terça-feira, 20 de julho de 2010

Cordillera Real

O telefone toca em meu quarto: a recepcionista avisa que meu guia se encontra no hall. Desço e conheço Nemesio que me guiará durante 4 dias até o refúgio Huyna Potosí. Antes de iniciarmos nossa viagem até a laguna Chiat Khorta, onde irei acampar, passamos no depósito da agência pra pegar equipamentos. Lá, o encontrar uma adequada aos meus pés. Depois de tudo pronto, embarcamos no táxi e lá vamos em direção ao Condoriri. Os Andes bolivianos estão divididos em duas zonas principais de oeste a leste: Cordilheira Ocidental e Cordilheira Oriental. Nesta se aloja a cordilheira Real ou Setentrional. A composição de suas rochas é complexa, constituída por rochas ígneas e sedimentares, destacando-se os granito e arenitos, além de grandes jazidas de prata e estanho. Entre as duas cordilheiras, a grande meseta que constitui o altiplano boliviano pincelada por lagos de água doce e salares, cujos maiores destaques são o Titicaca e o Uyuni. Após uma hora de viagem avisto a face sul do imponente Huayna Potosí. Percorridos alguns quilômetros, realça no horizonte, uma linha contínua e esbranquiçada: é a continuidade da Cordilheira Real onde sobressaem os nevados Hancuma, Illampo, Cheroco, Chachacomani, Vilalojeta, Condoriri e Pequeño Alpamayo. Desde que cheguei à Bolívia, não vi flores tampouco árvores na áspera paisagem, salvo um pequeno bosque de eucaliptos quando estava saindo de La Paz. E aqui no altiplano, o mesmo cenário, coberto apenas por uma rala vegetação rasteira, constituída por gramíneas do gênero stipa ichu. De coloração amarelo-pálida, suas longas e finíssimas folhas são duras e espetam como agulhas os dedos descuidados. Chamada vulgarmente de paja brava, é usada como forragem para os rebanhos de llamas, vicunhas, alpacas e ovelhas, uma das fontes de subsistência dos índios aimarás. Chego em Tuni, um lugarejo de onde saem os trekkings até o Condoriri. O dia, lindo, céu azul, despejado de nuvens. É inacreditável essa imutabilidade do clima. Sentados numas pedras, Nemesio eu lanchamos. Mais adiante, um grupo de chilenos e dois suíços também se preparam para iniciar a caminhada até à laguna Chiat Khorta onde todos irão acampar. Iniciamos a pernada às 12:50, contornando uma das margens do lago Tuni em cujas águas verdes se debruça o Condoriri. O trajeto não apresenta maiores dificuldades. Aclives suaves, uma cascata congelada e llamas pastando campo afora. Casas de adobe ou de pedra servem de abrigo aos donos dos rebanhos. Às 15:15, quando já estou resmungando pros meus botões se falta muito, chegamos numa casa, rodeada por um muro de pedra. “Nuestro hogar de campamento”, indica Nemesio, em seu canhestro espanhol. Pergunta se quero dormir do lado de fora, na barraca, ou dentro da casa. Claro está que prefiro pagar mais 10 bolivianos e ficar no “conforto” da modesta residência. A casa de alvenaria possui um pequeno corredor e 3 peças. Nemesio escolhe a melhor delas pra nós. Comprido, o cômodo é ensolarado, voltada pra oeste. De móveis apenas uma mesa comprida e dois bancos. Num dos cantos, sacos de nylon contendo forragem. Está será minha cama. Fico sabendo que aqui é a laguna Chiat Khorta, lago Negro em aimará, situada a 4.671 m. A responsável pelo refúgio chama-se Cristina. Mora aqui durante os meses de junho, julho e agosto de modo a recepcionar os turistas que chegam aos magotes no país. É a ela que pagamos uma taxa que permite o acesso ao Condoriri. No resto do ano, vive em Palcoco, pueblo distante 6 horas a pé. Simpática, a gorda índia aceita, gulosa, uma provisão, que eu trouxe de La Paz, de nozes, castantas do Pará, abas e bananas al horno. Devagarinho e sempre ela vai bicando, sem pressa, do saco os frutos secos. Saio pra fora e curto o sol se pondo entre os cerros. Iluminados pelo sol poente, admiro a imagem dos nevados e cerros refletidos nas águas azuis do lago. Um silêncio divino. Imprensado entre os nigérrimos cerros Baiune e o Aguja Negra, ambos despidos de qualquer cobertura nevada, eis o Pequeño Alpamayo, um nevado muito cobiçado pelos escaladores já que exige conhecimentos mais técnicos de escalada em gelo. À sua frente, outro cerro de coloração, igualmente escura, ostenta, contudo, no flanco esquerdo, um glaciar colgante. À esquerda, o Condoriri abre suas asas sobre o lago enquanto a orgulhosa Cabeza de Condor espicha o pescoço em direção ao imaculado azul do céu. O frio porém se faz sentir e tomo o rumo da casa, encontrando três homens e uma mulher sentados sobre o muro de pedra. Vieram pra comer trutas que Cristina pesca no lago. Toda animada, não me furto em bater um papo com eles, indagando de onde são. Dois dos homens são espanhóis e acabaram de escalar o Pequeño Alpamayo. Dá pra sentir em suas faces a satisfação do dever cumprido. Um deles estudante de medicina, viajou de ônibus, direto de Caxias do Sul, onde terminou um intercâmbio na universidade lá existente. Pensam que isso nos aproximou? Só não! O guri não mostra muito interesse em trocar umas idéias. E o casal, basco, é mais fechado ainda. Mesmo assim, não me dou por vencida e insisto um pouco mais no conversê. Desisto, passado um tempo. Não adianta, não rola. E não é pelo entrave do idioma, afinal me defendo bem no espanhol. Eles é que não se mostram lá muito receptivos. Talvez porque o casal que irá amanhã tentar subir o Pequeño Alpamayo deve estar querendo dicas dos espanhóis a respeito da escalada. Assim, não me resta outra alternativa, senão tirar meu time de campo. Encontro Nemesio cozinhando num canto de nosso quarto. Ele e Cristina entretêm, em aimará, uma animada conversa, pontuada por freqüentes risadas. Enquanto jantamos (sopa, galinha e arroz com verduras), Nemesio explica a relutância da comunidade do Condoriri em investir o dinheiro arrecadado com as taxas cobradas dos turistas em melhorias nos refúgios. Pelo que entendi, e sei lá se entendi direito, já que o espanhol de meu guia é qualquer coisa de tosco (e se deve ao fato de ter passado a maior parte da vida falando aimará), o governo boliviano concede o direito de exploração turística dos cerros e nevados do país às comunidades indígenas que se consideram dona da Cordilheira Real. Daí o motivo de o pagamento ser efetuado diretamente a elas quando queremos passear, caminhar ou escalar na região. Em contrapartida, cabe-lhes investir um tanto da grana arrecadada em benefícios. E é exatamente isso que chateia o pobre Nemesio: o fato de seus conterrâneos (ele também nascido, aqui, no Condoriri) não manifestarem desejo de investir um mínimo, que seja, em melhoramentos de modo a tornar mais confortáveis os lugarejos freqüentados pelos turistas. Por exemplo, a casa onde me hospedo é sem canalização e banheiro. O toalete é aquela típica “casinha” com um buracão e duas tábuas pra apoiar os pés. Um horror a fedantina, eu me nego a entrar. Prefiro mostrar, como dizem os espanhóis, “el culo al aire”. E lejos, bien lejos de la casona, por óbvio. À noite, com o frio que faz, dá preguiça ir até lá. O jeito é se acocorar e mijar no terreiro ao lado da casa. Sociamente incorrreto? Pode ser, se bem que tô numa que tá mais pra anti-higiênico. E pra eu definitivamente me enojar de vez dos espanhóis e bascos, escuto, aqui, deitada em minha “cama”, eles regateando com Cristina a respeito do preço da truta que jantaram. Reclamam, os malandros, que 20 bolivianos (6 reais) é muito!! Que se ela não baixar pra 10 soles (3 reais!!), não voltarão no dia seguinte. O topete dessa gentinha abusada me deixa indignada!! Jamais comeriam uma truta de carne vermelha, recém pescada, acompanhada de batatas, por esse preço na terra deles. Gente mesquiiinha.....hummmpf.
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Um comentário:

Paulo Roberto - Parofes disse...

Nossa que saudade desse lugar...