sexta-feira, 23 de maio de 2008

Travessia do Malaca

Embora tenha de acordar às 5 da matina, levanto animadíssima. A pedida é rapelar as noves primeiras cachoeiras do canion Malacara. Às 6 em ponto, Kaloca aponta na pousada, me empoleiro na moto e subimos a serra do Faxinal até o lugar onde amoitamos a motoca. Pulamos a cerca e ficamos filmando e curtindo: dum lado, o belo nascer do sol; do outro, a lua ainda cheia, num céu já principiando a nublar. Merda, será possível que vai chover? Era só o que faltava, poxa!! Chegamos na borda do canion e vamos direto pra segunda cachoeira com 12 m (a primeira é muito banalzinha, apenas 3 m). No início, levei um pouco de receio porque o espaço pra descer é um brete formado pelos paredões do canion distantes um do outro pouco mais de 1,50 m. À medida que vou dando corda percebo que é moleza, a outra parede até me ajuda pois me escora. Não posso dizer o mesmo da temperatura da água: está fria pra caramba. Pra piorar, o céu nublou geral o que intensifica mais a sensação de frialdade, além de deixar o canion com uma aparência nada amistosa. Inda bem que a terceira cachoeira está próxima, 50 metros de distância, se tanto. Também com 12 m, desço facilmente suas paredes cheias de degraus e cobertas de limo. O problema continua a ser a água, está deveras fria.....brrrrr!!! Embora usando roupa de neoprene, a vestimenta não impede que a água entre e resfrie a pele. A desagradável sensação de frio quando caio no poço me faz bater queixo. Começo a dar tapas no corpo numa tentativa de aquecê-lo. Tenho de fazer um parênteses pra falar das luvas fornecidas por Kaloca. Cada qual é de um material diferente: uma, de lã preta, bem justinha, se adapta à minha mão perfeitamente; a outra, de algodão branco, do tipo que se usa pra fazer rapel, é grande demais, sobra pano na ponta dos dedos. Claro está que vira piada. Kaloca diz que é a última sensação em matéria de moda. Eu entro na onda e reforço acrescentando que Chanel, se viva fosse (Kaloca, completamente ignorante em matéria de moda, como a maioria dos homens, nem sabe quem foi a francesa), teria morrido de inveja de tal fashionismo. Voltando ao rapel: Kaloca, sempre rápido, prepara as cordas pra ancoragem da quarta cachoeira, essa sim, grandona, com 45 metros. Ele desce na frente pois quer me filmar lá de baixo. Quando grita, lá me vou deslizando entre as pedras, estas, sim, bem escorregadias, falseio os pés várias vezes (as botas de trekking que uso, por óbvio, são totalmente inadequadas); um rapel negativo, no meio da queda d’água, facilita, graças a deus, a descida até o poço. Já em terra, filmo um pouco a paisagem ao redor, o frio me impede, contudo, de continuar, tremo demais. A distância entre a quarta e a quinta cachoeira é bem curta - uma pena - porque gostaria de caminhar mais pra esquentar o corpo. Estou tiritando e Kaloca, condoído, observa que meus lábios estão roxos. Chegamos na borda da quinta cachoeira - 30 metros - e rapelo-a sem maiores dificuldades. Sei lá por quê, eu supunha o canionismo no Malaca super difícil. Constato que é tranqüilo, sem grandes dificuldades técnicas. Kaloca me filma do alto enquanto desço. Consigo até fazer pose...eu hein?! Já no chão, escuto meu estômago emitindo leves ronquinhos, sinal denunciador de fome, mas nem penso em parar pra comer. Estou com muiiitooo frio. Quero mais é terminar de rapelar as cachoeiras que faltam porque observo que lá em cima - o céu desanuviou-se por completo e o sol brilha firme e forte - deve estar muito bom. E lá vamos nós pra sexta cachoeira, apelidada Do Retorno. Conquanto seja uma rampa bem inclinada, é coberta de musgo verdinho e apresenta inúmeros degraus que favorecem a descida. Kaloca decide que nós não vamos rapelar a sétima cachoeira, uma rampa suave, muito bonita, aliás. Damos um balão nela e entramos numa trilha de mato cerrado, situada no paredão norte, até chegarmos na oitava queda d'água. Com um pouco mais de 20 m, é bem larga, ao contrário das outras, todas vias estreitas. A vinte metros, situa-se a nona, nossa última cachoeira do dia, com 30 metros de altura (mas não a do Malacara, porque o canion ainda tem mais nove). Descemos até o poço e retornamos até a oitava cachoeira onde largáramos nossas mochilas. Enveredamos por uma trilha aberta no paredão sul (na verdade uma pirambeira aberta no meio do mato) e por ela subimos. Kaloca, à frente, indica o caminho. Escalo pedras, me agarro em raízes, cipós e troncos de árvores, o caminho está sendo mais difícil e cansativo que rapelar as 7 cachoeiras. Depois de 1 hora de árdua subida - e põe árdua nisso – saímos do interior do canyon, alcançando os campos de cima da serra. Troco a roupa molhada por uma seca (havíamos escondido nossas roupas num matinho), e relaxo, alongando meus músculos. Só depois de todo esse ritual, tiro da mochila o sanduíche que Mariazinha preparara pra mim e me atraco. Que fome!! Ficamos ali descansando um pouco e lá pelas 15:30 iniciamos o retorno. O dia tornara-se lindo. O céu, bem azul, exibe aqui e ali fiapos de nuvens branquinhas, um calorzinho maneiro aquece o corpo, dá até pra suar, e aquela paz na vastidão da campina, sem sinal algum de outros viventes. Entramos num capão, e dou de cara com uma linda orquídea vermelha pendurada num galho de árvore. As barbas de bode caem abundantemente das árvores, indicativo de ar puríssimo! Aleluia!! O caminho turfado, bastante úmido, exige atenção. Pulo com cuidado por entre os tufos de grama, se assim não for - já viram, né? - posso afundar os pés na lama até os tornozelos. Passamos por um bando de urubus, pousados numas pedras, à espreita de que a carcaça de um boi, morto a poucos metros de distância, apodreça. Só gostam de papa fina: carne faisandé...pode?! Mal chegamos na estrada, o pôr do sol mais parece um incêndio! No horizonte, concentra-se um fuzuê de tonalidades de vermelho. Qualquer coisa de espetacular. E dando o toque final no cenário, um rabisco rosa corta o céu em diagonal, rastro deixado pela passagem dum avião. E eu estou em paz!! Fiz o que há muito desejava: rapelar algumas cachoeiras do mítico Malaca!
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Um comentário:

VALDO disse...

O Malacara sempre me fascinou pelas dificuldades apresentadas, muitos trechos de corda e alguns negativos interessantes. Isso é o que diziam meus amigos. O simples fato de sua boca abrir para o mar e avistarmos Praia Grande desde a cabeceira confere uma configuração muito interessante a este cânion. Sua descrição mostra uma travessia 'tranquila'. O Malacara já foi palco de acidentes marcantes, com muito sofrimento para resgate dos feridos, ambos ocupando horas de subida da maca, carregada por quatro homens, através da subida de pedras que dá no matinho de sua borda sul, local preferencial para a entrada dos que querem evitar as longas quedas do caminho convencional. Também ocorreram duas mortes em seu interior, um rapaz de Torres, que escapou da corda em uma das últimas quedas e também a de um turista holandês, até hoje não muito bem explicada (fala-se em suicídio).