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terça-feira, 11 de setembro de 2007

Partindo do Reino Encantado

Pego a trilha que vai até a Cachoeira das 3 Marias e lá tomo meu último banho no córrego Macaquinho. Coisa boa aquela água geladinha que despenca das rochas e massageia minhas costas. Como de hábito, desde que lá cheguei, na quinta-feira, tiro a roupa e entro na água nua. Após um mergulho, saio e me estiro na pedra quente e lisa, deixando o sol secar meu corpo. Sem pressa alguma, estou na paz. O silêncio só é quebrado pelo barulhinho bom da água que redemoinha espumenta no poço. Embalada pela cantoria duns pássaros pretos, pousados nos galhos duma árvore, tiro uma soneca na rede antes do almoço, já com o corpo amolecido após a dose de arnica que acabara de bebericar.Fausto me chama pra almoçar sua comida simples porém nutritiva: salada de repolho roxo e tomate, feijão e arroz. E muita fruta de sobremesa, banana, bergamota, maçã e manga. Conversamos um pouco, quando chega Gudu com sua Belina velha, mas que dá conta do recado, pra me conduzir de volta a Alto Paraíso. Me despeço de Fausto com um aperto no coração. Passara dias encantadores aqui, tal qual uma Alice no País das Maravilhas. Aprendi e desaprendi, chorei e ri, dormi em barraca com a cabeça pra fora da tenda olhando as estrelas até o olho cansar de tanta luminosidade. Foi um fartum de natureza, completamente desligada de tudo. Foi bom demais, além das minhas melhores expectativas. Como Gudu deixara o carro um pouco distante da entrada da fazenda, subimos a pé uma colina com um sol de 34ºC, o coitado carregando literalmente minha mala nas costas. E lá vamos nós pela estradinha cruzando com seriemas, perdizes e veados campeiros. Carcarás planam no céu azul. E as lindas calhandras já estão florindo de vermelho o cerrado goiano.
Tudo de bom esta Chapada dos Veadeiros! Quando chego em Alto Paraíso, visito Marcela acometida por uma crise de labirintite. Deitada na cama, a coitada, não pode se levantar sem ajuda, pois se assim o fizer se estabaca no chão. Ao seu lado, Misael, cuida dela com carinho e preocupação: “se eu pudesse passar esse desconforto que minha linda tem pra mim...”, comenta ele ao me levar ao portão com aquele jeito manso que o goiano tem no falar. Na terça-feira, pego o ônibus do Expresso Santo Antonio que vindo de São Jorge já está atrasado há mais de uma hora. Só as 11 aponta na rodoviária. Entro nele ao som de Manga Rosa, cantada por Alceu Valença que vem da lojinha em frente. Pois não é que o veículo, pra meu espanto, permite a entrada de cachorros?! Foi o que constatei quando ao fazermos nossa primeira parada (o ônibus não tem banheiro) num misto de armazém e restaurante, vejo um casal de hippies brincando com um filhote. Compro um pão de queijo, meio maçudo, e sento na frente do estabelecimento curtindo os dois casais de hippies que moram em São Jorge e estão indo pra Brasília no mesmo ônibus. O dono do tal cachorrinho fica catando piolhos na cabeça da namorada, uma mocinha magra de grandes olhos meigos que se sujeita pacificamente a tal prática.
Ele explica pro outro casal que, muitas vezes enquanto passa a mão no seu cabelo, vem ela cheia de lêndeas. Me enojo e espero eles entrarem no ônibus pra não ter perigo de eles se encostarem em mim e me passarem esses nojentos bicharocos! Em Planaltina do Distrito Federal, quando o ônibus pára na rodoviária, entra um vendedor carregando um tabuleiro com sacos de pipoca doce e salgada. Em Sobradinho, novamente entra outro vendedor, dessa vez, vendendo sorvete de copinho. Lembra-me o Peru com suas vendedoras de comida. Coisas de países pobres, mas eu gosto assim...desse jeito mesmo. Chego em Brasília às 15:40 e me toco paro o belo aeroporto JK entrevendo ao longe a praça dos Três Poderes. Embarco pra Porto às 18:50 e só chego em casa lá pela uma da manhã. Nada abala meu coração, ele tá quieto!

sábado, 8 de setembro de 2007

Na Parede

Ontem à noite o pessoal de Brasília que também está acampado aqui, em Macaquinho, fez uma janta muito gostosa. São três casais: Marcelo, Fernanda e seu filho de 4 anos, o Mateus, um amor de criança, inteligentíssimo, muito atento a tudo o que rola, Mara e Alessandro, Paulinha e Raul, vulgo Ratinho. Estes dois casais praticam escalada, inclusive Mara e Alessandro já foram donos de uma escola pra ensino e prática deste esporte. Paulinha e Raul foram, no início do ano, pra Europa escalar algus picos na Espanha e Suiça. Ficamos batendo um papo gostoso sobre as diversas modalidades do esporte enquanto cozinham um rangão legal na cozinha de Fausto: arroz com cenoura, purê de batatas e estrogonofe de atum. Marcelo, de todos eles, é o que mais curte cozinhar e sua comida é, deveras, saborosa. Dá pra perceber que ele gosta e entende do riscado. Em conversê com Paulinha após a janta, descubro que é brasiliense, filha de mineiros. A garota de 21 anos, muito falante e simpática, me aponta as diferenças entre baianos, goianos e mineiros. “Baiano te conhece na praia e já te convida pra ficar na casa dele. Se você ficar um ano, ele tá nem aí. Em troca, caso ele vá lhe visitar, fica o tempo que achar necessário, na boa.” Dá uma pausa, toma um gole de vinho e continua “já o mineiro te observa, te analisa, tem uma intuição fodida pra sacar, de cara, quem presta ou não. Ao perceber que você é gente boa, entrega as chaves da casa e se torna um amigo pra vida toda.” Mateus nos interrompe querendo brincar. Paula faz-lhe a vontade. Retorna ao papo, um pouco depois, do ponto em que havia parado “o goiano também é legal, se parece um pouco com o mineiro, contudo é mais turrão e menos flexível”, dispara ela. Fazemos uma fogueira e sentamos ao redor curtindo e conversando mais um pouco. Hoje, domingão, alto sol, calor pra lá de bom, me toco pra cachoeira das 3 Marias com eles. Vão praticar boulder nas rochas que contornam o rio. Eu, que há horas estou com vontade de entrar nessa de escalar, fico só observando. Mara me convida pra tentar, recuso. A fome aperta, deixo então eles ali e vou almoçar. Corto um tomate em rodelas e almoço o resto de purê que sobrara da véspera. Não demora muito, logo retorno à cachoeira. Eles ainda estão escalando. Dessa vez me animo e quando Mara me convida novamente, esfrego minhas mãos com magnésio e mando ver! Sinto-me tão contente pendurada naquelas pedras, tentando descobrir os pontos certos pra encaixar minhas mãos e pés que nem sinto medo. É bom demaiiiiisss!!!! Escalo três vezes o paredão e ambas me cumprimentam. Estou toda prosa, não preciso de mais nada hoje!!

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Fazenda Macaquinho

Hospedada na pousada Jardim do Éden, cuja dona, a meiga Lucia Helena, cultiva um herbanário onde crescem as mais variadas ervas que se possa imaginar, somos, eu, Pece, Francisco e Ricardo mimados como filhos por ela que, entre várias gentilezas, deixa no nosso quarto sobre a cama uma erva cheirosa diferente a cada dia, juntamente com um texto de sua autoria repleto de mensagens otimistas e amorosas. Seu maravilhoso café da manhã cheio de comidinhas integrais de alta qualidade além de super nutritivas são enfeitadas com pétalas de amores perfeitos. Somos sempre recebidos quando voltamos de nossos passeios com um chá de ervas para combater o que ela chama de imperil, que vem a ser um cristal que se aloja no fígado e causa vários males à saúde. O tal de chá aliás torna-se uma sensação e o resto do pessoal que está alojado em outra pousada, vem no dia seguinte bebê-lo para também usufruir de seus efeitos benéficos. Pra variar, Pece, que não perde uma oportunidade pra gozar de tudo e todos que afrontam sua lógica cartesiana, funda a confraria Unidos do Alecrim. Até reza o diacho do homem inventa a partir de um texto da boa Lucinha: “A vida é bela, o mundo é perfeito, obrigado Alecrim!” Somos obrigados por ele volta e meia a repetir tal mantra, estendendo as palmas da mão pra cima e revirando os olhos. Meus deus, nem acredito que entrei nessa...porém entrei! Bueno, bem alimentada após o lauto desjejum, vou então conhecer a fazenda Macaquinho, situada no vale do Macaco. Rebatizada pelo seu proprietário, Fausto Souza Melo, de Santuário das Pedras, esta propriedade é um jardim do éden encravado em pleno cerrado da Chapada dos Veadeiros. Banha-a o ribeirão Macaquinho que forma várias cachoeiras como a do Sereno, Pedra Furada, das Andorinhas, da Caverna, cujo poço adentra uma funda gruta e a do Encontro, assim chamada porque os córregos Macaquinho e do Fundão confluem resultando na linda queda que despenca num poço de água verde-escura. A vegetação é de cerrado rupestre, conforme me explica Pacheco. A trilha, curta - não atinge 2 km - não oferece maiores dificuldades, excepto por um trecho em aclive calçado por troncos de madeira de cor amarela formando degraus encimados por um pórtico enfeitado com diversas mandalas. Bem cuidadoso o tal de dono. No retorno, paramos na cachoeira do Sereno e por lá ficamos um bom tempo tomando banho em suas águas, conversando e lagarteando ao sol deitados nos lajedos que circundam o poço. Saímos de Macaquinho, não sem antes o dono nos oferecer, gentilmente, uma arnica (acho que é a cachaça oficial da região, pois é servida em quase todos os lugares por onde andamos). Ao entardecer, retornando a Alto Paraíso, obrigamos Hugo, o motorista, a parar a van, de modo a apreciar o belo pôr do sol escondendo-se atrás das serras. Todos descem do veículo e as máquinas explodem em flashes ensandecidos. Não basta apenas reter na memória tal instante, a recordação tem de ser digitalizada, ora pombas!