domingo, 1 de março de 2009

Sendero Camping Los Perros ao Camping Paso

Acordo às 6:30. Embora tenha parado de chover, faz o maior frio. Remancho pra levantar, aquecidinha que estou dentro do saco de dormir. Finalmente, crio coragem e saio da barraca. Lavar o rosto e os dentes é um sacrifício: a água não é fria e, sim, gélida pra caramba! Quando chego no quincho, encontro Bia, semblante sisudo, preparando o desejejum. Cumprimento-a com um bom dia, ela, de cara feia, mal responde. Sem preliminares, asperamente, me admoesta pelo meu comportamento da noite anterior. Zangada, afirma que perturbei as pessoas, além de tê-la feito perder o sono depois que a acordei. Tento explicar que se elevei o tom de voz foi porque ninguém respondia do interior do que supunha ser a sua barraca. Não adianta, ela não escuta (pertence àquele tipo de pessoas que só filtra o que lhe interessa) e segue me repreendendo com azedume. Eu, que já vinha me sentindo meio aborrecida com seus modos autoritários, perco, defintivamente, a paciência. A um, porque estou sendo objeto de injustiça (numa discussão não há quem tenha 100% de razão, porém Bia age como se só ela estivesse totalmente correta). A dois, porque o imbroglio poderia ter sido resolvido duma forma adulta, com uma boa conversa, e não com ela me tratando como se eu fosse uma criança arteira e irresponsável. Brabíssima, agora, lanço-lhe em cara ser a pior guia com quem até então andara. E perco a fome. Não consigo comer quando fico desse jeito. Pensam que ela se dá por vencida? Qual o quê! Sempre querendo ter a última palavra (esses leoninos, aiaiaiai....jesus cristinho, dai-me paciência, abençoado!), lasca: “Cambia tu humor e come porque hoy tenemos un recorrido muy duro.” Tremo de raiva, enquanto engulo a comida. Pois não é que a indomável mulherzinha continua a me tratar como se eu fosse uma criança, e das emburradas?! Engulo aquele sapo porque chego à conclusão de que nada adiantará prolongar a discussão. Impossível argumentar com tal criatura, sempre dona de certezas tão absolutas. Só falta um coque de governanta alemã e uma verruga no nariz, pois suas atitudes transformaram-na numa bruxa aos meus olhos. Pela primeira vez em minhas andanças sinto-me, deveras, desamparada. Como gostaria de poder contar com alguém pra poder desabafar neste momento. Mas fazer o quê, né? São os aspectos desagradáveis de se viajar solita. O jeito é seguir a viagem, “abstraindo o barraco". Ademais, hoje é o dia D, o da travessia do Paso John Garner, e necessito calma e força mental pra enfrentá-lo. Afinal, são 12 km de pernada com uma ascensão exigente. Saímos às 10 do camping Los Perros. Bia adverte-me que só devo parar pra tirar fotos em certos sítios por ela estabelecidos. Explica, friamente, que há possibilidade de nevar durante o dia (de fato, pros lados do Paso o tempo mostra-se totalmente nublado), motivo pelo qual devemos atingir o Paso o mais rápido possível antes que tal ocorra. Sei, de leituras de livros de aventuras - em especial a de escaladores em alta montanha - que a falta de visibilidade provocada por nevascas desorientam, totalmente, fazendo com que as pessoas se percam. E não mais trocamos palavra alguma durante o resto do trekking. O início da trilha é um aclive e, porque se atravessa um bosque magalhânico, o terreno encontra-se pantanoso. A ascensão continua sobre um terreno coberto de pedras miúdas, despido de vegetação. Pedras, pedras e mais pedras durante toda a subida até o Paso. Tanto à esquerda quanto à direita, postam-se, tais quais sentinelas avançadas, cordões de montanhas, destacando-se, entre elas, a do cerro Amistad e seu glaciar. Conforme subo, o vale, onde se localiza o camping Los Perros, vai ficando mais e mais longínquo. Como nevou à noite e durante a manhã, o solo em alguns trechos apresenta-se coalhado de espessos flocos de neve. Riachos escorrem rumorosos sobre o terreno e surge uma que outra cascata, resultado do degelo dos glaciares. Começa a cair uma aquanieve. Faz um um frio terrível, até que finalmente, alcançamos o topo da montanha. Foram 2 horas e 45 minutos de árdua subida desde o camping Los Perros até o Paso John Garner. O cenário é espetacular, deslumbrante! A visão do glaciar Grey - uma larga e extensa faixa de gelo entremeada por profundas gretas azuladas – e de seus glaciares tributários, lá embaixo, é impactante. É tudo muito branco e azul! Linda demais esta paisagem! O tempo, até então horrível, dá mostras de melhora. Rasgos de azul no céu comprovam isso. Agora é só descida. As pedras da morena cedem, então, lugar a outro bosque onde diversas árvores mostram seus ramos verdes maquiados por brancos flocos de neve. No ponto onde me encontro, já enxergo o lago Grey e a ilha Nunatak. Quando estive aqui em 2007, percorrendo o circuito W, a visão do glaciar Grey foi parcial, apenas o vislumbrei, de frente, em sua porção leste; agora vejo o glaciar inteiro, desfrutando, assim, uma visão mais abrangente desse fenômeno geológico. Consigo desse ângulo ver a grande massa de gelo descendo desde o campo de gelo patagônico sul, de onde se origina, até o lago onde desemboca. A descida não é difícil. Bia, como sempre, exagerou quando enfatizou ser “una pendiente muy dura”. Requer, claro, um certo cuidado, pois o terreno é íngreme e em alguns pontos resvaladiço devido à lama. Nada, porém, que se compare às pirambeiras dos cânions de Praia Grande. Tiro de letra. Chegamos às 16 no camping Paso. Há o indefectível alojamento para os guarda-parques e, também, um quincho. Mais simples do que o de Los Perros, não é fechado. São apenas três paredes de madeira, encimadas por um telhado. Em seu interior, uma comprida mesa, dois bancos e uma estufa pra lá de rudimentar. Como todos os acampamentos, este se situa também num bosque, e, portanto, é muito úmido. Já dentro da barraca, escuto Bia me chamar. Simpática, oferece-me uma xícara de chá. O profissionalismo venceu o mal-humor, ulálálá. O maldito nariz entope, como sempre, quando paro de caminhar. Um saco! Enquanto aguardo a janta, converso com vários jovens, entre eles três israelitas, curiosíssimos sobre meus trekkings. Satisfaço sua curiosidade e conto a eles de minhas andanças. Após a janta, o sacerdote que lidera o grupo de chilenos reza uma missa. Improvisam para tanto um altar na mesa do quincho. Fico tocada com o fervor dos jovens. E tal celebração acontece sob uma noite estreladíssima, a primeira em todo o trekking!
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