domingo, 22 de junho de 2008

Skardu, a capital do Baltistan

Saímos de Chillas às 6:20 da matina, e após uns 50 km, um pouco antes de abandonarmos a KKH para entrarmos na rodovia que nos levará a Skardu, é possível visualizar o encontro das três cordilheiras responsáveis pelo relevo acidentado do país: Indo Kush, à esquerda, Himalaia, à direita, e Karakorum, à frente. No mesmo local, percebe-se, ainda, a junção do rio Gilgit com o Indo cuja nascente localiza-se em Skardu. Viro-me para trás e vejo, embora já distante, o perfil imponente do Nanga Parbat. Embora a estrada até Skardu já não seja mais a KKH, o rio Indo continua a nos escoltar. O motorista da van chama-se Aqbar. Ainda que não fale inglês, dirige com calma e destreza o veículo (como pude constatar, posteriormente, os motoristas com quem andei foram “braço”, todos excelentes). Junto, vai, também, Niaz, o cozinheiro, um jovem de 24 anos. Num inglês arrevezado, enumera, orgulhoso, suas habilidades na culinária mexicana, chinesa e italiana. Auto-intitula-se chefe de cozinha. O rio Indo, comprimido entre dois cordões de montanhas, estas já pertencentes à cordilheira Karakorum, com suas margens bem próximas uma da outra, torna-se fera, altas corredeiras formam sorvedouros vorazes. O ruído estrondoso da correnteza turva abafa por vezes a música indiana vinda do toca-fitas. A estrada, bem mais estreita e sinuosa que a KKH, é mais perigosa, contudo mais bonita já que, entre as áridas montanhas, vêem-se terraços com plantações de trigo, sobressaindo em algumas maduras espigas douradas. Pomares com árvores frutíferas quebram a monocromática coloração marrom e bege da paisagem. Em certos trechos, túneis de árvores sombreiam ambos os lados da estrada. A quantidade de áreas verdes entre Chillas-Skardu - algo em torno de 300 km - viceja graças às águas de degelo que escorrem dos topos das montanhas. Um céu de brigadeiro hoje, apenas algumas nuvens para o lado do Nanga Parbat. Escuto freqüentes deslizamentos de terra na outra margem do rio. Agora mesmo foram dois boings de arrepiar. À medida que subimos a cordilheira Karakorum, cujos paredões vão ganhando mais e mais altura, aumenta o desnível entre o leito do rio Indo e a estrada, possivelmente em torno de uns 400 metros de altura. Uma paradinha para estender as pernas numa "village" onde há alguns armazéns, um restaurante e um hotel. Fico admirando um dos inúmeros tributários do rio Indo que, impetuoso, espuma toneladas de líquido montanha abaixo. Seu barulho é tonitruante. Impossível se banhar nesses rios: além da temperatura geladíssima das águas, suas corredeiras endiabradas matariam o mais experiente dos nadadores. Uma pena porque o sol, forte pra caramba, convida a um belo mergulho refrescante. Algumas crianças se aproximam encantadas e me espiam com curiosidade. Sorrio e algumas me devolvem o sorriso. Retomamos a viagem. Um pouco mais adiante, passamos por meninos que vendem cerejas, ameixas e abricós. Esta cena repete-se algumas vezes durante o percurso. Sinto vontade de pedir a Ali que pare o carro para eu comprar abricós, uma fruta que não houvera provado até então in natura, apenas seca, conhecida no Brasil como passa de damasco. Verifico, infelizmente, que não tenho dinheiro trocado. Interessante observar os diversos costumes de cada país: no Brasil, temos as redes, herança indígena, pra descansarmos ao ar livre; aqui são camas (estrados de metal ou madeira cobertos com tiras grossas de nylon entrecruzadas) postas diante dos restaurantes onde os homens, indolentemente, se recostam em almofadas acilindradas. Alguns tiram uma boa soneca enquanto outros bebem chá e batem papo. Chegamos em Skardu às 14 horas. A capital do Baltistão é uma cidade feia, suja e pobre. Pra variar, não há quase mulheres nas ruas. Homens, entretanto, há aos magotes, e todos me fitam com curiosidade, alguns flertam, lançando olhinhos sedutores. Algo meio ingênuo até. Umas graças. Sinto o ego, infladíssimo. Afinal, dos 3 ao 80 anos, não passo despercebida. O hotel é confortável mas sem os requintes do de Chillas. Ladeiam a entrada do hotel duas palmeiras artificiais, iluminadas, à noite, por luzes vermelhas e verdes. Este país é duma breguice encantadora!! Num saguão do piso inferior, ouço uma cantoria feminina. Trata-se de um encontro religioso de muçulmanos, a religião predominante no país. Situada a 2.100 m, a cidade é rodeada de altas colinas, algumas com neve nos topos, outras a têm nas encostas, semelhantes a estrias verticais, riscando de branco o cinza da rocha. Tudo muito árido até você perceber em algumas delas grama em seus cocurutos. Skardu é um importante centro comercial, portanto a quantidade de lojas vendendo de tudo um pouco é pra lá de variada. As confeitarias são um capítulo à parte. Sortimentos de doces, em formatos triangulares, quadrados e redondos, colorem de verde, amarelo, laranja e rosa as vitrines. No interior, mesas e bancos onde os clientes tomam chá e comem os petiscos. O ambiente é escuro e sujo pra não fugir à regra. E os homens, com suas roupas que lembram pijamas, muitos deles de mãos dadas, passeiam à vontade nas ruas. A temperatura está beirando os 37º C. Mesmo assim, recuso-me a ficar no hotel e saio pra bandear pela cidade. Andando na rua principal, de chão batido, sou atraída pelo canto monocórdio de um velho cego sentado numa cadeira coberta com um tetinho de madeira. Recita poemas religiosos pra ganhar dinheiro. Cabras vagueiam, soltas nas calçadas. Coisas do Paquistão. Infelizmente, sou obrigada a interromper o passeio: descubro, enquanto tiro fotos, que todas as pilhas adquiridas em Dubai se encontram descarregadas. Puta merda....se não carregá-las até amanhã, ficarei sem bateria durante o trekking. Oxalá, deus me proteja dessa desdita!! E lá me vou, aflitíssima, voando as tranças, pro Hotel Mashabrum.

sábado, 21 de junho de 2008

Pé na estrada

Hoje é o grande dia do início do trek ao acampamento-base do K2!!! Saímos de Islamabad às 6:15 e pegamos a Karakorum Highway (KKH), uma estrada pavimentada que une o Paquistão à China. Em muitos trechos, é evidente a má conservação da rodovia que sofre constantes deslizamentos de terra, provenientes das encostas das montanhas através das quais foi traçada. O tráfego de caminhões é intenso e os pitorescos veículos, coloridíssimos, exibem uma profusão de desenhos: flores, olhos e outras figuras da cultura paquistanesa. Em alguns, as portas de metal foram substituídas por portas de madeiras, ricamente entalhadas em alto relevo; guizos de metal pendurados em suas laterais fazem tlintlim à medida que eles se deslocam. Minivans transbordam de gente. Ônibus, com assentos ao nível da janela, de modo que se vêem apenas as pernas dos passageiros, transportam também pessoas sentadas nos seus tejadilhos. Uma loucura pra nossos olhos ocidentais, porém os paquistaneses demonstram estar bem à vontade em tal posição! Estou fascinada diante de tal ousadia. A KKH atravessa cidades, "towns" e "villages", como Haripur, Abbotabad e Mansehra, feias e sujas; entretanto, começo a gostar dessa confusão, dessa vida borbulhante e aparentemente caótica. Nesta última cidade, paramos. Enquanto Ali vai comprar frutas, Niaz me conduz a um restaurante onde me é servido chá verde, já misturado com leite no bule, bebida muito apreciada no país, herança da colonização britânica. No interior da xícara, dou de cara com um colarinho de sujeira há muito instalado, coisa de um mês de louça mal lavada. Reclamo, aí me trazem outra....um pouco menos suja. Coisas do Paquistão. Em ambos os lados da rodovia, dispõem-se os mercados, por eles chamados de bazares, compostos por um comércio variadíssimo de lojas que se sucedem umas às outras: são restaurantes, aviários, fruteiras, armazéns de secos e molhados, açougues, barbeiros, sapateiros, lojas de roupas e de cobertores, adoravelmente bregas, cujos desenhos coloridérrimos exibem estampas de flores gigantes em vibrantes tons de vermelho, verde, rosa e amarelo, feitos dum tecido apeluciado. Enfim, tudo do que se precisa, em matéria de produtos e serviços, se encontra ali à venda. Sobre os balcões dos açougues, pedaços de carne, expostas ao sol sem cuidado algum, são barganhados pelos fregueses com fervor quase religioso. Todos vestem as roupas típicas. Aqui já vejo mulheres com burka. Neste trecho da KKH, construída numa das margens do rio Indo, a estrada, estreita e sinuosa, corta as imponentes montanhas do Himalaia, e a água bege e turbilhonante do maior rio do Paquistão corre célere 200 metros abaixo. Ultrapassamos caminhões carregados de plácidas e resignadas vacas. Já os caminhões-galinheiro são qualquer coisa de se curtir. No topo dos cinco andares onde se espremem, em minigaiolas de metal, provavelmente, bem mais duma centena de galinhas, há uma cobertura improvisada com galhos de folhas, de modo a proteger as aves dos efeitos tórridos dos raios solares. Durante a viagem, o motora põe a carreta sob alguma vertente de água, que escorre do flanco das montanhas até a estrada, de modo a aliviar, assim, o fedor e refrescar os pobres bichos. Coisas do Paquistão! Paramos em Besham para almoçar. Quando saio do carro, dezenas de moscas pousam em meus braços....putz. O almoço servido é muito gostoso: arroz, carne e uma mistura de quiabo com cebola roxa (toda a cebola daqui é dessa espécie). De sobremesa, manga, mais cheirosa, saborosa e menos fibrosa do que as nossas. Seu tamanho e cor lembram mamão papaia. Já a melancia e o melão são insossos. Muitos homens de meia idade com cabelos e barbas pintados de vermelho-cenoura ou vermelho-cobre. Ali explica que é para parecerem mais jovens. Os homens me encaram sem esconder sua enorme curiosidade. Aliás, o país parece ser habitado quase que exclusivamente por homens. Poucas são as mulheres nas ruas (fico sabendo, no entanto, que compõem 54% da população do país). Quando encontro algumas, elas me olham ou com timidez ou furtivamente, isso quando não escondem o rosto com seus chadares (a exceção são as crianças). Retomamos a viagem. Um calor danado. De repente começa a chover, inclusive com queda de granizo. Chuvas de verão, de pouca duração, portanto. Ali chama minha atenção para uma enorme e colossal montanha coberta de neve: eis o Nanga Parbat, cujo brilho rosado reflete os raios dum sol poente. A paisagem é ora bege ora cinza, dependendo do tipo de rocha que forma a montanha, e as águas do rio acompanham esta ou aquela coloração. Perto de Chillas, as encostas das montanhas são cobertas de areia bem fininha como a das praias, apenas não tão branca. Chegamos nesta cidade às 20:30. O hotel onde me hospedo, o Shangrila Midway House, é muito legal. Construído na frente do rio Indo tem um enorme jardim, com árvores e flores de variadas espécies. Lanternas e luzinhas coloridas dão um toque festivo à noite. O quarto, amplo, com chão acarpetado de palha trançada e teto revestido com tirinhas de bambu bem fininhas. Vasos e pratos, enfeitados com pequenos pedaços de espelhos e ladrilhos coloridos, adornam mesas e prateleiras. Abajures, com lâmpadas amareladas, dão um toque aconchegante ao recinto. Durante a janta, um guia, amigo de Ali, vem cumprimentá-lo. Conta, sorridente, que alguns clientes alemães temem que Osama Bin Laden esteja escondido no topo do K2 (como se veio a saber anos depois, ele estava no país, sim, mas em Abbotabad!). Rio amarelo porque eu quase cancelara minha viagem em razão de matéria escrita por um jornalista do Terra Magazine, poucas semanas antes de minha partida, comentando que o chefe talebã estaria refugiado na região do Baltoro Glaciar. Durante a viagem, outros paquistaneses que conheci continuaram nessa pegada, gozando, educadamente, é claro, do temor dos turistas de que possa Bin Laden estar escondido em algum rincão do país, pronto a dar o bote em nós. Finalizam o deboche, afirmando que o terrorista está escondido, isso sim, é nos Estados Unidos, pertinho da Casa Branca. Essa é boa!! Bueno, antes de ir pro quarto, eu e Ali vamos fumar um cigarrinho no jardim. A lua cheia, ainda amarelada por tardios reflexos de raios de sol, imprime um rastro prateado na superfície d'água. Mal posso acreditar. Não é que estou na banda oriental do planeta?! Puxa vida!!

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Que calorão!

Quinta-feira e o jet lag ainda se faz sentir. Também pudera, são 9 horas a mais de diferença em relação ao Brasil. Fui com Mr. Baig à Masjid (mesquita) Faisal, um edifício enorme, de mármore branco, com quatro minaretes altíssimos. Há corredores que circundam o prédio. São dois andares, do segundo se pode apreciar as colinas de Margallah que circundam Islamabad, veladas por fina névoa causada pela atmosfera úmida. Desde que aqui cheguei, ainda não consegui ver o azul do céu, invariavelmente encoberto de nuvens. “Normal”, esclarece meu primo. Na entrada do imponente prédio, há um depósito com vários escaninhos onde, obrigatoriamente, os calçados são guardados em balaios de plástico. Quem prefere colocá-los num escaninho individual tem de pagar 5 rúpias (7 centavos de real). O passeio, então, é feito de pé descalço. Bando de peregrinos continuamente visitam a mesquita durante o ano inteiro. Vêm de todas as províncias do país, seja em carros particulares ou em ônibus fretados. Observo que poucos manipulam máquinas digitais, a maioria utiliza as antiquadas máquinas manuais. Ponho meu xale na cabeça e entro no interior do templo, uma sala enorme com armários de vidros onde estão dispostos vários textos sagrados do Alcorão. Mulheres entram por uma porta e os homens por outra. No interior, há um cordão separando os espaços destinados aos fiéis de ambos os sexos. Alguns homens, ajoelhados, batem suas testas no chão. Do lado feminino, ocorre o mesmo ritual. Já no lado de fora, entabulo papo com algumas paquistanesas que vieram de outra cidade. Elas perguntam, cautelosamente, se sou católica. Ficam muito contentes ao saber que eu também sou, já que esta religião, professada por uma minoria no país, ao que consta, é discriminada. Pedem pra tirar foto comigo. Ponho o xale na cabeça mas uma delas o retira rapidamente. Prefere minha cabeça descoberta. Logo após, vem outra moça do grupo, correndo: quer tirar outra foto comigo. Não caibo em mim de contentamento. Vão embora, dando bye bye, esvoaçantes em seus coloridos trajes típicos. Enquanto passeio pelos corredores externos, percebo uma linda e jovem mulher que me observa com olhos curiosos e ternos. Pergunto com sinais se posso fotografá-la. Ela, com os olhos, diz não. Meiga, tão meiga ela! Uma pena! Logo, logo, entendo sua negativa. Um homem se aproxima e com uma expressão carrancuda me fita. Trato de sair de perto .... de fininho. Um calor danado, só incomoda pelo fato de eu estar sem água pra beber. Há lojinhas de souvenirs e livrarias vendendo livros, por óbvio, religiosos. Pego meu sapato, não sem antes responder pro simpático atendente de onde venho. “Brasil? Ah, Ronaldo, Ronaldino”, exclama o homem radiante. Esses dois jogadores sempre serão lembrados quando revelo minha nacionalidade. Saio do templo e enfrento o sol voraz da uma da tarde. Mr. Baig me espera pacientemente do lado de fora do carro. Ao chegarmos a rua onde mora meu primo, vejo guardas particulares, com suas espingardas, sentados indolentes em cadeiras brancas de plástico. Um escuta um radinho enquanto outro fala no celular (todos têm um "mobile" já que a ligação aqui é muiiiitoooo barata). Um homem de bike passa pra lá e pra cá entoando algo, é o amolador facas, anunciando seus serivços. A frondosa mangueira, bem em frente à residência de meu primo, fornece uma bela sombra. Mais adiante, outro guarda se refresca do calor com um ventilador de pé. É incrível vê-los diante das casas jogando conversa fora, varrendo a calçada ou simplesmente sentados sem fazer nada. À noite, vou ao Hot Spot, barzinho considerado um point descolado na cidade. Pôsteres de filmes antigos decoram as paredes. Música moderna em alto e bom som. O sandu de galinha vem acompanhado de um purê de batata bem condimentado. Muito gostoso. Como não servem álcool, me contento com um café moschino gelado....fazer o quê? Sexta-feira, 7 da manhã, Ali, vem me buscar para fazermos um trekking em Margallah Hills, as colinas que circundam a cidade. Pedregosas e cobertas de vegetação, pertencem ao Himalaia (e eu, tão sabidinha, pensava que esta cordilheira só tinha montanhas acima de 7 mil metros!). A caminhada, segundo Ali, deve começar cedo para pegarmos o mínimo possível de sol forte. Dura quase 4 horas, e durante o passeio, consigo, finalmente, ver o azul do céu! Contudo, dura pouco, lá pelo meio dia o céu volta a nublar-se. Pra minha surpresa, vejo alguns pinheiros e, caídas no chão, pinhas, gente, pinha!! Descem a colina alguns homens. Ali explica que vão à mesquita orar. Pros mulçumanos, sexta-feira, equivale ao domingo dos católicos. Assim, todo bom muçulmano, onde quer que se encontre, em vez das cinco rezas diárias, com duração de, aproximadamente, 4 minutos cada, dirige-se nesse dia aos templos e lá se queda rezando durante uma hora. Bem no meio do caminho, uma vaca, escarrapachadíssima, obstrui o caminho. Apenas as grandes orelhas se mexem, abanando as moscas ao seu redor. Ali quer enxotá-la, entretanto, o impeço. “Oh, no, no, Ali!” (meu inglês é tão "fluente"). De volta à casa de meu primo, chama minha atenção homens, displicentemente, sentados nos canteiros das ruas: estão à espera de emprego. Quem descola algo se sente muito feliz, embora o salário mínimo seja 4.000 rúpias (60 dólares). O problema aqui é o usual de países pobres: muita mão de obra e pouca oferta de emprego. Atualmente, a população paquistanesa soma mais ou menos 150 milhões de pessoas numa área de 880.940 km²..... é gente pra caramba!! Quando cheguei aqui, no primeiro dia, fiquei impressionada com o aspecto fortemente militarizado do país. Em cada esquina, barricadas, feitas de sacos de areia, protegem soldados fortemente armados com metralhadoras e fuzis. Tendas de campanha armadas nos parques onde dão plantão membros das forças armadas. Isso acontece desde o ano passado quando ocorreu o massacre na mesquita Vermelha. A crise no país agravou-se, ainda mais este ano, com a demissão do presidente e outros juízes da Suprema Corte que se negaram a ratificar o estado de emergência, decretado pelo presidente Pervez Musharraf. Há uma forte resistência à legalidade da eleição presidencial, realizada em outubro de 2007, que reconduziu Pervez ao cargo de presidente do Paquistão. Como conseqüência, alguns setores da sociedade organizaram uma passeata de protesto, motivo pelo qual as forças armadas se mantêm em estado de alerta total. Também as residências particulares empregam vigilantes particulares e meu primo não foge à regra: contratou um guarda, muito simpático, meio velhusco, que fica sentado numa guarita do lado externo da casa. Portando uma espingarda calibre 12. Aqui, isso é normalíssmo e a gente acaba se habituando...fazer o quê, né?

segunda-feira, 16 de junho de 2008

O mágico Paquistão

Pois não é que estou indo pro Paquistão?!! Sim, sim e sim!! Tudo começou quando li o livro do Nicleviz falando sobre o país e da beleza de suas montanhas. Afora isso, recebi um convite de meu primo, Carlos Eduardo - vice-cônsul em Islamabad - para assistir ao seu casamento. Dá pra recusar? Então, é claro, excitada, comecei a preparar minha viagem em fevereiro. Através dum conhecido, obtive o email de Manoel Morgado, guia especializado em viagens à Ásia, que, por sua vez, me indicou a Panoramic Pakistan. Assim, dezenas de emails foram trocados entre mim e Tahir, proprietário dessa agência especializada em treks. Meu roteiro foi definido entre tantos treks oferecidos: ir até Concórdia onde se situam 4 dos picos com mais de 8 mil metros, entre eles o famoso K2. Pra minha sorte, a Emirates inaugurou uma linha aérea Sampa-Dubai e lá vou eu num poderoso avião 777, bem pimpona. O avião, lotado de brasileiros, a maioria de origem árabe. Muçulmanos rezam, na traseira da aeronave, ajoelhados sobre seus tapetinhos. Após 14 horas de vôo, chego a Dubai. Não posso sair do aeroporto porque não tenho visto, o que não me incomoda nem um pouco. Afinal, a espera é breve – 3 horas e 30 minutos - até embarcar no avião que me conduzirá a Islamabad. Há muita distração: inúmeras lojas, com os indefectíveis produtos de free shop, oferecem perfumes, cremes, bebidas alcoólicas, material eletrônico e roupas de marcas famosas, entre as quais se destacam as grifes Versace e Armani. Joalherias expõem jóias, cujo preço é calculado por grama de ouro. Muitas bijuterias, afora produtos típicos, como camelos, estatuetas de mulheres com burkas, esculpidas em madeira e porcelana, samovares, vasinhos, enfim, uma miscelânea de bugigangas de encher os olhos. Há também livrarias, cabeleireiros e duas salas destinadas a orações, uma masculina e outra feminina. Muita gente, sentada, espera seus vôos; outras, largadas, no chão acarpetado, dormem, bem à vontade. A maioria - árabes, indianos, paquistaneses, afegãos, afora os africanos com suas roupas coloridíssimas - perambula pelo imenso recinto. Poucos ocidentais. Mulheres de burka passam, envoltas em seus panos pretos, tais quais morceguinhos apressados. Homens, com longas barbas, vestem shalwar e kameez cujas tonalidades predominantes são branco, azul claro e bege. O avião parte de Dubai, pontualmente, e quando entra no espaço aéreo paquistanês, olho pela janela e avisto uma paisagem árida. À medida que nos aproximamos de Islamabad, tons de verde pincelam as montanhas. Já no desembarque, sinto um bafão de calor entrando narinas adentro: sei que o verão aqui é tórrido. O aeroporto é pequeno, minha passagem pela aduana se faz sem problema algum. Tudo muito rápido. A demora fica por conta das bagagens: 25 minutos até as duas malas surgirem na esteira. Meu primo está me esperando. Embarcamos em sua caminhonete enquanto o chofer, Mr. Baig, simpático e solícito, abre a porta pra eu entrar. Como é hora do rush, 9:30 da manhã, e o aeroporto fica perto de Rawalpindhi, uma cidade situada a 40 km de Islamabad, custamos quase uma hora até chegarmos a sua casa. Islamabad, com quase um milhão de habitantes, foi construída na década de 60 com o objetivo de facilitar a integração entre as províncias já que a antiga capital – Karachi - se situa no extremo sul do país, à beira do Mar Arábico, no Golfo Pérsico. Dizem que sua planificação foi inspirada na de Brasília....há, contudo, opiniões divergentes. Divide-se em setores e atualmente está na letra I. O país tem quatro províncias: Punjab, Sindh, Baluchistan e NWFP, além da Northern Areas e Kashimir. É uma cidade de curiosos contrastes: largas avenidas arborizadas são cortadas por ruas de chão batido. Imensas e suntuosas casas, tudo, porém, de gosto duvidoso. Sou atraída por um pitoresco tipo de transporte coletivo, coloridíssimo, em cuja carroceria há dois bancos dispostos um em frente ao outro. Onde normalmente caberiam 6 pessoas, espremem-se 12 criaturas, algumas sentadas no chão, isso sem contar as que se dependuram no estribo externo do veículo. Há espalhadas, na cidade, muitas áreas arborizadas e três lagos abastecem de água a capital. Este ano, Islamabad vem sofrendo cortes de luz, em horários pré-estabelecidos, com uma hora de duração, num total de 5 por dia. Em regiões pobres, os cortes duram 12 horas!! As velas estão sempre a mão no interior das casas. No passeio que dou pelas ruas adjacentes à casa de meu primo, escuto o canto dos moazan chamando os fiéis para as orações. Dura uns três minutos. É muito legal. Me sinto fora de casa mesmo....que legal!! Gralhas e corvos voam entre as árvores. Os homens me encaram curiosos, alguns tentam se aproximar mas desistem quando finjo que não os percebo. Escuto gracejos em urdu, a língua oficial do país. À tarde, o pessoal da agência me busca na casa de meu primo pra me levar até o Alpine Club Pakistan, entidade credenciada pelo Ministério do Turismo, a conceder o briefing, tanto para escalada quanto para trekking. Sou recebida pelo secretário da entidade, um senhor de barbas brancas que, após uma breve digressão sobre os malefícios do lixo deixado ao longo das trilhas, me entrega vários folhetos turísticos. Tudo muito rápido e sem grandes complicações. Meu inglês, apesar de fraquinho, dá pro gasto. No dia seguinte, terça-feira, depois de dormir 16 horas - deitei às 22:30 e acordei às 14:30 - acordo justo na hora do almoço. Provo o delicioso samosa, um bolinho feito de massa folhada finíssima, recheado com batata, legumes, carne ou frango. Passamos o dia em casa, nós três, meu primo, sua mulher, Renata, e eu, conversando. Lá pelas tantas os dois somem. Intrigada, me pergunto onde se enfiou o casal. Quando retornam, o mistério se esclarece pela cara de gatos satisfeitos dos dois: estavam no quarto. Afinal, ainda, estão em lua de mel! Na quarta-feira, acordo cedo com o barulho da chuva. A época das monções se aproxima. O céu continua encoberto e o calor está pegando. Vou à agência conversar sobre os preparativos do trek com Tahir, um homem calmo que adora o que faz. Ele me explica que, como a temporada de turismo está fraca, em decorrência de a situação política não ser lá das mais tranqüilas, serei a única turista a fazer a caminhada de 12 dias. Sou apresentada a Ali, meu guia. Moreno e magrinho, ele se mostra curioso sobre se gosto de bebidas alcoólicas. “Do you drink whisky? Meio receosa porque sei que os mulçumanos não aprovam o tragoléu, respondo, cautelosamente: “É...uma tacinha de vinho (que mentira!) quando chego em casa após o serviço”. Vejo seus olhos brilharem. Ele dá a entender que gosta do destilado. Após, peço que Mr. Baig me leve numa casa de câmbio onde troco dólares por rúpias. Guardas fortemente armados na porta do estabelecimento. Ai, ai, ai.... Saio de lá o mais rápido que posso. Vendedores ambulantes, nas calçadas, oferecem enormes pêssegos aveludados, mangas, cerejas, maçãs, melancias e melões. Não resisto e digo a ele que estacione o carro: compro 6 pêssegos e 3 mangas. Quando chego em casa, peço a Zulekha, a empregada, para fazer uma salada de frutas. Ela enverga a roupa tradicional: shalwar, qameez e chadar (tanto os homens quanto as mulheres usam o mesmo traje, uma calça comprida e uma bata que vai até a altura da canela. A diferença está na cor, o traje masculino é de uma única tonalidade: branco, bege ou azul claro; o feminino é colorido, exceto aquele usado por famílias mais severas cuja cor adotada é o preto). Alta, magra, porte elegante, 45 anos, Zulekha usa o cabelo trançado até a cintura. Fala toscamente o inglês. Embora não entenda patavina de português, curte ficar escutando nosso conversê, sentada, também, na sala, enquanto se abana majestosamente com um leque. Minha prima aponta pra ela e faz uma cara de desagrado. Eu rio, feliz, tão bom estar fora de casa!!

sábado, 24 de maio de 2008

Rapel na Pedra Branca

Retorno à Pedra Branca. Afinal, quero experimentar o rapel naqueles colossais paredões. Rafael, médico, cujo hobby são saltos de base jump ("pra poder agüentar a dor e a miséria humanas"), hospedado na casa de Kaloca, vai conosco. Veio do Paraná pra saltar do topo da Pedra. E ainda a Camile e o Gabriel, hóspedes, como eu, da Colina da Serra, que animados pela descrição de minhas aventuras, querem também fazer rapel. Ele, arquiteto, ela, dentista. No início, não dei nada por eles, depois me surpreenderam: não se acovardaram diante do abismo. Embarcamos no confortável LTD Galáxy dirigido pelo tranqüilo Rafael. Estamos todos animadísimos, afinal, vamos fazer molecadas, não é mesmo? Damos risadas das várias estorinhas que Kaloca desfia durante a viagem. O dia está lindo embora um tanto ventoso. Iniciamos a subida. Dessa feita, sinto menos cansaço porque caminho mais devagar. Ademais, eu e Rafael, os últimos da fila, vamos conversando o tempo todo. Quando chegamos ao topo da Pedra Branca, o vento está fortíssimo, coisa de 60km/h. Mal dá pra bater papo, impedidos que somos pelo barulhão da ventania. Contemplo o vale situado 600 metros abaixo e o rio Mampituba que serpenteia serelepe entre as encostas das serras. Rafael desiste de seu pulo (o vento em rajadas não dá moleza, é uma atrás da outra, sem tréguas) e após comermos chocolate e nozes pecãs, descemos até o ponto de onde iniciaremos os procedimentos de rapel. Coisa mais estranha o bicho homem. Pois não é que Rafa está com medo de rapelar conosco apenas 70 metros embora se lance de alturas 10 vezes maiores que esta? Kaloca pede que eu vá primeiro já que sou a mais experiente dos três. Me ponho em posição de rapel e lá vou eu descendo os 45 metros do paredão (pra mim, o mais difícil embora as paredes sejam secas) até atingir um pequeno platô com uns 2 m de comprimento por 1 metro de largura. Me dou conta de que o piso é formado apenas por galhos secos e nada mais, possivelmente, um ninho de urubus. Sinto vários e diversos arrepios só de pensar que, se uma jararaca aparecer, estarei entre a cruz e a caldeirinha. Saltar é impossível: espreita-me um abismo com mais de 500 m de altura, e subir só se eu fosse uma lagartixa. Nem tenho muito tempo pra ficar ruminando essa bad trip porque Gabriel, que desce, está com medo (é seu segundo rapel). Suas pernas demonstram isso: bem encolhidas. Oriento-o e busco animá-lo. Quando atinge o solo, continua nervoso, temendo que sua mulher, Camile, entre em pânico na descida. Mas qual o quê! Ela desce tranqüilita. Parece uma veterana, a guria. Logo depois Kaloca nos alcança, deslizando pela parede como se fosse uma salamandra tal sua destreza. Meu deus, noutra encarnação quero ser que nem ele! (no rapel, bem entendido). Morro de inveja e admiração desse cara! Rafael preferiu ficar lá em cima. Virá com Kaloca depois que terminarmos nossos rapéis. Bueno, pra atingirmos o ponto de onde deveremos iniciar a segunda descida, Kaloca improvisa um corrimão com cordas porque o local da aproximação é bem complicado. Exige uma pequena escalada horizontal. Fico meio nervosa, Kaloca com seu jeito brincalhão me infunde segurança e eu venço o obstáculo. A descida – 25 metros - é rápida, mesmo assim tenho tempo de admirar gigantescas bromélias e cactus pendurados nos paredões da rocha. Confesso: sempre rola um medinho cada vez que rapelo, entretanto a adrenalina que este esporte me provoca acaba fazendo com que eu queira mais e mais. Percorremos uma trilhazinha bem estreita situada na base da parede (estamos ainda a uns 400 m do chão) e alcançamos, ufa!, em segurança a trilha principal. Kaloca sobe o morro, vai preparar Rafael, que se decidiu a experimentar o rapel. Nós preferimos esperá-los lá embaixo e continuamos a descer a trilha que requer cuidado porque é íngreme pra caramba. Quando estamos próximos ao rio, uma bergamoteira chama nossa atenção, e Gabriel se prontifica a subir na árvore e colher as frutas. Estão uma delícia, bem docinhas. Estamos ali conversando e chupando as bergas quando escutamos o animado grito de guerra de Kaloca, descendo a encosta junto com Rafa. Não dá nem 5 minutos e os dois se juntam a nós. A tarde já está findando e atrás dum morro os últimos raios de sol tingem o horizonte dum vermelho pálido. Entramos no carro e retornamos à pousada, radiantes. Nosso espírito aventureiro está, temporariamente, saciado. Resta saber até quando...

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Travessia do Malaca

Embora tenha de acordar às 5 da matina, levanto animadíssima. A pedida é rapelar as noves primeiras cachoeiras do canion Malacara. Às 6 em ponto, Kaloca aponta na pousada, me empoleiro na moto e subimos a serra do Faxinal até o lugar onde amoitamos a motoca. Pulamos a cerca e ficamos filmando e curtindo: dum lado, o belo nascer do sol; do outro, a lua ainda cheia, num céu já principiando a nublar. Merda, será possível que vai chover? Era só o que faltava, poxa!! Chegamos na borda do canion e vamos direto pra segunda cachoeira com 12 m (a primeira é muito banalzinha, apenas 3 m). No início, levei um pouco de receio porque o espaço pra descer é um brete formado pelos paredões do canion distantes um do outro pouco mais de 1,50 m. À medida que vou dando corda percebo que é moleza, a outra parede até me ajuda pois me escora. Não posso dizer o mesmo da temperatura da água: está fria pra caramba. Pra piorar, o céu nublou geral o que intensifica mais a sensação de frialdade, além de deixar o canion com uma aparência nada amistosa. Inda bem que a terceira cachoeira está próxima, 50 metros de distância, se tanto. Também com 12 m, desço facilmente suas paredes cheias de degraus e cobertas de limo. O problema continua a ser a água, está deveras fria.....brrrrr!!! Embora usando roupa de neoprene, a vestimenta não impede que a água entre e resfrie a pele. A desagradável sensação de frio quando caio no poço me faz bater queixo. Começo a dar tapas no corpo numa tentativa de aquecê-lo. Tenho de fazer um parênteses pra falar das luvas fornecidas por Kaloca. Cada qual é de um material diferente: uma, de lã preta, bem justinha, se adapta à minha mão perfeitamente; a outra, de algodão branco, do tipo que se usa pra fazer rapel, é grande demais, sobra pano na ponta dos dedos. Claro está que vira piada. Kaloca diz que é a última sensação em matéria de moda. Eu entro na onda e reforço acrescentando que Chanel, se viva fosse (Kaloca, completamente ignorante em matéria de moda, como a maioria dos homens, nem sabe quem foi a francesa), teria morrido de inveja de tal fashionismo. Voltando ao rapel: Kaloca, sempre rápido, prepara as cordas pra ancoragem da quarta cachoeira, essa sim, grandona, com 45 metros. Ele desce na frente pois quer me filmar lá de baixo. Quando grita, lá me vou deslizando entre as pedras, estas, sim, bem escorregadias, falseio os pés várias vezes (as botas de trekking que uso, por óbvio, são totalmente inadequadas); um rapel negativo, no meio da queda d’água, facilita, graças a deus, a descida até o poço. Já em terra, filmo um pouco a paisagem ao redor, o frio me impede, contudo, de continuar, tremo demais. A distância entre a quarta e a quinta cachoeira é bem curta - uma pena - porque gostaria de caminhar mais pra esquentar o corpo. Estou tiritando e Kaloca, condoído, observa que meus lábios estão roxos. Chegamos na borda da quinta cachoeira - 30 metros - e rapelo-a sem maiores dificuldades. Sei lá por quê, eu supunha o canionismo no Malaca super difícil. Constato que é tranqüilo, sem grandes dificuldades técnicas. Kaloca me filma do alto enquanto desço. Consigo até fazer pose...eu hein?! Já no chão, escuto meu estômago emitindo leves ronquinhos, sinal denunciador de fome, mas nem penso em parar pra comer. Estou com muiiitooo frio. Quero mais é terminar de rapelar as cachoeiras que faltam porque observo que lá em cima - o céu desanuviou-se por completo e o sol brilha firme e forte - deve estar muito bom. E lá vamos nós pra sexta cachoeira, apelidada Do Retorno. Conquanto seja uma rampa bem inclinada, é coberta de musgo verdinho e apresenta inúmeros degraus que favorecem a descida. Kaloca decide que nós não vamos rapelar a sétima cachoeira, uma rampa suave, muito bonita, aliás. Damos um balão nela e entramos numa trilha de mato cerrado, situada no paredão norte, até chegarmos na oitava queda d'água. Com um pouco mais de 20 m, é bem larga, ao contrário das outras, todas vias estreitas. A vinte metros, situa-se a nona, nossa última cachoeira do dia, com 30 metros de altura (mas não a do Malacara, porque o canion ainda tem mais nove). Descemos até o poço e retornamos até a oitava cachoeira onde largáramos nossas mochilas. Enveredamos por uma trilha aberta no paredão sul (na verdade uma pirambeira aberta no meio do mato) e por ela subimos. Kaloca, à frente, indica o caminho. Escalo pedras, me agarro em raízes, cipós e troncos de árvores, o caminho está sendo mais difícil e cansativo que rapelar as 7 cachoeiras. Depois de 1 hora de árdua subida - e põe árdua nisso – saímos do interior do canyon, alcançando os campos de cima da serra. Troco a roupa molhada por uma seca (havíamos escondido nossas roupas num matinho), e relaxo, alongando meus músculos. Só depois de todo esse ritual, tiro da mochila o sanduíche que Mariazinha preparara pra mim e me atraco. Que fome!! Ficamos ali descansando um pouco e lá pelas 15:30 iniciamos o retorno. O dia tornara-se lindo. O céu, bem azul, exibe aqui e ali fiapos de nuvens branquinhas, um calorzinho maneiro aquece o corpo, dá até pra suar, e aquela paz na vastidão da campina, sem sinal algum de outros viventes. Entramos num capão, e dou de cara com uma linda orquídea vermelha pendurada num galho de árvore. As barbas de bode caem abundantemente das árvores, indicativo de ar puríssimo! Aleluia!! O caminho turfado, bastante úmido, exige atenção. Pulo com cuidado por entre os tufos de grama, se assim não for - já viram, né? - posso afundar os pés na lama até os tornozelos. Passamos por um bando de urubus, pousados numas pedras, à espreita de que a carcaça de um boi, morto a poucos metros de distância, apodreça. Só gostam de papa fina: carne faisandé...pode?! Mal chegamos na estrada, o pôr do sol mais parece um incêndio! No horizonte, concentra-se um fuzuê de tonalidades de vermelho. Qualquer coisa de espetacular. E dando o toque final no cenário, um rabisco rosa corta o céu em diagonal, rastro deixado pela passagem dum avião. E eu estou em paz!! Fiz o que há muito desejava: rapelar algumas cachoeiras do mítico Malaca!

quinta-feira, 22 de maio de 2008

No cume da Pedra Branca

Depois do chuvoso feriado de 1º de maio em Praia Grande, cuja única atividade possível de ser praticada foi a do rapel na garganta do Tupy, pego a estrada e me mando novamente pra lá. Dessa feita, as perspectivas pro feriadão de Corpus Christi são animadoras, segundo prevê a meteorologia. Chego na cidade e o dia lindo, quente, anuncia um esplêndido veranico de maio. Como sempre, sou carinhosamente recebida por Mariazinha, a dona da pousada Colina da Serra. Almoço às pressas o ranguinho sempre gostoso feito por ela. Mal temos tempo de trocar umas idéias pois, pouca demora, Kaloca aponta montado em sua “possante”, uma destemida motoca 150 cc. E lá vamos nós, livres, leves e soltos estrada afora em direção à Pedra Branca. Esta formação rochosa, situada no Rio Grande do Sul, eleva-se a 600 metros do nível do mar e constitui a parte final da encosta norte do cânion Josafaz. Seu nome vem da aparência esbranquiçada de suas paredes de basalto causadas não só pela ação da intempérie e dos líquenes como da possível presença de resíduos de sal deixados por um antigo mar que ocupou a região há milhões de anos atrás. Aproveito e faço filmagens enquanto a moto, célere, percorre a péssima estrada de terra que conduz à comunidade de São Roque. Deixamos a "possante" em frente a sede social do lugarejo. Ao invés do turbulento rio que não pudéramos atravessar no feriado do Dia dos Trabalhadores, a correnteza do Mampituba flui mansa e suas águas escorrem sem pressa rumo ao norte. A subida é ár-du-a e o calor tá pegando, algo em torno de 28ºC; paro um monte de vezes pra recuperar o fôlego. Nem ligo pro cansaço, porque sou recompensada pela estupenda visão do vale que se espraia lá embaixo. A minha frente, vislumbro as encostas verdejantes de três canions: ao sul, o Josafaz e o Mampituba, ao norte, o Faxinalzinho. Pesquisando, posteriormente, os canions, no Google Earth, percebo que os três formam um “T” cujos braços da letra representam os canions Josafaz e Faxinalzinho, situado o primeiro à sudeste e o segundo à noroeste, enquanto o canion Mampituba, ou São Gorgonho, é a perninha da letra, também situado à sudeste. De onde estou, distingo o encontro do arroio Josafaz com o rio Mampituba, engrosssado mais adiante pelo rio Faxinalzinho. Chegamos no topo da Pedra Branca e avisto lá longe, a 20 km de distância a quase adivinhada Praia Grande. Nossos planos de rapelar a parede norte da imponente formação rochosa são abortados, infelizmente, já que Kaloca esquecera de trazer sua cadeirinha. Que droga!! Me sinto levemente frustrada. Entretanto, tal sentimento dura pouquíssimo, logo sou distraída pelo vôo de um gavião exibindo uma longa cauda dupla, como se fosse um tesoura levemente aberta. Nesse lugar tão lindo, soturnas cavilações duram menos que um piscar de olhos, aleluia!! Na pousada, a janta, esplêndida, cheia de apetitosas comidinhas (a sobremesa é divina: sagu com vinho tinto além de pudim de leite condensado), me faz comer sem peias. Só não durmo feito um anjo durante a noite porque sou acordada, em plena madrugada, pelo barulhão estrepitoso da veneziana indo de encontro ao batente da porta-janela. Lá fora, a ventania, fortíssima, açoita árvores que farfalham resfolegantes. Dou um peteleco em Morfeu e fico curtindo os sons da irritada natureza até ser rendida pelo sono.