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domingo, 7 de junho de 2009

Conquista duma via de trek

Já tenho a minha tenda favorita na Estrada do Mar quando vou a Praia Grande. É a tenda do Veio. Mal se desce do carro, um atendente avança em minha direção e oferece petiscos variados: pedaços de abacaxi, salames, queijos de variadas qualidades, arrematando o banquete com biscoitos. Meu lanche da tarde é de graça, hehehe. Chego à tardinha na pousada Colina da Serra, e uma lua quase cheia aponta no céu limpinho de nuvens. Mariazinha espera dois hóspedes, motivo pelo qual a janta é servida no refeitório. Quando só estou eu aqui de hóspede, prefiro fazer as refeições na cozinha, super quentinha, graças ao fogão a lenha sempre aceso. Um aconchego só! A comidinha caseira que a gringa oferece está super apetitosa: bifes acebolados, arroz soltinho, feijão, batatinhas na manteiga, salada e de sobremesa, figo com pudim de leite! Deito cedo, estou podre de cansada, também pudera, acordei seis da manhã em Porto! Sábado, passo na casa de Kaloca e seu pai, seu Aniceto, nos leva em sua caminhonete, até o ponto de onde iniciaremos nossa caminhada. Vamos desbravar uma trilha rumo ao primeiro platô da parede norte do cânion Malacara. É meio-dia e lá vamos nós carregando nossas mochilas por uma senda que conduz até a crista da montanha. Carrego comigo os bastões que depois se revelaram não só desnecessários como incomodativos nesse tipo de trek....enfim. Embora estejamos subindo, a trilha, no início, não é difícil apesar das taquaras que vez por outra se emaranham no capuz da jaqueta presa no lado de fora da mochila com um pequeno mosquetão. Mas a moleza acaba porque logo adiante o mato se torna mais denso. É um tal de cipó enredando-se no meu corpo e raízes no chão dando calços nas minhas canelas que por pouco não me estabaco no chão. A trilha, feita por caçadores, é pouco utilizada nos dias de hoje em que a caça é controlada e punida. É um matagal sem fim, bem ruinzinho de se caminhar. Raros raios de sol penetram através da densa vegetação. Saímos, enfim, daquele cipoal e respiro, contente, de me ver livre de matagal tão enfezado. Mas qual o quê! A coisa engrossa quando deparo com um paredão de 245 m cuja escalada é inevitável. Obra de avalanches provocadas por sucessivas enxurradas, a encosta agora se apresenta desnuda de terra e vegetação, dificultando ainda mais o ascenso. Muitas das pedras nas quais me firmo deslocam-se, causando-me calafrios de pavor. Tremo nas bases. A vontade é de dar meia volta, volver. Kaloca, entretanto, dá uma força, ora me empurrando ora me içando. Eu só fico no aiaiaiai, gemendo, louca de medo de rolar ribanceira abaixo. E mal ouso lançar um olhar em direção ao despenhadeiro que se delineia aos meus pés. Pergunto aos meus botões o motivo pelo qual me meto nessas empreitadas. Concentradíssima em avançar e me ver livre de tal martírio, continuo a escalada, sentindo-me meio humilhada, porque estou sendo guindada, literalmente, pelo meu eficiente guia. Finalmente, chegamos ao fim da carrasqueira. Uma pequena façanha porque escalamos rochas super quebradiças sem segurança alguma (Kaloca esquecera de trazer corda). Segundo ele, fizemos uma escalada de 3º grau. Suspiro aliviadíssima quando tudo termina. Triste engano. Espera-nos uma mata de bambuzal virgem, ultra cerrada, que Kaloca corta a golpes de facão. Ele, cujo cabelão comprido enrosca-se, amiúde, nos galhos dos arbustos, resmunga, entredentes, que vai cortá-lo a facão. Falo pra usar touca. Pois o, até então, paciente guia quase tem um chilique com tal sugestão. Explica que a tal touca – de lã – vai fazer com que sue. E segue dando faconaços nos bambus a torto e a direito! Antes eles do que eu, hehehe!! O terreno, forrado por folhas de bambu, é muito fofo, dificultando mais ainda a caminhada. E lá vamos nós subindo os 130m que faltam pra atingir o topo da parede norte do cânion Malacara. Demoramos, pra vencer esses 375 m, 2 horas e 30 minutos! Quando atingimos o platô, situado a uma altitude de 1.000 m acima do nível do mar, sou contemplada com a visão duma parte da parede norte do cânion Churriado. Lá embaixo, no vale, Praia Grande parece uma cidade de brinquedo, tão diminuta está a essa distância. E a lua cheia já se mostra, perfeitamente, visível no céu, embora sejam apenas 17:30! Coisa linda tal cenário! Eu, bem feliz, supondo que agora a trilha seria sobre um terreno plano, rapidinho, percebo que estou andando nos campos sujos de cima da serra. Forrados de urtigão, capim alto e pequenos arbustos, a caminhada se faz árdua. Levo vários trompaços nas canelas quando esbarro nos caules duros dos urtigões e gemo de dor. Não paro de exclamar “merda” e “droga” a cada minuto palmilhado. E o tal trek nunca acaba. Pra piorar, o alto capinzal esconde Kaloca de meus olhos. E eu perdidona naquela imensidão sem fim. Kalooooocaaa!!! grito eu, amedrontada (como sou cagona...santo cristo!). Obtenho como resposta apenas o silêncio, pois Kaloca, meio surdo, nem deve estar escutando meu aflito apelo. Fazer o quê, né? Sigo em frente. Lá pelas tantas - graças ao bom deus! - avisto a jaqueta dele e recobro ânimo, segura agora da direção a seguir. Quando o alcanço, ele já está armando a barraca. A clara luz do luar dispensa o uso de lanterna, tão iluminada está a paisagem ao redor. O silêncio que paira nestes ermos soa como a mais linda música nos meus estressados ouvidos urbanos. De comida, há queijo, salame e pão. Kaloca prepara uma sopa, a calhar com a baixa temperatura que já se faz sentir. Nem quero saber de curtir a fogueira, tampouco a lua no céu. Estou com muiiiitoooo frioooo!! Entro dentro da barraca, me enfio no saco de dormir e demoro quase uma hora pra aquecer meus pés, duas barras de gelo. Nem bem nove da noite, a temperatura já atinge 0º C, e no teto da barraca há lasquinhas de gelo! Acordo apenas duas vezes durante a noite pra virar de lado! Às 7 da manhã, bem desperta, fico remanchando até as 8, quando não agüentando mais a vontade de fazer xixi, sou obrigada a sair de dentro da barraca. Quando retorno, acordo Kaloca. Ele me conta que ficou à beira da fogueira até 1 da madruga. Guri valente esse, segura todas as ondas, inclusive a de frio de renguear cusco!! E ficamos na boa ali em cima, curtindo o Malacara, o Índios Coroados e o Orbal que se avistam um ao lado do outro. Daqui de onde estou, consigo avistar, também, a tal garganta, ainda, inexplorada da parede sul do Malaca. Enquanto Kaloca desmonta o acampamento, vou buscar água num córrego, tropeçando nos urtigões. Desajeitada demais eu! E ficamos durante a fria manhã, cuja temperatura beira os 9º C, nos aquecendo em frente à fogueira. Conversamos, damos muita risada das bobageiras ditas e cozinhamos uma massa miojo a qual misturamos sardinha com molho de tomate. Um baita almoço domingueiro o nosso! Ao meio-dia, mochilas nas costas, partimos. Eu tremo só de imaginar que vou ter de descer aquela parede e ter de encarar o precipício de frente......aiaiai. E não deu outra! Foi uma tormentosa descida, auxiliada pela mão firme de meu guia. E o matagal inicial, que me parecera tão moleza na vinda, é trilhado aos trancos e barrancos em sua parte final. Cansada de tanta aventura, a irritação toma conta de mim e excomungo Kaloca durante aquela parte do trajeto (intimamente, é claro). Entretanto, o mal querer se dissipa quando avisto, por entre os galhos das árvores, a lua enorme, amarelona, a despontar na penumbra da tarde que se despede.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Travessia do Malaca

Embora tenha de acordar às 5 da matina, levanto animadíssima. A pedida é rapelar as noves primeiras cachoeiras do canion Malacara. Às 6 em ponto, Kaloca aponta na pousada, me empoleiro na moto e subimos a serra do Faxinal até o lugar onde amoitamos a motoca. Pulamos a cerca e ficamos filmando e curtindo: dum lado, o belo nascer do sol; do outro, a lua ainda cheia, num céu já principiando a nublar. Merda, será possível que vai chover? Era só o que faltava, poxa!! Chegamos na borda do canion e vamos direto pra segunda cachoeira com 12 m (a primeira é muito banalzinha, apenas 3 m). No início, levei um pouco de receio porque o espaço pra descer é um brete formado pelos paredões do canion distantes um do outro pouco mais de 1,50 m. À medida que vou dando corda percebo que é moleza, a outra parede até me ajuda pois me escora. Não posso dizer o mesmo da temperatura da água: está fria pra caramba. Pra piorar, o céu nublou geral o que intensifica mais a sensação de frialdade, além de deixar o canion com uma aparência nada amistosa. Inda bem que a terceira cachoeira está próxima, 50 metros de distância, se tanto. Também com 12 m, desço facilmente suas paredes cheias de degraus e cobertas de limo. O problema continua a ser a água, está deveras fria.....brrrrr!!! Embora usando roupa de neoprene, a vestimenta não impede que a água entre e resfrie a pele. A desagradável sensação de frio quando caio no poço me faz bater queixo. Começo a dar tapas no corpo numa tentativa de aquecê-lo. Tenho de fazer um parênteses pra falar das luvas fornecidas por Kaloca. Cada qual é de um material diferente: uma, de lã preta, bem justinha, se adapta à minha mão perfeitamente; a outra, de algodão branco, do tipo que se usa pra fazer rapel, é grande demais, sobra pano na ponta dos dedos. Claro está que vira piada. Kaloca diz que é a última sensação em matéria de moda. Eu entro na onda e reforço acrescentando que Chanel, se viva fosse (Kaloca, completamente ignorante em matéria de moda, como a maioria dos homens, nem sabe quem foi a francesa), teria morrido de inveja de tal fashionismo. Voltando ao rapel: Kaloca, sempre rápido, prepara as cordas pra ancoragem da quarta cachoeira, essa sim, grandona, com 45 metros. Ele desce na frente pois quer me filmar lá de baixo. Quando grita, lá me vou deslizando entre as pedras, estas, sim, bem escorregadias, falseio os pés várias vezes (as botas de trekking que uso, por óbvio, são totalmente inadequadas); um rapel negativo, no meio da queda d’água, facilita, graças a deus, a descida até o poço. Já em terra, filmo um pouco a paisagem ao redor, o frio me impede, contudo, de continuar, tremo demais. A distância entre a quarta e a quinta cachoeira é bem curta - uma pena - porque gostaria de caminhar mais pra esquentar o corpo. Estou tiritando e Kaloca, condoído, observa que meus lábios estão roxos. Chegamos na borda da quinta cachoeira - 30 metros - e rapelo-a sem maiores dificuldades. Sei lá por quê, eu supunha o canionismo no Malaca super difícil. Constato que é tranqüilo, sem grandes dificuldades técnicas. Kaloca me filma do alto enquanto desço. Consigo até fazer pose...eu hein?! Já no chão, escuto meu estômago emitindo leves ronquinhos, sinal denunciador de fome, mas nem penso em parar pra comer. Estou com muiiitooo frio. Quero mais é terminar de rapelar as cachoeiras que faltam porque observo que lá em cima - o céu desanuviou-se por completo e o sol brilha firme e forte - deve estar muito bom. E lá vamos nós pra sexta cachoeira, apelidada Do Retorno. Conquanto seja uma rampa bem inclinada, é coberta de musgo verdinho e apresenta inúmeros degraus que favorecem a descida. Kaloca decide que nós não vamos rapelar a sétima cachoeira, uma rampa suave, muito bonita, aliás. Damos um balão nela e entramos numa trilha de mato cerrado, situada no paredão norte, até chegarmos na oitava queda d'água. Com um pouco mais de 20 m, é bem larga, ao contrário das outras, todas vias estreitas. A vinte metros, situa-se a nona, nossa última cachoeira do dia, com 30 metros de altura (mas não a do Malacara, porque o canion ainda tem mais nove). Descemos até o poço e retornamos até a oitava cachoeira onde largáramos nossas mochilas. Enveredamos por uma trilha aberta no paredão sul (na verdade uma pirambeira aberta no meio do mato) e por ela subimos. Kaloca, à frente, indica o caminho. Escalo pedras, me agarro em raízes, cipós e troncos de árvores, o caminho está sendo mais difícil e cansativo que rapelar as 7 cachoeiras. Depois de 1 hora de árdua subida - e põe árdua nisso – saímos do interior do canyon, alcançando os campos de cima da serra. Troco a roupa molhada por uma seca (havíamos escondido nossas roupas num matinho), e relaxo, alongando meus músculos. Só depois de todo esse ritual, tiro da mochila o sanduíche que Mariazinha preparara pra mim e me atraco. Que fome!! Ficamos ali descansando um pouco e lá pelas 15:30 iniciamos o retorno. O dia tornara-se lindo. O céu, bem azul, exibe aqui e ali fiapos de nuvens branquinhas, um calorzinho maneiro aquece o corpo, dá até pra suar, e aquela paz na vastidão da campina, sem sinal algum de outros viventes. Entramos num capão, e dou de cara com uma linda orquídea vermelha pendurada num galho de árvore. As barbas de bode caem abundantemente das árvores, indicativo de ar puríssimo! Aleluia!! O caminho turfado, bastante úmido, exige atenção. Pulo com cuidado por entre os tufos de grama, se assim não for - já viram, né? - posso afundar os pés na lama até os tornozelos. Passamos por um bando de urubus, pousados numas pedras, à espreita de que a carcaça de um boi, morto a poucos metros de distância, apodreça. Só gostam de papa fina: carne faisandé...pode?! Mal chegamos na estrada, o pôr do sol mais parece um incêndio! No horizonte, concentra-se um fuzuê de tonalidades de vermelho. Qualquer coisa de espetacular. E dando o toque final no cenário, um rabisco rosa corta o céu em diagonal, rastro deixado pela passagem dum avião. E eu estou em paz!! Fiz o que há muito desejava: rapelar algumas cachoeiras do mítico Malaca!