quarta-feira, 4 de março de 2009

À toa em Puerto Natales

Acordo sem pressa. Olho pela janela e constato que o céu está nublado, sinal de frio na certa. Assim, permaneço na cama, curtindo mais um pouco os programas da tevê chilena. Decido, apenas, vadiar pela cidade. Faço meus alongamentos e lavo com esmero meus cabelos. Degusto meu desjejum enquanto observo o movimento de carros e transeuntes na calle Bulnes, a principal rua de Puerto Natales. Entro na internete, checo meus emails, converso um pouco com a simpática e gorda recepcionista, a mesma que me atendera em 2007, e vou à procura dum passeio para o dia seguinte. Em 2007, eu tentara navegar até os glaciares Serrano e Balmaceda, contudo o vento que açoitava o Seño Ultima Esperança abortara a navegação. Contrato, assim, com uma das muitas agência, existentes na cidade, o mesmo passeio. Já quase duas da tarde, encontro Rodrigo em sua loja. Ele ainda remói o que lhe contei sobre a guia. Eu, que já estou em outra, procuro acalmá-lo e o distraio, perguntando-lhe como transcorreram as coisas durante minha ausência. Responde que foi a Calafate a negócios e retornou no dia anterior, um pouco antes de minha chegada. Aponta Joaquim e, orgulhoso (tem mais sete filhos, com três mulheres distintas), exclama: “lo nino está más gordito, no te parece?” De fato, o garotinho apresenta-se mais viçoso do que há uma semana atrás. Rodrigo mostra-me uma enorme pena de condor. Conta-me que uma mulher vende-lhe, vez por outra, tais peças as quais pretende expor em seu museu. Como não almoçamos, ainda, lá vamos nós pro El Bote, sem Joaquim dessa feita, que já comera, e se queda brincando com Vitória, filha do dono duma loja pegada a de Rodrigo. Ele faz questão de ir de carro embora o restaurante se localize apenas a três quadras de distância. Insisto pra irmos a pé mas não adianta, já está embarcando em sua maravilhosa Chevrolet 77. O menu do restaurante é supimpa: sopa de canelones, prieta (morcilha condimentada) com batatas e de sobremesa, gelatina com frutas. Una copa de viño, por supuesto..... pra rebater o colesterol do embutido. Curto demais a companhia de Rodrigo porque não é um tipo comum. E os tipos invulgares estão sempre a nos surpreender. Resolve pegar no pé da garçonete porque a moça, supondo que eu já tomara meu vinho (ainda havia um restinho na taça), tentara recolhê-lo, no que fora impedida por mim. Ele reage, reclamando da falta de modos dos seus conterrâneos. Da fala de sensibilidade com os turistas. Como é um tantinho paranóico, crê que, na atitude da moça, há uma deliberação maliciosa em apressar nossa saída do restaurante. E por aí afora segue o seu inconformado blábláblá. Escuto apenas com meio ouvido, meu espírito crítico não está lá dos mais aguçados. Prefiro curtir o ambiente, os outros comensais e o movimento da calle em frente ao restaurante. Além do mais, encaro o episódio de forma diferente da de Rodrigo, porque não percebi maldade alguma por parte da garçonete. Terminada a refeição, nos separamos, não sem antes combinar que, à noite, nos encontraremos pra bebericar um vinho. Decido passear ao léu, fugindo das ruas principais. E assim descubro, nos arrabaldes de Puerto Natales, uma deliciosa igrejinha e seu alto campanário onde jaz um grande sino de bronze, infelizmente, silencioso a essa hora do dia. Atravesso um terreno baldio cheio de mato até o Seño Ultima Esperanza onde barcos coloridos se encontram atracados ao largo. Começa a chover e a temperatura torna-se mais fria ainda. Trato de retornar e enveredo pela calle Bulnes, minha velha conhecida, onde entro no que parece ser uma acolhedora cafeteria. Tão quentinho lá dentro. Tiro minha jaqueta molhada e a ponho pra secar perto da salamandra de ferro. E ali permaneço até a chuva parar enquanto sorvo um café coberto com generosa porção de merengue. Pensando no vinho que Rodrigo irá servir à noite, trato de comprar algo de comer pra complementar a bebida. Assim, vou até o maior supermercado da cidade furungar o que há de bom em matéria de quitutes. A vitrine da padaria está cheia de doces variados, chamados pastéis (são as nossas fatias de torta). Escolho a de lúcuma, yougurt e pie de lemón. Infelizmente, empanadas não há. E lá vou com uma bandeja de postres, curtir uma happy hour com meu amigo Rodrigo e seu filhinho Joaquim. Coisa boa a vida, né?
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