quinta-feira, 28 de março de 2019

Lisboa, o Retorno

Deixo a ensolarada Las Palmas para trás ingressando numa acinzentada Lisboa. Desde 2006 não venho à capital portuguesa quando conheci o país num tour de 2 semanas com minha mãe, percorrendo-o de norte a sul. Assim, eis-me aqui novamente pra revê-la e saborear sua deliciosa culinária. Uma beleza esse novo sistema de visa da comunidade européia. Seja o país que você entre, a primeira carimbada no passaporte vale pra qualquer um sem necessidade de carimbar folhas e folhas do documento a cada país visitado! Adotando o mesmo sistema de Barcelona, escrevo email ao hotel português solicitando infos de sua localização. Dessa forma, após descer do avião com minha maletinha de 10 kg, entro no metrô convenientemente situado na saída do aeroporto. Feita uma baldeação, ops conexão (mais chique, né?), em 20 minutos estou na estação Restauradores, distante 300 metros do hotel por mim reservado. Como na Espanha aqui também há bikes e patinetes elétricos pra alugar, dirigidos em sua maioria por jovens. Largo a maleta no hotel - são apenas 16 horas - e saio pra dar uma banda. Tinha me esquecido de quão encantadora é Lisboa! Que cidade fotogênica tanto que nem o tempo enfarruscado consegue embaçar sua beleza. Tantas as opções de restaurantes no Rossio que fico meio atarantada ao ler os menus afixados às portas dos estabelecimentos. Acabo por entrar num bem simples e peço arroz de tamboril só porque o nome evoca - que viagem – o tamborilar da chuva no telhado. O delicioso ensopado com peixe, amêijoas e camarão vem acompanhado por arroz branco bem soltinho. O vinho, pois pois, é um encorpado tinto português. Dia seguinte, vou a pé até a praça Martim Moniz e, enquanto estou comprando a passagem pra embarcar no elétrico 28, o cobrador me alerta "rapido que está vindo 1 manada", hahaha!!! O passeio que dura 1 hora termina no campo de Ourique, em frente ao cemitério dos Prazeres. Refaço a rota do bondinho a pé percorrendo, inicialmente, a Estrela onde entro numa confeitaria e provo os orgasmáticos ovos moles de Aveiro acompanhado de um expresso (ah, que experiência divina!!), passo pelo Chiado e pouca demora estou atravessando a rua Augusta que termina no imponente Arco do Comércio. Almoço na Baixa 1 leitãozinho à Bairrada, que vem a ser nosso porquinho à pururuca, cujo parceiro é o bom tinto português. O tempo tá esquisito com o sol mal dando as caras no intervalo entre uma garoa e outra. Bem alimentada, subo a Alfama até chegar ao largo de Santa Luzia donde se vê abaixo o amplo curso do rio ‘Tejo exibindo-se não mais em naquinhos como até então o vislumbrara entre os vãos das estreitas e tortuosas ladeiras lisboetas. Um músico turco dedilha o saz, instrumento de cordas típico de seu país. Na parede externa da igreja de Santa Luzia, 2 enormes painéis em azulejos brancos e azuis reproduzem cenas da vida portuguesa dos séculos passados. 100 metros além, outro largo, igualmente voltado pro Tejo, o das Portas do Sol, hoje, entretanto, sem a presença da flamejante estrela. Dali, vou até as muralhas externas que circundam o Castelo de São Jorge e num trajeto de 200 metros escuto 3 manifestações musicais: desde a alegre cançoneta do leste europeu executada do alto dum balcão de uma casa centenária por 2 rapazes, passando pelo africano tocando xilofone sob a sombra duma laranjeira, à audição de jazz interpretada pelo jovem em seu saxofone. À noite, subo as ladeiras que levam ao bairro Alto pra assistir a um show de fado vadio (assim chamado quando os cantores são amadores) na tasca do Chico. O estabelecimento é pequeno com poucas mesas tanto que permaneço a maior parte do tempo ao redor do minúsculo balcão. O prato mais pedido do cardápio vem a ser o pirotécnico chouriço assado grelhando sobre labaredas que ardem na pequena cumbuca de cerâmica. Vários artistas se apresentam, com predominância de mulheres entoando o choroso estilo musical (adoooro). Dia seguinte, encontro com a cearense Cristina, amiga duma amiga, que aqui está morando com o marido. Como eu não entrara ontem no castelo de São Jorge, limitando-me a vaguear pela sua parte externa, pergunto-lhe se já o conhece. Diante da resposta negativa, pegamos a escada rolante que liga a Mouraria à Alfama evitando assim ter de subir as ladeiras que ligam um bairro ao outro. Desembocamos numa rua chamada sugestivamente Calçadinhas da Costa do Castelo. Embora a garoa não dê trégua, eu e Cris nem nos abalamos, seguimos firmes e fortes porque não somos feitas de açúcar tampouco de sal. A paisagem do alto da colina onde o Castelo foi erigido é magnífica. Avista-se a parte antiga de Lisboa com seus casarios antigos encimados por telhados avermelhados bem como o onipresente Tejo cortado ao sul pelos 2 km da ponte 25 de abril que liga a capital a Almada. Nos jardins fronteiriços ao castelo, uma dezena de pavões exibe suas magníficas caudas. O edifício foi construído no século XI pelos mouros durante a ocupação na península Ibérica, onde reinaram durante 700 anos. Restam preservadas 11 torres cujo acesso se dá através de escadas que terminam nos chamados passeios de ronda pois por ali circulavam os soldados encarregados da segurança do castelo. E nós fizemos também uma ronda – turística, é claro - ao redor do castelo apesar de o vento estar soprando forte a ponto de revirar os guarda-chuvas. Consigo evocar , neste breve tour, a magia daqueles tempos medievais, pra mim a época mais interessante da História. Terminada a visitação, tratamos de procurar um restaurante pois já são quase 17 horas e nem almoçamos ainda. A essa hora não é muito fácil encontrar lugares abertos que sirvam almoço porque tanto em Lisboa quanto na Espanha os bons restaurantes fazem intervalo de descanso entre almoço e janta. Felizmente, encontramos um aberto e nos lavamos em fartas porções de bacalhau regadas, pois pois, a vinho tinto. De sobremesa, um pudim divino de laranja. E nós as duas, alegres, de pancinha cheia, descemos a Alfama entrando na Sé, a imponente catedral da cidade. Faço os habituais 3 pedidos a que tenho direito, saindo do escuro templo pro lusco-fusco do fim de tarde. Estamos tão contentes uma com a companhia da outra que resolvemos prolongar mais a convivência entrando na charmosa enoteca Tábuas. Lá fora a chuva continua a cair miudinha enquanto eu e Cris brindamos à vida e à recente amizade!

Um comentário:

zahra Paz disse...


Que belo Passeio!