sexta-feira, 14 de junho de 2019

Abraçasso no Brasil 2019: Explorando melhor Goiás

Na sexta, 14 de junho, com a Chapada dos Guimarães se distanciando no horizonte, o plano é dormir em Barra do Garças onde fiquei ano passado. Ao ali chegarmos, enquanto abasteço o carro, por sugestão dum frentista, seguimos pra Aragarças, já em solo goiano, procurando o balneário Água Santa por ele indicado. À beira do mítico Araguaia, o lugar conta com excelente estrutura de camping, restaurante e piscinas de águas termais. Como pano de fundo, a serra do Roncador que se estende por 800 km do Mato Grosso ao Pará. Baita dica a do rapaz, valeu, meu bruxo! Permanecemos até domingo de manhã, lastimando partir de tão agradável lugar. Contudo aproveitamos bem o sábado, pedalando por estradinhas de chão batido de manhã e navegando de voadeira no Araguaia à tarde. Durante o passeio, vejo dezenas de aves, destacando-se as lindas garças de plumagem rosada, mergulhões e os fugazes botos cinza que mal dão pinta fora d’água. Super piscoso, o Araguaia é delírio da galera que gosta de pescaria, motivo por que se vêem, em plataformas projetadas sobre suas águas escuras, turistas empunhando sofisticadas varas de pescar. Enquanto rumamos pra Brasília, me dá na telha conhecer Pirenópolis motivo por que desvio então de rota. Pedro Emílio fica muito contente porque lá morara há 30 anos. O lindo e preservado centro histórico exibe antigos casarios pintados em cores vivas. Pernoitamos no Jardim Secreto, cujo dono, Diogo, pertence também à tribo dos alternativos (diferente porém da do Xamã já que a sua é a de 1 homem só). Praticante de Daime, abandonou emprego público em Goiânia, se estabelecendo aqui onde toca sua pousada e camping. Dormimos em redes penduradas no quintal, contudo nosso objetivo é acampar em local não tão urbano, por isso nos mandamos pro camping Raízes, lugar adorável à beira do rio das Almas, no meio do mato, onde penduramos as redes. O dono, Fernando, super amável, deixa até lenha armada pra fogueira noturna. Foi tanto o frio nas duas noites em que lá pernoitamos que, na segunda, enchemos garrafas plásticas de 500 ml com água quente de modo a aquecer os pés. Em compensação, a lua cheia abrilhantava a escuridão cada vez que eu levantava, tiritando, na madrugada pra urinar! No último dia em Pirenópolis, contrato Carmem Cecília, tatuadora que vive na pousada de Diogo, pra nos servir de guia. Ela nos leva a lugares onde não é cobrada taxa de visitação. Assim conhecemos uma parte da cidade de Pedra e as belas cachus das Andorinhas e Sonrisal, sendo que nesta última sucessivas quedas d’água terminam em poços de esverdeada limpidez. A caminho da segunda cachoeira, paramos no mirante do Ventilador donde se avistam Pirenópolis e a chaga representada pela pedreira escavada na encosta da serra dos Pirineus que rodeia a cidade. O passeio termina com a subida ao ponto mais alto da região, o pico dos Pirineus. Nem só às atividades físicas dedico minha estadia em Pirenópolis. Há também momento cultural quando descubro no museu do Divino, a sen-sa-cio-nal exposição de esculturas de terracota feitas pela nonagenária artista plástica Safia que trabalha com o barro desde 0s 7 anos de idade. Na quarta, agora sim, a caminho de Brasília, passamos por Salto do Corumbá, lindíssima queda d’água à beira da BR 414. Etanol baratíssimo desde Mato Grosso do Sul, uma beleza. Em MT chega a 2,60. Na capital federal, ficamos no quitinete emprestado por minha amável prima Maria Luiza, pertinho do ape de Jorge Otavio e Sonia, outros primos queridos com quem na última noite nos divertimos muito jogando cartas os quatro na casa do casal. Conheço outra faceta de Brasília, invadida por frente fria que traz além de queda de temperatura rajadas fortes de vento....que merda! Durante os 5 dias na cidade, não descuramos de nossa rotina de exercícios físicos, pedalando todos os dias nas suas boas ciclovias. E a parte cultural foi preenchida por audições de MPB, em especial chorinho e forró, proporcionados por Clarissa, outra prima, que canta e encanta em vários bares da cidade. Era pra gente ter partido de Brasília no domingo mas como Pedro Emílio foi atropelado, ou melhor, atropelou de bicicleta um carro no sábado à tarde (a consequência foi que acabou no hospital de Base pra dar pontos na cabeça porque estava sem capacete, o tonto), somos obrigados a estender nossa estadia por mais um dia. Isso porque nosso próximo destino, Vila São Jorge, é carente de recursos hospitalares, e vá que nesse meio tempo tenha o Xamã alguma convulsão. Por precaução, partimos na segunda-feira, quando a caminho da Chapada dos Veadeiros, paro na Vovó Herminia prum lanche-almoço. O estabelecimento, especializada em quitutes goianos, tem como carros-chefes suco de milho, empadão goiano e pamonhas com diversos recheios. Ao chegar à Vila vou direto e reto pro Canto da Coruja sendo recebida pelo incansável Buba, pau pra toda obra no sítio. O camping sofreu melhorias significativas, passando a ter um setor de glamping, cozinha aberta com fogão caipira e centro de meditação na colina distante 200 metros da sede. Também ali se encontra Carlos, simpático catalão de Barcelona, permutando trabalho por hospedagem e comida. Veio pro festival de slack line já realizado em Cavalcante. Descubro a exótica cachaça de jambu, comprando além duma garrafa desta bebida, outra de arnica. Nos deliciosos 5 dias que ficamos na vila, muito pedal pelas redondezas, pernada ao mirante das Estrelas onde curto baita pôr de sol e 2 trilhas no PN Chapada dos Veadeiros: a do Carrossel, Saltos e Corredeiras, num dia e a dos Canyons e Cariocas, noutro. Almoços na Nenzinha, bufê de saborosíssima comida caseira. Na sexta, pé no acelerador: próximo destino, Terra Ronca que não consegui conhecer ano passado, mas neste, sim...uhuuu!!! Situado no nordeste de Goiás, o Parque Estadual de Terra Ronca abriga mais de 200 cavernas secas e 60 molhadas, sendo considerado um dos maiores complexos de cavernas na América do Sul. O local abriga 7 das 30 maiores cavernas do Brasil. Aliás, seu nome vem do som dos rios dentro das cavernas que ao reverberar pelas paredes lembra roncos. A maioria delas destina-se apenas a pesquisadores; ao turismo estão reservadas 17, sendo 11 delas grandes complexos de diferentes níveis de dificuldade. Quem parte de Brasília, têm 2 rotas pra visitar o parque. A primeira é pegar a BR 20 até Posse e depois seguir pela GO 108 até Guarani de Goiás. Já que estou em Alto Paraíso, escolho continuar pela GO 118, seguindo pela GO 112 que exibe ásperas formações rochosas em parte de seu trajeto. Após sua relativamente boa estrada de chão batido, enfrenta-se o poeirento e avermelhado terreno da GO 447, um martírio. Almoço em Vazante, distrito de Divinópolis, cuja comida caseira feita pelo dono (a mulher teve de sair) é de lamber os beiços! Xamã se serve 3 vezes! Atravessamos Divinópolis e logo estamos na pacata São Domingos onde dormimos. A simpática cidadezinha, localizada à beira do lago São Domingos, pede um pedal, é claro!! Assim, pedalo pelos arredores, curtindo a bela paisagem das rochas de coloração avermelhada que formam a serra Geral cujo destaque é o pontudo morro do Moleque. No sábado, enfrentamos os 41 km da GO 110, estrada de chão batido bem ruinzinha até a vila São João Evangelista. Trata-se duma pequena comunidade com algumas centenas de moradores. A rua principal, sem calçamento, é onde a maior parte da vila se assenta. Sua localização é estratégica, considerando que as cavernas as quais são permitidas visitação se situam mais próximas desta vila do que de Guarani. São Vicente situada a 10 km da vila não está aberta à visitação pois necessita de rapel pra atingir seu interior e no momento não há guia que faça tal atividade. Angelica, a 25 km, também antes da vila, ao passo que Terra Ronca I e II, São Mateus e São Bernardo distam, respectivamente 13 km e 23 km depois da vila. O guia contratado, João Pedro, é um simpático e paciente rapaz de 22 anos. Seus pais, Laureci e Rubem, donos do camping onde estamos, são muito amáveis. Ela me presenteia com ovos de suas galinhas e oferece café adoçado quando, sentada à varanda de sua casa, aproveito o wifi inexistente no camping. Hoje vamos a São Mateus. Poucos são os dias nublados no centro-oeste, hoje, contudo, assim se encontra o céu, pouco importando já que vamos nos embrenhar nas estranhas da terra. Do interior do carro, vemos, além duma onça parda (pensei que fosse um cachorro rotweiler) cruzando a estradinha que dá acesso à caverna, duas seriemas que, assustadas, fogem campo adentro. Nada fácil percorrer a São Mateus. Temos de descer bastante até alcançar sua estreita boca, originada por sucessivos desabamentos, escondida por densa vegetação. Seu escorregadio e íngreme terreno calcáreo exige cuidado. A caverna cheia de altos e baixo, cortada pelas rasas e límpidas águas do rio São Mateus, conta com vários salões interligados por corredores, alguns bem estreitos. Os espeleotemas são interessantes: alguns lembram pela textura corais, outro um branco pássaro, num salão mais adiante, uma estalagmite representa com perfeição a Torre de Pisa! A bem da verdade, cavernas nem me atraem muito, exatamente pela ausência de luz em seus interiores, porém há vários anos, desde 2007, nutria curiosidade em conhecer a região. São 2 horas de intenso sobe e desce e quando saio da caverna respiro aliviada ao rever a luz do dia. Descubro que Xamã se sentiu oprimido, meio sufocado pela escuridão tanto que na volta deu um pique pra sair ligeirinho do breu, o coitado. Creio que foi o único passeio que ele não curtiu muito dos tantos que fizemos durante a trip. Se a manhã fora nublada, à noite o céu brilha coberto de estrelas. No domingo, vou só eu visitar as 2 Terra Ronca que em priscas eras foi uma só caverna. Com o desmoronamento de seu teto, restou dividida em duas, daí a denominação Terra Ronca I e Terra Ronca II. Quando estamos a 1 km da caverna, já é possível avistar a estrutura das rochas escuras que formam seu teto. Quando lá chego, deslumbro-me com sua gigantesca bocarra, que permite o vazamento de generosa porção de luz solar, de modo a permitir seja iluminado bom pedaço dos 800 metros de sua travessia. Me sinto literalmente uma formiga. Já de cara curto pra caramba a Terra Ronca I, exibindo, a alguns metros de sua entrada, rocha vazada no formato de coração, com o sugestivo nome de Pedra dos Namorados. O amplo e plano salão, cortado pelas claras e cálidas águas rio da Lapa, desemboca noutra abertura que sai na cerrada e verdejante mata conduzindo à segunda caverna. A trilha, linda, persegue o onipresente rio da Lapa que continua Terra Ronca II adentro. Recordou-me pelos perrengues das subidas e descidas os anos de canionismo em Praia Grande/SC. Desce-se até sua primeira entrada, pequena se comparada à I, para após 100 metros, alcançar a segunda boca. Neste segundo salão, igualmente plano, já na escuridão total da caverna, quebrada pela fraca iluminação de nossas humildes lanternas, atravessamos até a margem oposta do rio cuja correnteza, neste ponto fortinha, exige que nos agarremos em providencial corrimão feito com corda. A água por pouco não bate no meu queixo. Cumpre esclarecer: sou de estatura mignon. Avisto de longe um pequeno rasgo de luz que aumenta à medida que me aproximo da claraboia, assim chamado o desmoronamento na parede final da Terra Ronca II. Tal espetáculo só acontece de abril a julho quando os raios de sol vazam pelo buracão iluminando os espeleotemas que ornamentam suas paredes. Que ignorante sortuda eu que desconhecia tal detalhe! Terra Ronca me reconciliou com as cavernas....adorei ambas!! A caminho do mirante, no teto da caverna, escuto o trinar do periquito guerreiro, ave em extinção, cuja plumagem alaranjada colore seu peito e cabeça. Dali de cima, se tem uma ampla visão da Serra Geral que tanto admirara quando estivera em São Domingos há 2 dias atrás. Encerro o domingão, curtindo o visual super lindo da cachoeira das Palmeiras, situada a 8 km das Terra Ronca I e II. Realmente, Goiás e Santa Catarina são, em minha opinião, os mais belos e interessantes estados brasileiros! Infelizmente há que deixá-lo porque o destino final da viagem é Tocantins...simboralelê!!

terça-feira, 28 de maio de 2019

Abraçasso no Brasil 2019: Sob a proteção do Xamã Sideral

Diferentemente do ano passado, minha nova incursão Brasil adentro parte da catarinense Ponta do Papagaio, na praia da Pinheira, onde a família de Pedro Emílio, meu parceiro de trip, tem uma casa de veraneio. Permanecemos 2 dias pedalando além de uma deliciosa caminhada no vale da Utopia, na serra do Tabuleiro. O dia, mais bonito impossível: céu azul, poucas nuvens, temperatura amena. À noite, enquanto Pedro Emilio assa gorda tainha, cozinho batatas. Os assíduos leitores, curiosos, provavelmente, estão se perguntando “quem é esse tal de Pedro Emilio”? Tá tá, já tô abrindo parêntesis – bem grande, viram?! - pra explicar que conheço Pedruska há pouco tempo, remando numa guarderia, situada na vila Conceição em POA. À maliciosa pergunta duma amiga “teu love, Bia?” respondo que, no momento, dividimos apenas mesa, o futuro só a nós pertence. Bueno, voltando a Pedro Emilio: ele é o que meu filho chama de Biriri (maluco beleza) e regula de idade comigo. Repentista, faz versos poéticos quando vai com a cara da criatura. É um faz tudo por excelência, situação vantajosíssima, gente assim não se aperta em qualquer lugar do planeta pra ganhar o pão nosso de cada dia. Viver de bico exige culhão, inerente dos aventureiros raiz porque permite liberdade de movimento. Embora não tenha frequentado faculdade tem diplomas em diversos cursos, entre os quais estética automotiva, martelinho de ouro e permacultura. Até hoje, contudo, ainda não teve oportunidade de exercer tais ofícios. Mas tá na batalha. E quase esquecia o mais importante de todos os canudos: os 3 meses de sobrevivência na selva que, com justa razão, Pedroka, orgulhosamente, ostenta! Legal e sem frescuras, curte vida ao ar livre além de estar sempre pronto pra pedalar e remar comigo. Na quinta, 30 de maio, nos mandamos BR 376 afora, pernoitando na paranaense Marialva, num hotel bem legalzinho à beira da rodovia. Dia seguinte, percorremos breve trecho em São Paulo, logo adentrando Mato Grosso do Sul, com pernoite em Bandeirantes, pequena cidade à beira da BR 163, onde aproveitamos pra pedalar um pouco assim que chegamos. O bom em viajar de carro é que se pode levar bikes e caiaques pra se exercitar ao longo da viagem. Após 5 dias de estrada, chegamos em Cuiabá, no meio da tarde. O querido Oswaldinho, filho da amigona Osnilde, nos espera com sua sorridente cordialidade. Permanecemos na capital mato-grossense 3 dias, pedalando caminhando no parque Mãe Bonifácio e assistindo filmes no Netflix, convivência esta entremeada de muito conversê e risadas com nosso bem humorado anfitrião. Seguindo sugestão de Taci, namorado de Tiago, o caçula de Osnilde, vamos conhecer Tangará da Serra distante 240 km a noroeste de Cuiabá. A cidade com pouco mais de 100 mil habitantes é considerada a 5ª mais populosa do estado. Da. Maria, dona do hotel California, onde nos hospedamos, conta que quando lá se estabeleceu, há 44 anos, a luz era de gerador, sendo desligada às 22 horas. Casas de madeira e ruas sem calçamento. Não havia ainda plantações de soja ou de milho. Segundo os paus rodados (forasteiros), os cuiabanos não são de muito trabalho, se contentando com pouco, motivo por que foram os de PR, SC, RS e SP que introduziram, após correção do solo, as plantações em larga escala de soja e de milho, dando início ao agronegócio. As viagens eram demoradas em razão de as estradas chão batido, na época da chuva, virarem traiçoeiros atoleiros. Pra alongar as pernas, pegamos as bicis e pedalamos pela cidade conhecendo o bosque municipal, pequena área verde de mata de cerrado onde cotias circulam entre a vegetação. Dia seguinte, conferimos os Saltos Maciel e das Nuvens banhados pelo rio Sepotuba. Ao contrário do primeiro que não possui nenhuma infraestrutura, o segundo, conta com restaurante e pousada mais passarela para bem desfrutar a bela e larga queda d’água. Enquanto rodávamos pela boa estradinha de chão batido até o Salto das Nuvens, Pedro Emilio, rebatizado por mim Xamã Sideral devido ao temperamento avoado e estilo de vida alternativo, comenta “olha as vaquinhas ali, olha o olhar delas, que sutileza”...hahaha. O bom nesta parte do país é que se come peixe de rio pra caramba, tanto que no almoço pedimos ventrecha (costela) de pacu, delícia de pescado. Feita a digestão, nos tocamos pela igualmente boa estrada de chão batido até a cachoeira do rio Formoso. O passeio é uma roubada: 25 pilas pra ver uma queda d’água medíocre, em nada se comparando em beleza às anteriores. Minha pouca experiência com índios me leva a crer que eles não são lá muito simpáticos, sempre transparecendo leve desdém pelos brancos. Queriam nos cobrar 170 reais pelo camping!! Eu hein!! Claro está que nos mandamos da aldeia, preferindo dormir em Campo Novo do Parecis. Pra tanto enfrentamos desde Barra dos Bugres até início da MT 358 uma péssima rodovia cheia de buracos, um pesadelo. Em Itanorte, sou obrigada a comprar na beira da estrada, num restaurante, 11 litros de gasol por 70 pilas dum aproveitador, porque em 150 km de rodovia entre Tangará da Serra e Campo Novo do Parecis inexiste unzinho posto de combustível. Adoro hotel fuleiro à margem de rodovia. Assim, não dá outra, nos hospedamos num à margem da BR 364 em Campo Novo de Parecis. Na 5ª feira, 6 de junho, desistimos de conhecer Vila Bela da Santíssima Trindade, situada a sudoeste, trocando Campo Novo do Parecis por Nobres. Se Pedro Emilio já se embasbacara com as lavouras no Mato Grosso do Sul, ficou mais siderado ainda com as extensas lavouras, em ambos os lados da MT 010, de cana, soja, girassol, algodão e milho que tornam o Brasil uma grande potência do agronegócio. Pedro Emilio tanto se extasia com as plantações a perder de vista e seus silos gigantescos como com a beleza do cerrado nessa época do ano bem verdinho. Calor gostoso de 28º C e céu azul fazem com que eu me sinta muiiitooo contente! Chegamos a Nobres e encontramos, à beira do rio Nobres, um acampamento ideal, primeiro dos tantos que ainda teremos pela frente. À tardinha os banhos no rio são os melhores porque a água aquecida pela insolação diária apresenta-se com temperatura calidamente ideal. Sempre bom estar alerta, não em estado de pânico, pois aqui sucuris e onças podem dar pinta, portanto olho vivo. Esta parte do Brasil não perdoa desavisados, estamos na Disneylândia, não. Exceto o caseiro e sua família, só dá nós no sítio....ebaa!!! Depois de dias dormindo em camas, fazendo comida no conforto duma cozinha ou comendo em restaurantes, bom demais da conta fazer fogo de chão pra cozinhar e dormir em rede. A pequena Nobres é uma agradável cidadezinha, com larga avenida cortada por um canteiro central e casas confortáveis. Muita gente andando de bicicleta. Ligado por uma agradável estradinha de chão batido, o camping, onde estamos dista 5 km do centro da cidade, apelidado pelo povo do centro-oeste e norte "rua". Certa manhã, retornando ao camping, avistamos desengonçado animal de forma indefinida se arrastando em direção à estrada, prontamente identificado por Pedro Emilio como um tamanduá bandeira. Eita bicho deselegante! Com o passar dos dias, a família do caseiro revela-se muito pedinchona. Ora o homem pede que eu o leve de carro até a "rua" para comprar cerveja, ora a mulher querendo refri quando saímos à tardinha até o centro. Mas o guri, um dos 3 filhos do caseiro, é o campeão: tudo que vê quer, seja banana, bolacha ou o que mais tenha na nossa caixa de mantimentos pra onde espicha seus gulosos olhinhos. Lembra uma mosquinha varejeira rondando a gente, o pentelho. Na sexta, 07 de junho, passeio de bici ao longo da MT 241 até o encontro dos rios Cuiabazinho e Manso que formam o Cuiabá. Perfeito o céu nublado porque assim não se sofre muito pedalando já que o termômetro deve estar acima dos 30º C. De rango nesses dias só coisinha leve: salada de verdura e legumes misturada com atum além de salada de frutas. Esta ao ser finalizada atrai os filhos do caseiro que a devoram impiedosa e alegremente. À noite, batata doce mais pão tostado com azeite e ervas finas, regando a ceia o tinto português Periquita. E a água do rio emanando seu barulhinho bom a 30 metros da minha rede!! Entre os muitos pássaros, na mata ao redor, há um que se destaca pelo seu trinar semelhante a alarme de carro, tanto que ao ouvi-lo pela primeira vez pensei que fosse o da caminhonete que disparara!! No sábado, o dia lindo, sem nuvens, 34º C, organizamos um piquenique na cachoeira do Bananal, distante do camping 2 km. A trilha ao longo aa bela e verdejante mata se dá ao longo do acidentado rio Nobres cheio de pequenos saltos e jacuzis. À noite, a mulher bêbada, de soluçar, vem bater papinho comigo. Quer me levar até sua casa onde Pedro Emilio já se encontra com seu marido comendo carreteiro. Consigo convencê-la a caro custo que sozinha estou bem, obrigada pelo convite, até amanhã! Domingo, o dia pra variar segue lindo. Resolvemos explorar melhor os arredores de Nobres e acabamos descobrindo o sítio Vale das Águas, na Vila Roda d’Água, distante 40 km da cidade. Os donos, Luciano e Tati, consentem que nós acampemos embora o lugar ainda não esteja aberto a tal atividade. Ele nem quis cobrar mas fizemos questão de pagar a mesma diária de 20 pilas que pagáramos em Nobres. A 500 metros da sede passa o rio Salobra cuja nascente, na Gruta Azul, exibe transparentes águas azul-esverdeadas. Dá pra ver nitidamente piraputangas, piaus e pacus nadando rente ao leito do rio. Lugar paradisíaco. Nem só Bonito possui rios límpidos pra flutuação! Após almoço bem caseiro na Erlanda, encerramos o domingão, fazemos bóia cross no rio Quebó. Embora o percurso seja pequeno - 2 km -, 300 metros se dão no interior duma gruta em absoluta escuridão...sensacional! Claro está que nos dois dias de estadia no Vale das Águas, muito pedal nas estradas de chão batido de coloração avermelhada. As noites frescas exigem saco de dormir. Na terça, 11 de junho, a fim de pegar a barraca que eu esquecera em Porto Alegre e arrumar o som do carro, retornamos a Cuiabá. Pela MT 351 avista-se uma visão como se fosse “das costas” das famosas muralhas avermelhadas da Chapada dos Guimarães, diferente daquela que se tem da tradicional MT 251 que une a capital mato-grossense àquela cidade. Dia seguinte, quarta, ao deixarmos Cuiabá, resolvo fazer uma parada no Parque Nacional da Chapada dos Guimarães pra que Xamã Sideral conheça o lugar embora eu já o tenha visitado em 2007. Pra conhecer o parque todo tem de contratar guia que custa 200 pilas. Como ele não tá a fim de gastar toda essa grana, visitamos, já que não exige guia, as cachus dos Namorados, Cachoeirinha e Véu de Noiva. Terminado o passeio, resolvemos ficar na cidade e escolhemos o camping Paraíso Alternativo cujos donos, Tamara e Juninho mais o bebê Zaion, nos acolhem alegremente. Estendemos nossas redes no quintal e à tarde, vamos eu e Xamã pedalando até o mirante do centro geodésico. Na quinta, pedal urbano na super turística embora encantadora Chapada dos Guimarães quando conheço Leo Rocha, dono de loja de artesanato indígena, saindo do estabelecimento. Ficamos conversando por quase 1 hora sobre cobras, construção de telhados com folhas de palmeiras, plantas e seus usos medicinais e claro sobre Desafio em Dose Dupla em que ele participou. Revela que a Discovery exigia pra bem dramatizar as cenas que eles comessem minhocas pros episódios serem bem realistas. Esse mundo fake....tsk tsk tsk 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Lisboa, o Retorno

Deixo a ensolarada Las Palmas para trás ingressando numa acinzentada Lisboa. Desde 2006 não venho à capital portuguesa quando conheci o país num tour de 2 semanas com minha mãe, percorrendo-o de norte a sul. Assim, eis-me aqui novamente pra revê-la e saborear sua deliciosa culinária. Uma beleza esse novo sistema de visa da comunidade européia. Qualquer país que você entre, a primeira carimbada no passaporte vale pra qualquer outro sem necessidade de carimbar folhas e folhas do documento a cada país visitado! Adotando o mesmo sistema de Barcelona, escrevo email ao hotel português solicitando infos de sua localização. Dessa forma, após descer do avião com minha maletinha de 10 kg, entro no metrô convenientemente situado na saída do aeroporto. Feita uma baldeação, ops conexão (mais chique, né?), em 20 minutos estou na estação Restauradores, distante 300 metros do hotel por mim reservado. Como na Espanha aqui também há bikes e patinetes elétricos pra alugar, dirigidos em sua maioria por jovens. Largo a maleta no hotel - são apenas 16 horas - e saio pra dar uma banda. Tinha me esquecido de quão encantadora é Lisboa! Que cidade fotogênica tanto que nem o tempo enfarruscado consegue embaçar sua beleza. Tantas as opções de restaurantes no Rossio que fico meio atarantada ao ler os menus afixados às portas dos estabelecimentos. Acabo por entrar num bem simples e peço arroz de tamboril só porque o nome evoca - que viagem – o tamborilar da chuva no telhado. O delicioso ensopado com peixe, amêijoas e camarão vem acompanhado por arroz branco bem soltinho. O vinho, pois pois, é um encorpado tinto português. Dia seguinte, vou a pé até a praça Martim Moniz e, enquanto estou comprando a passagem pra embarcar no elétrico 28, o cobrador me alerta "rápido que está vindo 1 manada", hahaha!!! O passeio que dura 1 hora termina no campo de Ourique, em frente ao cemitério dos Prazeres. Refaço a rota do bondinho a pé percorrendo, inicialmente, a Estrela onde entro numa confeitaria e provo os orgasmáticos ovos moles de Aveiro acompanhado de um expresso (ah, que experiência gustativa divina!!), passo pelo Chiado e pouca demora estou atravessando a rua Augusta que termina no imponente Arco do Comércio. Almoço na Baixa 1 leitãozinho à Bairrada, que vem a ser nosso porquinho à pururuca, cujo parceiro é o bom tinto português. O tempo tá esquisito com o sol mal dando as caras no intervalo entre uma garoa e outra. Bem alimentada, subo a Alfama até chegar ao largo de Santa Luzia donde se vê abaixo o amplo curso do rio ‘Tejo exibindo-se não mais em naquinhos como até então o vislumbrara entre os vãos das estreitas e tortuosas ladeiras lisboetas. Um músico turco dedilha o saz, instrumento de cordas típico de seu país. Na parede externa da igreja de Santa Luzia, 2 enormes painéis em azulejos brancos e azuis reproduzem cenas da vida portuguesa dos séculos passados. 100 metros além, outro largo, igualmente voltado pro Tejo, o das Portas do Sol, hoje, entretanto, sem a presença da flamejante estrela. Dali, vou até as muralhas externas que circundam o Castelo de São Jorge e num trajeto de 200 metros escuto 3 manifestações musicais: desde a alegre cançoneta do leste europeu, executada do alto dum balcão de uma casa centenária por 2 rapazes, passando pelo africano tocando xilofone sob a sombra duma laranjeira, à audição de jazz interpretada pelo jovem em seu saxofone. À noite, subo as ladeiras que levam ao bairro Alto pra assistir a um show de fado vadio (assim chamado quando os cantores são amadores) na tasca do Chico. O estabelecimento é pequeno com poucas mesas tanto que permaneço a maior parte do tempo ao redor do minúsculo balcão. O prato mais pedido do cardápio vem a ser o pirotécnico chouriço assado grelhando sobre labaredas que ardem na pequena cumbuca de cerâmica. Vários artistas se apresentam, com predominância de mulheres entoando o choroso estilo musical (adoooro). Dia seguinte, encontro com a cearense Cristina, amiga duma amiga, que aqui está a morar com o marido. Como eu não entrara ontem no castelo de São Jorge, limitando-me a vaguear pela sua parte externa, pergunto-lhe se já o conhece. Diante da resposta negativa, pegamos a escada rolante que liga a Mouraria à Alfama evitando assim ter de subir as ladeiras que ligam um bairro ao outro. Desembocamos numa rua chamada sugestivamente Calçadinhas da Costa do Castelo. Embora a garoa não dê trégua, eu e Cris nem nos abalamos, seguimos firmes e fortes porque não somos feitas de açúcar tampouco de sal. A paisagem do alto da colina onde o Castelo foi erigido é magnífica. Avista-se a parte antiga de Lisboa com seus casarios antigos encimados por telhados avermelhados bem como o onipresente Tejo cortado ao sul pelos 2 km da ponte 25 de abril que liga a capital a Almada. Nos jardins fronteiriços ao castelo, uma dezena de pavões exibe suas magníficas caudas. O edifício foi construído no século XI pelos mouros durante a ocupação na península Ibérica, onde reinaram durante 700 anos. Restam preservadas 11 torres cujo acesso se dá através de escadas que terminam nos chamados passeios de ronda pois por ali circulavam os soldados encarregados da segurança do castelo. E nós fizemos também uma ronda – turística, é claro - ao redor do castelo apesar de o vento estar soprando forte a ponto de revirar os guarda-chuvas. Consigo evocar , neste breve tour, a magia daqueles tempos medievais, pra mim a época mais interessante da História. Terminada a visitação, tratamos de procurar um restaurante pois já são quase 17 horas e nem almoçamos ainda. A essa hora não é muito fácil encontrar lugares abertos que sirvam almoço porque tanto em Lisboa quanto na Espanha os bons restaurantes fazem intervalo de descanso entre almoço e janta. Felizmente, encontramos um aberto e nos lavamos em fartas porções de bacalhau regadas, pois pois, a vinho tinto. De sobremesa, um pudim divino de laranja. E nós as duas, alegres, de pancinha cheia, descemos a Alfama entrando na Sé, a imponente catedral da cidade. Faço os habituais 3 pedidos a que tenho direito, saindo do escuro templo pro lusco-fusco do fim de tarde. Estamos tão contentes uma com a companhia da outra que resolvemos prolongar mais a convivência entrando na charmosa enoteca Tábuas. Lá fora a chuva continua a cair miudinha enquanto eu e Cris brindamos à vida e à recente amizade!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Gran Canaria: Las Palmas

Pertencente ao reino de Espanha, a Região Autônoma das Canárias vem a ser um arquipélago de ilhas vulcânicas emergindo em pleno Oceano Atlântico. Antes da chegada dos espanhóis no século XV, as Canárias já eram povoadas pelos guanches, originários das populações berberes do Norte da África. Reza a lenda que criminosos daquele continente eram abandonados nas ilhas além de terem a ponta da língua decepada como castigo por seus crimes. Das 7 ilhas que compõem o arquipélago, meu destino é Gran Canaria, mais precisamente Las Palmas, uma das capitais das Canárias, em cuja área metropolitana vivem mais de 600 mil habitantes. Porque situada ao norte seu clima está mais sujeito a oscilações térmicas entre inverno e verão do que as cidades que se quedam na ponta sul da ilha. Mesmo assim a temperatura média durante o ano gira em torno de 22º C, o que posso constatar nos 3 dias em que aqui permaneço. Exatamente por este clima privilegiado atrai turistas de toda a Europa. Seu relevo montanhoso confere à paisagem aquele charme misterioso que só as terras serranas possuem. Das 5 praias existentes na cidade, destaca-se Las Canteras onde se concentra a maioria dos bons hotéis. Além do turismo de lazer, há o desportivo, destacando-se surfe, trek, ciclismo, montanhismo, esportes náuticos e parapente. Mais que o turismo, o que impulsiona às ganhas a economia de Gran Canaria é o que arrecada de taxas cobradas dos navios pelo uso de plataformas, distantes 400 metros da costa, para abastecimento, reparos e compra de víveres. Não foi aleatória minha escolha por Las Palmas. Quero rever uma prima que não vejo há mais de 40 anos!! Com sua família, ela se mandou do Uruguay, no início deste século, pra tentar nova vida além-mar, no que obteve sucesso. Maria Amalia e seu marido Daniel foram me buscar no aeroporto além de me alojar num apartamento cedido, gentilmente, por eles, diante do mar, em Las Canteras. Combinamos que à noite irei jantar em sua casa distante algumas quadras donde estou hospedada. Cansada, após almoçar a saborosa paella (a 1ª que como em terras espanholas), deito, adormecendo assim que ponho a cabeça no travesseiro. Restaurada pela soneca dou uma banda ao longo da rambla separada da praia por um muro encimado com gradis de ferro. Devido à maré alta, a praia está reduzida a uma estreita faixa de terra. A minha frente o Atlântico exibe sua vastidão azulada contida por barreiras de coral, distante poucos metros da praia. Não exibindo a sofisticação de Madri tampouco a de Barcelona, Las Palmas tem estilo arquitetônico simples, sem muito rebuscamento. Até 1970 era uma vila de pescadores. Com o boom do turismo, houve uma baita alavancada econômica na região, transformando-se na próspera comunidade dos dias atuais. No amplo e extenso calçadão, dezenas de restaurantes com mesas na calçada. Embora o céu se mostre nublado, a temperatura no relógio digital acusa 25º C. Que salto térmico dos 9º C de Barcelona quando de lá parti pela manhã. Algumas pessoas caminham na praia e um que outro surfista passa carregando suas pranchas. Também pudera, já são mais de 17 horas. Dia seguinte, Maria Amalia e seu filho Franco são meus guias num tour pelo centro histórico. Pegamos um bus e descemos no parque San Telmo onde se localiza a pequena igreja de igual nome, cujo interior dourado exibe pendurados do teto réplicas de barcos de pesca que sobreviveram aos temporais. Apesar de gordas nuvens brancas, o sol brilha radioso no céu. Caminhando pelas ruas do centro vamos até o largo onde se encontra o teatro Perez Galdoz. Sempre a pé, Maria Amalia e Franco me levam ao museo Colón, residência onde Cristóvão se hospedou quando esteve na ilha em 1492 antes de rumar pra América Central. Curto demais o interior da casa com piso de pedra e pátios internos. E fico embasbacada ao saber como eram pequenas as 3 caravelas, Nina, Pinta e Santa Maria. Passamos por muitas plazas, como a de Santa Ana onde se encontram a Catedral e as Casas Consistoriales, a de San Domingo, a de Cairasco onde sobressaem os belos prédios do Gabinete Literário e do hotel Madri, o primeiro hotel construído na ilha, além da colorida plaza de Las Ranas. Almoçamos num bistrô deliciosos tapas escolhidos pelos primos. À tarde, já sozinha porque a vida de trabalho segue pra Maria Amalia e Franco, alugo uma bici e dou um rolê legal ao longo da ponta nordeste da ilha. Gran Canaria é muito bonita com suas montanhas debruando a orla marítima. Depois de deixar a bici numa praça, com o sol já se pondo, caminho pela rambla matando tempo até a hora de ir pra casa de minha prima jantar com eles. Paro pra assistir à apresentação dum casal vestido à moda celta tocando e cantando músicas desse estilo musical. No sábado, vamos passear por algumas cidades da ilha. No carro, dirigido por Daniel, além de mim vão Maria Amalia e Juliana, filha do casal. Observo que as estradas que ligam Las Palmas as outras cidades são muito boas e bem sinalizadas, embora sinuosas, já que cortam encostas de montanhas. O verdor da vegetação é complementado aqui e acolá por arbustos de flores amarelas. Atravessamos o Pueblo de Miraflores, cruzando a seguir moderna ponte estaiada. Nos acostamentos, ciclistas pedalam com certo esforço pois o trecho é de subida. Nossa primeira parada é Teror, pequena cidade cujo clima é bem mais fresco, já que situada a 543 metros acima do nível do mar, comprovado pelo termômetro marcando 17º C às 11 da manhã! As ruas têm calçamento de pedra basáltica e as casas exibem balcões de madeira. Aqui se encontra a Basilica da Virgem del Pino, padroeira da Gran Canaria, cujo altar todo trabalhado em prata é lindo! Pra não fazer jus ao ditado “saco vazio não para em pé”, entramos os 4 numa mercearia onde ao redor do balcão pessoas comem e bebem quitutes regionais. Tenho praticamente uma epifania gastronômica enquanto degusto fatias de queijo de cabra acompanhadas pelo vinho, levemente adocicado, produzido na ilha. Fico de olho num bocadillo recheado com chouriço de Teror e queijo. Mas me contenho, porque tenho almoço pela frente e não quero lotar de todo o estômago. Bem alimentados, continuamos a viagem e da estrada vislumbro lá embaixo o azulado Atlântico e Las Palmas. O dia se mantém parcialmente soalheiro. Nossa próxima parada é Firgas onde em degraus jorra cascata de água oriunda de poços artesianos. Mais acima na mesma rua, enfeitam o piso enormes quadros azulejados, representando cada um as 7 ilhas do arquipélago da Gran Canaria. Numa dobra de rua, eis a pitoresca estátua em homenagem às lavadeiras, simbolizada por 2 mãos lavando peça de roupa diante dum córrego. Deixamos a encantadora Firgas porque ainda temos mais uma cidade a visitar: Arucas. Agora estamos descendo razão por que a temperatura torna-se cálida, fazendo com que eu dispa o blusão de fleece e fique de camiseta de manga curta. E o sol definitivamente domina o céu! Impressionante a igreja em estilo gótico no alto duma colina. Nem a catedral de Las Palmas é tão grandiosa. Entramos no parque municipal de Arucas onde conheço a árvore típica da Gran Canaria, o drago, com sua minúscula copa erguida pro alto como se fosse um espanador de cabeça pra cima. Arucas é outra cidade agradável com ruas empedradas e casarios antigos com balcões de ferro. Maria Amalia escolhe o restaurante em função do prédio se tratar duma típica residência da Gran Canaria. O almoço é um autêntico picoteo: papas arrugadas con mojos, queso ahumado a la plancha con mojos y miel, croquetes, pulpo frito estupendamente crocante, berenjenas fritas (divinas) con miel de palma. De sobremesa, o tradicionalíssimo gofio, numa versão gourmetizada. Pra beber, vinho tinto, espanhol, por supuesto!! Dessa forma, encerro o dia com outra epifania gastronômica!! Domingo, meu último dia em Las Palmas, Maria Amalia e Daniel me pegam pra dar um passeio pela rambla das Canteras onde está rolando uma maratona. Pra animar os maratonistas, uma murga feminina, fantasiada com tutus de tule colorido, fazem apitaço coletivo, ao passo que mais a frente outro grupo feminino toca tambores. Vamos até o auditório Alfredo Kraus, moderna construção diante do mar, onde rolam diversos eventos culturais ao longo do ano. Vez por outra, muçulmanas marroquinas passam por nós com seus esvoaçantes e coloridos trajes que as envolvem da cabeça aos pés, salvo o rosto. De forma a abrir o apetite antes do almoço na casa de meus primos, paramos os 3 num bar pra beber vinho. Como a sesta é sagrada em se tratando de espanhóis e uruguaios, deixo os primos em paz e vou pra casa descansar um pouco também. Contudo, não permaneço muito tempo na cama, trato de alugar uma bici e dar outro rolê. Dessa feita, pedalo na avenida marítima que fica na ponta nordeste de Las Palmas. Com o indefectível Google Maps chego na ciclovia e vejo emergindo do mar as gigantescas plataformas onde os navios estão aparcados. Ao longo dos 7 km da ciclovia, mais plataformas onde sempre há navios estacionados. Passo pelo Real Club Nautico de Gran Canaria onde dezenas de iates e lanchas se encontram. O pedal continua por San Cristóbal Marinero, antigo bairro de pescadores, cujas casinholas são pintadas de cores fortes e vibrantes. Do alto da ciclovia, a playa de Las Lajas cuja areia é bem escura ao contrário das de Las Canteras. Termino o pedal no mirador onde se encontra a belíssima escultura representando Triton, deus das profundidades marinhas. Na segunda-feira, pego um ônibus e me toco pro aeroporto, Lisboa me aguarda. Valeu, Maria Amalia querida, nosso reencontro foi tudo de bom, prima!!

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Península Ibérica: Espanha

Após nosso retorno a Bissau, permaneço ainda uma semana na cidade com breve escapada a Bubaque no fim de semana pois na terça troco o continente africano pelo europeu. Assim, na quarta de manhã, já em Madri, vejo a sorridente Michele aguardando-me no desembarque do aeroporto de Barajas. O motivo por que resolvi dar um rolê de 5 dias na capital da Espanha foi justamente pra rever a amiga que pra cá se mudou de mala e cuia – literalmente – já que faz parte daquela autêntica galera gaudéria que vive com a cuia na mão. Ainda bem que ela foi me buscar porque pra mim é um mistério qual linha de metrô pegar, qual conexão fazer e por aí afora até se alcançar o destino final. Trocamos o trem subterrâneo pelo ônibus que nos deixa enfim em 4 Vientos, bairro onde ela mora. Embora faça frio, em torno de 9º C, o dia está ensolarado e o céu, azulado, despido de nuvens. Neste 1º dia na capital espanhola, me limito a pôr o papo em dia com Michele enquanto bebemos um chima - claro! - e a descansar porque estou sem dormir praticamente a noite inteira já que parti de Bissau às 23 horas, chegando em Lisboa às 3 da madrugada donde peguei o avião das 7 pra cá! Mas na quinta, pernas pra que te quero, lá vamos nós ao centro da cidade onde ficam diversos pontos turísticos importantes como o Palácio Real com entrada livre entre 16 e 18 horas, poupando-nos assim preciosos euros. De todas as imponentes e luxuosas salas e salões da imensa residência real a que mais me impressionou nem foi a dourada sala do trono mas uma saleta cujas paredes e teto são revestidas com colorida porcelana em alto relevo. Que vida suntuosa a daqueles nobres!! É um sem fim de mármore de Carrara, aparadores gigantescos feitos com madeira de lei, paredes cobertas com suntuosos papeis de parede, candelabros colossais somente possíveis de serem pendurados num salão com pé direito altíssimo, sem deixar de mencionar os enormes espelhos e suas molduras ricamente ornamentadas. Mas o que curto mesmo, exatamente porque mexe com o lado infantil de minha personalidade, é o adorável carrossel diante do Palácio Real. Ahhh e o que são as estátuas vivas cujas ousadas posições dos artistas me deixa boquiaberta?! E aquelas casas com 3, 4 e 5 andares com seus balcões de ferro trabalhado (alguns exibindo a bandeira espanhola) e altas portas envidraçadas, hein?! Na sexta, eu e Michele nos tocamos até o centro outra vez. O objetivo é visitar os 20 hectares dos Jardines del Campo del Moro, cujos destaques são a visão esplêndida das traseiras do Palácio Real, o chalet de la Reina, em estilo tirolês e, dentre os paseos, o De Los Mosquitos (imagino aquela aristocracia espanhola se autoestapeando pra afugentar os famigerados insetos). Damos um rápido rolê pelo sem graça Jardines de Sabatini, outro jardim externo ao Palácio Real. Entramos no museo Cerralbo, repleto de preciosidades, sendo que a que mais me encantou foram os magníficos e coloridos lustres de Murano pendendo de tetos ricamente entalhados. Por outro lado, considero bem insosso o colossal interior da Catedral Santa Maria La Reina de Almudena, embora sua cripta seja arrasadoramente interessante com todos aqueles túmulos em mármore não só alojados em capelas ao longo das naves laterais quanto no piso de pedra clara. Depois desta intensa peregrinação, precisamos repor as energias e o melhor lugar é o mercado de San Miguel, uma espécie de templo gastronômico de tapas, expostos nas vitrines das bancas dispostas uma ao lado da outra. De enlouquecer a variedade de sanduichinhos, cones com frutos do mar e enfiadinhos de azeitona, tiras de pimentão, bocadinhos de queijo e camarões. Mais não enumero porque senão encheria 1/2 página descrevendo-os. Montamos cada uma seu prato e nos sentamos em tamboretes diante duma comprida mesa onde outros turistas além de espanhois lá se encontram num clima de alegre confraternização proporcionada pelo álcool e boa comida. Michele e eu brindamos com um tinto encorpado (espanhol, por supuesto) o reencontro! Dia seguinte, junta-se a nós, Dani, outra brasileira que vive em Madri, amiga de Mi. A pedida do sábado é visitar os resquícios arquitetônicos núbio-egípcios, chamado Templo de Debod. O prédio principal está fechado à visitação motivo por que acho meio sem graça os tais monumentos vistos apenas de fora. Como o teleférico fica bem pertinho, nos tocamos pra lá, embora esteja chuviscando. Esta viagem aérea proporciona um dos melhores vistaços que se pode ter não só de Madri como do Palácio Real, Catedral de La Almudena e do rio Manzanares que corta a cidade. O passeio termina na Casa de Campo, o maior parque da capital madrilenha. À noite, vamos à La Latina, bairro repleto de bons restaurantes e bares. Escolhemos um de tapas, com cara de bar de velho (hahaha), porque a maioria, cheio de jovens barulhentos, nos impediria de conversar tranquilas. Pra acompanhar os petiscos, não menos que 2 garrafas de tinto (novamente espanhol, por supuesto)! Exceto o dia de minha chegada e o da partida, o tempo se mostrou cinzento, com ocasionais chuviscos, mantendo-se a temperatura sempre ao redor dos 9ºC. Até que o inverno espanhol não está sendo tão severo. Assim, domingo, o céu permanece nublado enquanto atravessamos os jardines del Buen Retiro, conhecido simplesmente como El Retiro. Numa ponta do lago, destaca-se o grandioso monumento Glorieta de Afonso XII. Provo o autêntico churros que vem a ser finos e compridos canudos de massa doce frita pero sem recheio. Pra acompanhar saboroso e espesso chocolate quente onde se mergulha a guloseima! Achei Madri atraente e fiquei impressionada com a boa vontade, gentileza e educação dos madrilenhos, contrariando entendimento anterior que até então nutrira pelos espanhóis nas minhas andanças por este mundão. Arriscado generalizar que francês é assim, russo assado e por aí afora, não é mesmo? A língua muitas vezes é chicote do rabo....olé!
Segunda, zarpo de Madrid no trem que parte da estação Atocha, passando pela última vez diante das gigantescas esculturas dos rostos de 2 bebês que, na concepção do autor Antonio López Garcia, representa a passagem do tempo: o de olhos abertos, significa o dia, já o de olhos cerrados, a noite. Apesar de mais caro que avião, escolho ir de trem, porque assim posso curtir um pouco a paisagem até Barcelona, distante 500 km. A curta viagem de 2 horas sofre, a partir de Zaragoza, brusca mudança na paisagem: o até então árido cenário vai se transformando em verdes campos à medida que Barcelona se aproxima, influência dos ares úmidos do Mediterrâneo já que a cidade está à beira mar. Como estou realizando a proeza de viajar com uma mala de 10 kg de modo a não precisar despachá-la, pego o metrô (espertamente, escrevera email ao hotel solicitando orientação), descendo em plena rambla! Com auxílio do Google Maps acho o hotel sem estresse algum, situado no coração do barrio Gotic que é um arraso: suas estreitas e escuras ruelas desembocam em arcadas que por sua vez dão passagem a mais ruelas escuras e estreitas. E as casas são feitas de pedra como os castelos de antigamente! Estou em-can-ta-da de poder desfrutar ambiente tão medieval. Assim como em Madrid, os mendigos se abrigam em arcadas somente à noite, durante o dia tu nem vês sinal deles. E nas janelas não mais a bandeira espanhola e sim a da Catalunha. O centro de Barcelona nasceu no barrio Gotic por um motivo muito óbvio: perto do porto onde tudo acontecia naquele tempo dantanho. Lugares como Gràcia eram vilarejos que posteriormente foram incorporados à cidade. Isso tudo me foi contado por um atendente de bar enquanto eu tomava o último cálice de vinho da noite. Evidentíssimo o orgulho que os catalães têm de seu passado e de sua terra. Depois de largar as bagagens no hotel (são apenas 18 horas!), me mando pra desbravar os “sinistros” becos chegando após 3 minutos de caminhada na plaça Sant Jaume onde tá rolando uma manifestação de taxistas contra motoristas de Uber, haja vista que estes pagam menos impostos que aqueles. Acabo na Barceloneta, como é chamado o porto, caminhando tranquila apesar do adiantado da hora: quase 22 horas. Dia seguinte, continuo a desbravar o barrio Gotic e chego na Plaça Real onde caturritas voam de palmeira em palmeira matraqueando sem parar. Aliás, super comum esse tipo de árvore enfeitando as avenidas da cidade. Ato contínuo, retorno à plaça Jaume e embarafusto pela pitoresca (tudo é pitoresco no barrio Gotic!) Carrer del Bisbe, rua cortada pela exótica ponte gótica, construída no topo entre 2 edifícios permitindo assim a passagem aérea entre eles. Mais adiante, a imponente fachada gótica da Catedral, também conhecida como La Seu, remontando ao século XIV. Em seu luxuoso interior, distribuem-se ao longo das 2 naves laterais ricas capelas em cujos altares jazem imagens de santos. Na frente do templo, uma banda com piano de madeira toca alegre blues de New Orleans ao passo que na rua lateral à Catedral uma moça entoa trecho da ópera Carmem, Habanera. Apesar do frio, o sol brilha no céu azulado, não dá pra querer melhor, afinal estamos em pleno início do inverno europeu. Alugo então uma bici que se revela uma boa bosta. Consigo apenas dar uma banda até o parque de la Ciutadella onde se localiza o parlamento da Catalunha, descobrindo que o pneu traseiro está murcho. Procuro um lugar pra enchê-lo mas além de furado seu ventil está completamente podre! Desisto da bike e volto a usar minhas pernas indo até o Palau Guell, contentando-me em curtir apenas sua fachada. Na verdade, não sou bem uma fã das obras de Gaudi apesar de reconhecer a sua baita originalidade numa época em que a estética clássica predominava no continente europeu. Agora, escrevendo esta postagem, fui dar um vistaço na internete pra procurar o nome certo do museu e ao ver as fotos, em especial as do terraço, confesso que me sinto arrependida. Fica pra outra vez. O mesmo ocorre em relação à Casa Batlló: limito-me a curtir apenas seu incrível exterior com balcões que, segundo o catalão ao meu lado, representam máscaras usadas nos bailes de carnaval. Em relação a esta casa, contudo, não me sinto mal porque algumas salas estão sendo reformadas com andaimes atrapalhando a visitação. Na verdade, estou mais a fim de passear pelo barrio Gotic, me perder em suas ruelas tortas, algumas onde o sol nunca dá as caras e desembocar, inesperadamente, em pequenas ou grandes praças, provar na terra dos tapas e dos pinchos todos os petiscos que meu estômago aguentar, assim como sentir água na boca ao ler os menus afixados na frente dos restaurantes querendo comer tudo o que vejo descrito. Percorrer os corredores da Boqueria, mercado em cujas bancas vendem-se desde peixes e frutos do mar fresquinhos, acomodados sobre grosso colchão de gelo, às delicatesses como nozes, figos, frutas desidratadas e in natura, chocolates, doces de marzipã com formatos pra todos os gostos, queijos e os famosos presuntos serrano e pata negra. Ahhh, capítulo à parte, as vinaterias onde são privilegiados os vinhos produzidos na Catalunha, por supuesto. Pra não dizer que descurei do lado cultural, entro no bizarro Museu de Cera curtindo demais a bela casa antiga e seu ambiente sombrio, me divertindo com a representação canhestra de alguns personagens, quase irreconhecíveis, caso das estátuas do Príncipe Charles e sua mulher, Camilla Parker Bowles. Dou uma baita pernada ao longo do Passeig de Gràcia onde os belos prédios antigos enfeitam ambos os lados da rua. Dobro na Avigunda Diagonal onde as antiquadas residências são substituídas por altos e modernos edifícios. A greve dos taxistas continua firme e forte, ocupando os grevistas dessa feita a plaça de Catalanuya. No meu último dia em Barcelona, o dia amanhece frio, com céu absolutamente encoberto e uma garoa marota molhando as ruas da cidade. Na metade da tarde, surpresa, o céu se abre e o sol volta a brilhar firme e forte. No final da tarde, vou ao cerro de Montjuic lamentando ter perdido o passeio de teleférico porque quando lá cheguei já havia se encerrado a atividade. Mesmo assim a vista da cidade e do porto com o sol dourando os telhados e as cúpulas das igrejas vale o cansaço de já ter caminhado 20 km durante o dia, afora o esforço de subir as escadarias que conduzem ao topo. Fico arrepiada quando passo pela plaça Jaume com a comovente manifestação dos venezuelanos contra o governo Maduro, finalizando o ato com a multidão entoando o hino nacional. Termino a noite e minha breve estadia de 2 dias em Barcelona, assistindo no porão dum bar perto do hotel a uma jam session enquanto beberico algumas copas de vinho.....tinto e catalão, por supuesto!!

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

A cálida Serekunda

No 1º dia do ano, cedinho, pegamos um táxi até Pikine onde está localizada a rodoviária de Dakar e embarcamos numa condução chamada sept place, que vem a ser um carro adaptado para caber 7 pessoas, afora o motora, acrescentando-se para tanto um banco extra no lugar do bagageiro. O percurso entre Dakar-Banjul, de 300 km, dura 6 intermináveis horas. Espremida no interior do desconfortável veículo, sinto na própria carne o que vêm a ser as expressões “calor senegalesco” e “apertado que nem lata de sardinha”. A rodovia senegalesa tem bom asfalto e a paisagem corre célere pela janela do carro, revelando paisagem de savana e seu capim dourado a perder de vista. Árvores com folhagens abundantes são um contraponto aos baobás cujos galhos despidos de folhas lembram figuras espectrais. Salinas pontuam de branco a planície senegalesa. Vilarejos, cujas casas são em sua maioria de adobe com teto de palha, são protegidos por cercas feitas com galhos tortos. Gente sentada em bancos, sob as copas frondosas das árvores, conversam na quentura da tarde. Chegamos a Amdallai e damos saída do Senegal para logo em seguida dar entrada em Gâmbia. Os trâmites são rápidos, uma beleza, embora haja intenso controle militar com casamatas e soldados armados. Mal cruzo a fronteira da Gâmbia, um enxame de mulheres e crianças nos ataca, literalmente, oferecendo câmbio e amendoim. Troco 30 mil francos por dalasi, moeda local e descubro posteriormente que me dei mal porque a mulher me pagou 1 ninharia pela moeda senegalesa. Que raiva, quem manda ser afobada, né?! Juntamente com Lagga Jallow, enfermeira gambiana, que conhecemos na fila da imigração, rachamos um táxi rodando 25 km até o porto donde sai o ferry. A embarcação cruza o Gâmbia, nos deixando na margem esquerda do rio onde se localiza Banjul. De lá, sempre com a simpática Lagga, pegamos outro táxi até Serekunda onde está nosso hotel. De Banjul tenho apenas um rápido vislumbre, já que são 20 horas e a cidade carece de boa iluminação. Percebo, entretanto, que está rolando uma festa de rua com som de tambores percutindo um ritmo animado que dá vontade de a gente se sacudir. Gâmbia, um dos menores e mais pobres países da África Ocidental, não passa duma estreita faixa de terra pantanosa, atravessada pelo rio Gâmbia de leste a oeste. Cercada pelo Senegal por todos os lados, exceto na parte oeste onde se limita com o Atlântico, seu clima é tropical. A população beira 2 milhões de pessoas, sendo que a língua oficial, o inglês, se deve ao país ter sido uma das colônias do Império Britânico de 1765 a 1965. A economia ampara-se na agricultura, pecuária, pesca e, principalmente, no turismo. A maioria da população é muçulmana. Banjul, capital da Gâmbia, conta com uma população de 34.828 habitantes, localizando-se na Ilha de Saint Mary, onde o Rio Gâmbia deságua no Oceano Atlântico. A cidade, fundada em 1816 pelos britânicos, serviu como um entreposto comercial e base para o combate ao tráfico de escravos. Já Serekunda, onde estamos hospedados, vem a ser a maior cidade do país e seu principal centro financeiro, corporativo e econômico. Nosso hotel é simples mas bem localizado. A 20 metros, as águas verdes do Atlântico, diante do qual redes, cadeiras e mesas espalham-se pelo jardim. Ao longo da orla, barracas de comidas e muitos resorts. Pra quem gosta de surfe rolam boas ondas. Nem sei qual a temperatura da água já que com forte resfriado trato de me preservar, evitando banhar-me. Ao entardecer, paira uma leve névoa sobre a praia. A temperatura é bem quente e sem vento. A parte do país por mim visitada é tão suja quanto os lugares por onde estive no Senegal e Guiné Bissau. O mesmo problema aqui se repete: ausência de lixeiras nas ruas, de modo que o lixo é jogado ao léu. Único lugar de toda a África Ocidental, por mim visitada, onde as pessoas não foram simpáticas, em especial as mulheres, atendendo com muita má vontade os hóspedes, foi neste resort onde estamos. Afora que, sem noção alguma, os faxineiros varrem o refeitório durante o café da manhã! Bueno, dia seguinte ao da chegada, Raul vai a Banjul ao passo que dou uma banda a pé até o centrinho de Serekunda trocar dinheiro. Resolvo almoçar comida de rua onde, atrás da delegacia, há bancas de comida. Pergunto às mulheres se estão servindo almoço considerando já ser ½ dia. Respondem que nas panelas o que há ainda é breakfast. Como mais parece almoço do que desjejum, peço à simpática Fatu, a dona duma das bancas, um prato, fartamente, servido com peixe, arroz e legumes. Sento à mesa do homem que vende chá e compro uma taça da beberagem. Na delegacia rola um escândalo protagonizado por um homem que berra e sacode as algemas com que foi atado às grades da janela da frente do prédio. Fico sabendo que foram os parentes que o denunciaram porque ele estava “muito louco de drogas”. Na quinta-feira, quem aparece pra ser meu guia é Mohamed, jovem de 20 anos, que conhecemos no Senegal, em viagem com sua escola ao país vizinho. Mohamed pretende ser guia nas horas vagas mas além de não entender bem seu inglês, ele não me parece muito experiente em tal mister. Inicialmente, quer me levar na vila, à beira mar, onde moram seus pais. Garante, orgulhoso, que sua mãe irá preparar comida típica gambiana. Além de ter de se pegar sei lá quantas conduções até o vilarejo, não me sinto nada bem por causa do resfriado. Declino assim do convite e proponho irmos a Tendaba Camp onde há uma reserva e um parque nacionais. Chacoalhando num ônibus, tipo àqueles existentes no Brasil na década de 50 do século passado, dura 4 horas o trajeto de 140 km até Kwinella, vila localizada à beira da rodovia, porque as paradas são frequentes! Diversos pontos de controle militar com casamatas e soldados armados ao longo da South Bank Road que, ao contrário dos ônibus, exibe asfalto impecável. Como Tendaba Camp dista 5 km do vilarejo, alugo um táxi com a incumbência de nos trazer de volta. Decido que não vou dormir no acampamento já que estou cada vez me sentindo mais indisposta. Vejo algumas mulheres de peito desnudo carregando às ilhargas seus filhinhos enquanto assistem à discussão entre outras duas. Num frágil equilíbrio que quase descamba pras vias de fato, o caloroso bate-boca só termina quando um homem intervém conseguindo enfim apaziguar os exaltados ânimos entre as jovens. A tal viagem de barco que quero fazer no rio Gâmbia nem rola quando percebo a inexistência de toldo no barco. Sem condições de permanecer 2 horas sem proteção no solaço das 13 horas. Retorno ao hotel lá pelas 5 da tarde me sentindo um trapo, tanto que me jogo na cama e só acordo dia seguinte. Já me sentindo melhor após automedicada com antibióticos comprados numa farmácia dos arredores, na sexta, vou junto com a simpática família espanhola, também hospedada no resort, passear nos manguezais do rio Gâmbia. Aboletados num táxi, rodamos uns 10 km até o local donde partem as embarcações. E lá vamos nós, sentados em bancos no barquinho com toldo, melhor equipado que o do dia anterior. Por não durar mais de 2 horas, sendo a maior parte do tempo dentro do barco, salvo uma curta caminhada no lodo do mangue até alcançar terra seca, pra conhecer uma árvore com um enorme buraco em seu tronco, o passeio não é lá essas coisas. O tipo de turismo superficial que muito pouco acrescenta, ainda mais quando já se conhece incríveis manguezais, meu caso. No sábado, Mohamed vem ao hotel em sua bici para darmos um rolê pelos arredores. Para tanto, alugo uma bicicleta em Fajara. Pedalamos pouco mais que 9 km porque ainda não estou 100% cento boa de meu resfriado ou seja lá o que está me deixando tão amolada. Durante o pedal conheço o National Botanic Garden, pequeno, bem acanhado, sem placas que indiquem os nomes de arbustos e árvores. De flor, só uma, bem bonita, de cor alaranjada. Os serviços básicos na Gâmbia como eletricidade e água, são bem precários, embora aqui as ruas sejam um pouco menos sujas. No domingo, bem cedinho, nos tocamos pra rodoviária. É hora de retornar a Bissau já que Raul começa a dar aulas dia seguinte, segunda-feira. Ao lado do ônibus, muçulmanos estendem o tapete no chão de pedra e se põem a rezar a primeira oração matutina. A viagem marcada pra começar às 7, só tem início uma hora depois porque a quantidade de tralharedo a ser posta no bagageiro do veículo localizado na parte superior é algo!! Cestas, embrulhos e baús enormes, bicicletas, cadeiras e outras traquitandas são suspensas por cordas numa complicada engenharia necessitando tanto de homens no chão quanto em cima do carro. A viagem dura 12 horas num percurso de 298 km embora as estradas na Gâmbia e Senegal sejam boas. O q atrasa são os check points na Guiné Bissau com o objetivo de cobrar taxas de quem está trazendo compras feitas no exterior: foram 8 em 120 km!! De tirar do sério até o mais santo ser humano!