segunda-feira, 19 de julho de 2010

La Paz

Depois dum rotineiro atraso em Guarulhos (por que mas por que os aeroportos não são pontuais como o são as rodoviárias, hein?), chego a La Paz, na madruga de domingo, por volta das 3 horas, sob um frio beirando os 2º C. O táxi, enviado pela agência Huayna Potosí Travel Agency, me conduz até o hotel Cruz de los Andes, localizado numa rua do centro, com o sugestivo nome de Pasaje Aroma, quase esquina com a Illampu. Os quartos têm, numa das paredes, afrescos bregas exibindo motivos que vão desde as típicas cenas andinas com llamas e nevados até bucólicas paisagens européias em que lânguidas damas navegam em canoas em meio a uma luxuriante vegetação. Muito bizarras las habitaciones! Estilos duvidosos são às vezes bem reconfortantes, sabiam? Acordo sonada lá pelas 10 com uma ponta de dor de cabeça que me acompanha durante o dia todo embora tenha ingerido líquido suficiente pra abastecer um camelo durante uma semana. E nem o comprimido de tylenol alivia a insistente dorzinha numa das têmporas. Não quero dar uma de chata só porque depois duma certa idade passei a desgostar das grandes cidades, mas La Paz é muiiiitoooo feia. E tal sentimento não é ditado pela irritação que elas me provocam. Juro, gente, quem sopra tal aversão é meu senso estético. Com uma população de quase 1 milhão de habitantes, a capital situa-se num vale, enclausurada por montanhas. Fica, assim, protegida dos ventos oriundos do altiplano. Ao fundo, adornam o horizonte duas montanhas cobertas por neve em seus cumes e flancos: o onipresente Illimani e o mais modesto Mururata; os demais cerros apresentam apenas uma paupérrima vegetação, característica de clima árido de alta montanha já que La Paz situa-se a 3.600 m acima do nível do mar!! Fundada no século XVI, o núcleo da cidade, inicialmente, abrigado nos fundões do vale, expandiu-se pelas encostas das montanhas. Por isso, há diferenças de altitude entre os bairros, atingindo alguns apenas 2.800 m, enquanto outros se debruçam do alto de 4.000 m!! Quanto mais pobre o paceño, mais alto ele mora, à semelhança de tantas cidades brasileiras onde as favelas também se encarapitam no alto dos morros. E na maioria das casas, as fachadas inacabadas, exibindo tijolinho à vista, não resultam dum premeditado estilo arquitetônico, e, sim, da necessidade de a população de baixa renda (a maioria no país) dispender menos imposto predial. Coisas de terceiro mundo. Afora algumas dezenas de edifícios altos e modernos, revestidos por espelhados e cintilantes vidros azuis, pretos e marrons, a cidade é, pra dizer o mínimo, despida de charme. Nas ruas centrais, o comércio de artesanato indígena chega a tontear. Uma lojinha ao lado da outra, vendendo tecidos coloridos, roupas de lã de llama, flautas de madeira, máscaras de estanho e outros badulaques similares que tanto seduzem os deslumbrados turistas. Tudo é barato, até pra nós, brasileiros, face à desvalorizada moeda boliviana. No meio desses bazares coloridíssimos, sobressaem os fetos de llamas em diferentes estágios de crescimento. Constituem uma atração à parte em meio a tanta obviedade. As mulheres pobres envergam as tradicionais roupas típicas: saias sobrepostas, mantas coloridas nas costas e chapéus masculinos encarapitados no cocuruto das cabeças de onde pendem longas e luzidias tranças. Nas calçadas, a oferta de alimentos é dos mais variados: amendoim salgado e doce, nozes, habas, frutas, humintas, empanadas, rodelas crocantes de bananas cozidas, afora enormes sacos de nylon, contendo diversos tipos de pães. Nos chás servidos em altos copos de vidro transparente, cobertos pudicamente, com pires, bóiam rodelas de maçã, laranja ou mandarina (bergamota), indicando o sabor que se quer degustar. Um velho, empurrando um carrinho de sorveteiro, apregoa água de côco para beber. Depois de ir na agência acertar os preparativos do trekking, vou até à Plaza Isabel La Católica pegar o ônibus que faz um city tour pelos principais pontos turísticos da cidade. Em uma hora e meia de andança, quer saber mesmo o que me chama atenção? Pois são os fios elétricos. Estendidos dum lado ao outro das ruas, formam uma caótica cama de gato. Num dos pontos fortes do passeio, a Plaza Murillo, onde se localizam o palácio do Governo, o Congresso Nacional e a Catedral, só percebo uma arquitetura medíocre. Já vi Plaza de Armas bem mais interessantes em minhas andanças pela América do Sul. O único lugar onde o ônibus pára (10 minutos apenas!!) é num mirador de onde se desfruta uma visão de 360º da cidade. Confirmo minha impressão inicial da capital dos paceños: nem o Illimani consegue dar-lhe um look mais significativo. Encarapitada no segundo andar do ônibus, ponho-me de pé pra fotografar e por pouco não me enforco nos fios elétricos que pairam qual uma gigantesca teia assimétrica sobre as ruas e avenidas. Na segunda-feira, mato o tempo, pegando o mesmo ônibus, dessa feita, num passeio até o Valle de la Luna, distante do centro 10 km. Pequeno, o sítio resulta da erosão eólica na rocha calcária, formando um mar de estalagmites à semelhança dum cenário lunar. Um homem com vestes típicas toca uma guitarra ao lado duma alta protuberância argilosa, apelidada El Sombrero de la Dama. Pra mim pareceu mais uma cobra prestes a dar o bote. Durante a caminhada no Valle de la Luna, a guia conta uma curiosidade sobre a origem dos chapéus masculinos usados, inicialmente, pelas bolivianas endinheiradas. Foi assim: um importador paceño encomendou à Inglaterra uma quantidade enooorrrme de chapéus masculinos. Fabricados com um “ligeiro” defeito, mal se ajustavam na cabeça dos clientes. Não deu outra, os homens rejeitaram-no. Um chapéu cuja boca trancava na testa não os tornava elegantes. Muito pelo contrário, seriam alvo de chacota entre seus pares! O que fez, então, o esperto negociante quando percebeu o tufo que iria tomar, caso não conseguisse desencalhar a vultosa encomenda? Parou e pensou: “venderé para todas las vanidosas señoras y señoritas de nuestra mejor sociedad”. Dito e feito. Astucioso, o melífluo homenzinho argumentou ser aquele modelo o último grito na Europa. Não deu outra, convencida, a mulherada, deslumbrada, arregalou os olhos. E, assim, a tola vaidade triunfou sobre o senso do ridículo, hehehe. Só muito mais tarde as mulheres do povo começaram a vesti-los. Se é verdade tal estória, tenho cá minhas dúvidas, pois no Peru esse tipo de chapéu, também, é usado pelas índias. A pergunta que não quer calar: seria o tal comerciante já, àquela época, um dos precursores das multinacionais? O dia segue os passos soalheiros do domingo: céu azul, despejado de nuvens, a mesma temperatura agradável de 14ºC. Jovens turistas europeus arriscam-se e vestem apenas bermudas e camisas de manga curta. Coisa boa ser jovem. Eu não me animo a tirar minha jaqueta de fleece embora em alguns momentos tenha transpirado um pouco. Compro, quando termino o passeio, uma salteña, vendida numa carrocinha na calçada. Este tipo de empanada, recheada de carne ou galinha, é mais “jugosa”, segundo informação da vendedora. São feitas apenas no período da manhã, ao contrário das tradicionais empanadas disponíveis durante todo o dia. Depois do passeio, vou às compras, encontrando na Tattoo um brasileiro. Descubro que é o Carlos, do Grade 6, uma agência de turismo de aventura paulista. O fofo me ajuda a escolher um isolante térmico com a maior boa vontade embora esteja acompanhado de alguns clientes. Adquiro, ainda, minha primeira jaqueta de pluma, marca Marmott, azul. Fazer o quê, se não tem rosa, né? Gente, nem sei como ainda não morri de frio desde que comecei a me aventurar pelos Andes e Himalaia. Ano passado, na cordilheira Huayhuash, e o retrasado, no Paquistão, passei um frio de renguear cusco, encapotada numa humilde jaqueta impermeável, forrada com pele sintética. E que peso ela tem!! De vergar o cachaço!! Nem entro em muitos detalhes sobre o singelo isolante prateado com ralos 2 mm de espuma. Chego à conclusão que tal tipo de forração adequa-se apenas aos climas tropicais ou temperados, dentre os quais se inclui o do nosso país. A dor de cabeça só dá pinta pela manhã, situação que perdura durante toda minha estada na Bolívia, exceto no último dia, o do ataque ao cume do Huayana Potosí. Todavia, após a ingestão dum comprimidinho, esfuma-se no límpido e azuladíssimo céu boliviano. Não dou mole pra esse tipo de desconforto. Tomo muita água, chá de coca e masco punhados de folhas desta erva com afinco de vaca. Afinal, tenho de estar nos trinques quando chegar o dia do meu primeiro 6.000!! Cai a noite em La Paz e, no céu, estrelado, uma lua crescente surge em meio ao emaranhado de fios elétricos. Eba, vou ter lua cheia lua no dia do ataque ao cume do Huayna Potosí. Será que consigo?! Ai ai ai....já tô nervosa!!
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Um comentário:

petro capparelli disse...

Oi, Bea, estou pensando em fazer a ascensão ao Huayna Potosi no ano que vem. Tb moro em Poa e sou colega da justiça federal. Te pergunto: foste por qual empresa aqui do Brasil??? ou arranjaste td por La Paz mesmo??? Parabéns pela conquista e pelo belo relato.
pétro