terça-feira, 13 de agosto de 2013

Nas entranhas do Canyon Huaruro

Acordo no meio da noite e penso: droga, está chovendo, sem me dar conta de que o ruído de água que escuto é o do rio em seu interminável desfile rumo ao Pacífico. Quando subo a íngreme e longa escadaria de pedra até o restaurante sinto que a descida do dia anterior está cobrando seu preço. A dor nas panturrilhas e nas coxas se faz sentir. E como! Adrián explica que o nome dos bambuzinhos com que são construídas as casas é carrizo. Nas cozinhas sua utilidade é providencial: permite que a fumaça escape dentre suas frestas. Enquanto espero o desaiuno, Saraí, a gerente da pousada, aponta o rio: que transformação!! Nem sinal da límpida e verde correnteza de ontem. Hoje o que vejo é a feia coloração amarronzada proveniente da explosão de rochas. Trata-se de consertos efetuados num trecho da estrada situada no paredão em frente. Nuvens de poeira pairam no ar. Simpática e bonita, Saraí faz questão de me pespegar uma beijoca quando estou de partida. Observo que também procede assim com os franceses ali hospedados. Saímos às 8 e 40 e abandonamos o  Colca, começando a percorrer as entranhas do Huaruro. Com 10 km de extensão, é uma miniatura de canyon se comparado ao Colca. Seu rio, Molloco ou Huaruro, serpenteia veloz entre os paredões cobertos de verde vegetação. Percorremos uma das tantas trilhas abertas na parede oeste. Sem qualquer nível de exigência, o único lance perrenguento vem a ser um trecho – graças a deus, curtíssimo - obstruído por um desmoronamento de terra. Fico com medo porque, à direita, uma baita rampa conduz ao rio situado 200 metros abaixo. Um escorregão e adiós, señorita Beatriz. Adrián então estende sua mão no crux da via (pra mim é claro) de modo a que eu possa atravessá-lo em segurança. Fazer o quê, se sou cagona, né! Ele observa que tais deslizamentos de areia e pedras têm sido causados pelo Sabancaya, vulcão que, ultimamente, vem se mostrando deveras indócil. Um pouco antes de chegarmos a Toruña, passa por nós um velhinho super afável, acompanhado de seu filho. Curioso, o senhorzinho pergunta donde venho e se vou visitar a cascata de Huaruro. Ontem não havia viva alma na trilha, hoje, no entanto, há um certo movimento. O que me agrada e muito. Curto demais bater papo com nativos. Ainda há pouco, cruzamos com alguns moradores de Llatica. Buenos dias, dizem eles amávies. Adrián comenta que estão indo pruma trilha, situada mais abaixo da nossa, a fim de repará-la. Tudo por causa dos maledetos deslizamentos de terra provocados pelo Sabancaya. Um pouco mais adiante, um arriero conduzindo duas mulas, dirige-se à pousada em Llahuar. Provavelmente, pra vender produtos agrícolas de seu sítio. Um trecho da canaleta que puxa água do rio corta a trilha, logo desaparecendo no meio da mata onde com certeza irá irrigar as plantações dos moradores do canyon. Um pessegueiro, à margem da estreita estradinha, exibe um solitário cacho de flores rosadas. Lindas. Fotografo, é claro! Embora só subida até Toruña, um ajuntamento de apenas 10 casas, o caminho continua facinho demais. Que dia glorioso! Temperatura de 25º C e céu imaculadamente azul. Vento? Nem sei o que é isso. Chegamos a Llatica, essa sim, uma vilazinha, contando inclusive com igreja e largo onde são realizadas festas em homenagem a virgem padroeira do lugarejo. E eletricidade! Evidenciada nos postes dispostos ao longo da rua principal. Uma rápida parada para comprar água numa venda. Entretanto, a casa está cerrada. Adrián observa que a dona deve ter ido para a lavoura. Pego então água da torneira que, inicialmente, se mostra dum branco opaco, possivelmente, devido a resíduos de calcário. Pouca demora, adquire a tão famosa transparência.  Adrián conta que, quando do boom nos preços do corante obtido dos parasitas nos cactus, a maioria dos adultos jovens foi viver nas cidades. Nessa época, valia 100 dólares o quilo, agora não passa de 30 dólares. Devido à grande quantidade de arbustos e árvores, esta pequena e adorável garganta oferece bem-vindas zonas de sombra. Até Llatica, sem gozação, é escada rolante a trilha. O enrosco começa após atravessar a ponte de cimento que leva ao paredão leste onde há a trilha que conduz a Fure. E nas 2 horas de pernada até esta vila, a moleza definitivamente acabou. Ainda bem que alguns muros de taipa, delimitando as propriedades, lembram as regiões serranas do meu Rio Grande do Sul, despertando lembranças agradáveis que me distraem da dureza que tenho pela frente. Num trecho bem íngreme, enfrento quase uma escalaminhada. Adoro tudo isso, hehehe. Duzentos metros antes de Fure, onde chegamos às 13 horas, outra travessia de ponte, dessa feita, sobre um rio praticamente seco. Dum paredão, medindo cerca de 100 m, despenca uma cascata de águas minguadas. Fure conta também com eletricidade. Gerada, é óbvio, pela energia fluvial. Ficamos numa pousada construída com adobe. Tudo de ruim essa coloração acinzentada de cimento. Nem me apetece sonhar de olhos abertos neste quarto. Num beco da vila, distante algumas dezenas de metros dos dormitórios, está o “restaurante do albergue”. Nada mais que uma mesa com dois longos bancos debaixo dum alpendre, no quintal dos fundos da casa de Doña Nancy, proprietária do estabelecimento. Caprichosa, ela veste a mesa com uma toalha amarela. Em 40 minutos, serve uma sopa de sêmola com ovos, seguida de papalisa ou olluco (espécie de batata) misturada com palillo (semente que moída resulta num tempero tipo colorau) mais uma porção de arroz com bucho de cordeiro. Pra compensar as acomodações sem vestígio algum de charme, a comida é, em disparada, bem mais saborosa que a servida em Llahuar. Após o almoço, vamos até a cascata de Huaruro. A caminhada é basicamente subida mas nada que se compare à que fizemos pela manhã até Fure. Localizada no fundão do canyon, explode, duma fenda estreita cavada na rocha, a impressionante massa líquida ao longo de 170 metros do paredão oeste. À tardinha, quando retornamos ao vilarejo, sinto frio. O desnível de 600 metros em relação à Llahuar - estamos a 2.800 metros - ocasiona uma mudança significativa na temperatura durante a noite. Há ovelhas e uns mandinhos brincando na rua principal. Atendendo a meu pedido, uma guriazinha com a boca pintada de vermelho, posa pruma foto, agarrando uma das peludas. Adrián explica que os jovens quando terminam o primário se mandam pra Cabanaconde, Chivay ou Arequipa, afim de terminar seus estudos. No povoado, só ficam crianças, adultos e velhos. Hoje foi uma caminhada de respeito. De Llahuar a Fure, o Garmim registrou 7 km em 4 horas e 10 minutos; de Fure à cascata (ida e volta), 7 km e 400 m em 3 horas e 15 minutos. Deu pra cansar tanto que dormi tão logo pousei a cabeça no duro travesseiro, logo após a janta. Nem bem 21 horas e eu já aconchegada nos braços de Morfeu.....hehehe.

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