Pretendo com este blog descrever viagens que fiz e farei por este tão lindo planeta, resgatando da memória as impressões armazenadas, algumas já esmaecidas pelo tempo, outras prudentemente registradas pelo olho mágico das lembranças fotográficas.
Saímos
de Arequipa às 08 e ½, numa 4x4 guiada por Afonso. Proprietário do carro, ele é um tipo irrequieto, falante, mas nada simpático. Quando sabe que sou
brasileira, revela que namora uma paulista. E eu com isso, uai. O guia é Alberto, um cara que sorri até quando tu fala de coisas
tristes. Dessa feita, Adrián vai apenas porteando minha bagagem porque ainda
não tem permissão pra guiar solo em alta montanha. Como lhe falta concluir
o curso de Profissional Técnico de Guia Oficial de Montanha, ministrado pela
Associação de Guias de Montanha do Peru, afiliada a UIAG, cuja duração são 3
anos, só lhe é permitido ser
guia de caminhada, daí porque no Colca pôde me acompanhar. Espera, com a grana que está juntando nessa temporada de turismo,
poder pagar as taxas e se mandar pra Huaraz em setembro, onde será realizada a
parte final do curso, constante somente de práticas. O último componente do grupo é Mikael, um belga duns 30 anos, espantosamente fluente no espanhol, graças a 2 semestres de engenharia florestal cursados no Chile. Tece comentários perspicazes acerca dorelacionamento
homem x mulher que me arrancam sorrisos, tipo “ela (se
referindo à namorada, uma espanhola, mais um motivo porque é tão bom no espanhol) não concebe que eu possa me divertir
sem estar ao seu lado”....hahahaha. Pior que a arguta observação resume acertadamente um tipo de mesquinhez emocional que estraga tanto as relações amorosas. Afonso, a meu pedido, pára o carro pra eu poder fotografar o
Misti. E Alberto me indica a trilha pedalável na encosta nordeste do Chachani.
Pra quem gosta de boas descidas, esse down hill é bem irado: desnível de 1.200
m, com largada a partir de 4.800 m.
Quando atingimos os 5.074 m, às 11 e 30, Afonso nos deixa e retorna a Arequipa.
Voltará amanhã pra nos buscar. Quase toda a caminhada, até o acampamento, é ao longo duma
trilha bem demarcada, exceto por um trecho constituído duma selva de pedras,
provável resquício dalguma morena. Durante a pernada, a única vegetação que se destaca,
na coloração ocre da paisagem semi-árida, é a yareta. Recobrindo as rochas,
esta planta almofadada e resinosa serve de combustível, comumente usado em fogões. Embora o aclive seja suave, já sinto os efeitos da altitude. Afinal, 5.000 m não são os 2.300 m de Arequipa que tiro de letra. A caminhada dura pouco mais de 1 hora e eis nós já no lugar onde vamos acampar. Situado na encosta norte do Chachani, a uma altitude de 5.157 m, o acampamento permite avistar, em todo seu esplendor, a linda face sul do vulcão
Nokarane, quase inteiramente coberta de neve. Ao norte, já bem visíveis os vulcões Ampato
e Sabancaya. Mais além, o Coropuna. Os guris montam as barracas enquanto dois
zorrinhos, atraídos pela movimentação, surgem dentre as pedras, olhando pra nós, com
ar sestroso. A coisa mais linda, ambos têm pelagem ruiva. Quando jogamos
guloseimas em sua direção, largam de ser tão ariscos e se aproximam
cautelosamente. Nada como a boa e velha armadilha da gula pra amansar o temor deles
em relação ao bicho homem. Me esbaldo, sacando um monte de fotos e também filmando-os.
Os dois são irmãos e, à tardinha, a mamãe zorra dá pinta para ver o que tá
rolando com os filhotes. Como sobrou muita massa da janta (porque estava bem
ruinzinha), tudo é jogado pros zorrinhos que a devoram. Digno de nota: eles
não disputam o rango. Aquele que alcança
primeiro a comida, come sem ser incomodado pelo outro, que se limita tão-somente em torcer pra que sobre algo. No final da tarde, a lua - falta só um tantinho pra ser cheia - brilha lindaça num céu que lembra aquele celofane azul que
envolvia antigamente as maçãs.Vejo, pela primeira vez em 9 dias na região de
Arequipa, gordasnuvens atrás do Nokarane. Coisa duns 200 metros adiante do
nosso acampamento, distingue-se bem o sinuoso zigue-zague que se desenha ao
longo da rampa arenosa que dá acesso ao cume do Chachani. Será o que
enfrentarei na madrugada....bah! Às 20 horas já estou deitada, dormindo sem muita delonga após ingerir um
relaxante muscular. Acordo antes que Adrián me chame e, às 3
e 30, já estamos subindo a tal rampa que vira durante o dia. O céu está coalhado de estrelas e da lua nem sinal. A noite ainda tem o mando de campo, hehe, o que convenhamos não dá pra
ver bulhufas da paisagem. Além do mais, a concentração em caminhar exige atenção e muito esforço físico. Lá pelas 5 e 15, percebo pequeno clarão a leste. Curto muito a ambiguidade dessa hora, em que a noite hesita em ceder espaço à claridade da manhã. Apenas
se percebe o suave contorno da paisagem ao redor. Numa das dobras da montanha, distingo brevemente o perfil azulado do Nokarane. Sinto muito frio nos pés e cansaço
também. Paro seguidamente a fim de restaurar minhas energias. O belga segue atrás de
mim e Alberto e Adrián à frente. Se não fosse a altitude, a caminhada seria
tranquila porque não passa dum trilho bem demarcado na arenosa encosta norte do
vulcão. Lá pelas tantas, um pequeno trecho crivado de rochas, nada contudo que
exija escalaminhadas, apenas cuidado pra não se pisar em pedras soltas. Peço novamente que paremos. Tenho de descansar. Lanço, então, a pergunta que não quer calar: "quanto falta pro cume, Adrián?" Quando o guia responde 2 horas, a decisão já está tomada. Há alguns anos atrás,
me esgualepava mas ia. Atualmente, quero que minhas caminhadas sejam prazerosas mesmo que tenha de sacrificar cumes. Essa pegada de parar, frequentemente, porque as
forças são escassas, me deixa humilhada. Eu queria poder caminhar com relativa fluidez. Se já me sinto super cansada aos 5.750 m, onde agora me encontro, insistir em subir os 300 metros restantes até o cume vai acabar comigo. Sinto um baita alívio quando desisto de continuar. Já vinha me intimando há um bom tempo com a repetitiva ladainha de “e aí minha querida, qual é?” Quando
se pensa em abortar ascensos aos cumes, bate uma nóia que a gente é fraca. Isso faz com
que se fique adiando a decisão pra ver até onde se aguenta. Vá que essa procrastinação leve ao tão
sonhado cume, né? Depois que voltei pra casa, comecei a fazer questionamentos tipo "por que não te esforçaste mais hein Beatriz?" Mas daí já era e se punir assim não leva a nada! Bueno, despedimo-nos
de Mikael e Alberto e começamos a descida por outro caminho cuja areia bem fofa
levanta nuvens de poeira, tanto que minhas botas e calças ficaram branquinhas! Quando
chego ao acampamento, lá pelas 8 e 30, deito na barraca e tiro um gostoso
cochilo até as 10. Em torno de 11 horas, os homens retornam do cume. Acho bem
estranha a atitude do belga, o cara nem comemora o feito (e olha que foi seu 1º
seis mil!), tampouco máquina levou pra tirar fotos. Quando pergunto pra ele
porque não carrega uma consigo, ele responde que guarda tudo na memória. Entretanto,
anota seu email em meu diário e pede que eu envie as fotos que tirei dele...pode?
Já em Arequipa, sinto que realmente estou cansada porque nem sinto vontade de
sair à noite pra beber um pisco sour, hehe!! O Chachani cobrou seu preço! No dia seguinte, retornando ao Brasil, enquanto sobrevoo a região de Arequipa, decido que meu próximo vulcão bem que pode ser o Misti.....afinal, ele só tem 5.800 m, hehe
Dia seguinte, temos, finalmente, a oportunidade de nos conhecermos, eu e Vevê! Adooooro
o Face Book. Ele permite esse tipo de aproximação. Depois de trocas de msg (e nós
estávamos a uma ou duas quadras de distância), eis que a moça surge no hotel. No jardim do piso térreo, divido uma mesa com uma alemã que ensina a filha francês (bizarro demais!! por que não espanhol?). Distraída, transferindo fotos da máquina para o
computador, escuto “oi Beia”. Olho pro lado e vejo a moça acompanhada
por 3 rapazes. Um deles é seu namorado, Marcelo. Os outros dois são Denni e
Max. Este último é meu conhecido. Da internete, é claro! Trata-se de Maximo Kausch, escalador
de alta montanha, mais cultuado no Brasil que no seu país de origem, Argentina. Transformou
sua paixão pelas montanhas em profissão. Atualmente é guia duma agência inglesa
que opera no Himalaia. Admirado por uma galera brasileira, fãzaça de suas
façanhas, o cara, realmente, merece: é um aventureiro nato.Faz costumeiramente aquilo que a maioria das
pessoas só curte nas férias ou em fins de semana. Saímos do hotel e me admiro quando escolhem um
prosaico restaurante especializado em massas com mesas de plástico e bancos
fixos (parecia restaurante de shopping). Sei lá por quê, viagem minha, por supuesto, achei que curtiriam comidas
típicas, tipo ceviche, rocoto relleno ou um chupe de camarones. Terminado o almoço, nos tocamos prum café na calle
Mercaderes. Além dum menu cheio de comidinhas gostosas, dentre as quais
deliciosas tortas e sorvetes, o lugar tem wifi. Os
cinco têm pela frente uma longa espera já que partem pra La Paz de madrugada. Tanto
me senti à vontade com eles que lá permaneci das 11 até as 23. E olha que sou
meio arredia. Há em mim um tantinho de misantropia, embora não me furte em
conhecer pessoas. Sei que soa meio contraditório mas é assim mesmo! O papo
entre mim e Vevê flui como se fôssemos velhas conhecidas. Apenas eu e ela não
estamos plugadas em notebooks, porque os 3 marmanjos só querem saber de navegar
na web. Max, que acabara de culminar 59 montanhas acima de 6.000 metros, na
Cordilheira dos Andes, se queixa quão difícil é ver reconhecido seu recorde
pelo Guiness. Sinceramente, dou a menor pelota pra esses recordes.
Reconheço porém que prum cara como ele, que vive de ser guia, tal registro faz
diferença emseu currículo. Impressiona pra
caramba as pessoas. Quando saímos do café os guris estão animados e partem em
busca de outras distrações. Afinal, ainda têm mais 4 horas de espera pela
frente. Dirigem-se então pra calle San Francisco, point fervido das baladas
arequipenhas. Na frente duma boate, de nome Deja Vu, eles param, alvorotados. Ladeando
a porta de entrada do estabelecimento, duas belas moças, cujos trajes colantes
modelam mais ainda seus corpos provocativos, servem de chamarizes à clientela
masculina. Quando vejo Max e Denni, num trelelê animado, percebo o que vai
rolar noite adentro. Despeço-me, rapidinho, da trupe, desejando tudo de bom e
retorno ao hotel. De folguedos noturnos já tive muita over dose ao longo de 30
anos. Eles que são jovens que curtam sua balada.....eu tô fora. Sábado,
acordo feliz em estar numa cidade tão linda. O que é esse clima? Desde que aqui
cheguei, e já faz 1 semana, nenhuma nuvem embaça esse céu de brigadeiro!! Depois
do desaiuno (hoje teve panquecas), trato de ir ao monastério Santa
Catalina de Siena. Seus muros traseiros são vistos do hotel. Bastou dobrar a
esquina, eis eu atravessando seu portão de madeira e mergulhando num inusitado ambiente. Adoro esse lugar. Tanto que é minha
segunda visita. E retornarei pra
visitá-lo tantas vezes vier a Arequipa. É um mundo à parte essa pequena
cidadela religiosa que ocupa um quarteirão no centro histórico da cidade. Ruas com
nomes de cidades espanholas como Granada, Toledo, Córdoba, Burgos e Sevilha
desembocam em páteos pintados em cores vibrantes. A flor predominante são gerâneos,
plantados em vasos, inúmeros vasos, espalhados por onde quer que se ande. O sol forte do ½
dia reverbera nas paredes pintadas de laranja, azul e branco. É tudo muito colorido! Os aposentos
das monjas são pequenas residências: jardinzinho, quarto, sala e,
nos fundos, uma pequena cozinha. Claro está que apenas as arequipenhas endinheiradas
podiam bancar tais confortos porque viver num convento saia bem caro. Além do
dote e dum enxoval completo, era necessário pagar uma tarifa anual para custeio
da alimentação. Flexível, o convento, permitia o ingresso de mulheres tão-somente para
exercerem virtudes cristãs, sem que fossem obrigadas a abraçarem a vida religiosa
(provavelmente viúvas ou solteironas). Dos terraços, avistam-se os onipresentes vulcões Chachani e Misti. E durante a visita soam belas
músicas sacras. Sento à mesa da agradável cafeteria e sonho, enquanto bebo
uma limonada, que adoraria ter vivido num lugar assim! Fazendo doces, bordando,
cuidando dos jardins e orando diante de tão belas imagens. Uma velha fantasia
que acalento desde menina essa de ser freira. Saindo de tão altas platitudes, vou às compras. Pouca coisa, apenas uma que outra lembrancinha necessária para
algumas pessoas queridas. E mais não faço nesse dia porque o domingão me reserva uma boa: vou subir o Chachani.....hahahaha!!
Saímos
de Sangalle às 05 e 30 da manhã. Acompanham-nos Bliss e Fionnuala. Seu guia combinou de
deixar a vila às 4 e 30 e as gurias quando souberam que nós sairíamos às 5 e
30, pediram pra ir conoco! Ainda escuro, ligo a lanterna de testa. Decorridos
40 minutos, desnecessário seu uso, já que a claridade da manhã se impôs. Fionnuala
tão falante, ontem à noite, mantém-se quase muda durante a caminhada. Ah,
nada como um tragoléu pra soltar a língua das pessoas e day after voltar a
emudecê-las, hehe. Já Bliss mantém seu sorriso cheio de dentes. A trilha que, ontem, vista à distância
tanto temor me inspirou, hoje não é tudo aquilo que eu
imaginara. Essas perspectivas enganadoras...tsk tsk tsk! Não dá pra considerá-la fácil, afinal se trata dum desnível de 1.000 metros de ininterrupto
ascenso, mas difícil não é. Sem maiores dificuldades técnicas, o bem marcado caminho
exibe em seu lado direito o lindo visual do canyon onde se vêem, próximas uma da outra, as vilas de Malata e Cosñirhua,situadas no paredão oposto. Passam por
nós alguns turistas montados em mulas. A subida deve tê-los amendrontados
ou, então, mais provável, estão com as pernas esbagaçadas da descida de
Cabanaconde a Sangalle. Encontro um grupo de brasileiros. Um deles, um gordão,
enrolado na bandeira nacional, botando os bofes pela boca, só sabe dizer que
está fudido, apontando pras pernas. Indago o óbvio ululante: “mas cara, por que
tu não contratou uma mula?” E o gorducho,
bem humorado (dificilmente um gordo não é bem humorado ou metido a
engraçadinho....por que será?), responde que as mulas só aguentam até 80 kg,
peso que ele tem em dobro, hahahaha!!! Hilária a situação do gordo, tadinho! A
garotada está viajando pela América do Sul com a intenção de fazer um
documentário tipo reality show pra tentar vendê-lo a um canal fechado de TV
quando retornarem ao Brasil. Numa das tantas dobras da trilha, curtindo um rock transmitido por um aparelhinho de som, um casal, com ar cansado, sentado no chão,
recupera as energias da íngreme subida. Em 2 horas e 50 minutos - poderia ter
feito em menos tempos, mas paro toda hora pra fotografar e filmar – alcançamos o
topo após 4 km de percurso. Ali, dezenas de jovens, felizes e orgulhosos de sua
façanha, descansam após o cansativo ascenso. Mais uma caminhadinha de hora e meia até Cabanaconde onde desayunamosenquanto esperamos a van que nos levará de volta a Arequipa. Embora
sempre seja servido o mesmo desayuno - chá, geleia de morango, manteiga e pão –
como com gosto, até porque é muito gostosa a singela refeição. Embarcamos na
van onde já se encontra acomodado um bando de adolescentes franceses, todos magros e nada simpáticos.
Em Maca, na rua principal, mulheres apregoam a sempre usual parafernália de produtos
típicos: mantas, casacos, gorros e bonecas. Num poste, amarrados com um cordão, uma lhama
e um gavião são alugados aos cliques fotográficos dos turistas em troca de
alguns soles. Vejo uma sorridente Bliss com a ave pousada no ombro sendo
fotografada por Fionnuala, hehehe. Quase caio na tentação de fazer o mesmo mas devido
ao pouco tempo que o guia nos deu prefiro visitar a linda igreja pintada de
cal, com o átrio murado! Curto demais fazer os 3 pedidos a que se tem direito
quando se entra num templo pela primeira vez. Na rua ao lado da igreja, uma festa
com banda e dançarinos usando máscaras de árabes está iniciando. Alguns homens
fazem uma rodinha e se põem a dançar. Moças, exibindo lindos trajes típicos caprichosamente bordados, sentam-se à beira da calçada, bebendo refrigerante. Lamento não poder ficar porém a van
já está quase partindo. Descemos rapidamente num mirador donde se avistam o nevado
Quehuisha e, no vale abaixo, a vila de Madrigal. No fundão duma
garganta, uma mina de prata abandonada. A próxima parada é Yanque onde curtimos
deliciosas piscinas de águas termais. As melhores do trek, sem sombra de
dúvida! Sem semelhança com as de Llhuar e Sangalle, são feitas de
pedras, bem rudimentares. Relaxo feliz da vida nas cálidas águas. Em frente,
dois vestiários feitos de carrizo com 2 chuveiros pra quem quiser tomar uma ducha,
dessa feita usando sabonete. Rumamos então para Chivay onde almoçamos no mesmo restaurante
onde desaiunamos há 5 dias atrás, quando o trekking teve início. O bufê do Sumac
Wasi oferece diversos pratos típicos e custa 25 soles. Tão sumpimpa a refeição,
que repeti 3 vezes!! Chego em Arequipa às 17 e 30. Cansada, saio e
compro salteñas (prefiro às empanadas) mais uma tortinha de morango. Levo tudo pro hotel. Pego, então, um copo de chá na recepção e subo pro meu quarto. Muito a organizar já que daqui a 2 dias enfrento outro trekking. E no maior vulcão da cordilheira vulcânica, o Chachani, com 6.057 m. O objetivo é alcançar sua cumbre. Vamos ver no que dá! Qual não é minha surpresa quando abro o Face e dou de cara com o alegre convite de Vevê Mambrini, jornalista paulista, anunciando que está também em Arequipa. "Simbora tomar uma cerveja?" Pergunto onde ela se encontra mas fico sem resposta. Deve estar em algum lugar onde não há wifi....que pena! Mas desencano rapidinho. Estou deveras cansada e minha pilha não ia durar muito. Melhor dormir e descansar pra amanhã estar 100% reenergizada!
Acordo
às 7 com ruidosas rajadas de vento. Quando saio para ir ao banheiro, um pouco
mais tarde, o dia está radiante, sem pinta alguma de vento. Hoje vamos à Sangalle. Normalmente, não
procuro saber muito sobre meu roteiro, por isso o pouco que sei sobre essa vila é que, à
semelhança de Llahuar, também oferece águas termais. Mas bah gente, levo um susto no desayuno. Nada mais nada menos que
um pratão com arroz, ovo frito e 3 rodelas de tomate! Tsk tsk tsk....não rola almoçar na hora do café, hehe. Peço então pão, geleia e chá, no que sou
atendida. A filha de doña Nancy se desculpa em não poder servir manteiga. Por causa
dos consertos na estrada que liga Cabanaconde ao paredão sudoeste do Colca, bem
no trecho em frente a Llahuar, a entrega de víveres resta interrompida, tanto
que os moradores de Fure já se ressentem da falta de alguns mantimentos. Às 8 e 30, deixamos a vila. Como
estamos agora caminhando no paredão leste do canyon Huaruro dá pra enxergar muito
bem o trajeto que percorremos ontem na parede oeste. Passamos pelas vilas de
Llatica e Toruña, encravadas no sopé da montanha. Llatica está praticamente ao
nível do rio Molloco enquanto Torunã localiza-se mais acima, talvez 200 metros
acima do nível do rio. Pernada sem maiores percalços, nada que demande esforço. A trilha é feita praticamente à sombra já que o sol incide somente no paredão
fronteiro do Huaruro. Decorridas 2 horas, alcançamos a parede
nordeste do Colca onde passamos a trilhar. No fundão do adorável canyon Huaruro, despontam alguns
nevados da cordilheira Chila. Por falar em Chila, o Colca é o divisor entre esta
cordilheira e a Vulcânica. Na primeira, o vulcão mais representativo é o Mismi, trombeteado pela maioria dos guias como nascedouro do rio Amazonas, quando, na
verdade, seu manancial advém do nevado Quehuisha. Já a segunda cordilheira, goza de mais
popularidade porque ali se situam dois vulcões muito badalados: Chachani, o
maior, com 6.057 m, e Misti que resguarda um perfeito formato cônico em razão
de sua “juventude” em relação aos demais. Curto pra caramba o tanto de trilhas abertas no paredão fronteiro do Colca, possíveis
devido à inclinação pouco abrupta de suas paredes. Paramos no mirador Apacheta
que, com seus 2.400 m, é o local mais alto da região. Adrián conta que os incas
chamavam seus pontos mais altos de apachetas, costumando neles depositar folhas
de coca mastigadas. Tal gesto significava
abandonar ali o cansaço para prosseguir com
forças renovadas o restante da jornada. A partir do mirador, a trilha termina e
tem início uma estrada de chão batido, larga e plana, cujo início é
em Cabanaconde com término em Malata, uma das 14 vilas existentes no canyon. Passados
40 minutos, abandonamos a estrada e enveredamos por uma trilha cujo desnível de
500 metros leva a Sangalle. No trecho inicial, peço um help a meu guia (dame tu
mano, Adrián!!) porque a passada exige certo cuidado. Mesmo com medo, eu vou!!
Adooooro tudo isso!! Ultrapassada a íngreme descida, desembocamos num platô onde há uma plantação de cactus. Pregados em seus caules, envelopes de papel. Intrigada, pergunto a
Adrián o motivo. Fico então sabendo que são cochonilhas fêmeas ali colocadas de
modo a infectar os cactus pra produzir o tal corante. Lá embaixo as piscinas
esverdeadas de Sangalle convidam ao relax. Chama-me a atenção o que
parece ser, à distância, um espantalho. Quando estou quase perto, o que vejo, porém, é uma cruz. Igualzinha
à de Fure, também coberta com flores vermelhas. À medida que me aproximo do paredão
sudoeste, mais e mais se destaca a ziguezagueante trilha que leva a Cabanaconde. Tremo só de pensar em enfrentá-la amanhã. Vai ser osso subir essa íngreme aclividade! Finalmente, eis-me em Sangalle após 11 km de tranquila caminhada! No fundão
do canyon, às margens do rio Colca, o vilarejo é um oásis em meio à aridez da paisagem. Várias
pousadas, todas providas com piscinas de águas termais. Contudo, a temperatura é decepcionante. Fria, nem se compara à tepidez das piscinas de Llahuar. Na pousada onde estou, sou a única coroa. Dentre
os hóspedes, destacam-se dois grandes grupos de estudantes secundaristas franceses. Observo que a garotada não fala muito alto, o que acho ótimo. Tenho horror a gritaria. A
maioria dos turistas, que aqui se encontra, limita-se a descer a trilha de
Cabanaconde, permanecendo no balneário por um ou dois dias, com rápidas incursões a
Malata e ao Mirador Apacheta. Poucos incluem Llahuar no trajeto. Embora Sangalle
e Llahuar estejam a mesma altitude - 2.200 m -, aqui faz frio. À noite, durante
a happy hour, conheço Bliss e Fionnuala (se pronuncia Feniula). Com meu
rudimentar inglês consigo entabular uma razoável conversa e obtenho informações sobre as duas moças. A primeira,
uma californiana simpaticíssima, é terapeuta e trabalha com crianças autistas. Já
a segunda, irlandesa, é professora primária e mora em Londres porque não
descola um bom emprego em seu país. Católica, a guria frequenta missa aos
domingos e morre de saudades da família que permaneceu na Irlanda. A irlandesinha, após o terceiro pisco sour, fala pelos cotovelos. Sinto certa dificuldade em acompanhar
seu conversê, também pudera, já estou igualmente na terceira rodada, hehe.
Acordo
no meio da noite e penso: droga, está chovendo, sem me dar conta de que o ruído
de água que escuto é o do rio em seu interminável desfile rumo ao Pacífico.
Quando subo a íngreme e longa escadaria de pedra até o restaurante sinto que a
descida do dia anterior está cobrando seu preço. A dor nas panturrilhas e nas
coxas se faz sentir. E como! Adrián explica que o nome dos bambuzinhos com que
são construídas as casas é carrizo. Nas cozinhas sua utilidade é providencial:
permite que a fumaça escape dentre suas frestas. Enquanto espero o desaiuno,
Saraí, a gerente da pousada, aponta o rio: que transformação!! Nem sinal da
límpida e verde correnteza de ontem. Hoje o que vejo é a feia coloração
amarronzada proveniente da explosão de rochas. Trata-se de consertos efetuados
num trecho da estrada situada no paredão em frente. Nuvens de poeira pairam no
ar. Simpática e bonita, Saraí faz questão de me pespegar uma beijoca quando
estou de partida. Observo que também procede assim com os franceses ali
hospedados. Saímos às 8 e 40 e abandonamos o Colca, começando a percorrer
as entranhas do Huaruro. Com 10 km de extensão, é uma miniatura de canyon se
comparado ao Colca. Seu rio, Molloco ou Huaruro, serpenteia veloz entre os
paredões cobertos de verde vegetação. Percorremos uma das tantas trilhas
abertas na parede oeste. Sem qualquer nível de exigência, o único lance
perrenguento vem a ser um trecho – graças a deus, curtíssimo - obstruído por um
desmoronamento de terra. Fico com medo porque, à direita, uma baita rampa
conduz ao rio situado 200 metros abaixo. Um escorregão e adiós, señorita
Beatriz. Adrián então estende sua mão no crux da via (pra mim é claro) de modo
a que eu possa atravessá-lo em segurança. Fazer o quê, se sou cagona, né! Ele observa
que tais deslizamentos de areia e pedras têm sido causados pelo Sabancaya,
vulcão que, ultimamente, vem se mostrando deveras indócil. Um pouco antes de
chegarmos a Toruña, passa por nós um velhinho super afável, acompanhado de seu
filho. Curioso, o senhorzinho pergunta donde venho e se vou visitar a cascata
de Huaruro. Ontem
não havia viva alma na trilha, hoje, no entanto, há um certo
movimento. O que me agrada e muito. Curto demais bater papo com nativos. Ainda
há pouco, cruzamos com alguns moradores de Llatica. Buenos dias, dizem eles
amávies. Adrián comenta que estão indo pruma trilha, situada mais abaixo da
nossa, a fim de repará-la. Tudo por causa dos maledetos deslizamentos de terra
provocados pelo Sabancaya. Um pouco mais adiante, um arriero conduzindo duas
mulas, dirige-se à pousada em Llahuar. Provavelmente, pra vender produtos
agrícolas de seu sítio. Um trecho da canaleta que puxa água do rio corta a
trilha, logo desaparecendo no meio da mata onde com certeza irá irrigar as
plantações dos moradores do canyon. Um pessegueiro, à margem da estreita
estradinha, exibe um solitário cacho de flores rosadas. Lindas. Fotografo, é
claro! Embora só subida até Toruña, um ajuntamento de apenas 10 casas, o
caminho continua facinho demais. Que dia glorioso! Temperatura de 25º C e céu
imaculadamente azul. Vento? Nem sei o que é isso. Chegamos a
Llatica, essa sim,
uma vilazinha, contando inclusive com igreja e largo onde são realizadas festas
em homenagem a virgem padroeira do lugarejo. E eletricidade! Evidenciada nos
postes dispostos ao longo da rua principal. Uma rápida parada para comprar água
numa venda. Entretanto, a casa está cerrada. Adrián observa que a dona deve ter
ido para a lavoura. Pego então água da torneira que, inicialmente, se mostra
dum branco opaco, possivelmente, devido a resíduos de calcário. Pouca demora,
adquire a tão famosa transparência. Adrián conta que, quando do boom nos
preços do corante obtido dos parasitas nos cactus, a maioria dos adultos jovens
foi viver nas cidades. Nessa época, valia 100 dólares o quilo, agora não passa
de 30 dólares. Devido à grande quantidade de arbustos e árvores, esta pequena e
adorável garganta oferece bem-vindas zonas de sombra. Até Llatica, sem gozação,
é escada rolante a trilha. O enrosco começa após atravessar a ponte de cimento
que leva ao paredão leste onde há a trilha que conduz a Fure. E nas 2 horas de
pernada até esta vila, a moleza definitivamente acabou. Ainda bem que alguns
muros de taipa, delimitando as propriedades, lembram as regiões serranas do meu
Rio Grande do Sul, despertando lembranças agradáveis que me distraem da dureza
que tenho pela frente. Num trecho bem íngreme, enfrento quase uma
escalaminhada. Adoro tudo isso, hehehe. Duzentos metros antes de Fure, onde
chegamos às 13 horas, outra travessia de ponte, dessa feita, sobre um rio
praticamente seco. Dum paredão, medindo cerca de 100 m, despenca uma cascata de
águas minguadas. Fure conta também com eletricidade. Gerada, é óbvio, pela
energia fluvial. Ficamos numa pousada construída com adobe. Tudo de ruim essa
coloração acinzentada de cimento. Nem me apetece sonhar de olhos abertos neste
quarto. Num beco da vila, distante algumas dezenas de metros dos dormitórios,
está o “restaurante do albergue”. Nada mais que uma mesa com dois longos bancos
debaixo dum
alpendre, no quintal dos fundos da casa de Doña Nancy, proprietária
do estabelecimento. Caprichosa, ela veste a mesa com uma toalha amarela. Em 40
minutos, serve uma sopa de sêmola com ovos, seguida de papalisa ou olluco
(espécie de batata) misturada com palillo (semente que moída resulta num
tempero tipo colorau) mais uma porção de arroz com bucho de cordeiro. Pra
compensar as acomodações sem vestígio algum de charme, a comida é, em
disparada, bem mais saborosa que a servida em Llahuar. Após o almoço, vamos até
a cascata de Huaruro. A caminhada é basicamente subida mas nada que se compare
à que fizemos pela manhã até Fure. Localizada no fundão do canyon, explode,
duma fenda estreita cavada na rocha, a impressionante massa líquida ao longo de
170 metros do paredão oeste. À tardinha, quando retornamos ao vilarejo, sinto
frio. O desnível de 600 metros em relação à Llahuar - estamos a 2.800 metros -
ocasiona uma mudança significativa na temperatura durante a noite. Há ovelhas e
uns mandinhos brincando na rua principal. Atendendo a meu pedido, uma
guriazinha com a boca pintada de vermelho, posa pruma foto, agarrando uma das
peludas. Adrián explica que os jovens quando terminam o primário se mandam pra
Cabanaconde, Chivay ou Arequipa, afim de terminar seus estudos. No povoado, só
ficam crianças, adultos e velhos. Hoje foi uma caminhada de respeito. De
Llahuar a Fure, o Garmim registrou 7 km em 4 horas e 10 minutos; de Fure à
cascata (ida e volta), 7 km e 400 m em 3 horas e 15 minutos. Deu pra cansar tanto
que dormi tão logo pousei a cabeça no duro travesseiro, logo após a janta. Nem
bem 21 horas e eu já aconchegada nos braços de Morfeu.....hehehe.
Às 4 da
manhã passam no hotel e embarco numa van ainda vazia. À medida que recolhe
turistas de diversos países, em outros hotéis de Arequipa, vai ficando lotada.
Adoro quando o guia explica que se sentirmos vontade de ir al baño basta
pedir que o carro parará....na beira da estrada, hahahaha!!! Durmo
bastante e um pouco antes de passarmos pelo ponto mais alto da região, o Passo
PataPampa com seus respeitáveis 4.900 m, acordo. Entretanto, não descemos,
primeiro porque ainda está aquele lusco-fusco que antecede ao amanhecer (daí
não dá pra tirar fotos, né!) e segundo porque está muiiito frio. Adrián
aponta três vulcões que se vêem do lado esquerdo da estrada: são Ampato, Sabancaya
e Hualcahualca bastante procurados por montanhistas mais experientes (não é o
meu caso). Mais adiante, mostra-me o Mismi onde nasce o rio Amazonas. Vulcão aqui é mato! Chegamos
às 7 horas a Chivay, capital de Caylloma, uma das oito províncias do
departamento de Arequipa. Considerando sua altitude - 3.600 metros - e horário tão
matutino, faz frio pra caramba quando descemos pra desaiunar num dos restaurantes da cidade. Nas mesas, caprichosamente postas, cestas com pães frescos, achatadinhos, já que sem fermento. Manteiga,
queijo e geleias, aqui chamadas, marmeladas, deliciosas, em especial a de fresa
(morango). Simples e saboroso. Até então vínhamos trafegando por uma estrada
asfaltada. Alguns quilômetros após Chivay, o piso vira chão batido e os
dois túneis que cortam as montanhas nem revestimento têm. Gosto da sobriedade
desta paisagem, diferentíssima da luxuriante vegetação existente em grande porção do território brasileiro. Picos nevados despontam aqui e ali numa cenário cuja coloração
é dum verde-pálido. Só estranho em meio à grande quantidade de cactus, planta
nativa destes ambientes semi-áridos, a existência de eucaliptos. Árvore exótica
que é, provavelmente, deve ter sido trazida pelos conquistadores espanhóis. Nos
vales, há pequenos povoados habitados ainda por índios descendentes dos huaris,
povo pré-inca. Seguindo a milenar técnica herdada de seus antepassados, os
peruanos, irrigam seus terraços com águas desviadas dos rios para canaletas
caprichosamente construídas ao longo das plantações. Este tipo de cultivo
obedece ao critério climático: nas encostas das montanhas, cereais, nos vales,
hortaliças. No Mirador dos Condores, encontro aquele frenesi tão característico
dos points de alta demanda turística: uma multidão de criaturas falando uma
babel de línguas e disputando um lugar junto a mureta no intuito de fotografar
as imensas aves. Porém os condores não estão hoje para muita exibição, não. Os
que dão as caras são jovens e seu tamanho não se encaixa nas impressionantes
imagens anunciadas pelas agências turísticas. Da família dos abutres, são
chamados, aqui nos Andes, de basureros, ou seja, lixeiros. Graças a
esses queridos, tudo que é bicho morto é por eles devorados. Sem corpo morto,
podicre, não há fedor! Os filhotes, ao contrário dos seres humanos, adquirem
sua independência, aos 3 anos, quando são considerados definitivamente aptos a
voar. Longevos, a média de vida destes pássaros chega fácil aos 50
anos. Fico bem contente quando recomeçamos a viagem, estou na ponta dos cascos pra começar
meu trek. Por mim dispensava visita nesse lugar tão atrolhado de gente. Enfim, eis-me
em Cabanaconde, ponto de partida deste primeiro dia de pernada. Pequeno, o
pueblo, situado a 3.200 m, como é tradição nestas terras, conta com uma Plaza
de Armas em frente a qual há uma igrejinha branca cuja torre do sino não faz
parte do corpo central do edifício. Pausa pruma reflexão. Pensando bem, no
Brasil, também temos em cada cidade, seja grande, média ou pequena, uma praça
(só não recebe a denominação de Armas) com uma igreja em frente. Deve ser coisa
de países imperialistas católicos, como foram Portugal e Espanha à época. Pra
compensar a intensa atividade vulcânica, causadora de sismos, ou seja,
de tremedeira no solo, há, aleluia, muitas nascentes de águas
calientes. Empezamos o trek às 10:30 rumo a Llahuar onde
pernoitaremos. Decorrida 1 hora e 30 minutos, já nas entranhas do canyon,
começo a visualizar perfeitamente os dois paredões. Amo canyons!! Até porque um
dos meus primeiros esportes de aventura foi canyonismo, praticado nas belas gargantas do
sul catarinense. No fundão, distingo o brilho do rio, rio este que deságua
no Pacífico, distante apenas 200 e poucos quilômetros a
oeste. Na sua parte mais profunda, esta colossal garganta de 100 km de extensão
atinge 3.600 m de profundidade. Adrian explica que, nas tunas (cactus), habitat
das cochonilhas, é extraído um corante usado em alimentos, roupas e maquiagem.
Há 20 anos atrás, esse parasita enriqueceu dezenas de famílias que viviam na
região; atualmente, com a descoberta de corantes sintéticos, perdeu,
entretanto, muito de seu valor econômico. Aprendo ainda que a catuba, um
arbusto de pequeno porte, produz, pra se defender dos insetos predadores, uma
resina altamente corrosiva. Se inadvertidamente tocada, causa sérias
queimaduras. Mais adiante, meu guia aponta uma árvore esguia de galhos finos e desfolhados, de nome pichan, cujo fruto semelha-se à banana. As encostas
dos paredões são cheias de trilhas mostrando a intensa atividade entre os
vilarejos. Há lugares que não passam dum ajuntamento de 5 ou 6 casas enquanto
outros contam com 40 ou 50 residências, mais escola primária e pousadas. Tudo
duma simplicidade franciscana, é claro. Batidíssima, pois é rota frequente
entre Cabanaconde e vários vilarejos situados no interior do canyon, a trilha
não é nada dura, inobstante o desnível atinja a marca de 1.100 m.
Contudo, o aparentemente árduo descenso é facilitado, em alguns trechos,
por providenciais zigue-zagues. Basta, apenas, certo cuidado com os pedregulhos
de modo a evitar escorregões. Só está sendo mais “difícil" por causa do
calor excessivo. Também estou preocupada com o baita torrão nos meus braços...herança
do pedal de ontem em Arequipa. Tanto que fui obrigada a passar o protetor
facial na ausência do corporal, este, invariavelmente, por mim esquecido em
viagens. Atravessamos uma ponte de cimento sobre o rio Colca que liga o paredão
sudoeste ao nordeste da garganta, caminhando agora por uma estrada. Continuamos cozinhando debaixo do sol
esturricante, ingressando, graças a deus, na única zona sombreada do percurso.
Pena tenha sido no final do trek porque, pouca demora, chegamos em Llahuar.
Meu relógio Garmim, registrou 11 km feitos em 4 horas e 30. Llahuar nem pode
ser considerada uma vila, pois não passa duma pousada, pertencente a uma
família que há 12 anos resolveu investir no turismo. Com vários chalés e um
amplo refeitório construído no topo duma escarpa, as habitações são bem
rústicas mesmo: a parte inferior, construída com pedras à semelhança de nossos
muros de taipa, enquanto, na superior, utilizaram taquarinhas cujas frestas
permitem que, à noite, a luz da lua brilhe no interior dos quartos. Tudo
de bom!! De mobília, um colchão de casal disposto num leitode pedras. Como não
faz frio à noite, é total a despreocupação com a vedação das casas. Lá embaixo,
junto ao rio, três piscinas de águas calientes esperam os turistas e seus
fatigados músculos!! Um luxo este lugar!! Sua localização é estratégica, já que
se encontra justamente na confluência dos canyones Huaruro e Colca. Sendo o
canyon Huaruro, neste ponto, dotado de abundante vegetação, a pousada tem não
só uma quantidade abundante de gerâneos avermelhados como outros tipos de
plantas que lhe confere um diferencial em relação à seca paisagem no seu
entorno. Descubro, então, que o segundo rio que atravessamos se chama
Molloco ou Huaruro desaguando no Colca, bem na frente da pousada. Depois da
imersão em uma das piscinas de águas cálidas, subo a íngreme escadaria até o
restaurante. Quero escrever um pouco sobre meu dia. Vasos de garrafa pet cheio
de flores nos banheiros e sobre a grande mesa do refeitório são detalhes
requintadamente simples. Ecologicamente correta, a pousada oferece eletricidade
oriunda de painéis de energia solar. No bar, uma lousa, iluminada com luzinhas
coloridas, anuncia os preços camaradas da happy hour. Não me faço de rogada e
peço um pisco sour. Bem feitinho, considerando a falta de gelo. Isso porque a
energia elétrica gerada basta somente para lâmpadas, carregadores de máquinas
digitais e TV’s, excluindo, porém, o uso de geladeiras. À noite dá uma
refrescada. Nada contudo que um casaquinho de tecido leve não resolva. O amplo
refeitório, praticamente sem janelas, debruça-se sobre o rio Colca e o
murmúrio de suas águas é música aos meus ouvidos. Quando me retiro pro quarto, no céu,
completamente limpo, as milhares de estrelas prenunciam o belo dia que será
amanhã....podicre!
Deixo Portinho na madrugada dum sábado chuvoso. Com breve parada em Guarulhos pra troca de aeronave, toca
pra Lima onde mais uma vez outra conexão (oh, não!!). Meu destino?
Arequipa, por supuesto! Em Lima, um brevíssimo encontro com Sergio,proprietário duma agência em Huaraz, por mim contratada há um par de anos atrás quando fiz a Cordilheira Huayhuash. Um mês antes da viagem, enviei email, pedindo-lhe que se encarregasse do meu roteiro. Como é comum em todo o Peru, dois
cães da Polícia Nacional farejam as bagagens quando desembarco em Arequipa. Pra
minha surpresa, no desembarque nem sinal do cara que estaria a minha espera com a tal placa com meu
nome. Em sendo assim, não tenho outra alternativa senão pegar um
táxi, ordenando ao motora que me conduza ao hotel. Situado na traseira do Monastério Santa Catalina, eis-me hospedada no coração do centro histórico da cidade. Assim que chego, telefono pra Sergio já meio puta da cara. Pouco depois, surge Ivan, dono duma agência na cidade, a quem Sergio, como é usual nesse ramo de negócio, transferira responsabilidade na execução dos passeios. Tentando justificar o injustificável (a
ausência de alguém no aeroporto),corto sua explicação com certa rispidez.
Acabamos nos acertando ao cabo de certo tempo, até porque estou de sangue doce e meu espírito belicoso tá de férias também. Como o trek ao Colca só iniciará na
segunda, combino um passeio de bici pro dia seguinte. Pedal domingueiro, em qualquer lugar, é
tudo de bom, ainda mais aqui em Arequipa cuja altitude - 2.300 m acima do
nível do mar - é o desafio. Ah.....essa Arequipa! Uma pedrinha nas minhas botas que vem de longe magoando um de meus pés. O que aconteceu foi o seguinte: em
2005, estreei no montanhismo, percorrendo, em 4 dias, a famosa trilha até Machu
Picchu. Terminada a pernada, o plano era conhecer Arequipa, visitar o canyon
Colca, dar uma passadinha em San Pedro do Atacama, terminando a viagem em
Santiago, curtindo um bom hotel 4 stars. Dei, entretanto, um baita azar!! Fui
premiada com a tal síndrome do piriforme. Pra quem não sabe, trata-se duma
inflamação no nervo ciático. As dores são excruciantes. Resultado: minha viagem foi na cama dum hotel em Arequipa onde
permaneci durante 8 dias deitada, vendo 24 horas por dia na TV, programas de
culinária peruana, mexicana e chilena. Meu espanhol, diga-se de passagem, melhorou consideravelmente. Entretanto, a dor na bunda e na perna esquerda era
tanta que não suportava ficar sentada nenhum minuto. O seguro de saúde só
liberou meu retorno ao Brasil quando o médico arequipenho me deu alta. E de
1ª classe, na saudosa Varig, regressei pra casa. Primeira e última vez que
usufruí tal benefício. Os anos se passaram, outras viagens realizei, mas a
frustração de não ter conhecido Arequipa, como desejara, volta e meia me
azucrinava. Não deu outra, este ano, aproveitando 10 dias de férias que ainda me
restavam de 2012, resolvi regressar à Ciudad
Blanca, como é conhecida a segunda maior cidade peruana, situada ao sul do país. Esta denominação
deve-se à coloração clara de muitas de suas igrejas e casas, construídas com
pedra de cantaria, aqui conhecidas como sillar. Terminado os acertos burocráticos
com Ivan sobre meu tour, trato de dar um pequeno rolê pelas redondezas. Lembro que, em
2005, já sentindo bastante dor, no terraço dum restaurante, situado na encantadora viela entre as calles Santa Catalina e San Francisco, provei
pela primeira vez ceviche. Curiosa, gosto sempre de experimentar pratos típicos. Escolho na Plaza de Armas um dos diversos restaurantes que ali se oferecem. Peço, é claro, ceviche misto. De bebida, una copa de pisco
sour! Uma decepção o ceviche: moluscos duros e sabendo excessivamente a limão. O pisco? Razoável. Como sou, às vezes, meio-poliana, trato de
me consolar curtindo o visual feericamente iluminado que se tem da Catedral e
da Plaza de Armas. Os restaurantes, localizados sobre as arcadas dos edifícios
que circundam a praça, também exibem profusa iluminação. Impera no quadrilátero um eterno ar
natalino! Os arequipenhos curtem, alegres, a noite de sábado, inundando de risos e conversê as ruas. Eu, no entanto, bem mal dormida, acordada desde as 4 da manhã, tendo viajado mais de 10 horas espremida numa poltrona da classe econômica, retorno ao hotel vencida pelo cansaço. Durmo
com a TV ligada em programas de culinária, por supuesto!
No domingo,
acordo assanhada porque o progama é um pedal na cidade. Será um rolê de aproximadamente 20 km, percorrendo
alguns distritos – os nossos bairros - emblemáticos da cidade. Conheço, então, o bem cuidado distrito de Selva Alegre e seu parque. Após uma suave
subida, deixa-se pra trás o asfalto e segue-se por uma estreita estradinha de
chão batido até o Mirador de Carmen Alto. Atrolhado de carros e ônibus com turistas,
o local oferece uma panorâmica dos vulcões Chachani e Misti. A única
coisa boa do lugar é que nãohá – graças a deus - a maldita interferência dos
fios de eletricidade que sujam a paisagem do centro da cidade. Do Mirador, voltamos
ao asfalto e seguimos até o Santuário da Virgem de Chapi, padroeira de Arequipa. Situado no vale de
Chilina, às margens do rio Chili, no local, pratica-se rafting e escalada. Turistas
e arequipenhos mostram suas habilidades no paredão de arenito cuja maior graduação
alcança um desafiante 7B. Em dois botes de borracha, outra leva de turistas
pratica rafting no rio que, nessa época do ano, de tímidas chuvas, não ultrapassa
o nível 3. Dia supimpa, calor de 23º C, sem nuvem alguma no céu, o que evidencia o gostoso clima seco, tipo semi-árido da região. Com fome – já são 13 horas - peço a
Adrian, meu guia, que me leve a uma picanteria onde são preparadas comidas
típicas. Dirigimo-nos pois aodistrito de Cayma, pedalando ao longo da larga avenida
dividida ao meio por canteiros arborizados. Sinto vontade de cantar a plenos
pulmões, tão contente estou! Entramos no Pataccala, restaurante popular, famoso pelos bons preços e
fartura de comida. O espaço, embora simples, é simpático e limpo. A garçonete, uma mocinha, risonha e gentil. Sentamos ao
ar livre curtindo as esverdeadas águas do rio Chili. Dessa vez, além do Misti e
do Chachani, posso apreciar ainda o Pichu Pichu, localizado à direita do
Misti. Reza alenda que este vulcão por ser o guardião de Arequipa é considerado o
vulcão mais importante da região embora não seja o maior nem o mais difícil de
ascender. Do interior da casa, ouve-se um rádio tocando uma música criolla, interpretada
pela tradicionalíssima cantante limenha Carmencita Lara. Particularmente, acho a música peruana bem chata, com muita lamúria sobre desamores e traições. Melhor voltar à comida, que é bem melhor. De entrada, oferecem, em todos os lugares, um potinho com graúdos grãos de milho torrados com um pouco de sal. Peço uma jarra de chicha, uma bebida
fermentada do milho cuja coloração é vermelha. Do menu, escolho um Americano, mais PF impossível. Acomodados no prato, rocoto relleno (pimentão recheado com pedaços de carne), pastel de papas (rodelas
de batatas dispostas em camadas, cobertas por fatias dequeijo), chancho (porco), cuja pele exibe-se dourada e crocante, e um soltero de cuchicara (cebola
roxa, cenouras, abas e fatias finas de porco, temperados com limão. À parte, uma salada
de tomates com batatas. Gostosa barbárie de comida, embora pesada, tanto que
nem consegui terminá-la tampouco jantar à noite. Retomamos o pedal, dirigindo-nos
ao distrito de Janahuara pra conhecer seu famoso Mirador. Exibindo arcos
redondos de sillar e, convenientemente situado no topo de uma colina, oferece uma ampla vista da cidade e, claro, a imagem do sempre onipresente
vulcão Misti. Em frente à praça, o templo de San Juan Bautista,
datado de 1750, cuja frontaria é caprichosamente esculpida, também, em pedra
sillar. No regresso ao hotel, pedalamos por um trecho do distrito de São Lazaro, o bairro mais
antigo da cidade, com ruas estreitas e vasos de gerâneos pendurados nos muros e
peitoris das casas. Adorável meu dia. Embora não tenha tomado banho, dormi de alma lavada....hehe