeito que vem de trás. Rápido, ele segue em frente, sem disparar, apenas apressa o passo (ele nem se dignou em correr, o desgraçado insolente!), berro "pega ladrón", aí sim, ele desanda a correr por entre os transeuntes que nada fazem, ou porque não entendem o meu tosco espanhol ou porque estão pouco se lixando com o furto de que sou vítima (o egoísmo do ser humano é tão repulsivo, arrrghhh!). Reajo e corro para, logo, perceber a inutilidade de meu esforço. Num misto de resignação e ódio - ai que rrrraiva! - retorno até a ponta da praça onde estava há poucos minutos toda feliz. Fazer o quê? Regresso a Santiago e, durante a viagem, fantasio que o rapaz é um excêntrico artista, curioso em conhecer a visão que uma turista tem de sua cidade, daí furtar minha câmera; ou então, um fotógrafo em crise criativa apoderando-se das imagens alheias....ai, meu deus, vê se pode, eu sem minha câmera e ainda tecendo estorinhas com o tal ladrão! Apesar da ira e do desconsolo, não posso deixar de reconhecer a maneira elegante, quase um balé, como o sujeito, por trás de mim, pôs-se na ponta dos pés, estendeu o comprido braço sobre um de meus ombros e, com sua longa mão, apoderou-se da câmera, assim....fácil, fácil, como se tirasse doce de uma criancinha!!

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Empanada con guiso de carne

Acordo e o que vejo? Um alvorecer prometedor, um solzinho tíbio, o azul apontando, tímido, num céu, ainda, bem nublado. Fico chateada, afinal, justo no dia em que saio de Punta Arenas, o tempo começa a melhorar....enfim, cavacos do ofício de quem é turista. Aproveito que me resta um par de horas na cidade e vou até a beira do Pacífico distante 3 quadras de meu hostal, na esperança de, quem sabe, avistar a Tierra del Fuego. Desta vez consigo, não dá pra distinguir perfeitamente porém me contento com o que vejo! Faz frio, sinto minhas orelhas picando com a baixa temperatura e abandono a prainha onde a água verde deposita restos de algas na areia de cor escura. Volto pela linda avenida Cristobal Colon dirigindo-me ao restaurante onde almoçara no dia anterior, porque sei que hoje servem empanadas al horno. A dona, uma simpática chilena de grandes olhos azuis, me informara, ontem, que os dias de empanada são terça, quinta e sábado. Já me sinto "da casa" quando entro e sou prontamente reconhecida. Eu que normalmente gosto de saber o nome das pessoas, esqueço de perguntar não só o nome dela como o do restaurante, tudo por causa da maldita ansiedade que as viagens me provocam. Sento-me num banquinho junto ao balcão. O quitute, recém saído do forno, é colocado a minha frente. Despreende-se dele uma nuvenzinha de fumaça e o cheirinho de carne e massa é assaz apetitoso.
Mal espero que esfrie (depois fico me odiando pela voracidade quando sinto o céu da boca queimado) e vou logo mordendo sem muita cautela. Está muito bom: recheado com guiso de carne (carne picada) é preparado pela mãe da proprietária. Não resisto e peço uma tacinha de vinho tinto, "un poquito, señora, muy poco, estoy apurada". Lastimo tê-lo descoberto justo na véspera de deixar a cidade. Embora simples, é deveras acolhedor. Daqueles lugares bem familiares, onde os fregueses são habituées e conhecem-se uns aos outros de há muito. Entram ali para beber ou comer algo, trocar um dedo de prosa (política ou futebol) com os velhos conhecidos enquanto a dona, solícita, atende seus pedidos, mostrando ser uma boa e atenta ouvinte, palpitando, com delicadeza, vez por outra na conversa. Despeço-me da querida senhora e apressada aproveito ainda a meia hora restante dirigindo-me até a Plaza de Armas. Ontem não houvera condições de ficar muito tempo devido à chuva, daí porque regresso, quero filmar não só o Palácio Sara Braun como a bela residência ao lado, transformada no Club Militar de Oficiales.E tudo passa tão rápido, logo estou a caminho do aeroporto quando então embarco de volta a Santiago. Já em Santiago, hospedo-me no Gran Palace, ocupando os 8º, 9º e 10º andares de um prédio, misto de residencial e comercial. Localizado no paseo Huerfanos, fica perto de La Moneda, da Plaza de Armas, do Mercado, do cerro Santa Lucia, enfim, ao alcance de vários lugares interessantes de se visitar. A extensa avenida Bernard O'Higgins, mais conhecida como Alameda (ela ainda recebe os nomes de Pajarito, Providence, Las Condes e outros à medida que adentra os bairros da capital), exibe monumentais prédios em estilo neoclássico, contruídos com grandes blocos de granito escuro e guarnecidos de esplêndidas portas em madeira ou ferro trabalhados. Na Alameda, situa-se outro Club Union, um suntuoso palacete que ocupa um quarteirão. Escolho, para jantar, um restaurante em frente ao hotel, o Bar Nacional, preferindo sentar-me ao balcão embora haja mesas no piso superior. Ainda sob o efeito da saborosíssima empanada que havia comido em Arenas, peço uma de marisco. Contudo, não resisto à gula quando vejo meu vizinho comendo interessantes canapés de camarão e salmão; pergunto ao garçon qual o nome do prato e entendo "canapés marítimos" (posteriormente, descubro que o nome correto é canapé de marisco), uma delícia este sanduíche aberto! Deixo pra tomar café e comer o postre em outro lugar, assim vou expandindo meus conhecimentos gastronômicos. Entro no Havanas, que além de ser uma cafeteria, é também a franquia dos famosos alfajores argentinos. Maneiro, o lugar tem ainda um mezanino com sofás e mesinhas. Beberico meu café, fumo um cigarro enquanto leio um jornal. Saio e, mais adiante, sou atraída pelo colorido dos sorvetes exibidos na vitrine de uma sorveteria. Não resisto e saio de lá bem feliz lambiscando uma casquinha com três sabores enquanto circulo sossegadamente pelas ruas adjacentes ao meu hotel.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Passeio no cemitério

Ontem, enquanto retornava do restaurante Sotitos, o céu mostrou-se estrelado, eu fiquei bem feliz, até comentei, com meus botões: "finalmente, a chuva vai me dar uma trégua e vou poder dar uma boa caminhada pela cidade amanhã."Bah...não deu outra! De manhã até não choveu mas como fiquei no hotel até tarde fazendo uma coisa e outra, não usufruí do bom tempo matinal. Agora, 18 horas, a chuva ainda lambe sem piedade as ruas da cidade, enquanto bebo um drink no Pub 1900, bem na esquina da Bories com a Cristobal Colon, meu point durante a breve permanência em Arenas. Estou encarangada após ter feito o city tour abaixo de chuva, vento e frio, por isso nada melhor que um conhaque pra aquecer meu corpitcho. O passeio dura 2 horas e meia e vale, principalmente, pela visita ao cemitério. Uma lástima a chuva não ter dado trégua de modo a permitir que se percorresse, sem pressa, suas aléias enfeitadas com ciprestes europeus podados em formato cilíndrico. O terreno do cemitério foi doado por Sara Braun, imigrante russa que veio para a cidade no final do século XIX. Reservou esta dama, para si, um bom espaço, cercado de gradis de ferro, onde estão plantados centenários pinheiros, ciprestes, louros e plátanos. Num canto deste pequeno parque fez construir um mausoléu, em estilo árabe, de granito e mármore brancos, portas de bronze, esculturas de anjos, tudo muito suntuoso. Há outros, também, ricamente adornados, porém nenhum ocupa área tão grande quanto o de Sara Braun. Há jazigos pertencentes à várias associações como as dos bombeiros, as dos imigrantes croatas, as da armada chilena etc.
Há tumbas simples cobertas por flores variadas dando um colorido simpático a tão sóbrio lugar. Saindo de lá, fomos ao museu Salesiano Maggiorino Borgatello onde estão expostas mostras de etnologia, flora e fauna patagônica; também conta com mostra dos missionários, artesania indígena, fósseis e animais petrificados, ferramentas e canoas usadas pelos aborígenes. Quatro eram as etnias, sendo os tehuelches os mais altos (altura média 1,80m). Duas eram sedentárias, vivendo da caça, as demais eram nômades, exímios canoeiros e pescadores, mantendo sempre aceso e protegido um fogo dentro de suas embarcações. Todas as etnias eram monogâmicas e prezavam muitos os laços familiares. Os homens só caçavam ou pescavam, já as mulheres faziam todo o resto: comida, roupas e utensílios, sendo que algumas eram excelentes mergulhadoras, destacando-se na coleta de moluscos. Terminamos o passeio na Plaza de Armas em cujo centro foi construído o monumento em homenagem ao famoso navegador português Fernão de Magalhães, descobridor da passagem entre o Atlântico e o Pacífico, numa rede de intrincados canais como hoje é conhecido o estreito de Magalhães.

Reza a lenda que quem tocar no pé do índio que se encontra reclinado na base de pedra do monumento não deixará de regressar à cidade. Eu peguei no pé dele, uhuuu! Numa das esquinas em frente à praça, encontra-se o palácio de Sara Braun, uma mansão de dois pisos, cuja fachada exibe um jardim de inverno enquadrado numa estrutura metálica finamente trabalhada. Abriga atualmente o Club Union e um sofisticado e caro hotel. Incrível mas desde sexta-feira, quando eu ainda me encontrava em Puerto Natales, chove nesta região. Hoje com mais intensidade do que nos dias anteriores. A cidade é atravessada pelo rio das Minas, assim chamado porque o carvão já foi muito explorado por estas bandas, tendo sido construída, inclusive, na avenida Cristobal Colon, uma ferrovia usada no transporte deste minério cuja extração obtinha-se de um cerro situado no entorno da cidade. Infelizmente, não foi preservada, e de seus trilhos e da linda estação revestida com ladrilhos já nada mais resta. O rio das Minas atualmente é um pobre filete de água, poluidíssimo, onde se vêem boiando inúmeros detritos, dentre os quais pneus jogados em seu leito. Janto no restaurante El Remezon, outra dica do Nelson. No ambiente, simples, há três salas, uma delas ocupada unicamente por uma grande mesa redonda e cadeiras.

O menu, um quadro-negro onde está escrito a giz o cardápio de 12 pratos, encontra-se colocado num atril, à entrada. A pequena garçonete, vestida em trajes masculinos, coloca-o a minha frente para que eu faça minha escolha. O frio exige algo quente, motivo por que peço uma sopa de alho - gente, que coisa boa esta sopa, absolutamente di-vi-na! (feita com pão torrado ralado, caldo de carne e alho, é claro), uma salada de abacate, tomate e alface e o tal menu degustação: guanaco ao vinagrete, patê de ñandu, carpacio de castor e cordeiro aux poivre (adoro o carpacio de castor, muiiiito bom, pena vir tão pouquinho). A sobremesa, uma coisa hor-rí-vel, chamada mil folhas, a massa da grossura de um dedo de gordo, fico impressionada com a total ausência de delicadeza. E pra culminar sabem com o quê é recheada?! Doce de leite...arghhh! Como aquela mil folhas está me provocando borbulhas no estômago, entro num simpático barzinho e mando ver num Porto tinto, excelente digestivo que se deve usar em situações estomacais embaraçosas. Dia seguinte, acordo nova em folha, graças ao famoso vinho português, pois, pois!

terça-feira, 17 de abril de 2007

Uma fortificação militar

Manuel, o guia da agência que eu contratara para me levar ao Fuertes Bulnes, foi me buscar no hostal de manhã, e lá fomos nós apesar do péssimo clima. Bah, o de sempre: chuva, vento, céu totalmente nublado e uma neblina encobrindo a Isla Grande de Tierra del Fuego. Separada do continente pelo estreito de Magalhães, a cidade mais próxima na ilha é Porvenir, distante apenas 2 horas de barco de Arenas. Sei lá por que não fui até lá, talvez o tempo tenha colaborado pra me deixar meio travada assim como o pouco tempo em que  permaneci nesta cidade. O Fuertes Bulnes, situado no topo de uma colina, à beira do Pacífico, é uma construção militar fundada em 1843 pelos espanhóis com o objetivo de proteger a costa sul chilena. As edificações existentes à época não sobreviveram aos desmandos dos tempos, portanto o que há são apenas réplicas das originais: rudimentares palhoças feitas com torrões de barro e grama enquanto em outras foram utilizadas grossas toras de lengas. Exceto pela pequena capela decorada com réplicas de mobiliário daquela época, todas as casas e alojamentos estão despidos de qualquer guarnição.O lugar lembra-me mais um forte americano do velho oeste apesar da esplêndida localização. Manuel me conduz até uma casa localizada um pouco antes da entrada do forte pra comermos e bebermos algo porque o frio está pegando, até aguanieve cai! No interior da cafeteria, uma construção simples, crepita na larga lareira um excelente fogo. O cardápio reduz-se a empanadas, sopa e sanduíches, afora, café, chá e chocolate. Peço empanada. Quentíssima, de queimar céu da boca, está recheada com uma generosa porção de queijo derretido. De bebida, chá. Exijo preto, não suporto os aromatizados com morango, maracujá, laranja e similares. Gosto mesmo é do bom e tradicional chá preto! Encontro lá quatro antropólogos chilenos, cujo chefe, o extrovertido e bem nutrido Nelson, me dá a dica de três restaurantes em Arenas. Além dele, faz parte do grupo, Clarina, Jaqueline e Silvia. Esta última, coitada, fica mortificada com a gozação de seus colegas ao lhe apontarem a troca do ‘s’ pelo ‘z’, quando, a meu pedido, grafara a palavra “sopaipillas” em meu caderno. Indagado, Nelson, categórico, confirma a tese da existência de apenas uma raça: a humana (considerando-se somente o planeta Terra...é claro!). Acabo provando da famosa sopaipillas, que vem a ser um tipo de empanada cujos ingredientes, além da farinha, podem ser enriquecidos ora com batata ora com abóbora, dependendo da região onde é feita. Pode-se comê-la ora salgada ora doce, bastando apenas acrescentar pebre ou geléia sobre ela. Fico sabendo mais tarde, por Manuel, que Jose, além de dono e cozinheiro da bodega, fora professor de História, detentor, portanto, de um cabedal de fatos históricos super interessantes a respeito da região. Pena que eu não tenha sido informada de antemão assim teria conversado mais com ele. Felizmente, Nelson atendeu minha curiosidade sobre vários assuntos. Por mim teria passado a tarde conversando com ele.
Lastimo ter de deixar lugar e pessoas tão agradáveis e gentis, mas temos de regressar já que o passeio dura apenas meio dia e temos de percorrer outra vez os 60 km que nos separam de Arenas. Durante a viagem, sou informada por Manuel que a cidade tem quatro pontos fortes em sua economia: produção de gás metanol extraído do estreito de Magalhães, o comércio de pescados e frutos do mar, a criação de ovinos e bovinos e, por último, o turismo. O trajeto desenvolve-se ao largo deste canal do Pacífico, avistando-se cormorões, patos e até delfins mergulhando em busca de peixes. O chileno do sul é discretamente simpático, educado e atencioso, além de orgulhoso de ser magalhânico antes de ser chileno (vários prédios ostentam em suas fachadas a bandeira da Província da Última Esperanza....isso não lembra alguma coisa a vocês, hein, gaúchos?). Por outro lado, não afetam aquele vezo nacionalista arrogante dos argentinos tampouco a alegria ligeira dos peruanos. Talvez o frio mais o peso da ascendência oriunda da mescla de etnias indígena e européia o façam comedidos sem serem tão “frios” quanto esta última. Já na cidade, observo que tanto nas ruas de Puerto Natales quanto nas de Punta Arenas são plantadas, em suas calçadas e praças, ciprestes cujo trabalho em topiaria molda-os em variadas formas arredondadas. Seguindo a indicação de Nelson (o meu instinto em perguntar aos gordos sobre os bons restaurantes mais uma vez se confirma), vou ao Restaurante Sotitos. Retorno aos pescados e escolho um congrio com salsa margarida, agregado com frutos do mar. O agregado vem a ser ou purê de batata, ou batatas fritas, ou batata duquesa, a salsa (molho) vem enriquecida com pedacinhos de camarão, loco e ostione. O vinho, um Santa Digna, sauvignon blanc, vinícola Miguel Torres, safra 2004.O pescado, divino, mais ao ponto estragaria. O estabelecimento, como em todo o Chile - graças a deus! -, reserva um "local apto para fumadores” e “non fumadores” (tô de saco cheio dessa radicalização de banir o fumo como se fosse a pior droga da face da terra, copiada dos países “corretamente políticos”). Agora, 22 horas, o salão dos fumantes está cheio, todas as mesas ocupadas por homens, exceto três em que há casais. Observando as mulheres, percebo que, apesar do cabelo liso, os fios são grossos e sem muito brilho, confirmando-se a herança genética indígena. Esta minha conclusão não resulta de uma hipótese meramente fantasiosa. Sei, pois vi em fotos, que os índios (quase não os há mais aqui no sul do Chile, infelizmente) tinham-nos bastos e grossos, corroborando minha tese. Suponho que como defesa e proteção naturais contra o frio polar que grassa nesta região. Reflito enquanto janto o quão estranho e desafiador é ver-se sozinha, apenas você, num ambiente em que todos estão acompanhados. Às vezes me constranjo, outras nem penso sobre o desejo de ter ou não companhia, mas em geral, sinto-me satisfeita porque me considero corajosa em encarar solita uma viagem. Hoje, no entanto, eu bem que gostaria de dividir o vinho....mas fazer o quê?!