terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Bebedouro Novo

Saída do acampamento, na cachoeira do Tucano, às 8 horas cuja altitude é de 106 metros. Passamos por um trecho queimado de mato onde antes houvera uma roça de mandioca cultivada pelos yanomamis. Eles acenderam um acero que saiu fora de controle, pegando fogo na plantação. Foi, contudo, de pouca monta o estrago. Agora a coisa complica porque tem início um aclive já que o desnível até Bebedouro Novo, onde acamparemos, será de 764 metros. Daqui pra frente, portanto teremos uma trilha que se tornará cada vez mais íngreme, caminhando pela crista duma serra cujo nome Pepe desconhece. Ely, coitado, ganhou, ontem, bolhas em ambos os calcanhares e caminha com visível dificuldade. Quando as furou não as costurou (um método de drenagem que consiste em pegar uma agulha com linha, passando-a dentro das bolhas, e deixando lá dentro o fio pra secar o líquido). Marcelo, também, está com bolhas, devido aos coturnos militares que calça. Sua situação, contudo, é mais confortável que a de Ely porque fez o procedimento correto de costurá-las. A trilha mantém-se coberta de folhas secas e raízes. Enormes cupinzeiros pendurados nas árvores. Pouca claridade, somente algumas résteas de sol dão pinta na mata. A vegetação densa, formada pelas frondosas copas das árvores, impede que a luz solar incida com generosidade na floresta. Uma subida com uma pegada forte, um trecho plano, uma descida e assim vamos até o Bebedouro Velho onde aportamos às 10:24. Nos abastecemos de água num pequeno poço que se alcança após descermos uma senda bem íngreme. Por precaução, pingo algumas gotas de cloro na garrafa. Uma fundação de cimento e algumas estacas metálicas, abandonadas num canto, são vestígios duma tentativa feita pelo exército em construir um posto nesse paradouro. Irritados, os yanomamis estrilaram motivo por que a obra não foi avante. Avista-se daqui outro ângulo da serra do Baruri com seus paredões pelados. Uma pena que a névoa que a envolve não permita uma boa foto. Os yanomamis e Pepe usam botas sete léguas pra se proteger de botes de cobras. Aliás, os garimpeiros, igualmente, usam esse tipo de calçado como proteção ao ataque das víboras. Todos que transitam pela selva, temem demais esses bichos. Se mordidos, babaus, baterão com a cola na cerca, porque soro antiofídico só em Maturaká ou em São Gabriel. O ruído feito por certas árvores muito altas, como a peroba, lembram roncos de animais. Uma coisa impressionante de se ouvir! Após uma hora caminhando, paramos na Boca do Gavião, porta de entrada pra serra de mesmo nome onde, segundo Pepe, houve atividades de garimpo quando a mineração ainda não era proibida por essas bandas. Agora o caminho se faz plano, sem muitos obstáculos até a Cutia, onde chegamos às 13 horas. Uma breve parada, mais necessária pros yanomamis descansarem do peso que carregam. Pepe Legal joga em três posições: é guia, carregador e cozinheiro. Considerando a limitação da comida oferecida (arroz, massa, feijão e calabresa), consegue torná-la apetitosa. Pode ser ainda que a fome seja o melhor tempero porque após as duras caminhadas, essa é a única refeição decente do dia, haja vista que o desjejum consiste de mingau de aveia, leite, café e bolacha, e o almoço, duma frugalidade franciscana, compõe-se das indefectíveis bolachas, regadas a suco. É pra inchar o estômago mesmo, hehehe. Enquanto caminho, escuto as copas das altíssimas árvores farfalhando ao vento, embora quase não se sinta seu movimento dentro da mata, a não ser por uma esporádica brisa que agita, delicadamente, a vegetação. Incrível, a densa floresta atua como uma poderosa muralha à ação invasiva das correntes de ar. Pra agitar as entranhas desse reino vegetal, só um tufão! Barulho dum pássaro cujo ruído lembra o duma serra. Galhos partindo-se. Será uma onça me seguindo? Ai ai ai. Depois duma subida mais áspera, largamos as mochilas e nos sentamos pra almoçar no paradouro do Macaco onde chegamos às 14 horas. Quando a gente pára, pequenos insetos, atraídos pelo odor de sal destilado pelo suor, entram nos olhos... um saco! Após o almoço, enfrentamos nova subida até o paradouro do Romualdo cujo aclive é mais empenado que o da etapa anterior. São quase 16 horas e faço uma pausa pra apreciar uma interessante formação rochosa que lembra as patas dum leão, disposta sob uma concavidade rochosa coberta de limo. Pepe Legal aponta, entre as inúmeras árvores ao longo da trilha, a paxiúba, uma palmeira de tronco fino cujas raízes aéreas formam um tripé de diversas pernas. Daí a lenda de que essa árvore anda pela mata, segundo contam os yanomamis. Seu tronco cheio de espinhos é usado pra ralar a mandioca. Às 17 horas, chegamos, enfim, ao Bebedouro Novo, numa trilha onde as subidas são mais frequentes que as descidas, entremeada aqui e ali por breves trechos planos. Somos recompensados, após a extenuante caminhada, com a visão da face sul do Pico da Neblina, de topo piramidal, e da do 31 de março, cujo cume, bem sem graça, é achatado. Fazendo jus ao nome, o Neblina encontra-se envolto por filamentos de nuvens que, não obstante, permitem seja ele razoavelmente visualizado. Perpendicular a esses dois picos, localiza-se a serra do Camelo, uma formidável estrutura rochosa cujo formato lembra o daquele animal. Exibe em seu escuro paredão sul, zonas peladas cuja tonalidade clara evidencia a cobertura de líquenes brancos. Tão lindo ele! Bem mais que o Neblina. Preferiria, agora que o conheço, subi-lo ao outro mais famoso. Mas os encantos do Bebedouro Novo não param por aqui. O rio Cuiabixi, cuja cabeceira nasce na Venezuela, passa a 200 metros do acampamento e pra lá nos dirigimos. Suas águas frias e límpidas são um convite ao banho depois da longa pernada de 9 horas sob a tórrida temperatura que enfrentáramos ao longo do dia. O rio me faz lembrar aqueles que atravessam os canyons de Praia Grande, município do estado de Santa Catarina, famoso por seus impressionantes peraus. Por entre as inúmeras pedras arredondadas que adornam seu leito, eis uma cascatinha, formando deliciosa piscina de hidromassagem, onde, imersos, Marcelo e eu relaxamos, deixando jorrar o forte jato d’água em nossas mal tratadas costas. Após a janta, já deitados em nossas redes, peço a Pepe que conte uma de suas estórias. Ele não se faz de rogado, acomoda-se melhor em sua rede e, com seu sotaque gostoso de nortista, conta o causo dum certo general que resolveu oferecer um piquenique a sua mulher e filha no topo do Neblina. Para tanto, deslocou de São Gabriel um pequeno contingente de soldados como suporte a tal festim. E Pepe, malicioso, acrescenta que a comilança tinha do bom e do melhor. Até uva, gente! Caramba!! Depois dessa, pego meu saco de dormir pois uma aragenzinha fria se faz sentir. Afinal, estamos a 870 metros acima do nível do mar. Não demoro muito a pegar no sono, embalada pelo conversê dos yanomamis naquela sua estranha linguagem e pela cantoria dos sapos. E vá dizer que não é bom esse tipo de indiada!!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Cachoeira do Tucano

Partimos às 7:15 do acampamento montado na prainha às margens do Cauaburi e chegamos na boca do Maturaká às 8:15, lá permanecendo enquanto Arlindo leva Deisi, Flavia e os outros três yanomamis pra aldeia. Aproveito e mergulho na fresca água cor de caramelo do igarapé Maturaká cuja nascente é no pico da Neblina. Borboletas amarelas, azuis e vermelhas descansam na areia branca da praia. Enquanto esperamos o retorno do barqueiro de Maturaká, Pepe Legal, deitado na rede que esticou entre duas árvores, explica que pra caçar onça, os yanomamis matam um macaco e deitam o bicho no ombro pra atrair o felino. Alguns, mais desavisados, são mortos porque não percebem a fera se aproximando. Apenas uma espingarda abandonada no chão indica que alguém um dia a carregou. E o guia, animado pela atenta platéia, conta então a estória do vestido de noiva de Deisi. O noivo da guria foi a São Gabriel uns dias antes do casório buscar algumas coisas, dentre elas o tal vestido. Na noite anterior a sua volta a Maturaká, pra comemorar seus último momentos de solteirice, tomou um tragoléu dos bons e voltou pra aldeia sem a vestimenta de Deisi. Resultado: o casamento teve de ser adiado até que o tal vestido (Deisi me disse que era rosa), chegasse, finalmente, em Maturaká. Coisas de yanomamis. Às 10 horas, o trepidar do motor da voadeira anuncia a chegada de Arlindo e Messias. Embarcamos e lá nos tocamos até a Boca do Tucano (boca significa foz aqui no Amazonas), afluente do Cauaburi, cuja nascente também se localiza no Neblina. Muitas nuvens no céu, embora não empalideçam a presença solarenga do astro-rei. Da serra do Baruri, quase totalmente enevoada, pouco se vê, entretanto. Duas garças, uma branca, outra cinza-azulada brincam de pega-pega com a voadeira. Voam na frente, pousando em algum galho de árvore ou numa das inúmeras praiazinhas existentes ao longo do curso do rio. Quando a canoa se aproxima, levantam vôo, tomando a dianteira. E assim esse joguinho se prolonga por algum tempo. Em ambas as margens, dá pra perceber enormes tocas de tatu, caça muito apreciada pelos yanomamis. Martins-pescadores, exibindo plumagens dum azul elétrico, dão rasantes rentes à superfície d’água. Bandos de pequenos pássaros pretos disparam céleres duma margem a outra, em formação compacta. E pares de tucanos de esplêndida plumagem azul e vermelha voam pra lá e pra cá, naquele matraquear nervoso de quem se sente invadido em seus domínios. Refletidos no Cauaburi, gorduchas nuvens amontoadas no céu e galhos de árvores projetam imagens brancas, azuis e verdes no espelho liso da água do rio. Por entre as sinuosas curvas do Cauaburi, avistam-se, aqui e acolá, as serras que povoam esta região do noroeste do Amazonas. Grandes troncos retorcidos de árvores formam belíssimas esculturas, remetendo àquelas colecionadas pelas mãos zelosas de Krajcberg. O rio, desde Maturaká, apresenta maior número de prainhas de areia fina e clara. Isso decorre dum fluxo menor de igarapés alimentando-o e diminuindo, assim, sua vazão. Chegamos à Boca do Tucano às 12:50, depois de percorridos 280 km rio acima. Devido ao pouco volume d’água do igarapé Tucano, somos obrigados a saltar da voadeira e caminhar uns 200 m ao longo de seu leito até o local onde há duas palhoças, sem paredes, uma com teto de palha e outra, menor, protegida com lona azul. Messias, um jovem yanomani de 22 anos, deveras faceiro, usa um brinquinho numa das orelhas e um grande relógio no pulso esquerdo. Ele será meu carregador e a quem recorrerei para saber as horas, porque a pilha do meu acabou. Não serão poucas as vezes que lascarei “As horas, meu jovem, que horas são?” Os carregadores acomodam o tralharedo numas cestas que levam às costas – os jamaxis -, tecidas com cipó titica, fibra super resistente, empregada, aliás, na maioria dos artefatos yanomamis. Pepe, nosso guia, é paraense de Santarém. Negro, alto, magro, é super gente boa, prestativo demais. Eu o apelidei de o incansável e safado Pepe Legal. Safado porque é matreiro e femeeiro demais. Haja vista a estória que nos contou duns soníferos que dava pra ex-mulher quando queria sair pra farra. Não há como negar que esses homens safados, têm lá o seu charme, um certo encanto! Os demais carregadores são Orlando, Delegado, Bosco e Auderiano, todos yanomamis. Messias é o caçula do grupo e fica todo orgulhoso quando lhe revelo tal fato  após ter assuntado a idade dos outros. Enquanto as bagagens são arrumadas, os yanomamis comem uma carne de tatu. Peço pra prová-la. Sabe a fígado de galinha embora seja bem gordurosa. Saímos às 14:10 da Boca do Tucano, chegando no Pau da Arara às 15:10 onde descansamos. Tomo banho no córrego porque a caminhada enxarcou de suor meu corpo. Muitas helicônias embora tenham as folhas maiores do que as existentes na mata atlântica, exibindo, contudo, florescência bem mais modesta. Durante o caminho, uns montículos de terra atraem minha atenção. Pepe explica que são feitos de cocô de minhoca. À medida que elas escavam seus túneis, engolem terra para após defecá-la, formando morrinhos semelhantes aos castelos de areia feitos, desajeitadamente, pelas crianças nas praias. Quando a terra é nova, a cor é amarela, quando endurece torna-se cinza ou preta. Uma trilha plana, em cujo chão forrado de folhas secas, aflora muita raiz de árvore. É uma floresta tropical fechada, formada em boa parte por árvores de elevado porte e tronco fino, embora uma que outra apresente tronco largo, grosso, como a sapucaia. As árvores situam- se próximas umas das outras, motivo por que não há muita vegetação rasteira, acrescida pela pouca penetração da luz solar. A floresta amazônica, infelizmente, vem sofrendo constantemente o ataque predatório e ilegal da biopirataria. De posse de amostras de plantas e de animais, os biopiratas patenteiam produtos cujos lucros, nem preciso dizer, serão bilionários. E se tal acontecer, como já vem acontecendo, nós, os brasileiros teremos que pagar para utilizar algo cuja matéria-prima é originária do nosso país....dá pra acreditar? Uma pena que não tenho a sorte de avistar o macaco-guariba, ouço apenas seus ruídos ecoando na mata. Nossa próxima parada é o Polar, onde um córrego de águas rasas mal permite um mergulho. O lugar assim é chamado devido à farra que os garimpeiros faziam, indo ou voltando do garimpo, enquanto reabasteciam as energias bebendo uma breja. Levamos mais meia hora até a cachoeira do Tucano, totalizando um percurso duns 7 km. Dispostas uma em frente a outra, encontram-se duas casinhotas de palha onde habitam três famílias yanomamis. Nesta época do ano, elas se mudam, porém, pra Maturaká porque as aulas das crianças já iniciaram. Cultivam nesse sítio mandioca (pra farinha), pupunha, banana, laranja e macaxeira (o nosso aipim). Nosso acampamento está do outro lado do igarapé Tucano, onde encontramos, abrigados sob uma espaçosa palhoça, garimpeiros deitados em redes. Destaca-se, entre eles, o mulato Carioca, que me chama, gentilmente, de madama. Maranhense, costuma garimpar ouro na Venezuela, pois no aqui, no parque, atividades de mineração estão proibidas. A viagem ao país de Chavez dura 4 dias no meio da selva. Carioca me ensina que carapanã é o mosquito que ataca de noite e pium durante o dia. Acompanha-o, Dark, assim apelidado porque reluz de tão preto. O rapaz arde em febre e Carioca diagnostica sem piscar: "Foi o siso que ele arrancou em Maturaká". Acho estranho e observo que extração de siso não provoca febre, deve ser malária. Carioca teima, afirmando que não é malária, não. Assim deixo quieto tal diagnóstico. Com pena, dou-lhe dois Tylenol (se mercenária fosse, poderia ter trocado o antitérmico por uma pepitinha do dourado metal, pois remédio aqui vale ouro). Quando retornamos a S. Gabriel, Dark que lá se encontra, confirma que, de fato, está com malária. Até que pruma profissional do Direito, dou uma boa médica, né?

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Subindo o rio Cauaburi

Pois não é que dormi super bem na rede? Muito mais confortável que dormir em barraca. Vão de carona conosco, além de 4 yanomamis, Deisi. Embora casada há três meses com um índio baré, a indiazinha de 18 anos, bem bonitinha, é cortejada pelos outros índios. Conta que é a netinha do papai. Peço explicações e sou inteirada que seu Julio, pai de Beto, é, seu tio-avô. Também de carona, uma conterrânea, Flavia, enfermeira, natural de São Luiz Gonzaga. Vai ao encontro do namorado, um tenente responsável pelo pelotão do Exército, sediado alguns quilômetros distante da comunidade de Maturaká. O destino de todos é a boca do rio Maturaká. As duas contam que os seus homens vão buscá-las de canoa pra levá-las até a aldeia. Pelo visto os tarzans aqui não usam como veículos cipós pra conduzirem suas janes. A aldeia yanomami, com 2.000 habitantes, tem uma certa infraestrutura, mesmo assim a maioria das casas é de palha, exceto algumas poucas de madeira e outras de alvenaria. Sei disso conversando com os carregadores porque nossa entrada em Maturaká está proibida. Pra visitá-la só com convite do cacique Joaquim. Flavia conta que em São Gabriel há um surto de malária, confirmado por Armindo, quando retornamos à cidade. E o local onde as larvas se desenvolvem localiza-se, justo, num poço de águas paradas, perto da casa onde os yanomamis se hospedam quando em visita à cidade. Rola um falatório de que em Maturaká também há focos de malária. Aliás, muito comum, nessa região, pessoas infectadas pela fêmea do carapanã, mosquito do gênero Anopheles, vetor dessa parasitose tropical, cuja maior atividade ocorre no crepúsculo e ao amanhecer, de preferência no interior das residências, embora haja também contaminação ao ar livre. A gravidade dessa praga é mensurada em cruzes, à semelhança da tuberculose. Partimos às 9 na voadeira, uma embarcação de alumínio, com motor de popa de 40 hp, onde se acomodam 12 pessoas, afora os 400 litros de combustível e mais um tanto de alimentos e equipamentos. Armindo, piloto experiente em tais cursos d’água, atravessa sem maiores problemas, nas duas primeiras horas iniciais, os igarapés Yá-Mirim e Yá-Grande até desembocar no Cauaburi, rio que coleta vários igarapés, dentre eles os dois que deixamos pra trás. Como o rio se encontra na vazante, afloram em seu leito blocos de rochas, troncos e galhos de árvores caídos nas margens e arrastados pela correnteza até o meio de seu curso, o que dificulta em muito a navegação. Em certos trechos, a lâmina d’água não ultrapassa 50 cm, assim frequentes os rec rec da quilha do barco raspando o solo arenoso deste corredor fluvial. Árvores com belas e delicadas flores róseas predominam nas margens. Suas pétalas caídas na água colorem as águas escuras do rio. Entretanto, surge uma que outra árvore cujas flores amarelas quebram a hegemonia da floração rosada. Muitos buracos redondos, cavados pelos caranguejos nos barrancos do rio. Na época da cheia, são ocupados, contudo, por ninhos de andorinhas. Pendem dos galhos de certas árvores curiosos ninhos em formato cilíndrico, tecidos pelos xexeos, pássaros de plumagem negra e amarela. Sabiamente protegidos, localizam-se, assim, fora do alcance de formigueiros ou vespeiros. Apesar do céu nublado, o calor é de fritar bolinho. Dois manguaris de plumagens cinza-azulada e branca (espécie de garça) voam graciosas sobre o rio, acompanhando-nos uma boa parte do trajeto. Em certos trechos, nota-se nitidamente, que os barrancos das margens não são formados apenas por areia mas entremeados por camadas de folhas. Uma chuva forte, cuja duração não excede mais que 15 minutos, obriga-nos a usar uma lona azul como proteção. Eli usa o pé pra servir de estaca, impedindo, assim, que a proteção de plástico nos sufoque. Ninguém se aborrece com o tosco arranjo, tá todo mundo de boa. Fumacinhas de evaporação evolam-se do rio após o chuvaral. Tô tão feliz, mas tão feliz que bate até um medinho bobo. Vá que meu coração estoure de tanto bem estar, hein? Deixa de ser boba mulher, sem medo de ser feliz, uai!! No meio da tarde, eis a magnífica serra do Opota (opo, em yanomami, significa tatu; ta, serra), vulgarmente apelidada de serra do Padre. Tal denominação irrita os índios. Não admitem seja ela conhecida por tal nome. Como explica Junior, primo de Armindo, “nós estamos aqui muito antes desses padres”. E não pára mais o festival de serras que se sucedem umas às outras, sobressaindo na paisagem a serra do Baruri, em cuja retaguarda se esconde o mítico Yaripo, ou pico da Neblina, e o Pirapucu. Revelam, ao contrário da maioria das outras serras, extensos trechos de paredões pelados de vegetação. Mais adiante a verdejante serra do Barro e a do Jordão, nascente do igarapé de mesmo nome cujas águas claras e frias encontram um contraponto nas escuras águas do Cauaburi. O Opota, já imerso no lusco-fusco da tarde que cai, brinca de esconde-esconde nas mis curvas traçadas pelo rio. Um cheiro gostoso de flor misturado com terra molhada evola das margens. Eu rio à toa. Às 19 horas, aportamos numa prainha onde há um sítio de propriedade de duas famílias yanomamis. Deise traz num prato carne de tatu e tucumã pois sua avó se encontra visitando alguns parentes que aqui vivem. Provo um tucumã, de textura meio farinhenta. Nada de muito interessante seu gosto. Duas índias trazem cestas de cipós pra vender, artesanato que recuso pois não apresenta maiores atrativos. Sobre a fogueira uma panela com arroz e linguiças fincadas em gravetos derramam sua gordura sobre o fogo. Após a janta, sentados em canoas emborcadas, conversamos e fumamos cigarrinhos, caprichosamente, enrolados por Deisi. Boa demais essa vida, não fossem as mariposas noturnas que teimam em visitar o interior dos meus olhos quando acendo a lanterna. Os índios preparam a brejera, fumo misturado com cinza, algodão e água, colocado entre o lábio e o maxilar inferior. Em linguagem yanomami significa pee (tem til nos 2 "e" mas o teclado, bem burro, só aceita em cima do "o" e "a"). Servem-se dela pra minimizar a fome. Originários da Venezuela, o povo yanomami adentrou o território brasileiro, espalhado hoje em dia pelo Amazonas e Roraima. Há diferenças de sotaque conforme a localidade onde estão arraigados. Seu idioma, meio anasalado, lembra na cadência o chinês. Aprendo algumas palavras da língua local como parika, bebida alcóolica preparada pelos pajés para cerimônias especiais, sua, mulher, xita, homem e naka, irmã. Porém tal tradução é reducionista porque cada vocábulo tem um signficado bastante elástico. Quando tento falar seu difícil idioma, corrigem com energia minha péssima pronúncia. Coaxar de sapos, grasnidos de patos e latidos de cachorros ecoam sob o céu estrelado, um convite pra ser admirado se estivéssemos deitados em redes. Infelizmente, há que se dormir em barracas hoje. Merda!

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Escaramuças com órgãos públicos

Chegou, enfim, o grande dia! Um baita solzão e aquele calor de antecâmara de inferno. Estou como o diabo gosta. Deixamos São Gabi, mal acomodados na carroceria dum toyotão bandeirantes, a la retirantes nordestinos. Repleta de tralhas (400 litros de gasol pra voadeira, uma enorme caixa retangular contendo comida e utensílios diversos, mais mochilas) e pessoas (além de nós quatro, são passageiros, ainda, Branco, Pepe, Beto, Deisi e Messias), o jipão, conduzido pelo hábil motorista Coelho, roda pela BR 307 rumo ao km 85 do Parque Nacional do Pico da Neblina, onde embarcaremos numa voadeira rumo à boca do Tucano (um dos igarapés que alimenta o rio Cauaburis, afluente do Negro), ponto de partida da caminhada rumo ao topo do Neblina. A estrada de terra vermelha não é das piores, salvo quando chove, explica Branco. Daí é um lamaçal só. Paramos, pras indefectíveis fotos, na linha do Equador, divisor imaginário entre os hemisférios sul e norte. Marcelo, enquanto urina, balança o corpo pra lá e pra cá, teatralizando com tais gestos que ora se encontra no sul, ora no norte. Revela-se, dessa forma, o palhaço do grupo. Adorável, aliás! Quando chegamos ao posto de fiscalização da FUNAI, no km 55, após hora e meia de viagem, uma dezena de soldados do Exército, portando fuzis, faz barreira, impedindo nossa entrada no parque. E aí começa a confusão. O tenente, responsável pela soldadesca, nos explica, educadamente, que só poderemos continuar viagem com autorização de Zé Guilherme, diretor do parque, administrado, desde 2007, pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICM-Bio, sucessor do IBAMA quando da polêmica divisão desta autarquia federal. Armindo, um yanomami, pasmem, de olhos azuis, piloto da nossa voadeira e presidente da AYRCA – Associação dos Yanomamis do rio Cauaburis e Afluentes, se indigna. Não admite que ninguém impeça seus convidados, nós, de entrarmos em sua casa. Isso porque a reserva desses indígenas localiza-se no interior do Neblina. O bate boca resulta inútil. Voltamos, pois, a São Gabriel, alvoroçadíssimos, especulando sobre o que deu errado e enchendo de impropérios o chefão do instituto. Enquanto Branco, Armindo, mais Ely vão até a sede do órgão federal, encarregado de fiscalizar parques e reservas nacionais, eu, Lili, e Marcelo tratamos de almoçar e traçar um plano B caso nossa expedição resulte malograda. E aproveitamos pra tecer conjecturas que se revelaram estapafúrdias quando soubemos da verdade dos fatos. Mas bem que serviu pra nos distrair durante a tensa espera. Acontece que o Neblina se encontra fechado desde janeiro, motivo pelo qual, convocou-se uma reunião, no final desse mês, entre os líderes tuxauas yanomamis, cujos corpos foram pintados para o encontro, e a diretora do ICM-Bio, Silvana Canuto. Em decorrência, foi permitida a entrada de nosso grupo no parque. Contudo, sem nada assinado, só de boca. Enquanto estávamos em São Gabi, na sexta, dois madeireiros foram pegos com a boca na botija, extraindo, ilegalmente, madeira na região. Daí a presença do Exército. Retornamos à estrada, dessa feita, acompanhados de Zé Guilherme que seguiu em condução oficial, já que a autorização tinha de ser feita, em pessoa, pessoalmente, como diz um atrapalhado personagem criado pelo escritor italiano Andrea Camilleri. Infelizmente, a equipe sofreu um desfalque: Beto, o outro guia da expedição, filho de Seu Julio Lopes, tuxaua yanomami da comunidade Maturaká (as aldeias, hoje em dia, passaram a adotar tal denominação), furioso com o imbroglio, desertou da aventura. Peninha, seu grito de guerra “Nebliiinaaaa” não irá mais se fazer ouvir. Finalmente, às 17 horas, transcorridas 3 horas de viagem, chegamos ao km 85, onde está estabelecida a comunidade Tucana Yá-Mirim. Acampamos ali, porque a navegação no rio Cauaburis, em época de seca, durante a noite, torna-se bem arriscada, devido a enorme quantidade de pedras e troncos de árvores espalhados ao longo de seu leito. As redes, então, são armadas sob um telheiro de zinco. Eu, cabreira, armo com ajuda de Pepe Legal, por via das dúvidas, minha barraca. Sei lá se vou conseguir dormir a noite toda na balouçante cama. Minha experiência com redes, até agora, limita-se àqueles rápidos cochilos, cuja duração não ultrapassa um par de horas. Eu, Lili e padre Marcel, assim apelidado por mim, pois sua cara faz jus ao título, vamos nos refrescar no igarapé Yá-Mirim. Um bando de taludos besouros circula, zumbindo, ao redor de minha cabeça. Basta, no entanto, um piparote com os dedos pros insetos procurarem outra freguesia. Nos deitamos logo após a janta, exaustos de tantas emoções. O céu nublado revela vez por outra o brilho de pequenas clareiras de estrelas. E eis eu aqui nas, entranhas da floresta amazônica, embalada pelo coaxar de sapos e pios de aves. Tal sinfonia, ai ai ai, é quebrada, contudo, pelo desafinado coro de alguns roncos masculinos. Nem tudo, tsk tsk, é perfeito!!

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Pôr do Sol no rio Negro

Um baita dia, céu azul, calorzão maneiro, pelo menos pra mim que, embora gaúcha, detesta frio. Tenho, inclusive um bordão: quem gosta de frio é pingüim!! São Gabriel possui um comércio forte, motivo pelo qual colombianos e venezuelanos das cidades fronteiriças vem aqui se abastecer. Navega-se até esses dois países rio Negro acima, numa viagem com duração em torno de 5 horas quando o rio está cheio, e de 12 horas com o rio na vazante, como agora. A Colômbia localiza-se na margem direita do rio Negro; na margem esquerda, finca fronteira a Venezuela. São Gabriel tem 23 etnias indígenas. Seu atual prefeito é tukano e o vice é baniwa. A população supera os 40.000 habitantes e, deste total, 90% é indígena. Assim, natural escutar os nativos conversando tukano, baniwa, yanomami ou baré. Pra confirmar a vocação indígena da região, uma lei municipal instituiu como idiomas oficiais, além do português, as línguas tukano, baniwa e nheegantu (língua geral). Desta forma, o município tornou-se o único do Brasil com quatro idiomas, oficialmente, reconhecidos. De acordo com o texto aprovado em 2002 pela Câmara de Vereadores da cidade, todos os estabelecimentos públicos são obrigados a prestar atendimento nos quatro idiomas. Com isso, os concursos públicos também passaram a exigir proficiência em pelo menos uma das línguas indígenas oficiais. Consequentemente, as escolas de São Gabriel foram obrigadas a se adaptar à nova lei e grande parte do material didático já se apresenta traduzido para estes idiomas. Quer algo mais cosmopolita que São Gabriel? Nem Londres, tampouco Paris ou New York os são! Considerada zona de segurança nacional, porque localizada a apenas 300 km da tríplice fronteira, vem daí a presença do 5º Batalhão de Infantaria da Selva, bem como de um destacamento da Aeronáutica. A maioria dos indígenas faz questão de prestar serviço militar. Se por civismo, yo no lo sé. Penso que o atrativo maior é a graninha recebida. Devido às características peculiares deste estado, tudo vem transportado nos barcos e chatas, inclusive carros. Por isso o custo de vida é tão caro. Um repelente que, normalmente, custa 8 reais aqui vale o dobro! Esta parte noroeste do Amazonas assenta-se no planalto das Guianas cujo embasamento de rochas cristalinas apresenta-se recoberto por material sedimentar. Sua vegetação é considerada mata de terra firme, porque situada em altitude superior aos 300 metros. Pepe Legal passa no hotel pra nos guiar numa caminhada até o topo da serra da Boa Esperança, pequena colina situada dentro dos limites da cidade. A subida não leva mais de 30 minutos. Uma moleza. Ao longo da trilha há capelinhas de cimento branco representando a Paixão de Cristo. Na Páscoa, uma procissão desfila até o topo do morro reproduzindo o calvário do filho de Deus. Muitos dos indígenas que vejo nas ruas portam escapulários. Hum...influente ainda a presença da igreja apostólica romana na orientação espiritual dos "pobres" silvícolas. E como não poderia deixar de ser, as assembléias de Deus e outras congêneres já dão ar de sua graça na cidade. A paisagem de cima da serra é soberba, percebendo-se, numa visão panorâmica de 180º, as generosas formas da Bela Adormecida, à leste; à oeste, o Cabari, outra belezura de serra de formato menos impactante, e ao sul, o rio Negro com suas ilhas e baixios de onde despontam largas faixas de rocha escura. Suados da caminhada, terminamos o passeio tomando banho no rio Negro cujas águas tépidas são duma tonalidade caramelada. Sua coloração escura deve-se à decomposição da matéria orgânica vegetal, formada por camadas de folhas e restos de animais mortos (serrapilheira) que são arrastados até seu leito durante as periódicas inundações ocorridas no período de julho a novembro. Curiosamente, a cheia do rio, na região sul, ocorre durante os meses de novembro a junho. Relaxada, a la vonté, dentro d’água, observo um barco desistir de subir o rio. A correnteza, forte demais, não permite sua travessia. Para tanto, seria necessário o emprego de duas voadeiras, uma na proa puxando, e outra na popa empurrando. Indiozinhos aproveitam as corredeiras e nadam, com destreza, até os remansos. Coisa boa este lugar!! Almoço no mercado onde mais uma vez provo a quinhapira em cujo caldo bóia o piraí, peixe menos espinhento que o piau, embora de couro. A dona da banca explica que só se come ele filhote e preparado em caldeirada já que sua carne não presta pra ser grelhada ou frita. Estamos Lili, Marcelo e eu comprando algumas quinquilharias numa loja de artesanato, quando eis que surge o quarto companheiro de expedição, Ely. Amante da fotografia macro, trabalha como colorista numa grande produtora de Sampa. Animado, o paulistano, um homem grandalhão, junta-se a nossa trupe. E lá vamos nós às compras! Urge adquirir redes e mosquiteiros que serão usados como cama durante a expedição. Escolho uma rede cor de vinho e mosquiteiro de filó rosa. Faço questão que combinem. Afinal, não é porque irei me internar na selva que desprezarei certos requintes estéticos! Sou uma aventureira, vá lá, meio patricinha! Na tardinha, um passeio até o Fortaleza, outro morrete, onde subimos, Marcelo, Ely e eu, por uma escada metálica os 30 metros que conduzem ao topo da caixa d’água. O sol poente torna a paisagem deslumbrante. Ely e eu sacamos nossas máquinas e disparamos frenéticos cliques. Nos juntamos a Pepe Legal e Lili que preferiram atividades mais calmas em terra firme. Bebericando cervejas (Pepe levou um isopor com diversas latinhas da loura gelada, sim, senhores!!), os dois admiram a paisagem. Distingo na já não tão incipiente penumbra de final de tarde, lá embaixo, no leito do rio Negro, várias ilhas rochosas onde famílias indígenas, vindas de suas aldeias, preferem acampar a permanecerem na cidade. Que mundo este! Um misto de modernidade, guardando, contudo, resquícios de muita primitividade. Estou deslumbrada, gamada por esta cidade! À noite, o programa é um só: praça de alimentação ou rua do badalo como a apelidei. Um som alto, duma breguice total, ecoa pela rua. Escolhemos um suculento matrinxã. Embora seja um peixe gorduroso, faz todos nós, os cara-pálidas, revirarem os olhinhos e lamberem os dedos. E dê-lhe cerveja e caipirinha!! Ahahahaha!!! O fim de noite não poderia ser mais show. Ely e eu nos enfurnamos rio adentro e, mergulhados naquelas águas mornas, curtimos o céu crivado de estrelas. Que noite, um veludo de tão macia!

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Manaus, uma desilusão, São Gabriel, tudo de bom!

A região norte do país, inclusa aí a mítica floresta amazônica, confesso, nunca me atraiu muito. Os motivos? Atribuo ao brilho em cinemascope das florestas hollywoodianas e aos seus musculosos Tarzans, pipocando de árvore em árvore, o furto de atenção com a prata da casa. Exatamente por isso, a escolha do meu roteiro de férias resultou mais duma obrigação moral de conhecer essa parte do país. Afora isso, a oportunidade de praticar um dos meus esportes favoritos, o montanhismo, pesou bastante em minha decisão. Afinal, é lá, na porção noroeste do estado do Amazonas, que se encontra o pico mais alto do Brasil, o Neblina, com 3.014 m. Cumpre esclarecer que mensuração posterior a sua conquista, em 1965, pelo topógrafo Jose Ambrosio Miranda Pombo, fixou sua altitude em definitivos 2.993m. Decolo de Porto Alegre às 19:20 com troca de aeronave em Sampa. Enquanto espero o embarque pra Manaus, na capital paulistana, raros os momentos de silêncio. Os intermitentes anúncios de vôos, transmitidos pelos altofalantes, disparam avisos aos passageiros de embarque por tal portão para Salvador, Maceió, Aracaju, Belo Horizonte, Boa Vista, Porto Velho e por aí afora. Adoro essa balbúrdia de aeroporto, anunciando destinos variados, a maioria dos quais por mim desconhecidos. Aterriso na capital dos manauaras às 3 da madruga, cujo horário local, considerando as dimensões continentais do país, obriga-me a retroceder os ponteiros do relógio em duas horas. Acordo em Manaus, cujo significado na linguagem indígena é a mãe de todos os deuses, com céu nublado. E eu crente que veria um céu azul, típico, na minha imaginação, de clima equatorial. A cidade, grande, feia, suja e barulhenta, exibe em sua zona central um comércio intenso em que lojas de roupas e eletroeletrônicos se sucedem umas as outras. Vendedores, de microfone em punho, anunciam as promoções do dia. Uma leve garoa começa a cair, contrariando as fartas precipitações pluviométricas previsíveis em temperaturas tropicais. O calor, espesso e úmido, deixa meu corpo todo melado. Suo a beça. Curto, entretanto, tal sensação. Sinto-me super à vontade, pra espanto dos manauaras que se queixam da quentura do dia. Bancas com frutas típicas exibem os exóticos ramutãs, as redondas sapotas e cachos e mais cachos de vermelhas pupunhas e tucumãs. Esta última é usada como recheio no pão e das quatro somente a pupunha não é saboreada in natura, cozida que é na água fervente. Às 14 horas, enquanto espero o vôo pra São Gabriel da Cachoeira, ponto de partida de nosso trek, provo, no aeroporto Eduardinho, um pirarucu ensopado. Uma delícia o sabor e textura deste peixe. Conheço, então, dois de meus colegas de expedição: Lili, globetrotter desde seu divórcio, vive em Minas, desde meninota, embora seja goiana. Já Marcelo, paulista, professor de matemática na UFMG, encontra-se radicado na capital mineira há uma década. Às 15, embarcamos numa aeronave turbohélice da Trip. Quando as densas nuvens permitem, surgem flagrantes da floresta amazônica. Emociono-me com aquele cerradíssimo colchão verde, formado pelas altas copas das árvores. Não observo durante os 858 km percorridos quaisquer rasgos de clareiras, a não ser o brilho prateado e sinuoso do rio Negro onde despontam ilhas de areia cuja coloração branquíssima quebra vez por outra a hegemônica tonalidade verde escura da floresta. E recebo meu primeiro impacto ao descobrir muitas pedras em seu leito! Sei lá por que sempre imaginei os rios amazônicos desatravancados de rochas, ou seja, rios de planícies. Associo rios rochosos àqueles que descem de serras e montanhas. Tão ignorante euzinha.....tsk tsk!! Como seu nível de água, nesta época do ano, está baixo, o pedrario aflora à superfície. Uma serra lindíssima chama minha atenção. Quando chego ao modesto aeroporto de São Gabriel, às 17 horas, a primeira coisa que pergunto a Branco, dono da agência Amazonas Neblina Tour, responsável pela expedição, é o nome da serra que avistara do avião. Trata-se da Bela Adormecida, assim chamada porque seu formato assemelha-se ao de uma mulher deitada de barriga pra cima. Brincam os gabrielenses que a donzela, quando a névoa a encobre, foi dar um rolê pra tomar café. Tão fértil o imaginário popular, não é mesmo? Logo de cara gosto da cidade, situada à margem esquerda do rio Negro. Afoita e curiosa, largo minha bagagem no hotel Deus Me Deu (paciência, acrescento eu, pra agüentar as modestas instalações do “melhor” hotel da cidade, hehehe) e vou com Lili dar uma banda pela cidade. Encontramos, bem próximo ao hotel, um bareco com mesas ao ar livre, cujo suco de taperebá (cajá) é qualquer coisa de bom! Repetimos, gulosas, a bebida, of course! Branco passa no hotel e nos leva pra jantar na praça de alimentação repleta de barracas onde são vendidos além de carne e galinha grelhadas, arroz, feijão, massa, salada e a quinhapira (quinha: pimenta; pira: peixe). De origem tucana, neste caldo, cujo ingrediente básico é o tucupi (líquido extraído da mandioca), o peixe é cozido. Acompanha, ainda, um redondo biju, pão feito com goma e massa de mandioca, que se mergulha no apimentado caldo. O peixe de hoje é piau (bem espinhento), mas também se usa aracu e piraíba, igualmente repletos de finas espinhas. Assim, todo cuidado é pouco quando se come tais tipos de peixe. Conheço, então, nosso guia, Pepe, logo por mim alcunhado de Legal. E Traíra, um garimpeiro, contador de estórias fantásticas, que me deixam de boca aberta, nem todas, segundo Branco, lá muito verídicas. Como todo mentiroso é simpaticíssimo. A noite não poderia ter terminado em melhor companhia.