Em tempos de Copa, a vila do Capão só pensa no jogo Brasil x Croácia. O dia amanheceu nublado e garoando. O mau tempo que ontem se instalara sobre a região parece que vai permanecer mais um dia. Saio pra dar uma banda e observar como estão os ânimos do povo do lugar, antes de ir à casa de Silvia que, amavelmente, me convidara pra comer uma carne e assistir ao jogo em sua casa. Sento à soleira da porta de uma casa que vende pastéis de jaca e peço um pra provar. Uma delícia tanto que peço outro assim que acabo de comer o primeiro. Continuo por ali terminando meu segundo pastel de jaca com queijo enquanto curto os preparativos dos habitantes para o jogo num vai e vem animado pela rua principal e cruzando a praça pra lá e pra cá. Iuri, o filho mais moço de Silvia, passa por mim e indago se não vai assistir ao jogo na casa de sua mãe. Ele responde com uma negativa, esclarecendo que prefere assistir ao jogo no restaurante Flamboyam, porque segundo parece será colocado um telão (depois fiquei sabendo que o tal telão na verdade era uma tv 29’'). Como a garoa não dá trégua vou até a pousada pegar uma capa e me mando pra casa de Silvia distante da Vila uns dez minutos.
Em lá chegando, encontro-a alegremente fritando com uma mão a carne enquanto com a outra segura o neto, Tito, apoiado em sua ilharga. Diz que não tem paciência pra assistir jogo na televisão, prefere ficar na cozinha fazendo comida pra nós. Já se encontram na casa, Maria Clara, nora de Silvia, casada com Tassio, dono da única casa de informática do lugarejo. São os pais de Tito. Batman bem nervoso não sai da frente da tv, falando mal de Parreira. Há também um casal vindo de Salvador, Mayara e Fabio, amigos de Clarinha. Silvia avisa que a comida está pronta: uma bela picanha com farofa e salada de tomate e cebola está servida sobre a mesa da sala de jantar. Cada um faz o seu prato e sem perda de tempo vamos pra frente da tv porque o jogo irá iniciar já já. Escutam-se os acordes finais do hino nacional e assanhados nos sentamos para apreciar a partida cheios de expectativas positivas. Terminado o jogo, danados da vida com a partida medíocre, já numa antevisão da performance pífia do Brasil durante a Copa, vamos pra pousada. Bat me prometera que tocaria violão e cantaria já que no dia seguinte eu estarei indo a Lençóis. Foi boa demais minha despedida! Aparecem Palito, um dos homens mais meigos que já conheci e João, tocador de triângulo, bebedor contumaz de abaíra, a cachaça local. Rola o maior som. Eu e Palito voltamos a dançar forró pra lá de animados na sala da pousada. Supimpa o fandango que se estende até as 23 horas, quando então Silvia avisa que a festa tem de terminar porque amanhã todos precisam acordar cedo. Droga, pra meu pesar terminou o que era doce...snif, snif. Foi bom demais o nosso forró pé-de-serra, só faltaram a zabumba e a sanfona, porque de triângulo e violão estávamos bem servidos com o João e o Bat!
Claro está que nesse dia tomei um tragoléu dos bons! Desperto, entretanto no dia seguinte numa boa, quase sem vestígios de ressaca. Basta pôr o pé na estrada que o leve desconforto se esvai entre as serras que me rodeiam.
Pretendo com este blog descrever viagens que fiz e farei por este tão lindo planeta, resgatando da memória as impressões armazenadas, algumas já esmaecidas pelo tempo, outras prudentemente registradas pelo olho mágico das lembranças fotográficas.
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terça-feira, 13 de junho de 2006
domingo, 11 de junho de 2006
Domingo de feira na Vila
Hoje, domingo, vou com Silvia pra praça onde rola uma feira. Compro um côco e fico bebericando de sua água sentada à mesa do bar Flamboyam num bate papo com Ivana, que vive de vender comida integral e bijuterias. Muito legal, tranqüila demais, Ivana faz parte de um rescaldo do movimento h
ippie que invadiu a Bahia nos anos 70 e lá se perpetua até hoje. Apesar de jovens, ainda cultivam os ideais de paz e amor, a vida simples em contato com a natureza, sobrevivendo basicamente de atividades ligadas à produção de artesanato e à plantação de verduras e legumes. À tarde dou uma banda até o poço da Cruzinha, lugar bacana que escolho pra tomar um demorado banho no rio Bombas. Lá me distraio com Micael, um garotinho de uns oito anos muito ativo, cuja diversão é se jogar no rio pulando de um tronco de árvore situado a sua margem. Passa o tempo todo nessa incansável atividade enquanto lá permanece junto com sua mãe (ele me convidou pra pular junto com ele, o queridinho, eu quase fui, mas depois me deu preguiça e desisti). Falo pra ele que parece um macaquinho empoleirado no tronco da árvore e ele responde, todo feliz: “meu apelido é Macacael.” Voltamos juntos os três até um pedaço do caminho quando então eles dobram numa estradinha que
conduz até a casa onde moram. Nos despedimos e a mãe de Micael me convida pra ir visitá-los. Fico vendo eles se afastarem e então retomo a caminhada de volta à vila. Passo pelo Circo do Capão e entro. Há umas crianças deitadas num colchão assistindo a um filme projetado num grande telão armado no picadeiro. Fico por ali um pouco curtindo o astral do lugar e o lindo fim de tarde ensolarado. Durante o trajeto encontro no caminho dois homens que seguem a pé atrás de um jegue em cujo lombo estão dispostas duas canastras com víveres. Na pousada quem hoje atende é Batman, marido da Silvia, já que é seu dia de pagar turno de trabalho. Como já estamos no sagrado horário da happy hour peço um conhaque. Eu havia, há não muito tempo, descoberto quão gostoso sabe este destilado, assim o elegi como a “bebida” durante minha permanência na Chapada. Sempre escolho, quando a passeio, uma bebida. Sei lá por quê, dessa vez, foi conhaque, talvez porque não houvesse vinho na pousada, minha beb
ida preferida. Pois não é que faço escola! Silvia aderiu de bom grado tanto que, quando é ela quem atende na pousada, já traz dois copos, um pra mim, outro pra ela. Batman põe um som maneiro na vitrola, e eu fico olhando o perfil das serras já sendo encobertas pela noite que desce rapidinho sobre a vila enquanto bebo aos golinhos meu conhaquito. Batemos um papinho preguiçoso, como sinto um pouco de fome vou até a praça, onde me sento pela segunda vez no dia a uma mesa do bar Flamboyam onde devoro dois deliciosos bolinhos de queijo. A lua cheia ilumina as ruas da vila e os pirilampos emitem aquela luz esverdeada que vista de longe parece branca. O cricrilar dos grilos é o único ruído gostoso da noite, não quero outra vida....eita mundão bom!
ippie que invadiu a Bahia nos anos 70 e lá se perpetua até hoje. Apesar de jovens, ainda cultivam os ideais de paz e amor, a vida simples em contato com a natureza, sobrevivendo basicamente de atividades ligadas à produção de artesanato e à plantação de verduras e legumes. À tarde dou uma banda até o poço da Cruzinha, lugar bacana que escolho pra tomar um demorado banho no rio Bombas. Lá me distraio com Micael, um garotinho de uns oito anos muito ativo, cuja diversão é se jogar no rio pulando de um tronco de árvore situado a sua margem. Passa o tempo todo nessa incansável atividade enquanto lá permanece junto com sua mãe (ele me convidou pra pular junto com ele, o queridinho, eu quase fui, mas depois me deu preguiça e desisti). Falo pra ele que parece um macaquinho empoleirado no tronco da árvore e ele responde, todo feliz: “meu apelido é Macacael.” Voltamos juntos os três até um pedaço do caminho quando então eles dobram numa estradinha que
conduz até a casa onde moram. Nos despedimos e a mãe de Micael me convida pra ir visitá-los. Fico vendo eles se afastarem e então retomo a caminhada de volta à vila. Passo pelo Circo do Capão e entro. Há umas crianças deitadas num colchão assistindo a um filme projetado num grande telão armado no picadeiro. Fico por ali um pouco curtindo o astral do lugar e o lindo fim de tarde ensolarado. Durante o trajeto encontro no caminho dois homens que seguem a pé atrás de um jegue em cujo lombo estão dispostas duas canastras com víveres. Na pousada quem hoje atende é Batman, marido da Silvia, já que é seu dia de pagar turno de trabalho. Como já estamos no sagrado horário da happy hour peço um conhaque. Eu havia, há não muito tempo, descoberto quão gostoso sabe este destilado, assim o elegi como a “bebida” durante minha permanência na Chapada. Sempre escolho, quando a passeio, uma bebida. Sei lá por quê, dessa vez, foi conhaque, talvez porque não houvesse vinho na pousada, minha beb
ida preferida. Pois não é que faço escola! Silvia aderiu de bom grado tanto que, quando é ela quem atende na pousada, já traz dois copos, um pra mim, outro pra ela. Batman põe um som maneiro na vitrola, e eu fico olhando o perfil das serras já sendo encobertas pela noite que desce rapidinho sobre a vila enquanto bebo aos golinhos meu conhaquito. Batemos um papinho preguiçoso, como sinto um pouco de fome vou até a praça, onde me sento pela segunda vez no dia a uma mesa do bar Flamboyam onde devoro dois deliciosos bolinhos de queijo. A lua cheia ilumina as ruas da vila e os pirilampos emitem aquela luz esverdeada que vista de longe parece branca. O cricrilar dos grilos é o único ruído gostoso da noite, não quero outra vida....eita mundão bom!segunda-feira, 5 de junho de 2006
Cachoeira do Rio Preto
A trilha, fácil e leve, demora uma hora e meia. A pequena cachoeira talvez não ultrapasse 4 metros de altura. Um passeio legalzinho, nada que te deixe em estado alfa de animação mas só o fato de eu estar no meio da natureza escutando os barulhinhos bons que ela irradia me deixa muito contente. Mergulho num dos poços e fico ali
encostada numa rocha permitindo que os fortes jatos de água massageiem minhas costas. O geladinho da água no início causa um impacto mas logo logo eu começo a espadanar braços e pernas e paro de sentir frio. Fico boiando, barriga pra cima, sentindo-me em paz, afinal, estou de férias! Observo o vôo de alguns passarinhos traçando revoluteios elegantes pelo ar quando sinto algo atingindo minha bochecha esquerda; meio assustada passo a mão e constato que uma daquelas exibidas aves resolveu zoar com minha cara e lançou um petardo sobre mim. Putz grila, era só o que me faltava nesta vida: metralhada por uma rajada de merda. Entretanto, logo trato de me consolar, pois imagino que se fosse uma águia ou qualquer outro pássaro de porte igualmente avantajado, eu poderia até ter afundado, já pensaram?! Saio da água resmungando com o despudor daquela passarada. Estiro-me ao sol no lajedo e curto as nuvens desfilarem pelo azul do céu embalada pelo barulhinho da água escorrendo entre as pedras. Acordo com a voz de Marivaldo me convidando pra fazer um lanche. Saboreio com prazer o sanduíche enquanto meus olhos apreciam a tonalidade cor de topázio da água do rio. De volta à pousada, faço uma parada no balcão do barzinho que dá pro jardim. Sento em um dos banquinhos de madeira enquanto Iuri prepara um expresso pra mim. Sempre há um som legal rolando e uma conv
ersa amena. Risadas de alguma bobagem dita não sei se por Marivaldo ou por Iuri competem com a voz de Alceu Valença cantando Morena Tropicana. Quando a noite cai, saio pra jantar e escolho entre as duas pizzarias existentes na Vila, a do Thomas, um suíço que, em visita ao Brasil, se apaixonou pelo lugar e aquerenciou-se em definitivo aqui. O restaurante que se situa em frente à praça de São Sebastião tem, além de duas salas, um alpendre no quintal situado nos fundos da casa onde estão dispostas mesas feitas de pedra rosada, tudo bem rústico. A iluminação é indireta criando um clima de aconchego no ambiente. Um forno redondo de barro assa a pizza em poucos minutos. No cardápio reduzidíssimo, há somente dois sabores, um salgado e outro doce, este com cobertura de banana, gergelim, nozes e castanhas. As pizzas são bem feitas e a massa, fininha, é bem crocante. O suco, de maracujá, é feito na hora, extraído da fruta que cresce nas árvores plantadas no quintal. Tudo muito caseiro, descontraído. O atendimento, gentil, é feita por uma moça magra, de traços delicados com aquele jeito de falar manso e sem pressa, tão característico do povo do nordeste. Peço a conta e verifico que o preço, bem razoável, não desafina com a singeleza do lugar. Mesmo cansada, dou uma banda pela vila e sigo por uma rua ilumin
ada por um único poste de luz. Depois, somente o cintilar contínuo dos pirilampos torna-se a única referência visível já que o céu bastante nublado esconde o clarão da lua. Percebo aqui e ali pequenos fachos luminosos que indicam a existência de algumas casas mal e mal percebidas na escuridão. Firmo a vista e distingo enfim as janelas e porta de uma delas. Engraçado como o escuro modifica em muito a percepção dos objetos; exatamente porque mal se os distingue, a gente se assuste tanto com a noite. Como não fujo à regra do comum dos mortais, volto rapidinho pra pousada. Vá que salte do mato um lobisomem ou uma mula sem cabeça .... eu, hein?!
encostada numa rocha permitindo que os fortes jatos de água massageiem minhas costas. O geladinho da água no início causa um impacto mas logo logo eu começo a espadanar braços e pernas e paro de sentir frio. Fico boiando, barriga pra cima, sentindo-me em paz, afinal, estou de férias! Observo o vôo de alguns passarinhos traçando revoluteios elegantes pelo ar quando sinto algo atingindo minha bochecha esquerda; meio assustada passo a mão e constato que uma daquelas exibidas aves resolveu zoar com minha cara e lançou um petardo sobre mim. Putz grila, era só o que me faltava nesta vida: metralhada por uma rajada de merda. Entretanto, logo trato de me consolar, pois imagino que se fosse uma águia ou qualquer outro pássaro de porte igualmente avantajado, eu poderia até ter afundado, já pensaram?! Saio da água resmungando com o despudor daquela passarada. Estiro-me ao sol no lajedo e curto as nuvens desfilarem pelo azul do céu embalada pelo barulhinho da água escorrendo entre as pedras. Acordo com a voz de Marivaldo me convidando pra fazer um lanche. Saboreio com prazer o sanduíche enquanto meus olhos apreciam a tonalidade cor de topázio da água do rio. De volta à pousada, faço uma parada no balcão do barzinho que dá pro jardim. Sento em um dos banquinhos de madeira enquanto Iuri prepara um expresso pra mim. Sempre há um som legal rolando e uma conv
ersa amena. Risadas de alguma bobagem dita não sei se por Marivaldo ou por Iuri competem com a voz de Alceu Valença cantando Morena Tropicana. Quando a noite cai, saio pra jantar e escolho entre as duas pizzarias existentes na Vila, a do Thomas, um suíço que, em visita ao Brasil, se apaixonou pelo lugar e aquerenciou-se em definitivo aqui. O restaurante que se situa em frente à praça de São Sebastião tem, além de duas salas, um alpendre no quintal situado nos fundos da casa onde estão dispostas mesas feitas de pedra rosada, tudo bem rústico. A iluminação é indireta criando um clima de aconchego no ambiente. Um forno redondo de barro assa a pizza em poucos minutos. No cardápio reduzidíssimo, há somente dois sabores, um salgado e outro doce, este com cobertura de banana, gergelim, nozes e castanhas. As pizzas são bem feitas e a massa, fininha, é bem crocante. O suco, de maracujá, é feito na hora, extraído da fruta que cresce nas árvores plantadas no quintal. Tudo muito caseiro, descontraído. O atendimento, gentil, é feita por uma moça magra, de traços delicados com aquele jeito de falar manso e sem pressa, tão característico do povo do nordeste. Peço a conta e verifico que o preço, bem razoável, não desafina com a singeleza do lugar. Mesmo cansada, dou uma banda pela vila e sigo por uma rua ilumin
ada por um único poste de luz. Depois, somente o cintilar contínuo dos pirilampos torna-se a única referência visível já que o céu bastante nublado esconde o clarão da lua. Percebo aqui e ali pequenos fachos luminosos que indicam a existência de algumas casas mal e mal percebidas na escuridão. Firmo a vista e distingo enfim as janelas e porta de uma delas. Engraçado como o escuro modifica em muito a percepção dos objetos; exatamente porque mal se os distingue, a gente se assuste tanto com a noite. Como não fujo à regra do comum dos mortais, volto rapidinho pra pousada. Vá que salte do mato um lobisomem ou uma mula sem cabeça .... eu, hein?!domingo, 4 de junho de 2006
Cachoeira da Fumaça
Acordo e vou ao refeitório onde me espera um arretado café da manhã cheio de gostosuras: mingau (o de tapioca com côco é uma delícia), mandioca cozida, banana com granola, frutas, sucos, o de goiaba direto da árvore plantada no jardim da pousada, frutas, um pãozinho assado na hora. De tão quentinho, derrete a manteiga, além de mel e queijo. Com tal sustância vai ser moleza encarar a caminhada até a Cachoeira da Fumaça, pois ontem Marivaldo me alertou que se trata de um ascenso íngreme com duração em torno de duas horas. E lá vou eu admirando os campos
rupestres que vem a ser a vegetação predominante nas áreas pedregosas das serras, composta basicamente de ervas e arbustos de pequena estatura devido a um solo ácido e pobre em nutrientes orgânicos. A topografia acidentada apresenta grandes blocos de rochas areníticas e conglomerados de pedras calçando o terreno onde cresce a vegetação de forma descontínua. Admiro, enquanto vou subindo, várias espécies de orquídeas quando então chego na famosa cachoeira cuja altura atinge 380 metros. Chamam-na assim os nativos porque o vento dispersa a água que escorre pelos paredões alcantilados espalhando as gotículas em várias direções e tornando o ar meio brumoso. Quem se posiciona a sua frente é inevitavelmente atingido pela aspersão da água. Sabedora desse fato, uma turma de turistas estrangeiros veste coloridas capas de chuva enquanto fica tirando fotos e apreciando a portentosa queda d’água (cheguei à conclusão que essa gente é muito precavida, preferem carregar de tudo um pouco a passar qualquer dessabor). Bueno, na verdade eu já vi tanta cachoeira em minha vida que esta apesar de bem alta não me impressiona lá muito, não. Não é a altura que me chama a atenção nas cachus e sim o modo como as rochas se dispõem umas sobre as outras formando interessantes degraus no relevo. Ficamos um bom tempo lá em cima curtindo os Morros do Camelo e do Pai Inácio. Quando retorno à vila já são 16 horas. Como na pousada só servem café da manhã, me in
formo com Iuri, filho de Silvia, sobre os lugares legais onde posso comer, escolhendo então o restaurante de Dona Beli, localizado na rua principal. Como a maioria dos estabelecimentos comerciais, trata-se duma casa onde mora a família e em cuja sala da frente servem refeições. A comida tipicamente caseira não apresenta grande variação no cardápio porém é bem feitinha. Janto uma salada de tomates com alface mais pepino, arroz, feijão verde, farofa de cenoura e galinha com açafrão. Dos três dias em que lá comi, a comida servida foi basicamente a mesma. Mais do que da comida gostei foi do astral, porque as pessoas da casa vinham assistir à tv colocada num canto da sala, sentando-se do outro lado da mesa onde eu me encontrava. Se eu não tivesse falado com elas teriam permanecidas quietas assistindo à novela. Apenas um comentário que outro, em voz sussurrante durante os intervalos, calando-se entretanto quando o programa retorna dos comerciais. Como não gosto de comer sozinha, adorei, aproveitando pra puxar conversa com as filhas de Dona Beli, umas mocinhas encabuladas e gentis.
rupestres que vem a ser a vegetação predominante nas áreas pedregosas das serras, composta basicamente de ervas e arbustos de pequena estatura devido a um solo ácido e pobre em nutrientes orgânicos. A topografia acidentada apresenta grandes blocos de rochas areníticas e conglomerados de pedras calçando o terreno onde cresce a vegetação de forma descontínua. Admiro, enquanto vou subindo, várias espécies de orquídeas quando então chego na famosa cachoeira cuja altura atinge 380 metros. Chamam-na assim os nativos porque o vento dispersa a água que escorre pelos paredões alcantilados espalhando as gotículas em várias direções e tornando o ar meio brumoso. Quem se posiciona a sua frente é inevitavelmente atingido pela aspersão da água. Sabedora desse fato, uma turma de turistas estrangeiros veste coloridas capas de chuva enquanto fica tirando fotos e apreciando a portentosa queda d’água (cheguei à conclusão que essa gente é muito precavida, preferem carregar de tudo um pouco a passar qualquer dessabor). Bueno, na verdade eu já vi tanta cachoeira em minha vida que esta apesar de bem alta não me impressiona lá muito, não. Não é a altura que me chama a atenção nas cachus e sim o modo como as rochas se dispõem umas sobre as outras formando interessantes degraus no relevo. Ficamos um bom tempo lá em cima curtindo os Morros do Camelo e do Pai Inácio. Quando retorno à vila já são 16 horas. Como na pousada só servem café da manhã, me in
formo com Iuri, filho de Silvia, sobre os lugares legais onde posso comer, escolhendo então o restaurante de Dona Beli, localizado na rua principal. Como a maioria dos estabelecimentos comerciais, trata-se duma casa onde mora a família e em cuja sala da frente servem refeições. A comida tipicamente caseira não apresenta grande variação no cardápio porém é bem feitinha. Janto uma salada de tomates com alface mais pepino, arroz, feijão verde, farofa de cenoura e galinha com açafrão. Dos três dias em que lá comi, a comida servida foi basicamente a mesma. Mais do que da comida gostei foi do astral, porque as pessoas da casa vinham assistir à tv colocada num canto da sala, sentando-se do outro lado da mesa onde eu me encontrava. Se eu não tivesse falado com elas teriam permanecidas quietas assistindo à novela. Apenas um comentário que outro, em voz sussurrante durante os intervalos, calando-se entretanto quando o programa retorna dos comerciais. Como não gosto de comer sozinha, adorei, aproveitando pra puxar conversa com as filhas de Dona Beli, umas mocinhas encabuladas e gentis. sábado, 3 de junho de 2006
Chegada na Vila do Capão
Nestas férias, vou conhecer a Chapada Diamantina, localizada na Bahia. São várias as cidades que se situam no entorno do Parque Nacional da Chapada Diamantina: Lençóis, Mucugê, Andaraí, Itaetê, Ibicoara, Igatu e Palmeiras. Escolho, entretanto, um distrito desta última, a Vila de Caeté Açu ou do Capão, situada no Vale do Capão, já dentro do parque, cuja população alcança mais ou menos 2.000 habitantes. Foi durante décadas a Vila do Capão o centro provedor de café, bananas e serviços para os garimpeiros que trabalhavam nas serras próximas, cujo auge da atividade de mineração ocorreu entre os anos 1920 a 1930. A comunicação, na épo
ca, se dava principalmente pela trilha calçada de pedras Guiné-Volta da Serra-Sitio Novo-Capão-Lençóis; os tropeiros asseguravam a circulação das mercadorias numa direção Norte-Sul, partindo de Minas Gerais até Juazeiro. Após o apogeu do ciclo do garimpo de diamante, a Vila do Capão entrou em declínio, retomando o crescimento, a partir de 1990, com o incremento turístico da região. Bueno, chego em Salvador numa sexta-feira à noite e, às 07:00 do dia seguinte, embarco no ônibus da empresa Real Expresso, numa viagem cansativa com paradas em rodoviárias de diversas cidades, desembarcando às 14:30 em Palmeiras, localidade feia e sem maiores atrativos. Sou obrigada a fretar um carro pois não há transporte público regular até a Vila do Capão, distante 29 km. Assim embarco na Rural Williams cujo proprietário, o Zé Augusto, embora simpático, não baixa os salgados R$ 40,00 cobrados. E lá vamos nós sacolejando através da lastimável estradinha esburacada jogando conversa fora. Zé, apesar de sua baianice, não sabe bem o motivo de torcer pelo gaúcho Internacional, cujo emblema enfeita o pára-brisa de sua camionete. Eu já havia escolhido pela internete a pousada onde ficaria hospedada e o lugar, chamado sugestivamente Pé no Mato, não me desaponta. Sou muito bem re
cebida pela dona, a Silvia, uma baiana extrovertida e dinâmica, que logo me deixa super à vontade. A pousada apesar de simples tem um astral muito acolhedor. Sou acomodada num quarto amplo com banheiro privativo, além duma pequena varanda onde está pendurada uma convidativa rede. Há quartos mais simples com diárias mais em conta (a minha custou 50 reais porque fui na baixa temporada e havia pouquíssimos hóspedes) e acomodações com beliches pra 4 pessoas e banheiro coletivo. Neste dia, o da chegada, dou uma breve caminhada pela vila circundada por altos morros cobertos de vegetação. A estrada que vem de Palmeiras torna-se a rua principal, a única revestida com pedras de granito, chamada rua do Folga; as demais são de terra batida. É um lugarejo pequeno com coloridas casas de alvenaria, de meia água. Nos batentes de algumas janelas, são exibidas pencas de bananas, vendidas a quilo ou por unidade. À tardinha, as famílias costumam sentar-se às soleiras de suas portas batendo papo entre si ou com seus vizinhos. O lugar mais importante da cidade é a praça, um quadrilátero fincado no meio da vila, onde acontecem todos eventos de destaque como o semanal mercado domingueiro em que são vendidos frutas, legumes, hortaliças e até roupas, bem como exposição de artesanato de vários artistas locais, shows de forrós e as famosas festas juninas. Em um dos cantos da praça, sobressai o bar Flamboyam (escrito assim mesmo) considerado o point do vilarejo. É um espaçoso lugar com dois ambientes simples revestidos de lajotas: no da frente, um
balcão e uma tv pendurada num canto da parede onde em dias de jogos de futebol muitos homens se reúnem pra beber cerveja e assistir às partidas. Na outra sala, a atração são as mesas de sinuca muito procuradas pelos habitantes da vila que gastam seu tempo ocioso em intermináveis e disputadas partidas. Em certas noites de fim de semana esta sala transforma-se em boate e o arrasta-pé rola até altas horas. Mesas e banquinhos de cimento na calçada completam os confortos que o bar oferece a seus clientes. No cardápio, diversos quitutes de aparência tentadora. Provei e aprovei o bolinho de queijo, bem gostosinho. Num recuo da praça, situa-se a igrejinha pintada de um azul anilina meio desbotado pelo tempo. A noite cai sobre a vila e, no céu cintilante de estrelas, uma lua crescente já bem gordinha se destaca. Isso por si só já teria bastado pra me deixar totalmente feliz quando então vislumbro, encantada, miríades de grandotes pirilampos como até então nunca vira, tornando mais iluminada a noite escura. Quando volto de minha breve incursão pelos arredores do vilarejo, sou apresentada ao meu guia, o Marivaldo, uma mistura bem brasileira de português e índio, fala mansa, de pouca conversa. Batemos um breve papo e combinamos então os passeios que farei durante minha permanência na vila.
ca, se dava principalmente pela trilha calçada de pedras Guiné-Volta da Serra-Sitio Novo-Capão-Lençóis; os tropeiros asseguravam a circulação das mercadorias numa direção Norte-Sul, partindo de Minas Gerais até Juazeiro. Após o apogeu do ciclo do garimpo de diamante, a Vila do Capão entrou em declínio, retomando o crescimento, a partir de 1990, com o incremento turístico da região. Bueno, chego em Salvador numa sexta-feira à noite e, às 07:00 do dia seguinte, embarco no ônibus da empresa Real Expresso, numa viagem cansativa com paradas em rodoviárias de diversas cidades, desembarcando às 14:30 em Palmeiras, localidade feia e sem maiores atrativos. Sou obrigada a fretar um carro pois não há transporte público regular até a Vila do Capão, distante 29 km. Assim embarco na Rural Williams cujo proprietário, o Zé Augusto, embora simpático, não baixa os salgados R$ 40,00 cobrados. E lá vamos nós sacolejando através da lastimável estradinha esburacada jogando conversa fora. Zé, apesar de sua baianice, não sabe bem o motivo de torcer pelo gaúcho Internacional, cujo emblema enfeita o pára-brisa de sua camionete. Eu já havia escolhido pela internete a pousada onde ficaria hospedada e o lugar, chamado sugestivamente Pé no Mato, não me desaponta. Sou muito bem re
cebida pela dona, a Silvia, uma baiana extrovertida e dinâmica, que logo me deixa super à vontade. A pousada apesar de simples tem um astral muito acolhedor. Sou acomodada num quarto amplo com banheiro privativo, além duma pequena varanda onde está pendurada uma convidativa rede. Há quartos mais simples com diárias mais em conta (a minha custou 50 reais porque fui na baixa temporada e havia pouquíssimos hóspedes) e acomodações com beliches pra 4 pessoas e banheiro coletivo. Neste dia, o da chegada, dou uma breve caminhada pela vila circundada por altos morros cobertos de vegetação. A estrada que vem de Palmeiras torna-se a rua principal, a única revestida com pedras de granito, chamada rua do Folga; as demais são de terra batida. É um lugarejo pequeno com coloridas casas de alvenaria, de meia água. Nos batentes de algumas janelas, são exibidas pencas de bananas, vendidas a quilo ou por unidade. À tardinha, as famílias costumam sentar-se às soleiras de suas portas batendo papo entre si ou com seus vizinhos. O lugar mais importante da cidade é a praça, um quadrilátero fincado no meio da vila, onde acontecem todos eventos de destaque como o semanal mercado domingueiro em que são vendidos frutas, legumes, hortaliças e até roupas, bem como exposição de artesanato de vários artistas locais, shows de forrós e as famosas festas juninas. Em um dos cantos da praça, sobressai o bar Flamboyam (escrito assim mesmo) considerado o point do vilarejo. É um espaçoso lugar com dois ambientes simples revestidos de lajotas: no da frente, um
balcão e uma tv pendurada num canto da parede onde em dias de jogos de futebol muitos homens se reúnem pra beber cerveja e assistir às partidas. Na outra sala, a atração são as mesas de sinuca muito procuradas pelos habitantes da vila que gastam seu tempo ocioso em intermináveis e disputadas partidas. Em certas noites de fim de semana esta sala transforma-se em boate e o arrasta-pé rola até altas horas. Mesas e banquinhos de cimento na calçada completam os confortos que o bar oferece a seus clientes. No cardápio, diversos quitutes de aparência tentadora. Provei e aprovei o bolinho de queijo, bem gostosinho. Num recuo da praça, situa-se a igrejinha pintada de um azul anilina meio desbotado pelo tempo. A noite cai sobre a vila e, no céu cintilante de estrelas, uma lua crescente já bem gordinha se destaca. Isso por si só já teria bastado pra me deixar totalmente feliz quando então vislumbro, encantada, miríades de grandotes pirilampos como até então nunca vira, tornando mais iluminada a noite escura. Quando volto de minha breve incursão pelos arredores do vilarejo, sou apresentada ao meu guia, o Marivaldo, uma mistura bem brasileira de português e índio, fala mansa, de pouca conversa. Batemos um breve papo e combinamos então os passeios que farei durante minha permanência na vila.
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