sábado, 21 de junho de 2008

Pé na estrada

Hoje é o grande dia do início do trekking ao acampamento-base do K2!!! Saímos de Islamabad às 6:15 e pegamos a Karakorum Highway (KKH), uma estrada pavimentada que une o Paquistão à China. Em muitos trechos, é evidente a má conservação da rodovia que sofre constantes deslizamentos de terra, provenientes das encostas das montanhas através das quais foi traçada. O tráfego de caminhões é intenso e os pitorescos veículos, coloridíssimos, exibem uma profusão de desenhos: flores, olhos e outras figuras da cultura paquistanesa. Em alguns, as portas de metal foram substituídas por portas de madeiras, ricamente entalhadas em alto relevo; guizos de metal pendurados em suas laterais fazem tlintlim à medida que eles se deslocam. Minivans transbordam de gente. Ônibus, com assentos ao nível da janela, de modo que se vêem apenas as pernas dos passageiros, transportam também pessoas sentadas nos seus tejadilhos. Uma loucura pra nossos olhos ocidentais, porém os paquistaneses demonstram estar bem à vontade em tal posição! Estou fascinada diante de tal ousadia. A KKH atravessa cidades, "towns" e "villages", como Haripur, Abbotabad e Mansehra, feias e sujas; entretanto, começo a gostar dessa confusão, dessa vida borbulhante e aparentemente caótica. Nesta última cidade, paramos. Enquanto Ali vai comprar frutas, Niaz me conduz a um restaurante onde me é servido chá verde, já misturado com leite no bule, bebida muito apreciada no país, herança da colonização britânica. No interior da xícara, dou de cara com um colarinho de sujeira há muito instalado, coisa de um mês de louça mal lavada. Reclamo, aí me trazem outra....um pouco menos suja. Coisas do Paquistão. Em ambos os lados da rodovia, dispõem-se os mercados, por eles chamados de bazares, compostos por um comércio variadíssimo de lojas que se sucedem umas às outras: são restaurantes, aviários, fruteiras, armazéns de secos e molhados, açougues, barbeiros, sapateiros, lojas de roupas e de cobertores, adoravelmente bregas, cujos desenhos coloridérrimos exibem estampas de flores gigantes em vibrantes tons de vermelho, verde, rosa e amarelo, feitos dum tecido apeluciado. Enfim, tudo do que se precisa, em matéria de produtos e serviços, se encontra ali à venda. Sobre os balcões dos açougues, pedaços de carne, expostas ao sol sem cuidado algum, são barganhados pelos fregueses com fervor quase religioso. Todos vestem as roupas típicas. Aqui já vejo mulheres com burka. Neste trecho da KKH, construída numa das margens do rio Indo, a estrada, estreita e sinuosa, corta as imponentes montanhas do Himalaia, e a água bege e turbilhonante do maior rio do Paquistão corre célere 200 metros abaixo. Ultrapassamos caminhões carregados de plácidas e resignadas vacas. Já os caminhões-galinheiro são qualquer coisa de se curtir. No topo dos cinco andares onde se espremem, em minigaiolas de metal, provavelmente, bem mais duma centena de galinhas, há uma cobertura improvisada com galhos de folhas, de modo a proteger as aves dos efeitos tórridos dos raios solares. Durante a viagem, o motora põe a carreta sob alguma vertente de água, que escorre do flanco das montanhas até a estrada, de modo a aliviar, assim, o fedor e refrescar os pobres bichos. Coisas do Paquistão! Paramos em Besham para almoçar. Quando saio do carro, dezenas de moscas pousam em meus braços....putz. O almoço servido é muito gostoso: arroz, carne e uma mistura de quiabo com cebola roxa (toda a cebola daqui é dessa espécie). De sobremesa, manga, mais cheirosa, saborosa e menos fibrosa do que as nossas. Seu tamanho e cor lembram os do mamão papaia. Já a melancia e o melão são insossos. Muitos homens de meia idade com cabelos e barbas pintados de vermelho-cenoura ou vermelho-cobre. Ali explica que é para parecerem mais jovens. Os homens me encaram sem esconder sua enorme curiosidade. Aliás, o país parece ser habitado quase que exclusivamente por homens. Poucas são as mulheres nas ruas (fico sabendo, no entanto, que compõem 54% da população do país). Quando encontro algumas, elas me olham ou com timidez ou furtivamente, isso quando não escondem o rosto com seus chadares (a exceção são as crianças). Retomamos a viagem. Um calor danado. De repente começa a chover, inclusive com queda de granizo. Chuvas de verão, portanto de pouca duração. Ali chama minha atenção para uma enorme e colossal montanha coberta de neve: eis o Nanga Parbat, cujo brilho rosado reflete os raios dum sol poente. A paisagem é ora bege ora cinza, dependendo do tipo de rocha que forma a montanha, e as águas do rio acompanham esta ou aquela coloração. Perto de Chillas, as encostas das montanhas são cobertas de areia bem fininha como a das praias, apenas não tão branca. Chegamos nesta cidade às 20:30. O hotel onde me hospedo, o Shangrila Midway House, é muito legal. Construído na frente do rio Indo tem um enorme jardim, com árvores e flores de variadas espécies. Lanternas e luzinhas coloridas dão um toque festivo à noite. O quarto, amplo, com chão acarpetado de palha trançada e teto revestido com tirinhas de bambu bem fininhas. Vasos e pratos, enfeitados com pequenos pedaços de espelhos e ladrilhos coloridos, adornam mesas e prateleiras. Abajures, com lâmpadas amareladas, dão um toque aconchegante ao recinto. Durante a janta, um guia, amigo de Ali, vem cumprimentá-lo. Conta, sorridente, que alguns clientes alemães temem que Osama Bin Laden esteja escondido no topo do K2! Rio amarelo porque eu quase cancelara minha viagem em razão de matéria escrita por um jornalista do Terra Magazine, poucas semanas antes de minha partida, comentando exatamente tal notícia. Durante a viagem, outros paquistaneses que conheci continuaram nessa pegada, gozando, educadamente, é claro, do temor dos turistas de que possa Bin Laden estar escondido em algum rincão do país, pronto a dar o bote em nós. Finalizam o deboche, afirmando que o terrorista está escondido, isso sim, é nos Estados Unidos, pertinho da Casa Branca. Essa é boa!! Bueno, antes de ir pro quarto, eu e Ali vamos fumar um cigarrinho no jardim. A lua cheia, ainda amarelada por tardios reflexos de raios de sol, imprime um rastro prateado na superfície d'água. Mal posso acreditar. Não é que estou na banda oriental do planeta?! Puxa vida!!

2 comentários:

Anna Apostolidou disse...

Hello,

I've been working on a free online map presenting the travels of a famous English mountaineer and I would like to ask your permission to use a couple of your photos of Korofong and Askole.

Of course there will be a proper attribution i.e your name and a link to your blog.

Waiting forward to your reply

Kind regards
Anna Apostolidou

Bea disse...

please, anna, write to my email sankyenator@gmail.com.
best regards, beatriz