quinta-feira, 19 de junho de 2008

Que calorão!

Quinta-feira e o jet lag ainda se faz sentir. Também pudera, são 9 horas a mais de diferença em relação ao Brasil. Fui com Mr. Baig à Masjid (mesquita) Faisal, um edifício enorme, de mármore branco, com quatro minaretes altíssimos. Há corredores que circundam o prédio. São dois andares, do segundo se pode apreciar as colinas de Margallah que circundam Islamabad, veladas por fina névoa causada pela atmosfera úmida. Desde que aqui cheguei, ainda não consegui ver o azul do céu, invariavelmente encoberto de nuvens. “Normal”, esclarece meu primo. Na entrada do imponente prédio, há um depósito com vários escaninhos onde, obrigatoriamente, os calçados são guardados em balaios de plástico. Quem prefere colocá-los num escaninho individual tem de pagar 5 rúpias (7 centavos de real). O passeio, então, é feito de pé descalço. Bando de peregrinos continuamente visitam a mesquita durante o ano inteiro. Vêm de todas as províncias do país, seja em carros particulares ou em ônibus fretados. Observo que poucos manipulam máquinas digitais, a maioria utiliza as antiquadas máquinas manuais. Ponho meu xale na cabeça e entro no interior do templo, uma sala enorme com armários de vidros onde estão dispostos vários textos sagrados do Alcorão. Mulheres entram por uma porta e os homens por outra. No interior, há um cordão separando os espaços destinados aos fiéis de ambos os sexos. Alguns homens, ajoelhados, batem suas testas no chão. Do lado feminino, ocorre o mesmo ritual. Já no lado de fora, entabulo papo com algumas paquistanesas que vieram de outra cidade. Elas perguntam, cautelosamente, se sou católica. Ficam muito contentes ao saber que eu também sou, já que esta religião, professada por uma minoria no país, ao que consta, é discriminada. Pedem pra tirar foto comigo. Ponho o xale na cabeça mas uma delas o retira rapidamente. Prefere minha cabeça descoberta. Logo após, vem outra moça do grupo, correndo: quer tirar outra foto comigo. Não caibo em mim de contentamento. Vão embora, dando bye bye, esvoaçantes em seus coloridos trajes típicos. Enquanto passeio pelos corredores externos, percebo uma linda e jovem mulher que me observa com olhos curiosos e ternos. Pergunto com sinais se posso fotografá-la. Ela, com os olhos, diz não. Meiga, tão meiga ela! Uma pena! Logo, logo, entendo sua negativa. Um homem se aproxima e com uma expressão carrancuda me fita. Trato de sair de perto .... de fininho. Um calor danado, só incomoda pelo fato de eu estar sem água pra beber. Há lojinhas de souvenirs e livrarias vendendo livros, por óbvio, religiosos. Pego meu sapato, não sem antes responder pro simpático atendente de onde venho. “Brasil? Ah, Ronaldo, Ronaldino”, exclama o homem radiante. Esses dois jogadores sempre serão lembrados quando revelo minha nacionalidade. Saio do templo e enfrento o sol voraz da uma da tarde. Mr. Baig me espera pacientemente do lado de fora do carro. Ao chegarmos a rua onde mora meu primo, vejo guardas particulares, com suas espingardas, sentados indolentes em cadeiras brancas de plástico. Um escuta um radinho enquanto outro fala no celular (todos têm um "mobile" já que a ligação aqui é muiiiitoooo barata). Um homem de bike passa pra lá e pra cá entoando algo, é o amolador facas, anunciando seus serivços. A frondosa mangueira, bem em frente à residência de meu primo, fornece uma bela sombra. Mais adiante, outro guarda se refresca do calor com um ventilador de pé. É incrível vê-los diante das casas jogando conversa fora, varrendo a calçada ou simplesmente sentados sem fazer nada. À noite, vou ao Hot Spot, barzinho considerado um point descolado na cidade. Pôsteres de filmes antigos decoram as paredes. Música moderna em alto e bom som. O sandu de galinha vem acompanhado de um purê de batata bem condimentado. Muito gostoso. Como não servem álcool, me contento com um café moschino gelado....fazer o quê? Sexta-feira, 7 da manhã, Ali, vem me buscar para fazermos um trekking em Margallah Hills, as colinas que circundam a cidade. Pedregosas e cobertas de vegetação, pertencem ao Himalaia (e eu, tão sabidinha, pensava que esta cordilheira só tinha montanhas acima de 7 mil metros!). A caminhada, segundo Ali, deve começar cedo para pegarmos o mínimo possível de sol forte. Dura quase 4 horas, e durante o passeio, consigo, finalmente, ver o azul do céu! Contudo, dura pouco, lá pelo meio dia o céu volta a nublar-se. Pra minha surpresa, vejo alguns pinheiros e, caídas no chão, pinhas, gente, pinha!! Descem a colina alguns homens. Ali explica que vão à mesquita orar. Pros mulçumanos, sexta-feira, equivale ao domingo dos católicos. Assim, todo bom muçulmano, onde quer que se encontre, em vez das cinco rezas diárias, com duração de, aproximadamente, 4 minutos cada, dirige-se nesse dia aos templos e lá se queda rezando durante uma hora. Bem no meio do caminho, uma vaca, escarrapachadíssima, obstrui o caminho. Apenas as grandes orelhas se mexem, abanando as moscas ao seu redor. Ali quer enxotá-la, entretanto, o impeço. “Oh, no, no, Ali!” (meu inglês é tão "fluente"). De volta à casa de meu primo, chama minha atenção homens, displicentemente, sentados nos canteiros das ruas: estão à espera de emprego. Quem descola algo se sente muito feliz, embora o salário mínimo seja 4.000 rúpias (60 dólares). O problema aqui é o usual de países pobres: muita mão de obra e pouca oferta de emprego. Atualmente, a população paquistanesa soma mais ou menos 150 milhões de pessoas numa área de 880.940 km²..... é gente pra caramba!! Quando cheguei aqui, no primeiro dia, fiquei impressionada com o aspecto fortemente militarizado do país. Em cada esquina, barricadas, feitas de sacos de areia, protegem soldados fortemente armados com metralhadoras e fuzis. Tendas de campanha armadas nos parques onde dão plantão membros das forças armadas. Isso acontece desde o ano passado quando ocorreu o massacre na mesquita Vermelha. A crise no país agravou-se, ainda mais este ano, com a demissão do presidente e outros juízes da Suprema Corte que se negaram a ratificar o estado de emergência, decretado pelo presidente Pervez Musharraf. Há uma forte resistência à legalidade da eleição presidencial, realizada em outubro de 2007, que reconduziu Pervez ao cargo de presidente do Paquistão. Como conseqüência, alguns setores da sociedade organizaram uma passeata de protesto, motivo pelo qual as forças armadas se mantêm em estado de alerta total. Também as residências particulares empregam vigilantes particulares e meu primo não foge à regra: contratou um guarda, muito simpático, meio velhusco, que fica sentado numa guarita do lado externo da casa. Portando uma espingarda calibre 12. Aqui, isso é normalíssmo e a gente acaba se habituando...fazer o quê, né?
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