domingo, 25 de julho de 2010

Descansando mas nem tanto!

Sábado, acordo cedo, dando-me ao luxo de levantar às 8 horas, já que nenhuma atividade está reservada para mim hoje. Deito no sofá da sala e leio um pouco, levantando vez por outra pra analisar o Huayna Potosí. Afinal, daqui a três dias, serei eu a tentar seu cume. O radinho de pilhas despeja plangentes músicas na cozinha onde Francisca prepara o almoço. Congelada pelo frio abaixo de zero que caiu durante a madrugada, e considerando, ainda que o refúgio situa-se a 4.700 m, só por volta do meio-dia, volta a fluir a água pelos canos, permitindo que eu faça minha higiene pessoal. Durante o almoço, chegam do Huayna Potosí três jovens: um casal francês e um inglês. Este desaba no sofá e deita uma falação indignada, queixando-se das agruras da ascensão. É um tal de "fucking mountain, fucking climb, fucking that, fucking this" que não acaba mais. Se não fosse pelo sotaque britânico, eu juraria ser ele um personagem de Pulp Fiction. Tá com toda pinta de traumatizado, afinal é seu primeiro 6 mil. Já a francesa, quando entrou na sala, com ar desolado, sinalizou, discretamente, o polegar pra baixo. Atingiu apenas 5.800 m, clássica marca de desistência dos que não logram o cume. Alguns dos membros do grupo dos 7 buscam detalhes da ascensão com os três que acabaram de chegar. Paira no ar uma mistura de tensão e excitação: todos anseiam em partir. Terminado o almoço, lá vão eles rumo ao acampamento argentino onde pernoitarão, subindo, na madrugada de domingo, direto ao almejado cume norte do Huayna Potosí. E o movimento no refúgio é intenso: grupos partindo, outros chegando, como o que traz duas argentinas, uma mexicana e dois ingleses. As argentinas, Majo e Helen, são montanhistas experientes com várias incursões no Cordón Del Plata. Ano passado, fizeram cumbre no Huayna Potosí. Este ano, fazem um esquenta no nevado Charkini (5.300 m), antes de se lançar no Pequeño Alpamayo. No meio da tarde, aceito o convite de Francisca e acompanho-a até o glaciar Viejo. A missão de Francisca é buscar a mexicana e os dois ingleses que lá treinam caminhada sobre o gelo. Isso porque Eduardo, um dos guias do refúgio, que seguira com os três, tem de se reunir, no acampamento alto, com os sete que já lá se encontram, pra, então na madrugada, guiar o grupo rumo ao cume. Há que se improvisar na movimentada temporada de inverno, quando faltam guias no refúgio, motivo por que Pancha se transforma de cocinera em condutora de turistas. No retorno do glaciar ao refúgio, sou brindada com uma bela visão dos nevados Chikimani, Telata e Charkini que se localizam à oeste do Huayna Potosi. Banhados pelos últimos raios de sol, seus glaciares brilham no final da tarde, um contraponto ideal ao cinemascópico céu onde vejo, pela primeira vez, vaporosas e delgadas nuvens flutuando ao léu. Um bem-vindo breique, aliás, em azul tão imaculado. Domingão é um dia que convida à preguiça. Não me faço de rogada e trato de aproveitar a manhã de ócio. Jogo Galaxy Ball, game de celular, uma paixão recém descoberta que cultivo pra matar tempo. Após diversas tentativas frustradas de superar meu recorde de 680 pontos, desisto e retomo a leitura de John Dunning, um de meus escritores policiais favoritos. Vanessa, la mexicanita, entra na sala vinda do dormitório. Largo o livro e pergunto como estão os ingleses já que os três dormem no mesmo quarto, e ela tá de chupiscos e lambiscos com um deles. Os dois passaram a noite com diarréia e vômitos. E tão desprevenidos que nem remédio trouxeram! Não entendo essa gente. Como eu não posso ver ninguém doente, trato de fornecer-lhes uns comprimidos de Bactrim. Conversamos sobre um intercâmbio que envia estrangeiros, em especial os de língua inglesa, à América do Sul. O objetivo, pífio, no meu entender, consiste no ensino do inglês, pros terceiros mundistas num período de três meses!! Em troca, os primeiros mundistas têm a chance de aprender espanhol. Dá pra acreditar nisso? Aprender um idioma em escassos 90 dias? Ai..ai..ai!! Quem lucra mesmo é a jovem turistada européia que, com o término do “trabalho”, aproveita pra fazer tour pela América do Sul. Lá pelas 13 horas chega o grupo dos 7. Apesar do orgulho pela façanha - todos fizeram cumbre -, estão evidentemente cansadésimos. Depois do almoço, tem início, no refúgio, a movimentação usual: os que retornam a La Paz - caso do grupo dos 7 -, aqueles que, hoje, sobem pro acampamento alto e lá pernoitarão e dos que irão treinar no glaciar Viejo - meu caso -, usando, pela primeira vez, botas plásticas, grampões e piolet. Enquanto pra lá me dirijo, vejo Tom com um ar abatido subindo a íngreme empenada inicial que conduz ao acampamento alto. Sei não se o inglês vai conseguir fazer cume amanhã. Seu aspecto é bem ruinzinho. O soroche pegou ele de jeito. Meu guia chama-se Roque. Tem 33 anos e, quando não está guiando, cuida de seu rebanho de llamas na região do Condoriri. Acabou de descer da cumbre do Huayna Potosí com o grupo dos 7. E, pasmem, subirá novamente comigo! Haja fôlego e pernas! A caminhada de aproximação até o glaciar Viejo é fácil, coisa de um hora, se tanto. Atravessa-se uma passarela de cimento que une a margem oeste à margem leste do lago de Zongo, pra então se entrar numa trilha bem demarcada cujo trecho inicial se dá ao longo de poderosos dutos que conduzem a água da represa. É perfeitamente audível o forte trepidar do líquido escorrendo através do grosso diâmetro dos encanamentos. Vejo uma lebre e uma viscacha correndo apressadas, sabe-se lá do que ou de quem. Quando alcançamos o glaciar, Roque escolhe um local mais distante de onde já se encontram treinando quatro jovens. Praticam top rope num paredão de gelo cuja coloração exibe aquele sensacional matiz azul-anil. Sento e calço, primeiro, umas botas macias de couro. Após, enfio outras, feitas dum plástico bem duro, que cobrem tornozelos e canelas, deixando os pés sem flexibilidade alguma: parecem engessados. Por último, amarram-se os cordões dos grampões às presilhas de metal das botas plásticas. Muito emocionante caminhar no gelo, subir e descer paredes verticais, usando pra se equilibrar apenas a ponta afiada dos grampões, com o auxílio do piolet, que serve tanto como bastão pras caminhadas na neve como ancoragem numa parede vertical. Adorei, claro, embora tenha sentido um tiquinho de medo porque - mulher de pouca fé - entrava numa com os grampões, viajando numa trip do tipo “será que eles agüentam esse tranco mesmo?” Depois duma hora e trinta minutos de sobe e desce minhas pernas acusaram o esforço físico. Não é moleza usar essa parafernália nos pés! Devo confessar que estou bem ansiosa com esta minha aventura. É a primeira vez que subirei uma montanha nevada. E com 6.088 m! Comecei a fazer montanhismo meio acidentalmente. Apesar de adorar a leitura de livros sobre o assunto e admirar de longe os heróis desse esporte, nem acalentava planos sobre tal atividade. E tudo começou quando em 2008, aceitei o convite duma amiga e subi junto com ela um vulcão no Chile, o Laskar, com 5.592m. E desde lá tenho me aventurado timidamente por alguns picos até que resolvi encarar o Huayna Potosí, após consultar a opinião dos experts Pedro Hauck e Parofes. Bastou que me garantissem ser uma “simples” caminhada sobre neve e gelo, sem dificuldade técnica alguma, pra que eu incluisse o nevado em meu roteiro. Rola, algumas vezes, um sentimento de desvantagem devido à idade, que procuro compensar, forçando certos limites físicos e psicológicos (e até já me fudi por causa disso, motivo pelo qual sou obrigada às vezes a puxar o freio de mão). Sem falar de minha cabeça que se sente com 10 anos em total descompasso com meu corpo que reclama dos 57. E com esse meu jeito sôfrego de viver a vida, venho buscando recuperar o tal “tempo perdido”. Vitória, na minha visão - reconheço - bem competitiva (aliás, deixei de lutar contra essa pulsão não faz muito; se assim sou, bem melhor deixar rolar, causa menos sofrimento), significa alcançar este cume e outros que por certo virão. Provar que posso, inobstante os meus quase sessentinha! Embora da boca pra fora use o manjado argumento de que o “importante é a experiência, a tentativa”, e o fulminante bordão “tudo vale a pena se a alma não é pequena”, não admito, internamente, menos que o êxito na conquista do cume, de la cumbre. Getting to the summit domina minha cabeça desde que pus os pés na Bolívia e vi pela primeira vez o Huayna Potosí. Servem as belas citações apenas de simplórios consolos, disfarces de futuras frustrações, em caso de malogro. No retorno ao refúgio, conheço o pessoal que chegou enquanto eu estava no glaciar: um casal de argentinos, Cesar e Micaela, dois casais de australianos, não lá muito simpáticos, motivo por que nem me interessei em saber seus nomes, além dum casal de canadenses, Eric e Corinne, ela falando um vacilante espanhol embora consiga comunicar-se razoavelmente. Este será o grupo com quem irei ao Huayna Potosí. A janta transcorre num ambiente agradável conquanto vez por outra, um anjinho - será? - sussurre em meu ouvido: terça-feiraaa, chega duma veeezzz!!
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