quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Santuário das Pedras

Resolvida a não passar meus últimos dias de férias em Alto Paraíso, que imaginei estaria lotada de gente em razão do feriado de 7 de setembro (decisão acertadíssima, já que meus prognósticos se confirmaram), combinara com Fausto - na noite da festa da Travessia - acampar em Macaquinho. Pego uma carona com ele aproveitando sua ida à cidade e de lá partimos em sua caminhonete, percorrendo os 47 km de estrada de areião que conduzem à fazenda, situada no km 152 da rodovia Go 118. Os cinco dias em que lá permaneço são de puro idílio com a natureza e comigo mesma. Nunca me senti tão solta e livre de ansiedades durante minha breve e intensa passagem neste lugar tão encantador. Associo sempre músicas aos lugares por onde ando e duas me acompanharam enquanto lá permaneço: Fazenda, de Milton Nascimento e Submission, de Miles Davis. Por motivos óbvios, a primeira não necessita de maiores explicações; já a segunda, escolhi-a como um hino de submissão (no bom sentido, claro) à beleza, ao silêncio do lugar e ao homem por quem me apaixonara. Assim, permiti que fluíssem os bons ruídos emitidos pelos pássaros, pela corrente incessante do córrego Macaquinho cujo leito d’água atravessa a propriedade e pela energia daquele homem. Tudo me seduz, não só a natureza discretamente exuberante do cerrado goiano como a figura de seu dono. Fausto é um atrativo a mais na paisagem. Delicio-me com suas idiossincrasias e seu jeito casmurro. Por trás daquela fachada sisuda, entrevê-se um não sei que leve e brincalhão. Velho e jovem, tosco e sensível. Encantador! Irrequieto, ele vai e vem, atento à chegada dos turistas. Sem falar nada, lança apenas um olhar de soslaio em minha direção. E escapole. "Não estou apaixonado por você", avisa, sincero. Eu nem pisco. Expressivo, demais, Fausto: o lábio inferior levemente projetado pra fora denuncia determinação e teimosia, o rosto é marcado por rugas acentuadas, contudo, a pele do corpo é macia e lisa. Orgulha-se de sua vida cheia de luta e do muito que batalhou pra alcançar o que conquistou Saiu de casa aos 18 anos e trabalhou com artesanato durante muito tempo. Não esquentava lugar. “Minha casa foi a BR por mais de 10 anos”, enfatiza orgulhoso. Levava junto a família. Constrói móveis e enfeites que adornam sua casa. Gosta de usar penas de pássaros, madeira, pedras e cordões que trança livre de pressa. As construções no Macaquinho foram boladas e construídas por ele. Estamos em sua aconchegante cozinha onde, no fogão de barro, o arroz e o ensopado de cará cozinham. Sobre a mesa está um prato de salada: repolho em tirinhas circundados por rodelas de cebolas e de tomates. Tudo no capricho. Provo, está uma delícia, repito com gosto sua comida. Surpreendentemente, para um homem sozinho, ele é muito cuidadoso com o asseio de sua casa. Ranzinza, escuto-o no domingo se queixar do lixo reciclável esquecido na cozinha por alguns turistas, murmurando entredentes “num gosto de lixo, num gosto." Quando começo a rir dele, sorri levemente, mas logo logo se recompõe e fecha a cara.
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Retornando de Alto Paraíso, no sábado à noite, pra onde fora comemorar o 1 aninho de sua única neta, traz-me bolo e docinhos. Gentil, o Fausto. Os cabelos claros e lisos são compridos: mesmo assim já denunciam entradas profundas em sua larga testa. O nariz reto, bonito. Olhos de sapo. É o príncipe. Tá bom, assim, Faustooo?

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