sexta-feira, 23 de julho de 2010

Trek ao Refúgio Huayana Potosí

Deixamos o acampamento Mama Lloco às 8 e 10. Sinal dos tempos modernos, não serão as mulas que carregarão nossas bagagens; tudo será levado na traseira duma.........moto 250 cc!! Um milagre que o veículo não vergue ao peso de tanta tralha! E lá vai a possante levantando uma nuvem de pó pela estrada que conduz ao refúgio Huayna Potosí, destino final de meu trekking. Distrai-me, durante a subida bem puxada, a agitada movimentação de pequenos pássaros pretos ora traçando ângulos imprevisíveis no ar, ora pousando sobre as gramíneas, numa algaravia de pios de dar inveja a um soprano ligeiro. Que gasguitas são as aves, ala putcha! Os nevados Mama Lloco e Huayna Potosí desaparecem atrás de outras montanhas que lhes ocultam a visão. A íngreme ladeira termina num paso cuja altitude de 5.150 m permite descortinar um cenário panorâmico dos nevados e cerros que compõem a cordilheira Real. Na árida paisagem cuja coloração predominante é o grafite, despontam nesgas de branco nos topos e encostas dos nevados. À oeste, na cordilheira ocidental, destaca-se dentre seus cerros, o perfil esfumaçado do nevado Sajama. Venta bastante e o frio é intenso nesse colo de montanha. Lá embaixo, no vale, o traçado bem delineado da estrada de chão batido estende-se numa reta a perder de vista. O solo arenoso escuro exibe aqui e ali manchas brancas de neve. Iniciamos a descida, contornando a encosta duma montanha pra então alcançar o vale de Zongo, caminhando, agora, pela estrada que eu avistara do paso uma hora atrás. Passamos bem ao largo da laguna Milluni, onde ao longe mal se divisa a pequena vila de mineiros que sobrevive do que restou de estanho, após a desenfreada exploração das jazidas levada a cabo durante décadas por apenas três famílias. E, numa dobra do caminho, eis, reaparecendo, o portentoso Huayna Potosí. Dessa feita, mostra nova faceta: a sudeste. Curto demais observar os vários tipos de nuvens que se formam no céu, seja o dramático tchan dos escuros cúmulos nimbos, seja o contorno vaporoso dos claros cirrus; há que se reconhecer, contudo, a singela elegância dum firmamento imaculado. E hoje, como nos dias anteriores, o céu apresenta-se de brigadeiro. Costeando a laguna Zongo - lago artificial onde foi construída uma hidrelétrica que fornece eletricidade para várias cidades da região dentre as quais La Paz - avisto, encravado na margem oeste, o refúgio Huayna Potosí, onde chegamos às 12 e 30. Aninhadas no sofá, duas moças, exaustas, descansam, tapadas até a cabeça por grossas mantas de lã. Acabaram de fazer cume no Huayna Potosí. Uma delas espicha o pescoço pra fora da coberta. Seus olhos brilham, faceiros, da proeza realizada. Invejo-a. Queria eu estar em seu lugar. Que chegue duma vez a terça-feira!! Já tô começando a ficar ansiosa. Antes de partir pra La Paz, Nemesio mostra minhas acomodações no segundo andar do refúgio onde há dois quartos, mobiliado cada um com dois beliches. Sem mais ninguém ocupando o piso superior, sou dona absoluta do campinho, hehe. No piso inferior, mais três dormitórios, dois banheiros, e um refeitório dividido da cozinha por um balcão onde jaz o dia inteiro, à disposição dos clientes, uma grande térmica com água quente. Ao lado, uma estante com chás de vários sabores (manzanilla, anis, coca, mate e maçã com canela), café, leite em pó, chocolate, bolachas. Numa mesinha, uma cesta contendo bananas, mamões e mandarinas, num self service a la vonté. Dois sofás, dispostos em "L", ao lado da lareira, além de duas compridas mesas e seus bancos. Pregadas nas paredes, fotografias e bandeiras de diversos países com assinaturas de quem fez cume no Huayna Potosí. Um ambiente aconchegante cujo pano de fundo é a visão onipresente do nevado, exibindo, agora, sua face leste. A responsável pelo refúgio é uma índia gordona (não vi nenhuma magra até agora), vestindo roupas típicas. Um avental quadriculado de branco e azul protege a saia de veludo bordô que lhe esconde as canelas. Fala mansa e gestos comedidos. Funde-se ao seu sorriso um leve traço de melancolia. A mulher, por deus, é a versão indígena de Monalisa!! Embora nascida Francisca, os guias e carregadores chamam-na de Pancha. Orgulha-se de sua solteirice e mora com os pais em La Paz. Trabalha uma semana quando então é substituída por outra colega que permanece igual tempo. Cuida de tudo sozinha: cozinha, limpa e ainda faz guiadas com os turistas se necessário. É pau pra toda obra. E quando soube que eu pagava o equivalente a 250 dólares pra minha faxineira limpar minha casa duas vezes por semana, pediu, naquele seu tom de voz baixo e suave, “llevame con usted, Beatriz”. Recusou-se, todavia, constrangida, a revelar seu salário. Ah, seu eu pudesse, com certeza, punha ela na bagagem e trazia comigo! Somente após a janta, a sala, até então super fria (não há calefação no refúgio), torna-se parcialmente aquecida quando a lareira é acesa por um guia. É a senha pra que o grupo de sete jovens turistas ((três franceses, duas dinamarquesas, uma norueguesa e uma inglesa) reúna-se em frente ao fogo onde grossas achas de lenha ardem, soltando vez por outra sonoros estalidos. Exceto a inglesa, ainda estudante de segundo grau, os demais têm curso superior. Quatro são engenheiros dentre eles a simpática norueguesa cujo nome é Audi. “Like the car”, diz ela pra mim quando pergunto seu nome. Altamente especializada, sua área são os cálculos de deslizamentos de terra e neve. E a francesa não escapa da gozação das outras quatro mulheres quando se achando, declara, pomposamente, “I am a diplomat”.... hahahaha, e a snob crente que iria abafar, hahaha!! Deito tarde: 22 horas! Espero assim que meu sono esta noite seja dum tiro só. Ao olhar através do janelão da sala, fico chocada com o que vejo: o Huayna Potosí, iluminado pela lua totalmente cheia, parece que tem um mega refletor focado nele! É de doer de tão lindo! Adoraria pôr meu nariz na rua pero covardezinha que sou pro frio, permaneço entre as quatro paredes, respirando fundo diversas vezes, emocionadíssima com a cena. Se tudo der certo, na madrugada de terça, quando eu estiver indo ao encontro do cume, terei tempo de sobra, pra curtir essa paisagem super enluarada. Quem viver, verá!!

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