domingo, 2 de setembro de 2007

A falsa lua em Cavalcante

Meu último dia com o grupo, que pena! Adorei a companhia daquelas pessoas, tão dispostas a fazer da convivência algo leve, alegre e sem encucação. Com certeza, sentirei a falta de todos desde a meiga Mariana, do circunspecto Francisco, do risonho Ricardo, do irônico Pece, de Valéria, uma carioca de fé, de Tika, a reservada, do som macio da voz de Mariane, de Nuria, a caçula da turma, de Isval, um pé de valsa de primeira, do bonitão Bruno e de Claudia, minha irmã de signo. Almoçamos juntos no restaurante Jamba Laya cuja comida - bufet de pratos quentes e saladas – foi de longe a melhor de todas até então. Confraternizamos alegremente enquanto Pece puxa o coro do mantra do Alecrim que entoamos com animado fervor. Após as despedidas, com promessas mis de novos reencontros, vou a Cavalcante, agora sozinha, mais Jair, guia e motorista. Enquanto rodamos pela GO 118 em direção ao norte do estado, Alto Paraíso e sua serra da Baliza ficam pra trás. Durante o trajeto de 90 km, as queimadas, amiúde, denunciam-se pelas trilhas de fumaça que se espalham ao longo das encostas das serras. Jair entra numa estradinha vicinal para que eu conheça a cachoeira do Poço Encantado. De todas as que conheci é a que menos curto. Não pelo pouco volume d'água (afinal, estamos na época das secas), mas porque foi contruído em seu entorno uma estrutura de balneário, retirando-lhe o sabor de "escondida no meio do mato". Civilizada demais....pro meu gosto, evidentemente! O calor é intenso e entro n’água pra me refrescar. Subimos a trilhazinha que leva a um quiosque, e bebo uma água de côco, contente de ainda estar com o pé na estrada. Já em Cavalcante ou Cavalquente, assim apelidada porque suas temperaturas são mais elevadas que as de São Jorge e Alto Paraíso (está a uma altitude menor, de 800 metros), percebo que a cidade não é tão charmosa quanto Alto Paraíso. Circunda-a, entretanto, a bela serra de Santana. Estou, agora, acomodada num dos chalés da Pousada Vale das Araras, distante da cidade 8 km, esperando que Jair venha me buscar pra jantarmos.
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Escolhemos a pizzaria Roots, recomendada por Richard, o proprietário da pousada. O lugar é muito legal: aproveitando o terreno pedregoso, seus donos construíram charmosos recantos onde crescem jabuticabeiras, a esta época do ano, carregadas de frutos maduros. Jair e eu colhemos algumas e as saboreamos: constituem-se num gostoso aperitivo antes que a pizza seja servida, aliás, bem gostosa. Uma melodia chama minha atenção e fico sabendo que se trata de Jaildes da Cruz, compositor nascido em Tocantins, dono de um repertório de toadas regionais. Jair, durante a janta, me surpreende com sua safa sabedoria interiorana. Discorrendo sobre as construções feitas com adobe, comuns na região, explica que se fosse morar no Rio de Janeiro, em alguma de suas favelas, onde as balas correm soltas, faria sua casa deste material porque mais denso que o tijolo de cimento. Acrescenta que não os colocaria, contudo, na horizontal, como é hábito, e sim na vertical, de modo a diminuir o impacto dos projetis. Eta, guri esperto esse! De volta da pizzaria, sentada do lado de fora de meu quarto, enquanto beberico uma cachacinha de arnica, aprecio a noite estrelada sem nuvens. Vislumbro, atrás da serra de Santana, um clarão avermelhado, me assanho e murmuro pros meus botões: deve ser a lua ainda banhada pelos raios do sol! Qual o quê! Mais um foco de incêndio castigando o cerrado.....humpf, eu podia passar sem essa, ora!

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